João Marcos não queria magoar ninguém. Não queria irritar, incomodar, chatear ninguém. Ele não era mau. Não era uma pessoa ruim, mas sabia que ele vinha em primeiro lugar sempre. Até porque, alguém tinha que pensar nele,né?
Na verdade, ele já tinha passado da fase do “Estou tentando fazer com que as relações entre os professores melhorem”. Ele sabia muito bem do mal que tinha causado. Mas sinceramente, essas pessoas iam brigar de qualquer jeito. Independente de qualquer coisa. Sua presença ali talvez tenha acelerado o processo? Talvez. Mas a questão era que o desastre estava esperando para acontecer. Tinha muito bad blood envolvido, muitas tretas escondidas, as quais uma hora ou outra viriam à tona.
- Jo, você falou com a Fernanda? - Disse Júlia com notas de preocupação na sua voz e com cara de choro, enquanto entrava na sala dos professores do Colégio 25 de Abril, às 10h, no primeiro intervalo de uma sexta feira. Fria.
- Ma, a Júlia tá aí? - Disse Fernanda sussurrando, com a porta semi aberta, sem que pudesse ver ou ser vista por qualquer pessoa na sala, apenas por Marcos, Às 14h, no intervalo da tarde da sexta feira. Um pouco mais quente.
-Não, não. Mas Assim, ela não quer conversar com você, você sabe, né? - Disse João Marcos.
-Ok. Então, tipo, eu to bem triste com ela. - Disse Júlia - Ela nem olha na minha cara. Eu não falei nada dela. Juro que não! Poxa, precisamos conversar, sabe? - Disse ela quase que chorando.
-Mano, eu quero falar umas verdades para aquela traíra. Dizer sobre mim e o Paulo pra Marta? Tipo, ela ferrou com ele, comigo… E só pode ter sido ela,né?. - Disse.
-Você quer saber o que eu acho? - Perguntou João Marcos.
-Claro, Jo - respondeu Júlia.
-Fala, Ma - Respondeu Fernanda.
-Conversar agora não vai adiantar nada. Ela é desse jeito mesmo. Me surpreende muito que você nunca tenha visto. - Disse João Marcos.
-Pois é - Disse Júlia olhando para o chão - Mas de onde ela tirou que fui eu que contei? Tô achando estranho. Ela pensar isso de mim, sabe?
-Mano, só pode ter sido ela. Só contei pra ela. Só ela sabia. Tipo, só se alguém tiver visto… - Disse Fernanda tentando puxar da memória se algo de estranho tinha acontecido nas últimas vezes que beijou Paulo na escola.
-Não! Eu acho que era ciúmes. Vai ver ela quer o Paulo pra ela e achou que ia afastar ele de você assim.
-Inventando que fui eu que falei? - Perguntou Júlia
-Fazendo ele perder o emprego? - Perguntou Fernanda.
-Sim - Respondeu João Marcos.
-Mas por que ela acha que eu quero o Paulo? - Disse ela pensativa - Será que o Paulo contou pra ela de nós no ano retrasado? Na confraternização de fim de ano? - Perguntou Júlia um tanto quanto culpada.
-Faz sentido. Lembra que você me contou que ela já tinha tido um rolo com o Paulo um tempo atrás?
-Pode ser, pode ser. Bom, eu aconselho que vocês não se falem mesmo. Só tem raiva aí e tal. Inveja, medo. O que de bom pode sair? Vocês vão acabar se matando. Aí as duas perdem o emprego.
-Pra mim não faz sentido não conversar, sabe? - Disse Júlia muito confusa. - Você tem razão, Jo. Puts, acho que você é meu único amigo aqui. Eu, o Paulo e a Fernanda eramos tão próximos, sabe? Tipo, acho que você nem sabe porque foi antes de você chegar. Mas a gente se dava tão bem. Eu gostava que os dois estavam juntos.- Disse Júlia esboçando um sorriso pela primeira vez, enquanto pegava na mão de João. Para depois soltar e fechar a cara de novo- De verdade. Aquela vez que a gente se beijou faz tanto tempo. E a gente tinha bebido pra cacete.
-Exato, Ma. Bom, valeu, viu? Se não fosse você me falando eu acho que ia achar que alguém tinha visto a gente junto. Vê se pode? Tá na cara que foi ela. Acho que você é meu único amigo aqui agora. - Disse Fernanda sorrindo. Enquanto segurava a mão de João.
-Magina, miga. Tudo certinho. Sei lá. A gente tem que se ajudar aqui. Melhor coisa que vocês fazem é cortar a relação. Ou esperar umas semanas pra falar de novo. Se bem que, pra que você quer alguém tão ciumenta, injusta com você? Que não torce por você. Eu acho que vou continuar falando com ela. Até pra saber o que ela fala de você por aí. Mas relaxa, viu? Você tá mais do que certa.
-É, você tem razão. Obrigado e boa aula. - Disse Júlia quando o sinal tocou.
-Sim, tá certinho. Valeu. Té mais. - Disse Fernanda depois que o sinal tocou.
-Tchau, linda.
“Elas iam brigar de qualquer jeito”, pensou João Marcos, “Eu tinha que contar pra Marta. Onde já se viu, namorar com colega de trabalho? Na escola ainda por cima. E se meus alunos vissem? E se a Júlia descobrisse que fui eu? Aliás, eu acho que ela mesma ia falar logo logo com a Marta. Ela é tão certinha. Eu tô é me protegendo, protegendo esses alunos e as duas também. Elas vão brigar e vão ser demitidas. Não é nada pessoal, mas tem coisas mais importantes que amizadezinhas, né?” Pensou enquanto ia até sua sala sabendo que tinha feito a coisa certa.