sexta-feira, 28 de abril de 2017

Bernadete

Escrito por Pedro Henrique Silva

1.Eu, Bernadete, de Israel e meretriz, venho dizer que morri faz um bom tempo..Falarei sobre um episódio específico da minha vida. O qual vós não conheceis e que por isso tampouco contam da maneira correta.Primeiro porque interpretais minhas atitudes de forma incorreta. Segundo que vocês não ouviram meu lado. 2. Agora contar-vos-ei a história de mais uma meretriz das escrituras.
           3. Me lembro de três outras prostitutas na bíblia: Raabe, que ajudou os judeus, Maria Madalena, aquela que Jesus disse para não julgares. E Raica. Minha excelente amiga desde muito cedo. 4. Éramos órfãs. Meu pai morreu, enquanto ela nunca teve um. Ficávamos na rua até que tivéssemos idade para começar na profissão. Então conseguimos repousar numa hospedaria. 5. Uma daquelas que aceitavam toda qualidade de pessoas. Dividimos o quarto. Um dia eu o usava com clientes e no outro ela o fazia. 6. Nos dias de folga viajámos até os mercados para comprar comida e roupas.
           7. Tínhamos apenas 17 anos quando o Capitão Gorti chegou a nossa vida. Ele era o guarda pessoal do Rei Salomão, casado com mais quatro mulheres, e tinha 12 filhos. Mas mesmo assim, ele foi nos procurar. 8. Primeiro fui eu, depois Raica. Lembro de ter chegado em casa a noite do dia em que eles tiveram o primeiro encontro. Ela estava com um olhar diferente.  9. Gostou demais do tal Gorti. E eu sabia exatamente o porquê. Ele sabia como tratar uma mulher.
          10. Dois dias depois ele apareceu na nossa porta momentos antes de minha saída. Nos surpreendemos pois os homens que haviam nos tratado de forma justa pela primeira vez eram o mesmo homem. 11. O Capitão Gorti tirou o capacete apenas dentro do quarto e nos fez uma proposta.
12.-Então, eu queria saber se eu poderia ter-vos.
13.- Todavia o senhor já não nos teve? – Perguntei
14.- Sim, mas vos queria ao mesmo tempo. Queria que nos deitássemos os três juntos – disse ele, arrancando-nos expressões de incredulidade. A de Raica era porque aquilo lhe soava uma abominação. Já minha expressão se referia ao fato de que eu estava perplexa por nunca ter pensado aquilo..
15. Demorei duas semanas para convencê-la. Ela finalmente concordou com a condição que não nos tocássemos durante o encontro. Eu concordei.
16. E assim o Capitão apareceu uma noite em nossa porta novamente. Aquele dia nenhuma de nós saiu. Apenas o esperamos até o fim da tarde. Conheci a nudez de Raica pela primeira vez. 17. O vi pela primeira vez se deitando com outra mulher. Na verdade, foi a primeira vez que vi um homem e uma mulher se deitando.
18. Também me envolvi na relação. Passamos até a manhã do dia seguinte. A maneira com a qual ele nos acariciava provavelmente só ele fazia em todo Israel. E eu e ela podemos gozar de todos os prazeres que poderíamos. 19. E ele também. Finalmente ele partiu pela manhã, nos deixando ali. Raica apaixonada por ele. Eu por Raica, e por ele. Não soube interpretar meus sentimentos.
2 Infelizmente o Capitão nunca mais voltou. Mas sua semente estava plantada em nosso ventre. E poucos meses depois descobrimos que estávamos grávidas. Mais alguns meses e nasceram dois lindos bebês. O meu, três dias depois do dela.
2. Foi quando nossa história começou a mudar. Eu tentei encontrar o capitão novamente. Mas não consegui. Tentei me relacionar novamente com Raica. Igualmente fracassada. Procurava me insinuar, seduzi-la. Mas não conseguia. 3. E aquilo que eu sentira nunca mais voltaria. Eu ainda sonhava com aquela noite. Quando João nasceu, eu não quis fazer mais nada a não ser cuidar dele. Era como se todo meu amor fosse canalizado a ele. Meu amor por Raica foi substituído por uma pequena raiva que aumentava a cada dia. 4. Para Raica parece que nada tinha tido importância. Além disso, ela não demonstrava tanto amor por seu filho. E também nem parecia que ela tinha saudades do capitão ou de mim. Ela dizia que tinha vários outros bons clientes. No meu caso eram sempre os mesmos. 5.Os mesmos me tratavam como um trapo. Além disso, ela não mais recebia clientes no nosso quarto, mas em outros lugares.
6. E é aqui que nossa história começa a mudar. 7. Comecei a dormir com meu filho na mesma cama.Não queria perdê-lo. Porém, aconteceu um dia que eu acabei rolando e deitando em cima dele na cama. Meu filho não pôde respirar e acabou morrendo. Quando eu acordei e me vi deitada sobre ele, não consegui evitar o desespero. 8. Meu filho morrera. Mas não o de Raica. Ele estava no berço. Dormindo serenamente. Foi então que troquei João por ele. Raica tinha ido atender um cliente rico, segundo ela. E eu estava ali, sozinha, chorando, desesperada. Troquei meu filho pelo dela.
9. No dia seguinte acordei com Raica gritando. Ela descobrira, e duvido que tenha demorado. 10. E foi aí que vi meu desespero de noite passada em seu rosto. E me arrependi. Amargamente. Quando dei conta já estavam na presença de Rei Salomão. Parece que uns vizinhos chamaram os guardas, os quais não puderam resolver nossa disputa.
11.Salomão ouviu com muita paciência. Eu tive que continuar com a mentira. Não poderia voltar atrás. Seria apedrejada. Minha chance era que o Rei não quisesse resolver e nos ignorasse.. Quando dei por mim ele estava pedindo uma espada ao seu guarda pessoal. 12. Percebi que foi a primeira vez que levantei meus olhos em todo o dia. Era o Capitão Gorti indo até o bebe com uma espada.
13. -Dividi em duas partes o menino vivo, e dai a metade a uma, e metade a outra.- havia dito o Rei.
14. Raica gritou. E novamente ali estava o mesmo desespero de mais cedo. Mas mais acentuado. A medida que a lâmina do Capitão chegava perto da criança eu pude ver a expressão de Gorti. A mesma de Raica. Eu ouvi-la dizer:
- Ah, meu senhor! dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis
15. Pensei em protestar. Algo me dizia que a melhor resposta seria uma que fizesse uma mãe se mostrar. Eu deveria reparar meu erro.
-  Não será meu, nem teu; dividi-o.
16. As últimas palavras quase não saíram. Eu não pude olhar a lâmina cair sobre o bebe. Eu esperei ouvir seu choro parando, e foi o que aconteceu.
17.- Dê o bebê à verdadeira mãe.- Bradou o Rei. O que eu vi em seguida foi Raica sorrindo como eu nunca tinha visto, e correndo ao encontro do bebê. E o Capitão lutando com todas suas forças para não abraça-la. Por fim, os guardas foram ao meu encontro para provavelmente me prenderem. 18. Contudo o Rei fez sinal para que parassem, me olhou bem nos olhos e disse:
19.- Deus sabe o que você fez. Deus reconhece seu amor. E hoje ele me diz: Vá, e não peques mais.
20. Só queria mesmo era revelar o quanto sou injustiçada por esses pregadores de hoje, de ontem, e de sempre. Esses que mais estão preocupados em me rotular do que em me entender. Sou apenas mais um caso bíblico para eles. Eles buscam entender o Rei e a mãe. “O Rei foi muito sábio”, uns dizem... “Uma mãe nunca ficaria desamparada” outros falam. 21. Mas a verdade mesmo só eu sei. Que a paz do senhor esteja convosco. Amém.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ontem Mesmo

Escrito por Ludmila Barros

Ontem mesmo me aconteceu uma coisa muito curiosa, eu preciso contar para alguém. E, infelizmente, esse é o único meio. Meu único ouvinte no momento é você, querido leitor, se é que você existe, se é que é homem, mulher, adolescente ou adulto. Tanto faz, o que eu preciso de verdade agora é um par de ouvidos, que convenhamos andam-se difíceis de serem achados. Nesse mundo atual, onde tudo é instantâneo, rápido e imediato, achar pessoas que tenham a paciência de apenas ouvir o que o outro tem a dizer é raridade. Tudo se resume a si mesmo. Mas não tem problema. Eu tenho você, leitor.


Vamos lá. Ontem mesmo me aconteceu algo muito estranho. Quando eu estava voltando da faculdade. Sim, eu faço faculdade, leitor, estudo Comunicação numa faculdade particular aqui de São Paulo. Aliás já está na hora de me formar. Para dizer a verdade, eu já não aguento mais, uma graduação teórica como essa é bastante complicado de manter na linha. Mas nesse ano completarei meu quinto ano e teoricamente é o ano de formatura. Meu pai mesmo já me disse que não quer pagar mais a mensalidade. Apesar de eu trabalhar, sim, leitor, eu trabalho, eu não pago a mensalidade. Meu salário de estagiária não seria o suficiente para cobrir as despesas da faculdade, então meu pai decidiu continuar pagando integralmente.


Se bem que meu estágio também é bem ruim, paga mal e o trabalho não tem muito a ver com a minha área de estudo. Mas o dinheiro entrando é sempre melhor do que nada, mesmo que eu não podendo estudar o que eu amo de verdade, que é a sociedade. A minha paixão real sempre foi, mesmo antes de ingressar no meu curso, projetos sociais e estudo de sociedade. Durante a época de vestibular eu pensei em prestar para Ciências Sociais, mas isso era demais pra mim, eu já tenho dificuldade de achar emprego bom estudando Comunicação, imagina a dificuldade estudando Sociais.


Eu aprendi do jeito mais difícil que esse meu sonho não daria certo. Estava no primeiro ano quando me envolvi com um projeto social para ajudar crianças carentes de um bairro perto da minha casa. Obviamente eu me voluntariei e fui toda feliz fazer os trabalhos, foram apenas 4 meses nesse projeto, mas eu fui do céu ao inferno. No último mês eu estava tirando dinheiro do meu próprio bolso para financiar parte da coisa. Tornou-se insustentável. No mês seguinte me encontrei mandando currículo para todas as ofertas de emprego que encontrava. Algumas até com piores condições da que estou atualmente.


Mas deixa eu voltar ao assunto, ontem mesmo me aconteceu algo bastante peculiar, estava voltando da faculdade para casa, o escritório do estágio estava em reforma e hoje, particularmente, ninguém iria trabalhar para que os pedreiros pudessem mexer nas coisas mais estruturais. Essa reforma estava uma loucura, já estava no quinto mês. Praticamente todo dia minha chefe ficava resmungando que aqueles caras estavam tentando nos enganar, sempre esticando o prazo da entrega e precisando comprar cada vez mais material. Mas ela sempre terminava dizendo que isso era problema da chefe dela e ela não podia falar nada, não é mesmo? Afinal, quem era ela pra discordar de sua superior.


Está aí uma coisa que eu não entendo, como duas pessoas que não se gostam podem trabalhar juntas? Ainda mais numa relação tão próxima como a delas. Todos os dias era necessário se fazer uma reunião entre elas, minha chefe precisava passar para a chefe dela o relatório diário dos nossos afazeres. Para isso, ela revezava entre as estagiárias, cada dia da semana uma de nós tinha que acompanhar ela nessa reunião. Era terrível, o clima é tão ruim, tão pesado que você consegue segurar com as mãos pra ele não cair na sua cabeça.


Mas enfim, eu estava voltando da faculdade pra casa, eu tinha conseguido sentar no metrô na linha vermelha, o que já é um milagre, tem que se admitir. Já que não dá nem pra começar a falar sobre esse metrô de São Paulo. Ele só funciona quando você não precisa, por que logo de manhã, quando você está com aquela pressa de ir para aquela aula daquele professor que encrenca com quem chega atrasado, ele quebra, a energia acaba, impedem o fechamento das portas, descarrila um vagão ou tem cachorro nos trilhos. Já passei cada perrengue que você nem imaginaria, leitor.


Eu já até pensei em começar a escrever para um blog sobre as minhas histórias do metrô, por que, olha, eu tenho um repertório bem interessante. Tanto das que eu vivi pessoalmente quanto das que já me foram relatadas por colegas de faculdade, de trabalho, parentes e familiares. E mesmo quando acabassem os contos reais, eu poderia inventar algumas, sempre tive uma coceira nas mãos para escrever ficção. Mas com a minha rotina seria impossível achar tempo para manter um passatempo que exige tanta dedicação como a escrita ficcional.


Apesar de que eu tenho um ótimo exemplo. Outro dia eu fiquei sabendo que uma garota mais velha que estudava no meu colégio, a muitos anos atrás, largou tudo para viver de blog. Eu lembro que ela gostava bastante de escrever e sempre que podia participava de concursos. A escola inteira sabia. Ela se formou em jornalismo, tinha um trabalho razoável mas largou tudo um pouco depois que casou. Leitor, você acredita que a garota se casou com 22 anos de idade? Teve véu, grinalda e uma festa de arromba, os boatos dizem que foi o pai dela que pagou tudo sozinho. Com 22 anos eu não tinha nem carro, e isso foi a dois anos atrás, e eu ainda não tenho um carro. Nem aluguel eu imagino como pagar. Nem a mensalidade da minha faculdade eu consigo bancar.


Agora eu fiquei triste, será que eu estou demorando demais pra ser “alguém na vida”? Nem me formar eu to conseguindo, essa faculdade está me tomando tempo demais. Talvez um tempo precioso demais para ser gasto com isso, gasto financeiro, físico e mental. Quem sabe se eu não largar eu consigo não consigo viver do meu próprio negócio? Eu sei que tenho algumas histórias guardadas em alguma gaveta ou em alguma nuvem. Se eu dedicasse tempo o suficiente para isso, eu seria boa. Muito boa, modéstia à parte.

Eu sei que me comunico muito bem, objetiva e claramente. Afinal eu estudo isso. Mesmo no colégio eu gostava muito das aulas de redação e das de português, sempre gostei dessas coisas de narrativa e tudo mais. Não deve ser tão complicado assim articular uma história. Eu vejo gente desqualificada fazendo isso o tempo todo nas minhas salas da faculdade. E, sendo honesta, eu já vi até professor fazendo isso. Mas é isso! Leitor querido, eu vou largar essa faculdade para me tornar um grande escritora. Vamos lá, vamos começar com um blog, para começar eu tenho que criar um nome, dar um nome que seja a minha cara, que transpareça o que eu quero atingir com isso. Ah, que difícil, sempre fui meio ruim com essa coisa de criatividade, principalmente para nomes. Se bem que, talvez, esse nome que eu pensei dê certo, me diz se você gosta, leitor. Porque serão vocês que serão o público. O que vocês acham de...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ficção científica

Escrito por Pedro Henrique Silva

Não, não era um sonho, querido leitor. Talvez essa vai ser a hipótese que o senhor vai levantar quando o que aconteceu naquele dia lhe for contado por meio desse texto. Não. No final o nosso protagonista, o qual você está prestes a conhecer, não vai acordar assustado e pensar: “deve ter sido o bacalhau que eu comi ontem a noite, misturado com o filme que vi semana passada”. Não! Não é esse tipo de história que acontecerá agora com o nosso querido João Fernando. Não!
A existência de universos paralelos tem sido estudada há mais de dois séculos pela ciência humana O físico George Whitaker foi um dos pioneiros na busca por evidências que comprovaram que a raça humana está dividida entre vários universos. Na verdade, possivelmente infinitos universos. Cada escolha que fazemos cria um novo, portanto, não há como precisar quantos universos existem.
Você já deve estar impaciente com essa introdução. Mas ela se faz muito necessária para que nossa história seja entendida em sua complexidade e.... não consigo pensar em outro adjetivo que caiba aqui. “Inteligência”. Não sei. Talvez. O Word me recomendou “confusão” e “complicação” como sinônimos para ela. Eu poderia pesquisar no google agora um sinônimo ou outra palavra que não tivesse relação direta com complexidade e que coubesse nessa história. Mas sinceramente eu tenho medo de perder o meu fluxo de ideias. E o assunto o qual precisamos chegar imediatamente é muito sério. E o senhor leitor precisa entender tudo. Nos mínimos detalhes. Otherwise ficará perdido. Sim, eu usei uma palavra em inglês porque não quero perder o fluxo. E se eu resolvesse escolher outra palavra em português eu o perderia. Mas enfim, eu tive que jogar no corretor a palavra porque ela pode estar errada. Então eu me perdi no meu fluxo. Me perdoe.
Enfim, João era um rapaz muito bonito. Tinha exatamente 20 anos e voltava da faculdade. João trabalhava no supermercado do seu avô depois da aula, portanto era uma pessoa muito ocupada e que raramente tinha mais de 6 horas para dormir. Por esse motivo, João tinha que repousar no trem na volta para casa. Era um cochilo de mais o menos 32 minutos em média. O que não o fazia descansar exatamente, mas dava um certo repouso. Talvez ali a palavra “inteligente” coubesse. Ali, leitor. Naquele espaço em que há as reticências. São as únicas do texto. O senhor encontrará. Pensei em algo agora, não é um tanto quanto absurdo eu tratar o senhor por senhor apenas. Digo, é elegante, mas e as senhoras leitoras. Assumir que as senhoras leitoras não podem ler um conto de ficção científica avançado me parece um tanto sexista. Desculpa não usar a palavra “machista” a qual o senhor e a senhora devem estar mais acostumados. Mas, como fui educado em NYC eu não estou acostumado a usar essa palavra. Pra mim “sexista” é bem mais legal.
Bom, João entrou no trem e ainda estava calor. Uns 30 graus sem muitas nuvens. Esqueci de mencionar que João era um jovem paulista de 20 anos. Não posso me esquecer de colocar lá em cima essa informação. Pois farei um comentário agora que requer que eu tenha dito que João é paulista e mora em SP. Não que sempre que alguém é paulista mora em SP, mas assim o leitor, ou a leitora, vão entender o que estou falando. E por favor, não pense que estou me referindo a São Petesburgo quando uso SP. Isso vale para os futuros tradutores desse conto. Até porque primeiro que eu não sei se os russos (sim, São Petesburgo é na Rússia) se referem à cidade por SP. Acho que senhor foi pesquisar...ou a senhora, desculpe, essa informação. Tudo bem, depois volte aqui que a história precisa continuar. Aliás, estou preocupado, uma vez que há também senhoritas lendo essa história. De agora em diante tratar-te-eis melhor.
João entrou no trem e estava de dia e era muito quente. Ali dormiu. Quando acordou era um dia de perfeito inverno. Assim é SP (São Paulo), querido leitor ou leitora. Foi o que pensou, João. (Sem a parte do querido leitor ou leitora). Era uma garoa fina e fria. O dia lindo tinha se tornado um bem feio.
Então João saiu da estação e foi à sua casa. João vivia com a mãe, com o pai, e com a irmã...pelo menos era isso que ele pensava. Ele entrou em casa e encontrou sua mãe. E aqui a história começa a ficar estranha. Se estivéssemos num filme agora teríamos um aumento na música de suspense.
“Oi mãe”- João disse a sua mãe
“Oi filho. Tudo bem?” – Sua mãe respondeu
“Tudo. Cadê a Bia” – Disse João
Bia era a irmã de João. Os dois não se davam muito bem e nem muito mal. Era uma relação amistosa, mas não muito. Ela tinha 17 e ele 20. Mas isso já foi dito. Ou ele pensava que sim.
“Que Pia, filho?”
“A minha irmã. A Bia”
Nessa hora que a história fica complexa. João havia entrado em um buraco de minhoca no trem. Ele passou pelo Rio Tietê na viagem, e uma complexa e nada inteligente reação química, combinada com a radiação que seu fone de ouvido emitia. Ele entrara em um universo paralelo ao seu. Um que a “Bia” nunca tinha existido. A querida leitora deve estar se perguntando o que acontecerá agora. Como João voltará ao seu universo de origem. E quais as implicações de um provável encontro dos dois “Joões”. A senhorita, o senhor e a senhora podem relaxar. Porque o universo sabe o que faz.
Depois de alguns segundos, um efeito chamado “Efeito do Bambu”, fez com que João voltasse ao seu universo, sem que ninguém percebesse sua falta. João estava de novo na frente da sua mãe que lhe fitava com uma expressão menos confusa.
“Ah, a Bia tá no quarto”.
Creio que sei o que o senhor está pensando. A senhora e a Senhorita também. E queria agora dizer algo que o senhor, a senhora, a senhorita e o senhorito, vão se surpreender: Eu sou o João. E essa historia aconteceu comigo. Muito obrigado pela atenção e prometo seguir meus estudos a fim de resolver esse mistério e eventualmente voltar ao universo do qual eu saí.
Contudo, eu queria frisar aqui que eu não sou maluco. Há uma pista na história. Quase que impossível de ser encontrada, que explica tudo. Dica: tem a ver com àgua, banheiro, cozinha...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

SAC - Escrita Conjunta

Escrito por Ludmila Barros e Pedro Henrique Silva

O senhor mandou me chamar?


-Sim. Pode sentar. Quer alguma coisa? Uma bebida? Uma água?


-Quero não, obrigada.


- Então, fiquei sabendo que você perdeu mais um cliente importante. Procede?


-Sim, senhor.


-Sim?... Tudo bem... É o que? O terceiro grande que você perde?

-Se o senhor me permite, eles não têm nada de grande, não.

-Não to achando graça… acho que você não está levando a questão a sério.


- Me desculpa.


- Desse jeito não vai dá pra te manter aqui não. Não pode continuar dando prejuízo desse assim. Você sabe quem paga por isso? Acaba sempre sobrando pra mim.


-Tá, Jucão. Eu não vou…

-Ei? Já te falei pra não me chamar assim.


-Ok. Senhor Juliano.

-Sabe uma coisa que me irrita em você, Sônia? Essa sua ironia de merda. Vai ver é por isso que você tá perdendo todo mundo..


-Não é por isso


- É, você tá certa. É porque você tá velha.


- Você não disse isso.


-Tá surda? Deve ser a idade.

- Não vejo graça nisso.


- Você tem noção de que eu tenho várias… “funcionárias” aqui de 15, 16 anos, que trabalham MUITO melhor que você?


- Duvido que elas fodem como eu.

- E você é vulgar, também, né.


- Eu sou puta, Jucão.


- É disso que eu tô falando. Cê já viu a Joana? Ela tem 17. É educada, fala inglês, faz psicologia na Federal. Eu nunca nem vi ela falando isso aí que você fala, com ela é só... “acompanhante”, não é puta.

-Nunca precisei falar inglês pra fazer direitinho o que eu faço.


-O que eu faço com você?


- Deixa eu ir atender lá o MEU deputado de Niterói que já já tá me mandando mensagem.
- Isso. Ela tem 17 né? E você?
- Ah, você sabe, sabe sim o que aconteceu.
- Elas podem ter 16, 17, 12 anos. Mas eu não vou ser passada pra trás. Eu não vou receber menos do que o combinado para “ganhar o cliente”. Eu sei como fazer o cara gozar rapidinho. Eu sei como fazer ele acabar achando que me destruiu. E sei várias outras coisas que elas vão demorar anos pra descobrir. Eu to inteira. Eu to em forma. Eu tenho vários macetes. Várias estratégias. Elas podem até ser novas, mas eu tenho experiência. Eu sei cativar o cliente direito e sem dar prejuízo. E você sabe que isso não tem preço.
-Como assim?
- E se você fosse uma conselheira? Você atenderia um cliente ou outro, aquele empresário que não te larga, por exemplo. Mas seria para você que elas ligariam quando algum problema aparecesse. Gerenciamento de crises. Você poderia treinaria elas.


Foi ele quem me deu isso aqui.


-Então, tem isso também. Ele me ligou mais cedo querendo uma outra funcionária. Uma “mais nova”, entende?

- Você só pode tá de sacanagem comigo.


- Pior que não. Eu passei pra ele o contato da…


- Joana… Não é?



- Você sabe muito bem minha idade. Sabe porque?
Por que eu podia ser seu filho?

- Porque eu comecei aqui com 18, Jucão. E sabe o que você era?
Isso, nada! Era eu e só outras duas meninas. Você deve lembrar bem disso,né? Seu idiota.


-Sim. A Cristiane e a Domitila. “Domitila”, nome de puta.


- E você tá sendo um muito cuzão!



- O que aconteceu com elas mesmo?


- Eu não sei.



- Você é a última dessa geração, meu amor.
Tá na hora de pendurar o fio dental.
....
..........

- SABE ONDE EU ESTARIA SEM VOCÊ, SUA PUTA VELHA? AQUI! NESSE MESMO PONTO. COM A MESMA CLIENTELA. COM O MESMO DINHEIRO. SABE COMO VOCÊ ME AJUDOU AQUI? EM NADA! DOEU SUA PUTA? EM MIM TAMBÉM! BATER NO PATRÃO DA JUSTA CAUSA, SABIA?.... Acho que seu tempo aqui acabou. Você não trabalha mais pra mim. Achei que a gente poderia terminar numa boa, em comum acordo. Mas pelo jeito não vai ser possível.



- Tá… Que seja. Uma ideia então, e se você assumisse uma função diferente?




- Eu não sei.


- Soninha.
Ok. Eu valorizo muito sim o que você fez. Eu te pagaria bem. Aceita. É uma ótima proposta.


- ...