Entrou
sozinho. Seus seguranças foram instruídos a esperar do lado de fora. A sala
bastante grande, contrastava com a falta de móveis. Havia duas poltronas e duas
mesas, uma ao centro e uma outra do lado de uma das poltronas. Ainda com
uma bengala, apertou a mão do colega que se levantou e lhe sorriu um sorriso que ele pouco conhecera.
- Agora que
acabou, vim aqui te liberar para todos as atividades – disse se sentando na
poltrona que não era sua, na casa que não era sua e a que poucas vezes tinha
ido.
Havia uma mesa
redonda de seu lado esquerdo, com um cinzeiro horroroso. A bengala estava
encostada na mesa. A bengala que em breve não mais usaria.
- Liberar? –
perguntou enquanto se endireitava na poltrona. As pernas se cruzaram e ele
olhou nos olhos do seu colega.
- É...
desculpa – riu – sim. Acho que não tem mais perigo, sabe?
- Perigo?
- É... você
sabe... naquela hora a gente tinha que rever. Não podíamos deixar as coisas
degringolarem. Não podíamos deixar eles usarem tudo que você estava falando
e...
Levantou,
pegou a garrafa na mesa de centro.
- Quer?
- Não,
obrigado. O médico ainda não liberou. Você tá bem?
- Sim, sim.
Por que? – disse colocando a bebida em um copo se endireitando.
- Você
geralmente gosta de falar bem mais.
-Não foi você
quem disse pra que parar de falar?
- Então, é
exatamente isso que eu vim fazer aqui. Te dizer que não precisa mais se
policiar tanto por que...
- Me policiar?
– perguntou agora sentando com o copo na mão.
- É. O que eu
falei aquele dia, sabe?
- Tem certeza
que não quer uísque. – disse sorrindo.
- Não. Eu, eu
tô bem... – respondeu analisando o colega.
- Você
dizia...
- Então, agora
acho que dá pra você voltar à sua agenda normal, sabe?
- E por que eu
faria isso? Por que você tá mandando?
- É... ahn?
Eu... não...eu só tô dizendo que você não precisa mais ficar tão alerta. Mas
você faz o que você quiser?
- O que eu
quiser? – disse tirando os olhos de seu interlocutor.
- É... –
respondeu olhando para todos os lados da sala.
- Entendi. Tá.
Eu vou voltar sim ao que eu quiser.
- Que bom
então. – disse fazendo menção a se levantar- sei que aquele dia você ficou
chateado – fez uma pausa ao ouvir um riso contido de seu colega – mas... assim,
a gente tá bem, né?
- Bem? Com
toda certeza, amigo. Vencemos. – Gargalhou - O que te faz pensar que não
estamos bem.
- Você tá
estranho.
- Estou?
Impressão sua.
- Aham, que
bom. Enfim, eu preciso ir na festa do partido. Você não vai, né?
- Não... ontem
foi uma noite bem animada, né? Acho que vou dormir mais cedo. Vou fazer mais umas
coisas aqui e vou pra cama.
- Tudo bem. –
disse se levantando com a ajuda da bengala.
- Tem certeza
que não quer meu uísque? Você vai amar.
- Não, não...
eu... eu tô legal. Vai ter uns pastores no encontro e eu acho melhor evitar.
- Aham,
entendo, entendo...
- Bom – disse
indo de encontro ao amigo, que também se endireitou com uma mão no Bolso e a
outra estendida para um aperto.
- Obrigado por
tudo, viu? Você vai ser o melhor vice que esse país já viu.
- Você acha?
Não sei.
- Como assim?
– disse sem largar a mão do colega.
- Ah, eu daria
um excelente vice. Mas eu acho que eu não serei um excelente vice.
- Porque não?
- Porque você
teve uma complicação do atentado... –
disse num tom mais alto abafando qualquer barulho silenciado. Qualquer tiro que
pudesse ser ouvido.
-.....
- e eles
conseguiram, sabe? Conseguiram te matar, amigo.
-....
- Mas eu vou
aceitar esse fardo. Vou ser o que você seria.
- ...
- ... e
mais... claro, mas muito melhor. Muito mais firme. Fazer o que você não iria
fazer, sabe? O que você não teria coragem ou capacidade de fazer.
-..
- Se você
tivesse tomado o uísque seria tão mais fácil... ou se você não tivesse me mandado calar a boca.
-.
Soltou
finalmente sua mão, chutou a bengala. O presidente eleito caiu na mesa, que quebrou.
Em baixo dele, o cinzeiro.
Do chão ao
lado de uma pequena poça de sangue bem vermelha, viu o amigo pegando um
telefone.
- Tá feito, doutor. Vai ser no plano B mesmo.
Como você disse. Isso, sim, sim. Já pode vir.