Escrito por Ludmila Barros
Tomas Donifon Moreira é estudante de Artes Plásticas e completou 20 anos no último mês de Maio. Tem cabelos pretos, curtos e cacheados, todos falam que é parecido com o de sua mãe, Fiorella Scarponi Moreira. Já sua barba, curta e despojada, também do mesmo tom de preto, se parece com a de seu pai, Pedro Paulo Moreira. Os sobrenomes já dizem tudo, sua mãe é descendente de italianos, enquanto seu pai é de portugueses. Quando namoravam, ainda no colegial, costumavam dizer que não entendiam como uma mulher maravilhosa como Fiorella poderia se contentar com alguém tão mediano como Pedro. Pedro adorava esses comentários e fazia questão de tratar a namorada, e depois esposa, com o devido valor.
Depois que se casaram, logo após suas formaturas na faculdade, a mãe de Tom decidiu largar o emprego para se tornar dona de casa. Já o pai entrou para o ramo da aviação e logo se tornou um grande piloto de vôos comerciais. Cinco anos após o casamento, Fiorella decidiu ter um filho, ela realmente queria um garoto. E foi isso que conseguiu. Sua gravidez foi tão tranquila quanto a infância de Tom. O nome veio da paixão dela por filmes de faroeste e por John Wayne. Com uma pequena adaptação, surgiu o nome composto tão peculiar. Por muitos anos da infância de Tom, seu brinquedo favorito era um cavalo de pelúcia que Fiorella lhe havia comprado ainda quando estava na barriga.
Durante seu processo de aprendizado, ainda quando bebê, seu pai logo lhe incentivou a trabalhar com a mãos. Pedro tinha o hobby de construir algumas invenções, em sua maioria nada de extraordinário, o que o fascinava era o poder de fazer as coisas com as próprias mãos. E ele realmente conseguiu passar essa tradição para o filho, que desde pequeno cresceu um grande interesse por tudo que podia ser moldado, desde terra molhada até massinhas de modelar. Nesse momento de sua vida, a família de Tom era perfeita, Pedro ainda conseguia passar alguns bons dias da semana em casa, curtindo a esposa e o filho.
Porém, isso mudou quando Tom ia se tornando um pré-adolescente. Quando ele atingiu dez anos de idade, Fiorella descobriu que Pedro a tinha traído em uma de suas viagens para a Europa. Essa descoberta gerou muitas brigas entre os dois, coisa que Tom ainda não entendia direito, somente ouvia de longe, em seu quarto. A descoberta foi seguida por um bastante longo período, no qual seu pai havia sido promovido. Agora, ele podia passar até semanas fora de casa, viajando de país para país.
Foi nesse momento que o relacionamento de Fiorella e Tom se tornou tão forte. Cinéfila e apaixonada por filmes preto e branco, sua mãe lhe passou o mesmo vício. Tom havia se tornado o melhor amigo de sua mãe. Enquanto isso, na escola ele acabou se afastando de colegas e só se importava em voltar para casa, para assistir filmes com sua mãe. Somente depois de dois anos, ainda com Pedro passando a maior parte do tempo fora de casa, que Fiorella teve coragem de explicar o que havia acontecido anos atrás. Pedro mandava flores para Fiorella toda semana após o descobrimento da traição, eles demoraram vários meses para conversar sobre a questão de fato. Porém, ela havia decidido perdoar o deslize de Pedro. Eles realmente se amavam bastante, mas com esse incidente, ela havia desistido totalmente da ideia de ter um segundo filho. Ainda com a conciliação, Pedro ainda não podia diminuir a carga horária de suas viagens.
A única coisa que ela omitiu para todos é o fato de que ela também havia traído Pedro no mês anterior.
Mesmo ainda uma criança, por volta dos treze anos, Tom entendeu a situação com maturidade e prometeu a sua mãe que a apoiaria em qualquer decisão que ela tomasse. Os anos se seguiram e essa paixão por cinema compartilhada pelos dois só aumentava. O hobby de construção havia sido deixado de lado, mas ainda sim, Tom continuava sempre sendo um aluno acima da média no colégio. As coisas mudaram bastante no ano em que ele iria entrar para o ensino médio. Pedro conseguiu, de fato, voltar a sua carga de trabalho anterior e passou a integrar o ambiente familiar do mesmo modo que antigamente.
Passando mais tempo dentro de casa, Pedro notou que a relação entre Fiorella e Tom estava mais forte que o normal, então, começou a incentivá-la a deixar o menino viver a vida dele. Por muitas vezes ele acabou sendo bastante agressivo com ela, de forma que até Tom notou, sua relação com seu pai começou a se estremecer a partir desse ponto. Mas a ideia de Pedro realmente funcionou, Tom se separou de sua mãe e começou a participar mais de sua vida no ensino médio.
Tom mudou de colégio quando entrou de fato para o primeiro do ensino médio. Isso o ajudou nessa nova adaptação forçada que seu pai. Ele decidiu começar de novo, fez muitos amigos, começou a se interessar profundamente por matemática e física. Muitos de seus amigos eram das aulas especiais dessas matérias. Foi nesse grupo que Tom encontrou sua primeira namorada, Priscila, cujos cabelos e rosto eram estranhamente parecidos com os de Fiorella. Eles namoraram durante os três anos de colegial.
Durante o segundo ano Tom organizou um jantar para apresentá-la aos pais. Fiorella preparou uma grande refeição e a noite foi agradável. Fiorella estava com uma mancha vermelha no braço, quando Priscila perguntou o que havia acontecido, ela desviou de assunto e só disse que tinha se queimado preparando o jantar. Naquela mesma noite, mais tarde, Pedro deu um sermão em Tom, trancados em seu quarto, disse que não achava saudável o fato de Priscila ser tão parecida com Fiorella. Tom apenas ignorou o discurso do pai.
Porém, dentro de casa, a relação entre Pedro e Fiorella se tornava cada vez mais instável. A cada discussão ele era mais agressivo e gritava mais alto. Tom não havia presenciado, mas Pedro já havia agredido sua mãe algumas vezes. Fiorella fazia questão de esconder qualquer vestígio de hematoma ou arranhão, ainda que naquele jantar ela tivesse se distraído ao esquecer de cobrir aquele vermelhão. Ela não conseguia admitir que seu marido estava fazendo algo errado, portanto começou a culpar a si mesma pelas agressões. A vitalidade de Fiorella foi decaindo visivelmente conforme os anos em que Tom estava no colegial. Afastado da mãe, ele não encontrou problema naquele desânimo.
No terceiro e último ano, Tom cumpriu suas obrigações com a escola, mas trouxe a tona novamente seu interesse por modelagem. Gastava todo o seu tempo livre com o velho hobby. O que o aproximou de seu pai, e com seu apoio, finalmente escolher Artes Plásticas como curso de graduação. Ele prestou o vestibular a passou loga na primeira tentativa. Essa novidade trouxe mudanças para a rotina diária da família. Apesar de já morarem na mesma cidade em que a Faculdade, Pedro acabou convencendo Tom a se mudar, para morar mais perto de onde iria estudar. Arcando com todas as despesas, Pedro alugou um apartamento para o filho morar sozinho.
Durante o primeiro ano de faculdade, Tom havia se encantado tanto com o curso que quase não voltava para casa aos finais de semana. Passava a maior parte do tempo esculpindo suas pequenas estátuas de corpos femininos e estudando sobre a História da Arte. Sua pequena turma de sala de aula havia se tornado um grupo próximo, tornaram-se amigos de verdade. Houveram tentativas de aproximação por parte das garotas da turma, mas Tom permanecia concentrado em sua fascinação pelos estudos que tanto havia esperado para conhecer. Sua mãe fazia questão de visitá-lo sempre que podia, e, alegando saudade, sempre passava a noite e pedia para dormirem juntos. Mesmo se vendo numa frequência muito menor, Tom e Fiorella mantinham uma relação próxima por meio de mensagens e sempre que ia passar a noite na casa de Tom, ela levava os filmes que os dois amavam ver juntos.
No começo do segundo ano, logo quando começaram as aulas em Março. No primeiro final de semana Tom teve que voltar para a casa dos pais para buscar o carregador do celular que havia esquecido durante o tempo que havia passado lá durante as férias. Como era só uma visita rápida, resolveu não avisar os pais de que estava indo. Quando chegou, passou pela portaria sem problemas e subiu para sua antiga casa. A porta estava destrancada, então entrou sem tocar a campainha. Antes mesmo de entrar, conseguia ouvir os gritos raivosos do pai. Ele caminhou silenciosamente na direção da voz até chegar em seu antigo quarto. Pedro estava de costas para a porta e Fiorella estava sentada na cama de Tom, com as mãos no rosto, cheias de sangue. Chocado e em silêncio, Tom ouviu seu pai proferir palavras de ódio contra a sua mãe. Mas no momento em que Pedro levantou o braço para bater em Fiorella mais uma vez, Tom pegou o que tinha de mais perto, um candelabro de ferro, e bateu na cabeça de Pedro, que caiu instantaneamente no chão, com a cabeça sangrando e já desacordado.