sexta-feira, 30 de junho de 2017

Donifon, Biografia

Escrito por Ludmila Barros

Tomas Donifon Moreira é estudante de Artes Plásticas e completou 20 anos no último mês de Maio. Tem cabelos pretos, curtos e cacheados, todos falam que é parecido com o de sua mãe, Fiorella Scarponi Moreira. Já sua barba, curta e despojada, também do mesmo tom de preto, se parece com a de seu pai, Pedro Paulo Moreira. Os sobrenomes já dizem tudo, sua mãe é descendente de italianos, enquanto seu pai é de portugueses. Quando namoravam, ainda no colegial, costumavam dizer que não entendiam como uma mulher maravilhosa como Fiorella poderia se contentar com alguém tão mediano como Pedro. Pedro adorava esses comentários e fazia questão de tratar a namorada, e depois esposa, com o devido valor.
Depois que se casaram, logo após suas formaturas na faculdade, a mãe de Tom decidiu largar o emprego para se tornar dona de casa. Já o pai entrou para o ramo da aviação e logo se tornou um grande piloto de vôos comerciais. Cinco anos após o casamento, Fiorella decidiu ter um filho, ela realmente queria um garoto. E foi isso que conseguiu. Sua gravidez foi tão tranquila quanto a infância de Tom. O nome veio da paixão dela por filmes de faroeste e por John Wayne. Com uma pequena adaptação, surgiu o nome composto tão peculiar.  Por muitos anos da infância de Tom, seu brinquedo favorito era um cavalo de pelúcia que Fiorella lhe havia comprado ainda quando estava na barriga.
Durante seu processo de aprendizado, ainda quando bebê, seu pai logo lhe incentivou a trabalhar com a mãos. Pedro tinha o hobby de construir algumas invenções, em sua maioria nada de extraordinário, o que o fascinava era o poder de fazer as coisas com as próprias mãos. E ele realmente conseguiu passar essa tradição para o filho, que desde pequeno cresceu um grande interesse por tudo que podia ser moldado, desde terra molhada até massinhas de modelar. Nesse momento de sua vida, a família de Tom era perfeita, Pedro ainda conseguia passar alguns bons dias da semana em casa, curtindo a esposa e o filho.
Porém, isso mudou quando Tom ia se tornando um pré-adolescente. Quando ele atingiu dez anos de idade, Fiorella descobriu que Pedro a tinha traído em uma de suas viagens para a Europa. Essa descoberta gerou muitas brigas entre os dois, coisa que Tom ainda não entendia direito, somente ouvia de longe, em seu quarto. A descoberta foi seguida por um bastante longo período, no qual seu pai havia sido promovido. Agora, ele podia passar até semanas fora de casa, viajando de país para país.
Foi nesse momento que o relacionamento de Fiorella e Tom se tornou tão forte. Cinéfila e apaixonada por filmes preto e branco, sua mãe lhe passou o mesmo vício. Tom havia se tornado o melhor amigo de sua mãe. Enquanto isso, na escola ele acabou se afastando de colegas e só se importava em voltar para casa, para assistir filmes com sua mãe. Somente depois de dois anos, ainda com Pedro passando a maior parte do tempo fora de casa, que Fiorella teve coragem de explicar o que havia acontecido anos atrás. Pedro mandava flores para Fiorella toda semana após o descobrimento da traição, eles demoraram vários meses para conversar sobre a questão de fato. Porém, ela havia decidido perdoar o deslize de Pedro. Eles realmente se amavam bastante, mas com esse incidente, ela havia desistido totalmente da ideia de ter um segundo filho. Ainda com a conciliação, Pedro ainda não podia diminuir a carga horária de suas viagens.
A única coisa que ela omitiu para todos é o fato de que ela também havia traído Pedro no mês anterior.
Mesmo ainda uma criança, por volta dos treze anos, Tom entendeu a situação com maturidade e prometeu a sua mãe que a apoiaria em qualquer decisão que ela tomasse. Os anos se seguiram e essa paixão por cinema compartilhada pelos dois só aumentava. O hobby de construção havia sido deixado de lado, mas ainda sim, Tom continuava sempre sendo um aluno acima da média no colégio. As coisas mudaram bastante no ano em que ele iria entrar para o ensino médio. Pedro conseguiu, de fato, voltar a sua carga de trabalho anterior e passou a integrar o ambiente familiar do mesmo modo que antigamente.
Passando mais tempo dentro de casa, Pedro notou que a relação entre Fiorella e Tom estava mais forte que o normal, então, começou a incentivá-la a deixar o menino viver a vida dele. Por muitas vezes ele acabou sendo bastante agressivo com ela, de forma que até Tom notou, sua relação com seu pai começou a se estremecer a partir desse ponto. Mas a ideia de Pedro realmente funcionou, Tom se separou de sua mãe e começou a participar mais de sua vida no ensino médio.
Tom mudou de colégio quando entrou de fato para o primeiro do ensino médio. Isso o ajudou nessa nova adaptação forçada que seu pai. Ele decidiu começar de novo, fez muitos amigos, começou a se interessar profundamente por matemática e física. Muitos de seus amigos eram das aulas especiais dessas matérias. Foi nesse grupo que Tom encontrou sua primeira namorada, Priscila, cujos cabelos e rosto eram estranhamente parecidos com os de Fiorella. Eles namoraram durante os três anos de colegial.
Durante o segundo ano Tom organizou um jantar para apresentá-la aos pais. Fiorella preparou uma grande refeição e a noite foi agradável. Fiorella estava com uma mancha vermelha no braço, quando Priscila perguntou o que havia acontecido, ela desviou de assunto e só disse que tinha se queimado preparando o jantar. Naquela mesma noite, mais tarde, Pedro deu um sermão em Tom, trancados em seu quarto, disse que não achava saudável o fato de Priscila ser tão parecida com Fiorella. Tom apenas ignorou o discurso do pai.


Porém, dentro de casa, a relação entre Pedro e Fiorella se tornava cada vez mais instável. A cada discussão ele era mais agressivo e gritava mais alto. Tom não havia presenciado, mas Pedro já havia agredido sua mãe algumas vezes. Fiorella fazia questão de esconder qualquer vestígio de hematoma ou arranhão, ainda que naquele jantar ela tivesse se distraído ao esquecer de cobrir aquele vermelhão. Ela não conseguia admitir que seu marido estava fazendo algo errado, portanto começou a culpar a si mesma pelas agressões. A vitalidade de Fiorella foi decaindo visivelmente conforme os anos em que Tom estava no colegial. Afastado da mãe, ele não encontrou problema naquele desânimo.
No terceiro e último ano, Tom cumpriu suas obrigações com a escola, mas trouxe a tona novamente seu interesse por modelagem. Gastava todo o seu tempo livre com o velho hobby. O que o aproximou de seu pai, e com seu apoio, finalmente escolher Artes Plásticas como curso de graduação. Ele prestou o vestibular a passou loga na primeira tentativa. Essa novidade trouxe mudanças para a rotina diária da família. Apesar de já morarem na mesma cidade em que a Faculdade, Pedro acabou convencendo Tom a se mudar, para morar mais perto de onde iria estudar. Arcando com todas as despesas, Pedro alugou um apartamento para o filho morar sozinho.
Durante o primeiro ano de faculdade, Tom havia se encantado tanto com o curso que quase não voltava para casa aos finais de semana. Passava a maior parte do tempo esculpindo suas pequenas estátuas de corpos femininos e estudando sobre a História da Arte. Sua pequena turma de sala de aula havia se tornado um grupo próximo, tornaram-se amigos de verdade. Houveram tentativas de aproximação por parte das garotas da turma, mas Tom permanecia concentrado em sua fascinação pelos estudos que tanto havia esperado para conhecer. Sua mãe fazia questão de visitá-lo sempre que podia, e, alegando saudade, sempre passava a noite e pedia para dormirem juntos. Mesmo se vendo numa frequência muito menor, Tom e Fiorella mantinham uma relação próxima por meio de mensagens e sempre que ia passar a noite na casa de Tom, ela levava os filmes que os dois amavam ver juntos.

No começo do segundo ano, logo quando começaram as aulas em Março. No primeiro final de semana Tom teve que voltar para a casa dos pais para buscar o carregador do celular que havia esquecido durante o tempo que havia passado lá durante as férias. Como era só uma visita rápida, resolveu não avisar os pais de que estava indo. Quando chegou, passou pela portaria sem problemas e subiu para sua antiga casa. A porta estava destrancada, então entrou sem tocar a campainha. Antes mesmo de entrar, conseguia ouvir os gritos raivosos do pai. Ele caminhou silenciosamente na direção da voz até chegar em seu antigo quarto. Pedro estava de costas para a porta e Fiorella estava sentada na cama de Tom, com as mãos no rosto, cheias de sangue. Chocado e em silêncio, Tom ouviu seu pai proferir palavras de ódio contra a sua mãe. Mas no momento em que Pedro levantou o braço para bater em Fiorella mais uma vez, Tom pegou o que tinha de mais perto, um candelabro de ferro, e bateu na cabeça de Pedro, que caiu instantaneamente no chão, com a cabeça sangrando e já desacordado.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Depois do fim - Parte I

Escrito por Pedro Henrique Silva

Eles não sabiam o que os estava atacando. O que, quem, como... nada disso importava muito desde que o céu ficou escuro. Aquelas 5 naves gigantes que pairaram sobre algumas cidades do mundo fazia um ano mudaram tudo. Desde então muita coisa tinha acontecido: Bombas atômicas clareando algumas noites, bases inteiras do exército caindo e uma ofensiva monumental global que derrotou boa parte das naves inimigas.
Ninguém podia responder nenhuma daquelas perguntas. Nem Jack, Jessica, John, Robert e Beatriz. Nenhum dos amigos que já estavam morando nas salas de aula 151 do prédio F da Universidade de Phoenix há uns 5 meses. Mas alguém os atacava agora. Bombas, tiros e gritos eram o que se ouvia, logo abaixo deles.
Primeiro foi o prédio E que estava sendo vasculhado por algum tipo de grupo armado. Não era possível saber quem. Mas eram indivíduos com armas não muito pesadas que marchavam contra o prédio. Podiam ser aliens remanescentes em busca de humanos famintos que entravam em conflito por comida apenas, ou aqueles extremamente violentos que roubavam tudo que podiam. Pela quantidade de disparos era a terceira opção.
A janela da sala em que eles estavam no F dava para o topo do E, não sendo possível ver sua base. Pela primeira vez, Jack pensou se foi uma boa ideia ter escolhido uma sala tão alta. Geralmente, quando uma milícia saqueadora ou um grupo alien tentava invadir a Universidade de Phoenix, começava-se pelo prédio G. Depois, quase que fugindo do G ao ser quase dizimada ali, ou batia em retirada, ou chegava aos frangalhos ao F, e nem passava dos dois primeiros andares. Logo, a posição no 5º e penúltimo andar parecia uma excelente escolha. Não dessa vez, porém. O grupo, que nunca precisou lutar de verdade, lamentava a decisão.
Nem todos, porém. Jack não sabia exatamente o que estava sentindo. O fato é: Finalmente existia a possibilidade de lutar. E isso, surpreendentemente, o estava acalmando.
- Você parece calmo demais – Notou Jéssica ao ver que Jack era o único que não parecia estar segurando um grito de desespero.
- Estamos preparados, Jess. Finalmente vamos poder usar isso. – Disse Jack mantendo a voz baixa, se referindo às duas escopetas e às duas metralhadoras que o grupo tinha trocado por uma enorme quantidade de massas de pizza. Os grupos da 150, 149, 148 e 144 estavam se deliciando com elas há semanas. Cada uma das armas foi trocada por 10 massas as quais Beatriz trouxera da loja de sua mãe. Precisamente quando o grupo pensou que talvez fosse uma boa ideia parar de confiar nos suprimentos da lanchonete daquele andar e ir para o mercado Los Anjos para conseguir comida para consumo e troca.
- Você sabe que nem eu, nem o Robert nem a Jess jamais disparamos uma dessas, né? – Disse John indignado com a tranquilidade de Jack.
- Sei, mas não tem segredo. E outra, acho que não vamos precisar usá-las. As primeiros andares sempre dão conta de apagar as milícias. – Disse Jack quase que desapontado.
- Quando o G já tinha as enfraquecido – Notou Beatriz que sabia disfarçar um pouco melhor o nervosismo do que os demais.
- Vocês querem parar? – Disse Robert quase sussurrando – Se a gente precisar vamos meter chumbo nesses lagartos malditos.
- Pela última vez, amor, Não são lagartos. E outra, nem sabemos se esses caras são humanos. Pode ser uma milícia que só quer os suprimentos e as armas – disse John não muito carinhoso.
 - Lutando desse jeito? Ou são saqueadores ou aliens. Mas assim, é mais fácil atirar no inimigo se pensarmos neles como alienígenas, do que acharmos que eles são humanos precisando de armas para lutar. – Disse Jack.
- Como você sabe? – Perguntou Jéssica.
- Palpite. – Respondeu, Jack.
- Palpite? Isso não é tipo um jogo de vídeo game para você ter palpite. – Disse Jéssica
- Mas vamos atirar se forem humanos? - Perguntou Robert
- Bom, vamos tentar conversar. Não podem levar tudo. Se só estiverem com fome vão aceitar só comida sem luta. Se quiserem armas… - Falou Jack
- Nada é reconfortante, afinal você também nunca lutou contra esses caras. E sua experiência com armas é baseada nas vezes que você foi caçar comigo e com meu pai. – Disse Beatriz com um pouco de tristeza na última frase. Um que deixou todos um pouco pensativos e fez Jéssica colocar a mão no ombro de Beatriz.
- Tá. Ninguém vai atirar aqui. Vamos tentar resolver isso na boa. – Disse Jack.
- Que boa? – Perguntou Jéssica.
- Sei lá, vou tentar ver quem eles são. – Respondeu Jack.
- E como você pretende fazer isso? – Disse Robert.
- Ah, vou descer devagar pela escada e dar uma espiada. Se forem humanos eu  posso tentar oferecer as massas da Bee.
- São as últimas. – Observou Beatriz, já recuperada da nostalgia.
- Eu sei, mas ...- Jack foi interrompido por um grito que parecia logo abaixo deles e alguns tiros que os calaram.  Todos se olharam e já não parecia uma ideia tão ruim assim saber com quem estavam lidando.
- Se você for, leve alguém com você. – Disse Beatriz.
- Não, Bee. Você não vai. - Disse Robert.
- Claro que eu vou. Você mesmo disse que eu sou a única que sabe atirar...depois do Jack. – Respondeu Beatriz.
- Fui eu, Bee – Disse John.
- Sei lá, vocês são uma pessoa só. – Respondeu Beatriz com um sorriso. Ninguém entendia o senso de humor dela. Jack estava tranquilo, mas não fazia piadinhas.
- Ok, vamos logo então. – Disse Jack.
- Não vamos colocar isso em votação? – Perguntou Jess
- Não. – Respondeu Jack-  temos que ir logo. Eles começaram agora no andar de baixo. Devem ir de sala em sala. E logo, já que pelo que eu saiba eles não têm armas. Devem subir em uns 10 minutos -  Disse Jack já abrindo devagar a porta com a escopeta nas mãos. Beatriz preferiu a metralhadora. Eles não podiam acreditar na facilidade com a qual conseguiram aquelas armas.
           Do lado de fora andando devagar, os dois passaram pelas salas. Todas fechadas sem nenhuma reação aparente.
- Porque você quis vir?- Perguntou Jack
- Porque eu te conheço e te entendo. – Respondeu Beatriz.
- Mais que a Jessica? – Perguntou Jack
- Não! É que ela você não ia deixar vir – Disse Beatriz. Este comentário foi seguido por um silêncio enquanto os dois passaram por outras cinco.
- Nós duas sabemos muito bem que você tá amando isso aqui. – Prosseguiu Beatriz.
- Eu? Amando ver pessoas que eu amo serem mortas? Bilhões de pessoas?
- Jack, nós quatro daquela sala somos as pessoas que você ama. E estamos vivos e bem.
- Meus pais…
- Seus pais devem estar ótimos e você sabe disso. Não conheço ninguém mais durona que a sua mãe. E a relação de vocês estava péssima há quanto tempo? Dois anos? – Perguntou Beatriz.
- Mas nós nunca brigávamos! Eles são estavam ocupados demais pra conversar. – Respondeu Jack
- Mas isso não é pior? – Disse Beatriz
- Não! Eu só quero que isso acabe tanto quanto você!
- Eu entendo, Jack! Entendo, não gosto, mas entendo.
- Não tem o que gostar. Eu tô péssimo sim!... Mas assim, o que John e Robert pensam?
- Jobert? Não sei. Robert deve desconfiar. John talvez, se Robert o contou.
- Tá…  É que... todos vocês iam embora – Disse Jack parando em frente à penúltima sala antes das escadas. Eles perceberam que o grupo ainda estava um pouco longe da escada. – Eu ia ficar sozinho. Eu não tinha mais minha bolsa aqui. Não sabia o que fazer. Não tinha futuro mesmo. Essa maldita contusão. Que carreira que eu podia seguir? Eu só sei jogar futebol, Bee. – Disse Jack no limite do sussurro.
- Eu sei, eu sei. De verdade. Mas.... enfim, não transpareça, ok? – Disse Beatriz sabendo que era um tanto quanto absurdo e muito egoísta o jeito com o qual Jack lidava com a situação. Mas tirá-lo desse estado poderia o deixar tão desesperado quanto o resto do grupo. E eles precisavam de um líder. E Jack estava fazendo um bom papel até aquele dia.
Jack, por outro lado, se sentia bem por não ser julgado por Beatriz. E pelo jeito não o seria por Jéssica. Já bastava o julgamento interno que ele tinha que enfrentar todo dia. Mas alguém o condenando por estar contente com a situação parecia horripilante.
Foi quando mais tiros interromperam os sentimentos daquela conversa. Jack e Beatriz se recompuseram e desceram as escadas muito lentamente tentando se inclinar para espiar o que acontecia no andar de baixo. A cada degrau Beatriz era tomada por um medo que não sentia desde que eles se estabeleceram no prédio. Jack, por uma injeção de adrenalina que ele só sentira nos segundos finais do jogo contra o Colégio Fênix nas semi finais do ano passado.
Quando chegaram no último degrau Jack segurou a arma com mais firmeza e com o dedo no gatilho. Se inclinou e viu cinco homens armados retirando de uma das últimas salas do andar um dos alienígenas que eles viram apenas na TV, claro, antes da energia acabar dois meses atrás. O alienígena parecia implorar, quando o homem deu um tiro em sua cabeça. Outros dois homens faziam o mesmo com as salas de trás. Jack percebeu o que acontecia: Algumas daquelas salas tinham alienígenas. E aqueles homens estavam apenas os caçando.
Um alívio misturado com desapontamento percorreu o corpo de Jack. Beatriz tinha só alívio. Foi quando o homem, que parecia o líder, gritou pra sala da frente:
- Toc toc - Gritou o homem, Você sabe como isso funciona: Vamos entrar. Se você for humano, nos passe tudo que tem e vamos embora. Se for Critor, por favor, resista. – concluiu..

O desapontamento virou medo. Aqueles homens caçavam aliens, mas ele e seus amigos não estavam a salvo. Nem um pouco. Mas Jack sabia exatamente o que fazer. Ou quase.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Em Dobro

Escrito por Ludmila Barros

- Oi, meu bem. Cheguei. - Fernando disse ao entrar em casa e deixar sua carteira e a chave do carro numa tigela na cozinha.
Ele deu uma olhada por lá e pela sala e não viu ninguém.
- Lili? Onde você tá? - ele disse já se dirigindo para o quarto.
- Estou aqui, meu amor. Vem aqui no quarto. - respondeu Liliana.
Ele entrou no quarto foi até ela, que estava sentada na ponta a cama. Deu-lhe um beijo e seguiu para tirar sua roupa.
- Tá tudo bem, Lili? Eu já vou tomar banho, quer aproveitar que eu cheguei cedo pra sair pra jantar? - ele tirou a camiseta e a jogou na cama.
- Não, eu não estou muito bem do estômago. Hoje de manhã eu já acordei com ele revirado, acabei vomitando o jantar de ontem. - ela respondeu abatida.
- Nossa, será que foi a comida? Não aconteceu nada comigo. - ele se sentou do lado dela e a abraçou. - Mas você já está melhor?
- Um pouco, sim. Apesar de que eu acabei ficando de cama o dia inteiro, nem fui trabalhar.
- Não foi nem trabalhar? Por que não me avisou?
- É, tava com tanta coisa na cabeça que acabei ficando meio presa aqui dentro de casa, esqueci de te avisar. - ela abaixou a cabeça.
- Não tem problema, meu amor. - ele passou a mão no rosto dela - mas você ainda tá com um aspecto ruim. Melhor ficar de cama mesmo. Eu tomo um banho rápido e já venho deitar um pouco com você. Pode ser? - ele deu um beijinho na cabeça dela e levantou para ir em direção ao banheiro.
- É que… - ela hesitou um pouco, ele parou para esperar ela terminar de falar - talvez tenha outro motivo pra esse meu mal estar.
- É, realmente, se continuar assim é melhor a gente ir pra algum Pronto-Socorro mesmo, melhor prevenir. - ele então entrou no banheiro.
- Não, meu amor. Outra coisa. - ela insistiu - lembra que o meu médico me pediu pra parar de tomar o anticoncepcional por causa dos efeitos colaterais que tavam dando?
Fernando travou no lugar em que estava. Ficou alguns segundos paralisado tentando prever e analisar o diálogo que viria em seguida. ‘Não pode ser, não pode ser, não agora, não agora, por favor, não, não’, seus pensamentos atingiram velocidades altíssimas em poucos segundos.
- E o que que tem? - ele perguntou ainda sem sair do banheiro, mesmo sem querer ouvir a resposta.
- Como assim ‘o que que tem’, Fernando? - o tom de voz de Liliana ficou cansado.
Ele voltou para o quarto, mudou sua feição para algo mais surpreso.
- Eu saí pra ir na farmácia hoje de manhã, depois de passar mal, - ela continuou,  olhando para o rosto dele, Fernando permanecia de pé - eu já estava com alguma desconfiança, eu já estou atrasada 3 semanas, achei que era estresse, mas pra tirar a dúvida eu acabei comprar um teste de gravidez. - ela esticou o braço e pegou o tal teste que estava na gaveta do criado-mudo - E deu positivo.
Ele pegou o teste na mão e afundou na cama ao lado dela.
- Mas isso pode dar resultado falso, não é? Não dá pra confiar só num teste de gravidez de farmácia, né Liliana. - Fernando começou a tremer com o teste na mão.
- Eu tenho certeza que tá certo. Não era pra ser uma notícia tão dramática assim, não é o fim do mundo, se acalma. - Liliana tirou o teste da mão dele e o jogou de volta na gaveta. - Dez anos juntos e você fica todo desesperado com uma notícia dessa, se acalma, Fernando! - ela se levantou da cama e foi para o banheiro.
- Mas Liliana, a gente não tem dinheiro pra isso agora. - ele ficou agitado - Você sabe que eu tô fazendo uns investimentos altos lá no trabalho. - ele disse afobado.
- Se acalma, Fernando! - ela disse brava, ainda no banheiro.
- Tudo bem.. Não tem problema, vai dar tudo certo. - ele disse tentando se acalmar.
- Problema é câncer, Fernando, problema é a fome no mundo. Gravidez dentro de um casamento de dez anos é, no mínimo, previsível.
Ela voltou para a cama e o expulsou do lugar dela, e então se deitou. Pediu para ele apagar a luz e ele obedeceu. Quando Fernando entrou no banheiro, seu celular, que ainda estava em seu bolso, vibrou e ele leu a mensagem. Logo depois entrou no banho e depois foi se deitar ao lado de Liliana. Virado de costas, Fernando ficou encarando o rádio-relógio na sua cabeceira, sem sucesso algum na tentativa de adormecer.

***

Na manhã seguinte, quando chegou em seu escritório, sua assistente lhe passou os recados e avisou que uma mulher insistiu em esperar ele chegar lá dentro de sua sala.
- Tudo bem, Priscila, eu já sabia que ela vinha, obrigada. - ele então entrou em sua sala e logo trancou a porta. - Já te falei que vir aqui no meu escritório não é uma opção, de jeito nenhum.
- É assim que você diz ‘bom dia’ agora? - Isabelle disse, sentada na mesa, de pernas cruzadas com uma saia curta.
- E é assim que você diz ‘bom dia’ também, - ele apontou o dedo para suas pernas - abrindo tudo logo de manhã.
- Eu sei que você gosta. - ela se levantou e foi sentar no sofá. - Vem cá que eu sei resolver o seu mal humor matinal.
- Por que você veio aqui? - ele disse se sentando ao lado dela.
- Eu tava com saudade! Você nem respondeu minha última mensagem ontem à noite, - ela disse entre os beijos que dava no pescoço de Fernando. - fiquei triste! Não gosto de dormir sozinha.
Fernando não resistiu muito e ficou ali no sofá com Isabelle por quase algumas horas. Quando terminaram, Fernando teve que empurrar o sofá de volta para seu lugar. Ele se levantou e começou a se vestir novamente.
- Mesmo assim, você não pode vir aqui, Isa. É perigoso. - ele colocou somente a camiseta e foi sentar em sua mesa. - Acho melhor você ir embora já.
- Mas o melhor ainda não foi! - Isabelle disse, sentando-se no sofá, ainda nua.
- Daqui não sai mais nada, desculpa. - Fernando respondeu já vidrado na tela de seu computador.
- Não é isso, seu bobo! Eu tenho uma notícia. - Isabelle pegou a manta do sofá para se cobrir e se sentou na ponta da mesa dele. - Uma notícia boa!
Fernando respirou fundo antes de responder, ainda não conseguia parar de pensar na noite anterior.
- Não sei se quero saber. - ele finalmente olhou para Isabelle - Ontem foi um dia maluco, eu to com um monte de problema pra resolver. - ele começou a passar a mão pelo corpo dela. - Por que você não vai lá pra aquele apartamento lindo que eu aluguei pra você, fica lá, tranquila, resolve suas coisas, hein? - ele beijou a coxa dela.
- Para de falar, Fernando! Só fala besteira! Deixa eu falar agora. - ela ficou de pé e passou a mão pela sua barriga lisa. - Eu fiz um exame de farmácia ontem. Eu tô grávida! E eu já acho que é um menininho! - Isabelle contou sorrindo.
A única reação de Fernando foi fechar os olhos e colocar as mãos na cabeça.
- Nando! Imagina um Fernandinho aqui? - ela continuou falando e passando a mão em sua barriga.
- Você tá maluca, Isabelle? Como você pode tá feliz com isso? - apesar das palavras fortes, Fernando não foi rude.
- Aí, Fernando, que mulher não quer ser mãe? Me diz?
- Você tem vinte anos, Isabelle! E ainda não tá nem na metade da faculdade que eu tô te pagando! Um bebê só vai atrapalhar a sua vida! - ele ainda continuava sentado, em choque.
- Mas Nando, a gente não vai morar junto? - ela sentou no colo dele - Você me prometeu isso, lembra? Não tenta me enrolar mais uma vez! - ela começou a beijar o pescoço dele - Aquele apartamento precisa de mais gente. Ficar sozinha lá é muito chato.
- Não vai dá pra sair de casa agora, não. - Fernando disse enquanto deixava Isabelle intensificar as carícias.
- Não quero saber de mais nenhuma desculpa! To cansada de ser enrolada, tantos anos esperando esse divórcio que nunca vem! Agora é a hora! - Isabelle parou e encarou Fernando.
- Não dá, simplesmente não dá. - ele hesitou - A Liliana me disse ontem que também tá grávida.
- Eu não acredito! - Isabelle levantou e se afastou - Eu não acredito que você vai inventar uma gravidez pra me enrolar mais uma vez.
- Mas não é…
- Ontem era só “eu te amo” pra cá, “vou pedir o divórcio” pra lá. Chega Fernando, é agora ou nunca! “É claro que eu quero morar com você” - ela imitou a voz dele - e eu ainda acreditando. Mas eu não vou cuidar dessa criança sozinha não!
Fernando tentou abrir a boca pra falar alguma coisa, mas Isabelle emendava uma coisa na outra e não deixava.
- Resolve aí como você vai fazer! Eu não quero saber. Você nem gosta dessa mulher aí. Pegar a novinha de vinte no sofá é fácil, quero ver todo o resto! - Ela começou a se vestir - Então é isso! Ou tem tudo, ou não tem nada! Assume a parte ruim também ou não vai ter mais essas partes boas.
Fernando ficou em silêncio. Isabelle terminou de se arrumar, colocou todas as suas coisas na bolsa e tirou o teste de gravidez. Mostrou pra ele e colocou em cima de seu teclado. Ela agarrou o queixo dele.
- Eu quero você lá no nosso apartamento no final desse mês. Eu não quero saber como.
Ela tascou um beijo demorado nele, pegou sua bolsa e jaqueta e saiu do escritório.

***

Isabelle entrou na farmácia já falando alto demais.
- Oi, moço, eu preciso de um teste de gravidez. Não precisa ser caro, não, o mais baratinho tá ótimo.
Ela percebeu o olhar de reprovação vindo de uma mulher que estava ao seu lado.
- Desculpa, moça, a senhora tava na fila? Às vezes eu sou meio atrapalhada mesmo. - a mulher não respondeu e voltou a olhar para o pacote que estava em suas mãos - A senhora também tá nessa? - ela apontou para o pacotinho.
- É, acontece né. - a senhora foi monossilábica, sorrindo gentilmente.
- Pois é, pra uma senhora distinta como a senhora parece que é, deve ter um marido ótimo, não é? Não deve ser uma desgarrada que nem eu.
- Ah, sim, eu sou casada sim. - ela continuou sorrindo - vamos completar 10 anos de casados daqui a pouco.
- Não disse? Dá pra ter certeza que a senhora é uma mulher decente. Eu não, comigo o esquema é outro. - Isabelle riu alto. - Foi tudo planejado, não foi?
- Não, muito, não - a senhora se mostrou um pouco abatida - talvez nós não estejamos mais no momento certo pra isso.
O farmacêutico trouxe uma caixinha com o teste de gravidez mais barato que tinha. Isabelle o pegou nas mãos e olhou todos os lados.
- E ainda deve ser caro isso aqui. Já vai pro caixa? - Isabelle perguntou pra senhora e ela acenou que sim. - Ah, mas será que uma criança não vem pra salvar o casamento, não?
- Difícil dizer nesse momento, eu ainda estou mal do enjôo matinal. - elas foram se direcionando para o caixa.
- Ainda sim, a situação da senhora é bem melhor que a minha, isso aqui - Isabelle levantou a caixinha - é que vai me garantir um futuro melhor, um futuro sem perrengue, sem estresse. Isso aqui é pra agarrar o homem de vez. - as duas riram juntas.
Isabelle passou primeiro no caixa e a senhora logo em seguida. A conversa se interrompeu até que elas se encontraram de volta do lado de fora da farmácia.
- A senhora vai para que lado? - Isabelle perguntou.
- Pra esse aqui - a senhora apontou para o lado que estava de costas.
- Que pena, eu preciso ir pro outro. Mas foi uma boa conversa. Aliás, meu nome é Isabelle.
- Prazer, Isabelle. O meu é Liliana.
Isabelle congelou por alguns segundos, até Liliana acabou notando.
- Tá tudo bem? - Liliana perguntou.
- Tá sim - Isabelle respondeu voltando a realidade - Minha avó chamava Liliana, acho um nome muito lindo. Mas é isso então. Até uma próxima vez, Liliana!
- Até qualquer hora, Isabelle.

Elas se comprimentaram e Isabelle assistiu Liliana ir embora de costas, ainda chocada com a coincidência.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Relaxa

Escrito por Pedro Henrique Silva

- Bom dia, Cris. Como vai você? – Disse Frida ao me acordar, às 7h, com “Hard day’s night” como de costume, todas as quartas, claro.
- Bom dia, Frida. E hoje? O que temos? – Perguntei a ela enquanto ela já apagava novamente a luz do quarto e projetava na parede minha agenda.
- Não! Quero saber para o café da manhã!
- Na geladeira há iogurte novo. Há também várias frutas novas. O senhor poderia fazer uma salada de fruta.
- Ué? Não tem bacon?
Frida não respondeu
- Frida. Não tem bacon na geladeira?
- Sim, Cris.
- Maravilha. Então, me fala a agenda.
- Você tem uma reunião com o Sr. Fernando na obra, depois um almoço com a Paula... E um ingresso para o jogo do Palmeiras a noite.
- Nada à tarde?
Mais um silêncio
- Frida, alguma coisa a tarde?
- Não!
- E como assim, “ingresso”? Eu vou ao jogo do Palmeiras. É semi final da Libertadores? É contra o Corinthians! Como eu não vou?
- Sim, Cris. Nada a tarde e o jogo do Palmeiras às 22h.
Não entendi muito bem as pausas de Frida. Vai ver foi algum erro. Desde a atualização do último fim de semana, alguns usuários da estavam reportando erros estranhos na programação de Frida. Mas como eu sempre fui muito influenciável, preferi não abrir as notícias mas ficar alerta para qualquer problema. Essas pausas e essas informações estranhas poderiam ser só os engenheiros tentando mostrar os novos recursos que inseriram na IA deles.
           Mas confesso que depois de duas horas eu já havia esquecido totalmente aqueles pequenos erros e já estava nervoso para a reunião com o Fernando. Daquela vez eu não seria perdoado. Claro que foi só um problema com um funcionário que fez merda. Mas como fui eu quem o recomendou, eu poderia ter algum problema. Talvez eu estivesse sendo paranoico. Enfim, a economia estava ruim, ser demitido agora não seria nada bom. Principalmente com o casamento.
- É sério, Cristiano? Não. Relaxa. Você anda muito nervoso. – Disse Fernando com um sorriso no rosto
- Desculpa, chefe. Muita coisa na cabeça.
- Só te chamei para conversarmos sobre as luzes. Você recomendou Led com resfriamento líquido. Mas assim, eu gosto muito de Luminescência por elétrons.
- Com todo respeito, senhor, as Lâmpadas Switch duram bem mais.  20 anos .
- Eu sei... mas assim, essas VU1 são bem mais bonitas, e podem até durar a metade do tempo, mas são mais forte e custam menos.
- Olha, senhor, essa dúvida também me deixou sem dormir, confesso. Mas…
- Pera, você ficou sem dormir para escolher a lâmpada?
- É, porque? Você não?
- Claro que não, Cristiano. Nossa, desculpa. Eu te dei essa folga de quarta para te aliviar um pouco, mas eu mesmo já tirei você do descanso. Poderia ter só ligado. Desculpa. Você tá mesmo precisando relaxar, cara.
- Desculpa, Fernando. Essa é a obra mais importante da minha vida, e…
- Parou! Vamos fazer assim, confio no seu julgamento. Usemos as Switch. E você está proibido de pensar nessa obra às quartas. Desculpa, eu errei.
- Tudo bem. Magina. E sobre ontem…
- Ai, Cris, relaxa, cara. Aquele cara te desrespeitou. Você tinha que demitir. Fica tranquilo.
- Ok! Beleza
- Vá pra casa. Pega a Paula, vai jantar com ela.
- Sim sim, vou almoçar com ela, na verdade. Porque a noite tem.
- Oi?
- Tem porco, Fernando.
- Ah, a semifinal é hoje, né? Eu não to ligado esse ano.
- Sei, sei. –  Fernando era São Paulino.
- Acho que dessa vez o Palmeiras perde, viu? Cuidado aí – Disse Fernando me provocando.
Me despedi de Fernando e fui dirigindo pra casa. Eram 10h15 mas eu confesso que já estava ansioso para me encontrar com Paula. Foi quando Frida me deu um aviso.
- Cris, há trânsito na Paulista agora. Sugiro que vá pela Alameda Jaú.
- Essa hora? Porque?
- Manifestação.
- Ok. Vou confiar em você, Frida.
- Sempre, Cris. – Disse Frida num tom que nunca tinha usado antes. Parecia meio triste. Pensei em perguntar se estava tudo bem. Mas qual o sentido de perguntar para uma IA se ela estava bem?
Seja qual for a manifestação na Paulista, ela estava muito silenciosa. Afinal, eu ouvia quase nada da Jaú, o que não é lá muito estranho.
Quando eu passava pela Haddack Lobo pensando em como eu diria para Paula que eu não gostava dos arranjos de flores e em como eu estava a evitando desde ontem quando vi aquelas petúnias roxas num filme de terror, um ônibus não parou no farol e pegou o Focus que estava na minha frente. Foi leve, o ônibus conseguiu frear a tempo e apenas levou por alguns metros o cara. Não dá pra dizer que foi só um susto, afinal houve o impacto e o carro ficou meio feio do lado do passageiro, mas não chegou a capotar e ninguém chegou a se ferir, já que o ônibus estava vazio.
Mas aquela situação fez meu coração disparar e eu perdi o ar por alguns segundos. Inclusive, o motorista do Focus parecia mais tranquilo que eu quando saí do carro para brigar com o do ônibus.
- Tá maluco? Vai matar todo mundo assim!- Meu celular vibrava. Mas eu mal percebia.
- Desculpa, desculpa. Mas eu tinha certeza que o farol tava verde.
- VERDE? CLARO QUE TAVA. E todo mundo aqui é imbecil
- Relaxa, cara – disse o motorista do Focus. – Bem, bem, mais tranquilo que eu.
- É cara, nem foi em você que eu bati. – Disse o motorista do ônibus.
Fiz um gesto bem irritado e me afastei. O celular ainda tocava. Quando peguei eram 12 sms de piadas. Sim. Era como se eu tivesse assinado aqueles serviços antigos de piadas por mensagens. Algumas eram realmente boas. Ri de algumas. Vai ver alguém mandou errado para meu número. Quando eu me dei conta que eu tinha surtado uns minutos antes com o motorista do ônibus e o do carro. Fui me desculpar. Até porque eu deveria esperar a polícia chegar para prestar o depoimento. Engraçado é que eles foram até rápidos.
Quando me desculpei parecia que eu estava lidando com os dois motoristas mais calmos de São Paulo. Um estava apenas testando um novo ônibus. O qual, aliás, ficou intacto. Acho que era uma nova tecnologia na carroceria. O motorista do Focus me contou que ele estava bem tranquilo no quesito carro. Parecia ser bem rico.
Me despedi dos dois depois de falar com o policial que o semáforo estava aberto para nós. Pelo jeito foi um erro no farol. Pois a câmera do ônibus também indicou que ele não avançou o sinal. Um técnico já estava a caminho. Disseram que em 2 horas tudo estaria normalizado.
Já era 10h30 e eu pensei em ir direto para o restaurante. Mas ia chegar cedo, contudo, Deus lá sabe quantos faróis eles iam ter que rever. E com a manifestação sei lá. Era melhor eu ir direto, quem sabe a Paula não chegasse mais cedo também?
- Frida, liga para a Paula.
Nada
- Frida?
- Cris, há um congestionamento na Alameda Tietê e na Alameda Lorena. Sugiro que, para chegar no Bistrot, você use a Rua Uruguai.
- Ok, Frida. Mas liga para a Paula, por favor.
- Sem rede, Cris.
- Mas como, Frida?
- Sem serviço da sua operadora.
- Ok, então como eu falo com ela?
- Tente novamente mais tarde.
- CARAMBA, FRIDA. – Gritei enquanto parava em frente a um orelhão na Oscar Freire. Tentei usar mas sem muito sucesso. Eu tinha esquecido como se fazia ligações a cobrar. Foi quando uma moça saiu da Starbucks.
- Cristiano Altherfeider?
- E quem é você?
- Me pediram para te entregar isso.
- Quem?
- Foi um pedido para entrega aqui na esquina. Foi uma mulher.
- OI?
- Vai ver alguém está fazendo uma brincadeira com o senhor. Aqui, já tá pago - e me deu a moça visivelmente apressada. Ela voltou correndo para a loja. Era um suco de maracujá. Entrei na Starbucks atrás da atendente.
- Ei, desculpa, mas quem te ligou mesmo? O nome dela era Paula?
- Não, senhor. Ela não deu o nome.
- Vocês recebem pedidos assim?
- Então, aqui é comum as pessoas das lojas da rua pedirem pra gente entregar.
- Não. Eu sei disso. Mas na esquina?
- Ah senhor, a gente não questiona muito. Se ligam e pagam a gente leva. Esse é nosso lema. – Disse ela me mostrando na parede. Acho que eles tinham adotado em 2020.
- Quando foi que te ligaram?
- Há uns 5 minutos
- Mas eu acabei de chegar aqui. – Disse eu, percebendo que a moça não estava muito a fim de falar. Eu estava atrasando a fila dela. Saí de perto extremamente intrigado. Voltei ao carro em direção ao Bistrot. Sem entender nada, só deixando Frida me guiar. Mas o suco estava realmente bom.  Dei uns goles nos faróis.
- Cris, como o restaurante ainda não está aberto, o que acha de estacionar o carro em um estacionamento na Rua Padre João Manuel e ir andando até lá?
- Boa ideia – Eu estranhei meu humor para caminhar. Não gostava de andar. Nada! Mas me pareceu realmente uma boa ideia.
Quando estava já na Padre João e a Frida não me dizia onde raios era esse estacionamento, me lembrei que a clínica que eu frequentava desde criança ficava lá.
- Em 150 metros você chegará ao seu destino. – E me parecia que era exatamente para lá que Frida me levou. Para a Clínica Saudar.
- Frida? É aqui que eu tenho que parar?
- Sim, Cris. Seu exame é às, 11h com o Doutor Ishiba. Sugiro que você entre.
- Não, Frida. Eu tenho um almoço com a Paula. E eu não marquei nada.
- Análise do seu comportamento e de sua saúde indicam que você pode sofrer um ataque cardíaco...hoje, às...23h58... horário Brasileiro de Verão.
- Oi?
- Cris, há um Eletrocardiograma marcado para às 11h na Clínica Saudar.
- Mas Frida. Pera, você que pediu meu suco de maracujá?
Silêncio
- Frida, foi você?
- Sim, Cris, há um Eletrocardiograma marcado às 11h na Clinica Saudar
- Não tem manifestação nenhuma, né?
- Não. Eletrocardiograma para às 11h na Clinica Saudar
- Pera, o acidente. Foi você quem causou?
- Sim. Eletrocardiograma 11h Clinica Saudar.
Saí do carro. Fiz o exame. O médico disse que era possível prever que eu tinha 80% de chances de ter um ataque cardíaco logo, caso fosse submetido a um estresse extremo. Precisava ficar no hospital por precaução por aquela noite.
Enquanto esperava os procedimentos da internação comecei a refletir sobre o que Frida havia feito durante todo o dia. Ela cuidou de mim. Mas para isso causou alguns prejuízos no caminho. Acho que tudo bem, já que pelo jeito não foi nada grave, mas me peguei pensando no poder que ela tinha. Na quantidade de coisas que havia previsto e feito. Qual a liberdade dela? Mas antes de pensar mais ainda sobre isso fui dopado. Eram 12h30. Confiei que Frida avisaria Paula.
Acordei com fogos, às 0h30. Paula ao meu lado. Ela sorria.
- Não sei se é a hora certa de te avisar. Mas acho que é melhor do que você ficar nervoso para saber logo. Tenho uma novidade MUITO engraçada para te contar. -  Paula era Corinthiana.