sexta-feira, 23 de março de 2018

Matrioscas Lunáticas (2/2)


                                                            Escrito por Pedro Henrique Silva
Muitas estratégias foram usadas nos interrogatórios. Muitos minutos se passaram. Mas Teodoro foi incapaz de descobrir qual (ou quais) deles era portador do vírus. Ou, é claro, se de fato algum deles estava infectado. O vírus era contagioso e muito civis estavam todo dia apresentando mais sintomas. Contudo, havia muitas possibilidades, uma delas era que, de alguma forma, humanos de outros planetas serem imunes. Faltavam estudos sobre a doença, e era arriscado trazer qualquer indivíduo de Triston 4 ou Triston 5.
Maria foi a última entrevistada e Teodoro saiu da sala decepcionado, convencido de que não poderia ajudar, de que seria muito complicado, ou quase impossível, encontrar o vírus. Triste inclusive que ninguém tenha pensado em quão difícil seria descobrir essa informação. E que provavelmente ele teria problemas, justamente porque seu chefe não seria capaz de se colocar no lugar de Teodoro. Porém, como um Mini dragão de Alfa Proxima, a estratégia perfeita parece ter cruzado sua cabeça bastante rápido, como se estivesse ali o tempo todo o esperando cometer um erro. Ele apelaria à estratégia mais piegas. Sorriu, e voltou à sala:
- Você quer ouvir uma história? – Perguntou a Maria.
“Um bom cientista submete os indivíduos a um mesmo teste, e analisa os resultados diferentes que estes lhe entregam, sob as mesmas circunstâncias”. Sob essa máxima, Teodoro contou a mesma situação aos quatro. Um de cada vez:

- Em Luna recebemos todo tipo de pessoas, você deve saber bem. Acontece que muita gente chega aqui pra ir a outro lugar. Dificilmente são pessoas que chegaram a Luna para ficar em Luna. O que nos dá um caráter meio único entre os grandes centros da história. Todos vêm a Luna, mas quase nunca Luna é a última parada.
Um dia, uma jovem foi levada à minha sala. Estava olhando para o chão, mas não parecia ser tímida. É aquela expressão típica de adolescentes de “Te odeio então não vou olhar para você”.  Mas tinha algo ali. Havia uma tristeza. Um remorso talvez.  Ela tinha 17 anos, e estava com um bebê no colo. Ele deveria ter uns 3.
Perguntei se o bebê era seu filho. Mas foi em vão. Ela pareceu nem ter me ouvido. Nem levantou os olhos. Me apresentei. Disse que era agente de imigração de Luna. E perguntei para onde ela queria ir. Não tive respostas.  A moça nem fazia menção de que iria começar a falar.
Comecei então a dizer o que eu sabia sobre ela. Prefiro que vocês me falem sobre vocês mesmos. Mas nesse caso, alguma comunicação precisava ser estabelecida. Aquele bebê era seu irmão. Seu nome era Enrico. Eles estavam ali porque foram encontrados na área de carga de uma nave comercial que saía de Yuntur, um planeta que ficava no sistema Hodney, bastante perto do nosso. Seu padrasto tinha morrido. Desde então descobriram que ela havia sabotado o Mini tanque de Oxigênio que todo mundo em Yuntur tem que usar para sair de casa. As casas têm Oxigênio, as ruas, não.
Mais uma vez Amanda nem olhou na minha cara. Parecia ainda irritada comigo. Como se eu representasse algo contra o que ela estava lutando. Sinceramente, desde que bati meus olhos nela, ela não me pareceu o tipo de garota que mata alguém, quanto mais o padrasto.
Foi quando ela, para minha surpresa, olhou nos meus olhos e disse:
“É engraçado que alguém que sabe quase nada da minha história vai julgar se eu e meu irmão devemos ou não entrar na Terra. Geralmente os julgamentos têm juízes, júri e advogados”.
Nunca esquecerei dessas palavras. Fiquei sem reação por um instante. De fato, eu estava ali julgando o destino de uma menina, sem direto a apelação, defesa... nada. A lei não era muito clara nesse sentido, mas a polícia de nenhum planeta tinha jurisdição aqui. Claro que eu poderia extraditá-la como inclusive a polícia de Yuntur me recomendou. Mas eu podia simplesmente deixa-la entrar na Terra. Não seria punido. No máximo receberia um recadinho malcriado do governo do país de Yuntur onde Amanda vivia. Mas não receberia castigos.
Resolvi que o melhor seria pedir para que ela mesma me contasse a história dela. Insisti um pouco, até que ela finalmente me olhou com uma expressão um tanto mais receptiva e começou. Ela me contou que León, seu pai, abusava dela desde que ela tinha sete anos de idade. Ela tentou escapar várias vezes, mas cada vez que ela não conseguia era pior. Ele a massacrava e depois a estuprava. A mãe sabia de tudo, mas era incapaz de lutar. Assim foram por cerca de sete anos. Nos três anos seguintes tudo mudou. John nasceu. Agora havia mais despesas na casa, e León ordenou que a mãe de Amanda trabalhasse. E foi o que ela fez. Mas para isso León teve que comprar um Mini-Tanque para que ela pudesse sair de casa, finalmente. Contudo, o emprego dela não era integral como de León. Ela trabalhava em uma fábrica de naves perto de casa. Era secretária de um dos chefes de lá, e como ele não trabalhava todo dia, já que a fábrica meio que tomava conta de si mesma e quase não havia funcionários, ela ficava muito em casa. Isso foi fundamental, uma vez que deixou Amanda com a possibilidade de analisar de muito perto um tanque de oxigênio. E depois de três anos, ela conseguiu fazer um tanque, o qual permitia que duas pessoas o usassem por 20 minutos, mais que suficiente para chegar no espaço-porto mais perto de casa.
A eloquência com a qual ela contou a história me fazia acreditar que de fato ela teria construído um pequeno tanque de Oxigênio com materiais reciclados, como partes de carro usadas de León, copos que ela roubava da cozinha e até materiais orgânicos.  O que faria dela um gênio.  Era um absurdo. Mas ela estava deixando de lado um detalhe muito importante. O assassinato do padrasto.
Ela me disse que os mini-tanques funcionavam com um sistema de recarga, ou seja, antes mesmo do suprimento de Oxigênio acabar, o tanque já começava a recarregar. Esse componente era de um metal raríssimo encontrado em uma das luas de Centaurus. Justamente pela falta dele que o tanque de Amanda não durava mais que 20 minutos. Amanda não podia usar o aparelho em seu próprio tanque, mas ela podia tirá-lo do de Leon. Porém, segundo ela, desistiu de fazê-lo porque não era assassina. Mas um dia, quando ela já estava quase pronta para fugir, viu que León abusava também de John.
Aquilo me tirou o chão. Como eu poderia condenar uma moça que foi abusada por um padrasto por tanto tempo? E ainda, como condenar uma menina que viu seu irmão ser abusado? Aquilo estava acima de mim, mas era eu quem tinha que lidar. Nunca fiz curso de psicologia infantil. Não sei os efeitos daquela violência a longo prazo. Eu não sabia o que fazer. O que você faria? – Perguntou Teodoro a Maria, Michael, Fernandes e Jonas, separadamente.
Depois de muito pensar, Maria finalmente respondeu:
- Eu acho que mandaria ela de volta à Yontur. Entregaria ela a polícia. Duvido que ela seria presa. Se ela contasse a história, e se a mãe também o fizesse, certeza que ela receberia uma pena simples. Nada de grave. Voltaria a mãe, que provavelmente estava já enlouquecendo, afinal ela estava em um relacionamento abusivo.
Já Jonas, pouco pensou, e respondeu:
- Não faço ideia. Mal consigo pensar como seria tomar uma decisão como essa. Temos de um lado Amanda e do outro a Justiça. Acho que você poderia deixar ela em Luna, passa-la com uns psicólogos. Cuidarem dela e do bebê. E é claro, pedir pra polícia de Yontur vir aqui interrogá-la. Sempre com um psicólogo. Essa menina não precisa de advogados, mas de alguém que saiba ajudá-la de verdade. Mas sei lá, nem sei o que você pode fazer. Digo, qual a sua autoridade aqui.
Fernandes também não gastou muito tempo em silêncio e disse:
- Deixa ela ir pra Terra. Cara, foi legitima defesa. Ela não cometeu crime. Manda ela pra Terra e pronto. É o que ela quer. É o que você pode fazer. Vá em frente. Ela vai pra Terra.  Não faz sentido ela ser presa por isso. O que esse León fez não chega aos pés do que ela fez. Ele mereceu.
Michel respondeu:
- Acho que você poderia manda-la de volta a Yontur. Sei que lá tem excelentes reformatórios. Mandá-la de volta só se ela pudesse ficar em um desses. Ela não vai escapar da condenação. Mas ela precisa estudar. Ela é um gênio. Criar um tanque de O2 assim? De forma caseira? Ela pode mudar o mundo.
E assim, quando ouviu Jonas falar, concluiu que com toda certeza sabia quem estava demonstrando sintomas de infecção. Os chamou pela última vez.
- Seguinte, senhores. Sem mais delongas: Se eu tivesse que fazer um palpite, o que de fato meio que tenho que fazer, diria que Fernandes está infectado.
- Como é? – Gritou Fernandes.
- Um dos sintomas do vírus é a falta de empatia. Quem inicia uma guerra não consegue se colocar no lugar do outro. Não pelo menos quando está portando o vírus espartano. E sem a menor dúvida você é o que menos demonstrou empatia com Amanda, com sua mãe, ou com o Bebe. Mandar a menina à Terra? Como ela vai sobreviver? Em que condições? Não tem cabimento.
- Conheço várias pessoas que diriam o que ele falou – Disse Maria.
- Pode ser. Mas assim, preciso indicar alguém que mais provavelmente esteja infectado. O único que me deu motivos pra crer que estava foi Fernandes.
- Mas isso é um absurdo.
- Calma, Fernandes. Nada vai acontecer com você. Ou melhor, nada de muito diferente do que acontecerá conosco.
- Conosco? – Perguntou Michel
- Exato. Conosco. Fomos todos expostos ao vírus. Todos precisamos fazer testes e ficarmos isolados em Florto, a lua de Saturno que é uma base médica. Se algum de nós não está infectado, podemos ser imunes, precisamos ser estudados. Se algum de nós vier a desenvolver a doença, podemos ajudar a descobrir o tempo de incubação.
A notícia surtiu poucos efeitos nos quatro. Fernandes parecia irritado, mas sem dúvidas estava em um estágio inicial da doença. Um que em breve provavelmente todos estariam. Todos perceberam que a situação era de fato irremediável.
- Mas que vocês vão fazer comigo? – Disse Fernandes
- Bom, meu trabalho aqui era definir quem eu acho que está com o vírus. Você tem que viajar separado da gente, porque precisam duas pessoas para iniciar um conflito. Se alguém de nós chegar no nível de infecção que acredito que você esteja, podemos nos matar todos na nave.
- O que aconteceu com Amanda? – Perguntou Michel surpreendendo Teodoro.
- É... Bom, eu a mandei de volta ao seu planeta. Mas fui junto. Ser de Luna dá algumas vantagens. Conversei com todos os policiais e fiquei até o fim do julgamento. Ela foi condenada, mas cumpriu pena em um reformatório. – disse apontando a Michel – O melhor do planeta. Perdi contato com ela e seu irmão desde então. Difícil manter em dois planetas distantes. Acho que faz vinte anos toda situação. Ele foi um dos meus primeiros casos. Aliás, sabem quem é a médica chefe de Florto? – perguntou Teodoro.
- Amanda? – Perguntou Maria.
Teodoro sorriu para eles e disse:

- Não, eu realmente não sei quem é, mas seria irônico se fosse, né?



sexta-feira, 16 de março de 2018

Matrioscas Lunáticas (1/2)


                                                             Escrito por: Pedro Henrique Silva
Quando o chamado chegou no comunicador da Torre F do terminal principal do Espaço-Porto de Luna obviamente Teodoro Romanov foi chamado. Era uma situação extremamente complicada. Não era todo dia que uma das maiores ameaças à segurança da Terra chegava em Luna. Pelo menos era assim que os jornais chamavam o caso da Nave RTNH-42 que atracaria no porto de Luna. E quem deveria ser chamado senão Teodoro, o melhor e mais experiente agente da alfândega que já houve? Pelo menos era assim que os outros agentes o chamavam.
Ele sabia exatamente com o que estava lidando. Teve bastante tempo para pensar nas implicações de aceitar aquela missão. O Sistema Tristoniano, que era de onde partira a nave, ficava um pouco longe. Foi apenas no dia da chegada da nave, porém, quando ainda estava pensando se aceitaria ou não, que finalmente tomou sua decisão. Viu a Matriosca que mantinha em sua mesa para se lembrar das suas raízes. Em Luna, era difícil não perder a noção de onde veio. Percebeu que ser russo significava não desistir. Não fugir das ameaças de fora, nem de ser exilado. Saiu de sua sala e foi recepcionar os quatro.
- Ok, meu nome é Teodoro Romanov, e quero conhecer vocês melhor. Mas antes preciso passar a situação a limpo, por uma questão burocrática. Acho que vocês vão entender. – Disse Teodoro que usava suspensórios azuis (os quais faziam a curva em sua barriga avantajada) e óculos de grau pretos. Parecia mais velho do que era, apesar de ter feito a barba de manhã, justamente esperando a exposição na mídia que o caso teria.
Sua aparência não intimidava ninguém de um modo convencional.  A questão aqui era que Teodoro parecia bastante sábio.  Foi exatamente a impressão que tiveram aquelas quatro figuras que o observavam na sala de interrogatórios do setor de imigrações ainda dentro do terminal do espaço-porto. Essa possível sabedoria de Teodoro seria uma característica que quatro professores saberiam muito bem valorizar.  
- Sabemos de tudo. Mas se o Senhor acha que é importante. – Disse um dos homens. O qual aparentemente tinha certa autoridade entre eles.
- Sim. É. O senhor é...? – Perguntou Teodoro
- Meu nome é Michael. Prazer. – Disse o homem que usava um sobretudo preto. Era alto, mas não parecia ameaçador.
- O senhor não é o piloto da nave? – Perguntou Teodoro.
- Não. Ele é. Jonas. – Apontou para um outro homem que ficara um pouco mais atrás e que parecia tímido. Era gordo e estava com uma calça jeans e camiseta. – Mas eu sou o dono dela e também professor de matemática.
- Então, senhores Michael e Jonas. Prazer. Já volto a vocês. Bom, vamos lá. – Disse Teodoro olhando para seu caderno – Vocês estão retidos aqui porque saíram de um lugar de risco. Vocês possivelmente foram expostos ao Vírus Espartano, e não podem entrar na Terra até que descubramos se estão ou não livres dele. É uma situação muito complexa e espero que entendam.
- Não há um exame clínico? – Perguntou uma mulher.
- E você, quem é?
- Meu nome é Maria. Sou professora de Biologia – Disse ela com um sorriso se dando conta que não possuía nenhum outro título que fosse necessário mencionar, a não ser a matéria que lecionava.
-  Prazer, Maria. E não, não há um exame clínico. Há sintomas, mas não há um jeito de checar o sangue de vocês e saber se estão infectados ou não, se foi isso que a senhora perguntou.
- Entendo. E os sintomas? – Perguntou Maria.
- Já chegamos neles. Me deixe terminar. – Disse Teodoro voltando ao caderno – Entrevistarei vocês. Conversaremos primeiro como um grupo e depois individualmente. O que não podemos é deixar que esse vírus chegue à Terra. – Esperou ser interrompido novamente. Já que não foi, continuou – Me expliquem a história de vocês.
- Posso? – perguntou Michael
- Eu espero que todos participem da conversa.
- Mas posso começar? - Disse Michael.
- Naturalmente.
- Ok. Chegamos há dois meses em Triston 4. Era um lugar lindo, o senhor deve se lembrar. Íamos passar duas semanas lá.
- Férias?
- Não. Trabalhamos juntos. Confraternização.
- Em...julho?
- É que somos professores.
- Ah, ok. Tudo bem.
- Então, quando chegamos lá, não deu...dois dias? – Perguntou aos colegas. Dois deles confirmaram. Maria e um outro ao seu lado – Dois dias, e estourou a guerra. Ficamos escondidos por um tempo no hotel. Nem saíamos dos quartos. Foi um milagre. Vários outros prédios acabaram sendo derrubados.
- Sim, sim, sim. Sinto muito. Aliás, me desculpem, mas nenhum de vocês morreu? Aqui está todo grupo? – Perguntou olhando para o rapaz ao lado de Maria.
- Sim – Maria respondeu - fomos nós quatro. Voltamos nós quatro.
- Vocês já não tinham essa informação? – perguntou o homem ao lado de Maria.
- Escute senhor... – Olhando para o caderno – Fernandes – Disse vendo uma expressão curiosa no rosto do rapaz – Eu tenho várias informações. Não sei se vocês sabem, mas a notícia da chegada de vocês foi amplamente divulgada. A Galáxia sabe meio que tudo sobre vocês. Mas, entendam por favor, eu quero ouvir de vocês.
Novamente esperou alguma réplica. Não recebeu. Ele trataria todas as grosserias e respostas atravessadas da mesma forma. Rudemente. Eles talvez tivessem ideia de quão difícil foi evitar que eles fossem simplesmente destruídos do céu. Na verdade, Teodoro os defendeu com tudo que tinha.
- Ninguém vai continuar? – Perguntou Teodoro
- Ah, ok. – Seguiu Fernandes - Então, quando descobriram a doença, controlaram tudo, negociaram o cessar-fogo entre os dois planetas e o resto é história.
- Ok. Vocês fugiram como?
- Não fugimos. A guerra acabou. Simplesmente saímos. Não sabíamos que não podíamos. A nave é particular.
- Vocês não sabiam que o que causou a guerra foi um vírus? Um que deixava as pessoas extremamente propensas a começarem conflitos?
Ninguém respondeu. Todos olharam para Michael.  
- Entendi. A questão é: Vocês sabiam muito bem que um vírus daquele não podia chegar na Terra, ou em qualquer outro lugar. Até porque, só há humanos no sistema de Triston.  Mas mesmo assim arriscaram. – Parou e prestou bem atenção na reação de todos. Os três homens pareciam incomodados, Maria, não muito - Vocês podem ir até aquela outra sala. É a porta à esquerda. Todos menos o Senhor Michael. Vou começar com o senhor.

Todos saíram e estremeceram. Havia duas paredes brancas, parecidas com campos de força, isolando à esquerda e à direita. Elas eram translúcidas, e era possível ver vultos, dezenas deles, atrás de cada uma delas. Só duas salas podiam ser acessadas. Havia uma porta do lado esquerdo, como Teodoro falara, mas de frente com a sala que eles estavam também havia uma.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Os lobos e o velho


                                                                                   Escrito por: Pedro H. Silva
                As galinhas eram deliciosas. Mesmo magrinhas, mesmo servindo apenas para a produção dos ovos da fazenda, elas davam uma belíssima refeição. Felipe e os outros cinco lobos de seu bando escolhiam com cuidado suas vítimas. Alguns deles já com elas na boca sinalizava para que os outros escolhessem logo e partissem. O homem estaria chegando. Quando todos estavam segurando as galinhas pelo pescoço, a porta se abriu, e a sombra do velho já podia ser vista. O tiro de sua espingarda era ouvido claramente.
                Era sempre excelente quando o dono da fazenda viajava. Geralmente ele ficava umas duas ou três semanas fora, e quem ficava cuidado da casa era o pai dele. Um velho que mal sabia operar a espingarda. Era dele a tarefa de proteger a família, as vacas, os bois, os porcos e as galinhas. Essas últimas eram a paixão do bando de lobos que morava na floresta do lado da fazenda. A pequena alcateia – composta por seis lobos – sempre invadia o galinheiro.
                O tiro passou longe, bem longe dos lobos. O velho não aguentava o coice da arma e já estava de bunda no chão. Os lobos aproveitaram, saltaram pela janela que sempre era remendada, mas que nunca continha o ímpeto dos animais. E quando o velho se levantava não havia mais nenhum lobo aí. Só o resto das galinhas que continuavam a gritar.
                A questão é que aquele não era o único galinheiro. Havia outros três. Cada um com galinhas melhores. Todos um ao lado do outro. O mais próximo da casa era o melhor, com as galinhas mais gordas, as quais os fazendeiros vendiam. Seja quem fosse que estava guardando a casa sempre chegava lá muito rápido. De modo que uma invasão era bastante arriscada. Mesmo com o velho cuidando. Um roubo ao segundo, o qual ficava no meio e protegia as galinhas que serviam para consumo da casa, também era um pouco arriscado. Muito difícil de invadir com o jovem lá. O velho, porém, traria apenas eventualmente problemas.
                Felipe queria invadir o segundo galinheiro. Era mais protegido e os riscos eram maiores. Mas a recompensa era bem melhor. Marcos, o líder do bando, discordava frontalmente. Por melhores que pudessem ser as galinhas do primeiro, o ideal era se deliciar com as do terceiro enquanto era fácil. Marcos gostava de aproveitar a ausência do jovem assaltando o terceiro com tranquilidade. Sem precisar se preparar, observar e se preocupar enquanto roubava as galinhas. Já Felipe achava que eles tinham que ir além e tentar pelo menos o segundo. O velho poderia chegar lá bem mais rápido, mas seria como assaltar o terceiro com o jovem morando. Arriscado, mas possível.
                Finalmente, depois de alguns dias tentando convencer os lobos, Felipe conseguiu sua chance de invadir o segundo. Marcos precisou tomar essa decisão, uma vez que os outros lobos já estavam começando a apoiar Felipe. Marcos liderava a matilha há alguns anos. Felipe não demoraria muito para desafiá-lo, mas Marcos queria evitar um confronto maior, que envolvesse outros lobos. Enfim, naquela noite eles finalmente conseguiram entrar no galinheiro. A porta era mais forte e mais nova, contudo, havia um acesso por uma janela um pouco frouxa, na parte superior. Era um pulo difícil, mas os lobos estavam acostumados com aquele tipo de esforço. Todos conseguiram sem grandes problemas.
                Quando chegaram, Felipe se viu no paraíso. Eram galinhas bem mais gordas que as que só serviam para dar ovo. Ele mal conseguia escolher. Tantas... Todos os lobos já estavam em vias de pegar as galinhas, quando o velho entrou no galinheiro. O primeiro tiro foi um pouco menos desastroso. Não chegou perto de nenhum lobo, mas o velho não parecia tão inapto como da primeira vez. Havia um ódio em seu olhar. Como se ele não acreditasse na ousadia da matilha. E dessa vez o velho conseguiu se recuperar e atirar uma segunda vez. Mas os lobos já estavam, cada um com sua galinha na boca, pulando para a janela. Felipe foi o terceiro. Marcos o último. Mas todos conseguiram chegar ao chão do lado de fora em segurança. Não antes de ouvir o terceiro tiro passar zunindo pela orelha deles, abrindo um buraco grande no galinheiro. Ao chegar na caverna onde dormiam, os lobos não seguraram aquela espécie de entusiasmo nervoso. Um misto de medo de felicidade. Chegaram ilesos, mas a dificuldade os fez refletir se teria valido a pena.
                Então começavam os paradoxos. Porque os outros lobos, mesmo tendo saboreado incrivelmente suas galinhas, achavam que seria um erro voltar ao segundo. O velho chegara muito rápido. Foi um risco que valeu a pena, claro. Mas quem sabe se o velho da próxima vez não estaria muito mais pronto?  Já Felipe só conseguia pensar no tamanho nas galinhas do primeiro galinheiro. No tamanho e na quantidade. A sua parecia magra agora. Aquela que ele comia não tinha o gosto que as do primeiro deveriam ter.
                Na noite seguinte os lobos invadiriam o terceiro novamente. Era necessário aproveitar, uma vez que o jovem já estava por voltar. Provavelmente o velho ficaria até confuso e, ao ouvir o barulho, iria ao segundo antes do terceiro. E eles teriam mais tempo ainda. Todos concordaram. Menos Felipe. Ele queria o primeiro. Foi então que pensou que seria mais fácil fazê-lo sozinho. Assim, todos foram ao terceiro. Felipe, porém, debandou pela primeira vez em sua vida. Saiu do grupo sem que nenhum percebesse e fez a curva para ir ao primeiro galinheiro. Ao chegar lá, viu que o terceiro não tinha a facilidade do primeiro. Todas as janelas eram reforçadas e as portas eram de metal. Seria complicado, mas o Felipe não se intimidou e começou a cercar o galinheiro em busca de um espaço, uma fraqueza, focando agora na parte de baixo. Talvez pudesse cavar. Quando já estava terminando de rodar, viu uma sombra de um homem. Rapidamente deu um pulo para trás pensando que o velho não teria tempo de o atingir. Quando pulou para fora do alcance dele, sentiu sua orelha doer, e depois um barulho de tiro, antes de voltar a correr ele pode ver um carro diferente na garagem da casa. Um que não estava ali há duas semanas.
                O jovem então fez o contorno no galinheiro e tinha Felipe em sua mira. Felipe começou a pensar no erro que tinha cometido. O jovem atirou novamente. Felipe esperou o impacto, mas não foi atingido. Ouviu então o jovem urrando de dor. Quando olhou para trás viu Marcos agarrado em seu braço. Felipe pensou em ajuda-lo, mas Marcos olhou para ele, enquanto mastigava o braço do Jovem. Felipe sentiu que deveria fugir. Correu até que encontrou o resto da matilha na mesma posição que os deixou.
                Ninguém tinha visto Felipe sair da formação. Ninguém, exceto Marcos. Ele parou todos e foi atrás de Felipe imediatamente e ficou o acompanhando de longe. Quando o jovem saiu de casa e viu Felipe, Marcos não teve outra escolha senão ataca-lo. Os outros lobos olhavam com desprezo para Felipe, e ele, se pudesse, faria o mesmo, tamanha a vergonha. Porém, esse momento de desconforto terminou quando um machucado Marcos chegou na visão de todos, sinalizando para que eles corressem de volta. Todos entenderam e partiram. Menos Felipe. Ele esperou Marcos chegar e foi ao seu lado até a caverna. O jovem vinha atrás ainda atirando. Mas sem muito sucesso. Alguns minutos depois que os lobos chegaram à caverna, Marcos e Felipe também conseguiram o mesmo.
                Marcos, porém, estava muito ferido. Não resistiria. Contudo Antes de morrer passou a liderança da matilha para Felipe. Para a incredulidade de todos. Os atos gananciosos de Felipe que tinham matado Marcos. Ninguém entendeu. Mas Marcos tinha seus motivos. Ambição é justa e necessária. O problema não é tê-la, mas deixar que ela faça com que você não seja capaz de saborear outras vitórias. Um líder que sabe disso, pode ser o melhor de todos. Felipe aceitou de bom grado e como primeiro ato decidiu pensar em como invadir o segundo galinheiro da forma mais segura... possível.