sexta-feira, 20 de abril de 2018

Contagem regressiva

                                                                                          Escrito por Pedro H. Silva

Estou tranquilo. Cheguei dez minutos antes do horário. Isso não quer dizer que estou me sentindo mal. Em hipótese alguma. Simplesmente quer dizer que estou ansioso. Seis anos que eu não saio com ninguém além da Talita. Não estou com medo de fazer alguma merda. É mais vontade de vê-la logo, uma sensação até normal, acho, pra esses encontros via Tinder, e um pouquinho de medo de alguém que me conhece ou conhece a Talita nos ver.
            Se a Márcia não se atrasar, tenho agora nove minutos antes que ela chegue. Será que são nove minutos para eu desistir? Acho que não. Estou bastante tranquilo. Real. E é um lugar super gostoso aqui. Acho que esse climinha de fim de tarde de inverno também ajuda. Digo, dá vontade de entrar logo. É pequeno, mas tem bastante gente já. E o movimento dessa avenida, o barulho dos carros...sei lá, dá uma sensação boa. Foi sugestão da Marcia, nunca vim aqui, embora pareça que sim. Será que? Ah tá. Acho que uma vez eu e a Talita estávamos voltando do cinema a noite e ela disse exatamente que parecia um lugar aconchegante. Parece que ela está certa...como sempre.
            Faltam sete minutos para a moça chegar e eu estou aqui pensando na Talita. Claro, são seis anos de relacionamento. Não dá para ignorar. Só que dos últimos meses para cá não tem diversão. Só reclamações. A gente não relaxa mais um com o outro. Estou cansado. Estamos cansados. Ela e eu. Acho que não tem ninguém errado na história. Só o natural de uma relação.
            Mas eu estou aqui. Há cinco minutos de traí-la. Ou melhor, cinco minutos para o horário que marquei com a Márcia. Talita está provavelmente em casa, acreditando que eu estou trabalhando até mais tarde hoje. E eu aqui a traindo. Se tem alguém aqui errado sou eu. Se crises são normais em um longo relacionamento, e eu que traio primeiro, eu que sou o vilão. Será que eu que estou destruindo tudo?
            Faltam três minutos. Talita nunca fez nada de errado. Sempre foi amorosa. Em seis anos de relacionamento brigamos tão pouco. E ela também é linda. Claro que não é perfeita. Mas eu ainda tenho tesão nela. São dois meses brigando sempre e sem fazer quase nada nessa área, mas não é um negócio irreversível. Não é como se o desejo tivesse acabado. Ela é muito gata. E se eu for para casa agora com o jantar? Passo na pizzaria, levo uma de frango com catupiry que ela adora, e digo que me liberaram mais cedo. Mas e a Márcia?
            Bom, ela está agora um minuto atrasada. Por que mesmo eu estou aqui? Por causa de dois meses ruins? Arriscar jogar fora toda uma relação incrível de seis anos por uma crise? E trair? Não faz sentido. Eu sou um ser humano horrível.
 Mas finalmente parece que a moça chegou. Reconheço seu rosto, mas o curto vestido decotado me surpreende. É preto e mostra seios muito maiores que imaginei e um lindo par de coxas.
Márcia vem até mim.
- Oi... João... Atrasei? – Pergunta ela olhando o celular – ah não. Dois minutinhos só. – Diz ela sorrindo.
            Bom, é hora de entrar. Estou com fome.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Celular vicia?

- Você tá viciado, amor. – Disse ela – Agora usando enquanto tá comendo.
- Sabe o que eu tava pensando noutro dia? Que se alguém de 2003 viesse pra hoje, 2018, ela ia concluir que todo mundo tá viciado em celular. – Respondeu ele.
- Ahn?
- Isso. Assim, vamos pegar você como exemplo. Você acha que não tá viciada em celular? Mas ele tá na mesa. Do seu lado.
- Mas eu nem peguei nele durante todo o jantar.
- Eu sei. Mas ele tá com você. Ligado. Você foi no banheiro depois que pediu a comida. Você levou. Usou enquanto estava no vaso.
- Primeiro, a gente tá comendo. Segundo, eu só fui retocar a maquiagem.
- Desculpa, mas se tivesse usado, teria levado, não?
- Mas eu faço um uso normal do celular.
- Exato! É normal. Mas para 2003 seria vício. Ninguém levava o celular pra ir no banheiro. Só se fosse pra jogar o jogo da cobrinha.
- E daí? Tô falando que você tá viciado hoje. Em 2018.
- Padrões mudam, meu amor. Em 2003 você seria uma viciada em celular. A gente tem que entender que a tecnologia muda muito rápido. Padrões sociais, porém, mudam mais lentamente. Tipo..
- Ah, cala a boca. Você é mestre em se safar com sociologia, Roberto.  Vamos parar de bobagem. Quem é Maria?
- Oi?
- Maria. Já te vi conversando com ela várias vezes esse mês. Já vi umas três vezes essa semana. Quando eu voltei do banheiro vi que você tava de papo com ela no Whatsapp.
- É uma amiga do trabalho.
- MENTIRA. Conheço todas elas. Você esquece quanto tempo a gente tá junto?
- Em hipótese alguma. Mas tipo, é sério. Ela é nova lá e tô dando uns toques pra ela.
- DOMINGO A NOITE, ROBERTO?
- Não precisa gritar, calma.
- Se é só uma amiga, tudo bem se eu vir a conversa, né?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu tenho que ter privacidade, Paula. Que coisa. Num relacionamento tem que ter confiança. Hoje isso é o maior problema como indivíduos...
- Se você não calar a boca e me dar esse celular agora eu juro que vou embora.
- Tá. Calma. Por isso que você não tem coisas boas, Paula. A Maria, ela, ela é violinista. Eu tô contratando ela, pra, pra te, te, fazer uma surpresa, e te te, pedir...
- PARA... Eu, eu, eu, eu con-confio em você, de-desculpa aliás, eu nem tinha celular em 2003...