sexta-feira, 18 de maio de 2018

Poesias vermelhas na Terra azul


Poesias vermelhas na Terra Azul.
Secretos Códigos.
Quem era azul
lia coisas de amor em versos publicados,
se azulava enquanto lia em um parque azul

Na terra azul poesias vermelhas.
Códigos secretos.
Quem era vermelho
lia coisas da guerra em versos espelho,
se guerra se avermelha

A bomba avermelharia o espaço
e a economia.
O azulado não tem chance,
nem à distância saberia.
Átomos vermelhos em breve ameaçando
as cidades azuis
e todo aquele azul aço

Mas era preciso antes do fim
o fim de um camarada.
Um vermelho que poderia se azular
ou já se azulara.
Sem chance de riscos,
um tiro à curta distância.
Pouco vermelho derramado
no concreto azul

Mas na verdade o sangue vermelho a ser derramado era do próprio camarada Anail vermelho
que lia o livro vermelho,
que não se acalmaria,
que tampouco se azularia,
que tão pouco se avermelharia,
que fugiria e amarelaria?


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Atrasado


                                                               Escrito por Pedro Henrique Silva

Eu precisava chegar logo no trabalho.  Precisava entrar naquele trem. Levava minha bolsa no meu ombro, e os papéis que não tive tempo de prender bem na pasta. Eles ameaçavam voar, o que fazia com que eu tivesse que dividir minha atenção entre forçar minha entrada no trem e segurá-los mais firmemente. Muitas pessoas bloqueavam a porta quase que inteiramente. Forcei e, sob protestos de alguns passageiros, consegui. Uma velinha foi a mais agressiva e, à medida que ela era esmagada, xingava todos os palavrões dessa e de uma outra época para mim. Começou a gritar dizendo que ia morrer. Vi velhos morrerem no trem. Não parecia ser o caso aqui hoje.
            Antes de a porta fechar, porém, um dos papéis, talvez o mais importante deles, voou para fora do trem. E agora, eu não conseguiria mais sair do vagão. Tratava-se de um documento de um dos clientes mais importantes de nossa empresa. Sem ele eu provavelmente teria sérios problemas no trabalho. Demitido, possivelmente. Mas já havia mais três pessoas atrás de mim. Tentei empurrá-las para fora do trem, mas sem sucesso. Uma delas, uma moça bem magra, quase caiu no vão, mas infelizmente conseguiu se equilibrar. Quando o trem deixava a plataforma, vi um rapaz pegando e olhando o papel. Eu teria que voltar no próximo trem e torcer para que ele tenha colocado de volta no chão.
            E foi exatamente o que eu fiz. Desci na estação seguinte, entrei no trem que voltava, e cheguei à plataforma já procurando o documento. Não poderia descartar que ele poderia estar no lixo. Mas, para minha enorme surpresa, um rapaz o segurava.
- Isso é seu? – Perguntou o moço um pouco mais velho que eu, vestido igual a mim, um sobretudo preto e um sapato bem lustrado. Ele tinha a mesma cor que eu e parecia ser de um mesmo estrato social.
- É-é. Quanto você quer por ele? – Perguntei pensando que seria mais fácil pagar logo.
- Quanto? Nada. Não é seu? Toma. – Disse ele.
- Calma. Você quer o que por ele?
- Cara, fica com ele. É seu. Imaginei que você ia voltar se fosse importante. Pega logo que eu já perdi um trem te esperando.
- Você ficou me esperando?
- Pois é... Tipo, é seu o papel, né? Imaginei que seria importante. Vi sua cara. Aí pensei em deixar aqui no chão de volta, mas tá ventando muito. Achei que poderia cair no trilho.
- Não faz sentido.
- Eu não tô atrasado – Disse ele olhando para seu relógio – Pega logo, cara.
- Mas eu não vejo nenhuma razão pra você segurar isso pra mim. – Disse eu pegando o documento da sua mão.
- Ah, sei lá. Me pareceu certo. Falou cara. – Apertou minha mão, e se virou para entrar no trem parado na plataforma e que já enchia. Seria melhor eu fazer o mesmo.
            Passei todo o trajeto das quatro estações seguintes olhando para o rapaz que se encontrava na minha frente, de costas. O que foi aquilo? Ele me esperou. Perdeu um trem. Não estava atrasado, claro. Mas por que fez isso? Por que alguém, hoje, em pleno 2030, faria algo por alguém? Como isso era possível? Será que não tinha alguma lei contra isso?
            Na verdade, aquele ser só podia ser muito, muito, burro. Como não pensar em si mesmo? Colocar o interesse de alguém acima do seu? Que tipo de ser humano faz isso? Me parece um comportamento do século XX, sei lá. Uma coisa meio selvagem. Simplesmente não faz sentido. Aquele momento eu olhava para ele e me sentia estranho. Como se uma vontade enorme de o matar tomasse conta de mim. Seria engraçado se eu o empurrasse ele no trilho assim que saíssemos. Eu poderia dizer que eu queria sair e ele estava no meu caminho. Eu nunca seria preso por causa disso. Era algo bastante comum de acontecer em São Paulo. Eu mesmo quase perdi o equilibro algumas vezes tentando sair do trem. No trânsito então...várias vezes já fui quase atropelado. Nada. Nunca sequer chamado para depor. A polícia nem ligava mais... Já assumia que a pessoa alegaria legitimo benefício e nem investigava, pelo que eu sei. Ninguém era preso por homicídio. Simplesmente porque ninguém mais premeditava mortes ou crimes. Eles simplesmente aconteciam. E então não era culpa de ninguém. Meu interesse se chocava com seu interesse. Era um acidente. Uma obra do acaso.
            Mas aqui eu estava premeditando. Vi que o rapaz ia sair do trem. Eu só desceria em duas estações, mas eu tinha que fazer. Eu estava me sentindo péssimo com aquilo. Ele merecia morrer. Aquele cara que eu empurrei escada abaixo porque estava muito devagar semana passada merecia bem menos que ele.             Ele já estava na porta. Cabia tranquilamente uma pessoa naquele vão. E ele não era do tipo gordo.
Fui um pouco mais rápido. Estava agora logo atrás dele. Quando ele colocou o pé para fora, eu o empurrei, fazendo com que ele caísse, mas na horizontal, de modo que bateu com a cara no chão, dentro da plataforma. Outras pessoas atrás de mim desviaram do rapaz caído. Ele parecia estar bem vivo. Me mantive no trem enquanto a porta se fechava. Olhei para o homem que se levantou com dificuldade. Seu pé aparentemente tinha ficado preso no vão. Deve ter torcido. Então, a medida que o trem saía da estação, o homem me olhava nos olhos com uma expressão confusa. Parece não ter entendido.
            Foi nesse momento que confirmei o tamanho da burrice do cara. Ele me olhou se perguntando por que eu o empurrei se não precisava sair do trem. E por que justo eu? O cara que ele tinha ajudado.  De fato, um imbecil. Não percebeu o quão inconveniente ele tinha sido ao me ajudar. E se mais pessoas começassem a pensar nos outros? Iriam voltar a inveja, a cobiça, o consumismo exagerado. Pessoas iriam buscar melhor qualidade de vida. Possivelmente perderíamos várias profissões importantes. A violência voltaria. Aquela sem sentido. Os assaltos, os crimes. A depressão também. Pessoas que se preocupam com o que os outros pensam e que sentem falta de outras pessoas. O doentio casamento e a monogamia. Como alguém pode querer isso? Assim que funcionava algumas poucas sociedades atrasadas por aí. Vários países em que as pessoas pensavam umas nas outras. Por que? Para ter avanços tecnológicos? Equipamentos que facilitam a vida dos outros? Não vemos sentido nisso há muito tempo. Pelo menos há uma década.
            Aquele homem não conseguia perceber o quanto evoluímos nos últimos anos quando percebemos que pensar em algo como “o coletivo”, “a sociedade” ou “o outro” é simplesmente arcaico. Eu não preciso da ajuda dele. Ele não precisa da minha. Vivemos muito bem sozinhos. Tendo prazeres que nos competem. Só os que podemos pagar, afinal, danem-se os outros. Danem-se o que os outros têm ou o que fazem. Foi assim que essa sociedade evoluiu. Cada um por si. Pronto. Essa era a lei agora. Era assim que tinha que ser. Estamos num ponto em que cada um se contenta com o que tem porque simplesmente não importa o que o outro tem. Impossível existir um modo melhor de pensar do que o egoísmo supremo.
            Pensei em voltar lá e dizer isso para ele. Provavelmente ele não estaria mais ali parado, claro que não. Eu deveria procurá-lo. O que não seria difícil. Pela roupa dele, ele trabalharia em algumas das poucas empresas que funcionavam naquele bairro. Sabia para onde ele iria depois que saísse da estação. Além disso, não faz nem três minutos que o trem saiu. Nem chegou na estação seguinte. Se eu correr, e ele tiver machucado, eu chego antes dele.
            Decidi fazer exatamente isso. Voltar àquela estação, sair e encontrá-lo. Aquilo era mais importante que chegar no trabalho, que manter meu emprego. Aquela ofensa foi a pior que já sofri na minha vida. Uma pessoa tão selvagem que acha que realmente é produtivo pensar em outra pessoa além de si mesmo.
            Desci do trem na estação seguinte, subi no outro e voltei àquela em que empurrei o imbecil. Como eu imaginava, ele não estava mais lá. Saí da estação em busca do homem. Entraria nas empresas e procuraria se fosse o caso. Mas assim que cheguei na rua, no mar de sobretudos pretos, vi o único homem que mancava. Com certeza era ele. Me aproximei rapidamente, desviando de algumas pessoas no meu caminho. Empurrá-los estava fora de cogitação. Me atrapalharia mais.
            Foi então que cheguei no homem. Estava logo atrás dele e puxei seu ombro. Ele girou e encontrou meus olhos com uma expressão ainda mais confusa. Impressionante como ele não conseguia entender.
- Cara, o que você quer de mim? – Perguntou ele assustado dando um passo atrás com medo. Homens e mulheres desviavam da gente com raiva e xingando.
- Seu idiota. Você não percebe o quão idiota você é? – Perguntei – Você me ajudou. Nunca vi um comportamento tão, tão, altruísta. – As pessoas que passavam por nós olharam para o rapaz com desaprovação. Altruísmo era um mal e todos sabiam que precisava ser combatido.
- Eu sou idiota?  - Perguntou – Você está aqui pensando em quem mesmo?
- Em mim! Você me ofendeu.
- Te ajudei! Simplesmente não te ferrei. Por que você isso te afeta tanto. Pense um pouco.
-  Não sou eu que não pensa. Eu sei que-
- Sabe nada, cara. – Me interrompeu - Você está pensando só em mim desde que te ajudei. E eu só segurei um papel.
            Fiquei olhando para ele, imóvel. Ele estava certo. Naquele momento eu com certeza chegaria atrasado. E mesmo assim decidi ir atrás de alguém só para dizer umas verdades na cara dele. Ele estava certo. Desde que ele me devolveu o documento eu não o tirava da cabeça.
- Se você não vai falar nada eu preciso ir trabalhar. – Disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Eu-eu... Não sei.
- Então eu vou trabalhar. Adeus. – Disse ele ainda sem sair.
-Ok. – Disse eu.
- Cara, tudo bem? – Me perguntou olhando nos meus olhos com a mesma expressão confusa. Não havia mais medo. Fazia tempo que eu não ouvia essa pergunta.
- Desculpa – Aquela palavra saiu com muita dificuldade de minha boca. Quase que instintivamente. Não lembro de tê-la usado antes.
- Relaxa. Acontece. Acho que você não sabe lidar com gentilezas, né? – Perguntou e eu assenti com a cabeça, ainda sem saber o que responder. -  Entendo. Olha, vai lá trabalhar. Eu vou também. A gente se vê, tá? Tudo bem você ter tentado me matar, mas da próxima vez, um “obrigado” é o suficiente. – E se virou e começou a ir embora. Me deixando lá, parado... Despertei ouvindo mais xingamentos da manada que desviava de mim. Deviam estar pensando porque tinha um idiota congelado no meio da calçada.
            Me vi ali preso no fluxo. A velocidade das pessoas aumentava. Elas agora corriam. Provavelmente se esforçavam para evitar os atrasos. Eu corri junto com a multidão. Mas não podia fazer aquilo. Meu emprego era bem longe de lá. Eu tinha que voltar à estação. Pensei em dar meia volta e virei o pescoço. Só vi o mar de sobretudos correndo. A essa altura eu não poderia mais parar. Onde aquilo iria me levar? Então, resolvi que o ideal seria sair da calçada e ir à rua. Tentei então correr na diagonal. O objetivo era furar aquele rebanho de pessoas. Lutei me espremendo por elas. Até que finalmente consegui sair.              
Me vi fora da multidão que corria ao meu lado. Me senti livre. Pensando nos motivos que levariam essas pessoas a correr desesperadamente para o trabalho. Sem pensar em quem elas poderiam atropelar no caminho. E por que? Para não chegar atrasado? Por que não somos capazes de conversar. De dialogar. De nos justificar. Quando parei de observar os meus colegas de rebanho que corriam desesperadamente, percebi que deveria logo dar meia volta porque eu mesmo estava muito atrasado. Mas eu estava na avenida. Um carro, bastante rápido, me acertou. Ele deveria estar atrasado.