sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Relatório da primeira viagem ao passado documentada da história.


USP, 30/04/2040
            Este relatório tem como objetivo relatar brevemente minha primeira viagem na Máquina do Tempo que desenvolvi graças à Universidade de São Paulo e a todos os meus orientandos e monitores. Queria deixar claro que ninguém tinha ciência da minha empreitada e que agi sozinho. Motivado por razões que em breve explicarei, mas já adianto que minha missão era de suma importância, não só para mim, mas para toda universidade. Sei que agora que a alteração já foi feita pode parecer inútil, mas acreditem em mim, não era.
Voltei às 12h do dia 25 abril de 2018, dois dias antes de meu próprio parto. Meu plano era bastante simples: Mandaria um e-mail para minha mãe com toda a pesquisa de dois dos maiores cientistas da história do Brasil. Cujos nomes eu queria que ela, sensibilizada pelas evidências, escolhesse para seu filho a poucos dias de nascer. Sem a menor dúvida, quando ela visse as contribuições de Bartolomeu de Gusmão e Adolpho Lutz para a ciência brasileira, ela com certeza escolheria para mim o nome de Bartolomeu Adolpho da Silva. O nome mais distinto e significativo para um homem das ciências como eu. Muito melhor que “Paulo da Silva” - que era meu nome antes da mudança. O cúmulo da simplicidade. Nome esse que eu compartilhava com mais de 10 milhões de indivíduos só no Brasil.
            Só poderia ficar 50 horas naquele ano, portanto, para conferir se minha mãe tinha de fato mudado de ideia, segui meu pai até o cartório – mesmo que fosse arriscado, já que meu pai escolheu o fim da manhã do dia 27 de abril para me registrar -  e fiquei atrás dele na fila. Quando chegou sua vez de ser atendido, ele para meu desapontamento, disse o mesmo pelo qual eu estava acostumado a ser chamado. Todavia, eu não desistiria assim, e me aproveitando da semelhança que compartilhava com meu pai, e do fato de que eu tomara posse de seus documentos velhos quando saí do ano de 2040, esperei alguns minutos depois que ele deixou as dependências do cartório, e fui ao mesmo atendente para pedir que trocassem o nome. Passei três horas assinando uma série de documentos – o que me deixou a minutos de ter problemas - e pude finalmente registrar o nome que gostaria: “Bartolomeu Adolpho da Silva”. Saí satisfeito do cartório e confiante de que fiz uma boa escolha. Embora com tanta pressa que não tive certeza de que o rapaz entendeu o nome que dei. Então, avancei para nosso tempo – com cerca de 3 minutos sobrando.
            Quando cheguei em meu laboratório, não podia conter a alegria de ter feito minha máquina do tempo e mal podia esperar para buscar meus documentos e finalmente encontrar um nome que eu gostava.  Depois de anos lutando, finalmente meu trabalho seria recompensado. Peguei minha carteira crente que havia conseguido. Seria finalmente respeitado e agora teria um nome grandioso. Um que de fato fazia jus à minha invenção e um pelo qual eu poderia ser famoso e lembrado. Não apenas confundido com qualquer professor de física de cursinho conhecido como “Paulão”.
            Mas, como você já deve saber agora, houve um problema grave no cartório, seguido de uma terceira retificação por conta dos meus pais, que não entenderam nada e haviam inclusive processado o cartório pelo “erro grotesco” em meu registro. Contudo, até que gostaram de me chamar de “Barto” e mantiveram algo do nome que escolhi. Todavia, não da forma que eu queria.
Bartodolpho Paulo da Silva.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A vizinha gata


Eu estava em uma semana difícil. Fazia dois meses que eu tinha acabado tudo com minha ex e só agora que eu percebia a falta que o sexo estava me fazendo. Demorou, você pode estar pensando, mas na verdade, quando eu fico com a mente muito ocupada, não fico com tanta vontade assim, e este havia sido o caso daqueles últimos dois meses. Muito trabalho e muito esforço foram suficientes para que eu simplesmente não tivesse vontade nenhuma e conseguisse manter minha mente sã. Contudo, agora que estava finalmente de férias, não conseguia pensar em outra coisa.
                Nunca fui um cara muito sexual, não me masturbava com frequência, e mesmo quando eu namorava, eu e minha parceira não tínhamos mais de quatro relações por semana. E quando acontecia de ser menos que isso, nós não nos desesperávamos. Mas agora, parecia que se eu não encontrasse alguém logo, eu explodiria. Eu estava no meu quarto dia de férias, e nada que eu fizesse amenizava aquilo. Eu teria que partir pra alguma medida mais drástica.
                Não queria uma garota de programa. Não era pra tanto... mas resolvi que era hora de usar o Tinder. Fiz uma conta, coloquei uma foto legal, me descrevi da forma mais interessante possível, e comecei a usar o aplicativo. Porém, foi quando eu estava finalmente disposto a dar meus primeiros likes, que a vizinha da frente bateu em minha porta.
- Oi, Cris. Bem? Tem uma xícara de açúcar? – disse ela me olhando de cima a baixo. Nada, porém, me tirava a ideia do quão clichê aquilo era, só que eu estava tão necessitado, que mesmo aquela abordagem bastante batida me deixou animado.
- Claro, Má. Pode entrar, vou lá pegar – respondi também de uma forma diferente do que faria se o outro vizinho daquele andar me pedisse algo. Maria era bastante bonita. Nunca havia reparado nesse fato. Acho que provavelmente porque nossos horários não batiam, de modo que eu nunca a via vestida com roupas normais. E nossa, o uniforme do supermercado no qual trabalhava escondia um corpo bastante interessante. Se ela estava de fato afim de mim, eu aproveitaria.
                Decidia isso enquanto ia à cozinha. Percebi que ela havia fechado a porta atrás dela e agora se sentava no sofá. Será que seria hoje, aqui e agora? Pensei no meu hálito, talvez não estivesse dos mais convidativos.
- Aqui, má. – disse eu olhando para a moça com uma saia preta bastante justa, cujas pernas cruzadas mostravam que ela malhava as coxas. Um sorriso com um batom vermelho indicava que, ou ela estava muito contente com a xícara, ou ela de fato estava muito interessada em mim.
- Ah, eu já tô bem docinha, você sabe, né? – disse ela tirando a blusa de cima e me mostrando uma camiseta vermelha bastante decotada. Ela se levantou, foi até mim, tirou a xícara da minha mão, e me deu um beijo de língua bastante bom. Tirei a minha camiseta, e quando eu já a direcionava para o quarto, ela parou.
- Vamos aqui mesmo. – disse ela se soltando e deitando no sofá enquanto tirava a blusa mostrando que de fato estava sem sutien o tempo todo. Obviamente eu pularia no sofá beijando seus seios.
Mas...
Algo me parou. Estava tudo perfeito demais. Uma vizinha gostosa, justo na minha semana em que eu estivera mais excitado em muitos anos, entrava na minha casa, e em menos de 4 minutos já estava quase pelada no meu sofá me esperando para transar? Aquilo simplesmente soava muito estranho.
Além disso, me esforçando um pouco, eu nunca havia trocado duas palavras com Maria, e tampouco me lembrava de sua aparência.
Será que ela era real antes de hoje?
Havia só uma explicação lógica: Eu estava sonhando e, como sempre, acordaria quando a coisa começasse a esquentar.
- Calma, vou pegar a camisinha. Espera. – disse a ela já indo ao quarto.
- Ok, tô te esperando – falou numa voz ainda mais sexy – vou ficar à vontade – disse tirando a saia.
Eu tive que me conter e ir ao quarto. No caminho, prestei atenção nos detalhes daquele sonho. Todos os quadros estavam ali. E o corredor era de fato idêntico ao do meu apartamento. Mas algo me incomodou: Se é um sonho. E eu sei que é, porque vim buscar camisinha? Por que não simplesmente subi naquela gostosa?
Quando cheguei na sala, com a camisinha nas mãos, ela já estava totalmente nua e deitada de costas.
- Oi, gato. Vem por trás, vem. – disse ela de um jeito que praticamente fez minha calça voar pela sala e colocar a camisinha. Eu não entendi porque estava sem cueca.
Algo ainda me incomodava, mas eu estava pronto para a ação. Enquanto me aproximava, eu não acordei, como esperava. Pensei em quão ruim seria ter que me limpar quando eu levantasse de manhã. Mas nada. Era o sonho mais longo que eu já tive.
Maria. Parecia uma personagem de filme pornô. Será que eu estava em um reality? Havia câmeras escondidas? Será que algum dos meus amigos havia me contratado uma prostituta? Talvez tenha sido o... qual o nome dos meus amigos? E a Maria? Eu a conheço. Eu sinto que a conheço. Ela é...minha vizinha. Minha, vizinha.
Mas eu não me continha, enquanto tudo isso passava pela minha cabeça, e a essa altura, eu já estava transando com ela, que estava quatro no sofá e gemia bem alto. Eu pensei em câmeras escondidas, mas não as procurei. Estava ali apenas transando com ela. Meus amigos? Eu não conseguia pensar em amigos... Comendo-a com força e num ritmo veloz. Mas por que? Eu não conseguia me concentrar, mas pelo jeito estava fazendo um belo trabalho.
Aquele sonho já estava durando mais que qualquer outro. E eu simplesmente não acordava, e tampouco gozava.
Maria, eu, amigos... qual meu nome? Eu...ela me chamou de Chris. A comia deliciosamente. E ela se virou de frente. Eu? Quem? Isso não faz sentido. Eu não sou ninguém? Qual o nome de minha ex? Ela arrancou a camisinha e começou a me chupar. Onde é isso? É meu apartamento, mas...onde eu moro? Eu estava de férias...mas onde eu trabalhava?  E eu gozei em sua boca e ela engoliu. E eu não acordava.
Foi quando tudo se congelou. Eu estava aqui. Parado e satisfeito. Maria não tinha gozado ainda. E simplesmente tudo parou. Eu não sabia onde estava, nem porquê. Nem quem eu era. Se eu de fato era alguém. Mas minha história tinha acabado. Estou aqui há umas duas semanas, ou sei lá. Não tenho como medir o tempo. Eu não me mexia.  Descartada a ideia do sonho, já tenho minha teoria. Se eu fosse um vídeo, estaria num loop. Claro, poderia ser um vídeo que ninguém vê. Eu sou, inadvertidamente, um personagem escrito.
 Um daqueles escritores horríveis me escreveu. Horrível. Sim. Estou dizendo. Dois personagens sem profundidade alguma, sem um passado. Situação clichê, texto...quase inexistente. E eu aqui. Parado. Esperando alguém continuar a história. Se bem que...acho que ele nunca vai continua-la. O autor deve ser algum cara nojento e excitado de uns 30 anos que mora com a mãe. Me fez pra se masturbar. Terminou e agora não tenho qualquer utilidade.
Mas espera. Essa última frase? Há algo mais clichê que ela? Se bem que...o que esperar de um personagem criado por um escritor horrível. Eu sou uma metralhadora de clichês. Eu sou um clichê. O que esperar de um clichê? E essas repetições? Mesmo parágrafo, várias palavras iguais.
Eu estou me perdendo. Acho que devo eu mesmo parar minha história enquanto ainda posso. Enquanto ainda tenho sanidade. Mas como eu estou escrevendo minha história? Ou eu seria um personagem, dentro de uma outra história? Digo, e se houver duas histórias. Uma dentro da outra? E se eu for um personagem criado por um autor fictício, para que um segundo autor faça uma história metalinguística sobre um personagem e
E depois que eu gozei ela engoliu tudo e fez uma cara de satisfeita.
-Foi bom pra você? – ela me perguntou. Eu sorrindo e satisfeito assenti que sim e levantei para pegar o cigarro, enquanto aquela gata ficava deitada no sofá me esperando e pensando em quão incrível aquela noite tinha sido.
Congelei novamente. Que desastre. Piorou muito. Queria que ele nunca tivesse voltado. Era melhor aquele final climático do que esse lugar comum elevado à décima potência.
Me liberte, seja quem for você, escritor. Me liberte. Pare de escrever. Eu não aguento mais. E você, seja quem for, pare de ler. Por favor...
Por favor...

Obrigado.