sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Alguns Dedos (Pt1)

Escrito por Ludmila Barros

Eu andava rápido pela calçada da Avenida dos Pescadores, precisava chegar a tempo no ponto de ônibus, aquele era o último do dia, quando fiquei surpresa em ver um rosto familiar do outro lado da rua. Apesar de ser tarde da noite, a rua estava bem cheia, era a saída do último horário da Faculdade, da qual eu mesma estava saindo, o professor dessa vez havia liberado 5 minutos mais cedo, mas não foi o suficiente para a rua ainda estar vazia.
Parei de correr e fui atravessar a rua, para cumprimentar o tal rosto familiar. Parei subitamente quando um farol alto veio pela rua, o carro passou na minha frente e quando eu levantei meu olhar de volta para a outra calçada, não encontrei mais o rosto. Atravessei rápido e parei para ver se ainda o encontrava. Só quando me desvencilhei das pessoas e cheguei perto da mureta que dava para o rio é que eu o avistei novamente.
Pedro estava nas docas, agora andava mais rápido. Confusa, acabei somente ficando parada e observando ele andar até a última porta do píer. Pedro era bastante alto, por isso suas passadas eram igualmente largas, ele chegou rápido até o portão. Digitou alguma coisa na porta eletrônica e ela se abriu. Ele entrou e foi até o segundo barco que estava estacionado ali. E entrou.
Não pude compreender o por quê de ele estar ali. Desde que conhecia Pedro, ele nunca havia demonstrado nenhum interesse por barcos ou qualquer coisa relacionada a tal assunto. Muito pelo contrário, ele sempre se mostrou bastante assustando quando o assunto era mar, aquele mesmo rio, ou até mesmo piscinas. A pele negra de Pedro em contraste com sua camisa branca não saia da minha visão. Por que ele estava ali? Não é fácil ter uma senha para entrar nesses deques cheios de barcos dos ricos e milionários da cidade.
Eu tomei um susto quando lembrei do meu ônibus. Só tive tempo de olhar para trás e ver a última pessoa embarcando, a porta se fechando e meu ônibus indo embora. A rua ainda estava cheia de gente andando pra lá e pra cá. Haviam grupos andando e outros parados em rodas rindo alto. Cruzei por alguns dele e preferi fazer o caminho mais longo, de quase uma hora de ônibus para voltar para casa do que pagar um táxi caro. Pensei em mandar uma mensagem para Pedro, mas cheguei em casa tarde e cansada demais, acabei desistindo e fui apenas dormir.


“Ricardo Medeiros assassinado!”
Foi a primeira coisa que eu li quando abri o site de notícias locais no café da manhã. Quase engasguei com o pão. Havia visto Ricardo Medeiros no dia anterior, mais que isso, conversei por um bom tempo com ele atrás do palco depois que ele havia terminado sua palestra na minha Faculdade. Eu mesma estava encarregada de cuidar dos detalhes para o Senhor Medeiros, organizei todos os horários com sua secretária e ontem, no dia combinado, ele parecia bastante calmo e tranquilo, chegou até antes do horário previsto. Um homem que, apesar dos últimos acontecimentos, permanecia fiel a sua fama de “boa-gente”. Somente quando a página da notícia carregou no meu celular que eu continuei a ler.
“O dono da maior empresa de advocacia da cidade, Ricardo Medeiros, 54 anos, foi encontrado morto esta manhã em sua lancha particular. A qual se encontrava estacionada no píer 23 da prefeitura desde que havia sido expulso do Clube de Regatas do Rio Largo.”
Demorei um pouco para me lembrar do que havia visto ontem. Na frente da minha Faculdade, o píer 23 da prefeitura, o Pedro entrando na lancha, que agora eu eu posso dizer que era do fato a de Senhor Medeiros. O barco era consideravelmente maior que os outros e todos sabiam que era dele, dado os acontecimentos do último mês…
“Segundo informações liberadas pela polícia, o corpo foi encontrado às 5h40 da manhã depois de uma denúncia anônima. O advogado já estava morto quando a polícia finalmente conseguiu entrar no píer. O corpo foi encontrado na cozinha do barco, sem os dedos mindinho e anelar, a polícia suspeita que a vítima sangrou até a morte. Porém, ainda se aguarda pelo relatório da perícia. Até o momento da última declaração da polícia e mais uma revista pela lancha, os dedos do advogado ainda não foram encontrados.”
Arrancaram os dedos do homem. Aquilo me fez querer colocar todo o café da manhã para fora. Eu não quis imaginar o pior: Pedro cometendo o crime. Minha cabeça girava rapidamente enquanto eu pensava nas possibilidades. Mas aquilo não queria dizer nada. Eu tê-lo visto entrar no barco na noite anterior e na manhã seguinte terem encontrado um corpo que pareceu sofrer uma morte lenta não queria dizer nada. Somente minha própria cabeça tirando conclusões precipitadas.
“Apesar do local ser bastante vigiado por câmeras de segurança, a polícia incentiva denúncias anônimas de pessoas que possam ter testemunhado algum tipo comportamento suspeito na noite de ontem e na madrugada de hoje. Principalmente pelo fato do píer estar localizado bem na frente da entrada da Faculdade Rio Largo. As possíveis testemunhas podem comparecer pessoalmente ao 23o DP ou ligar anonimamente para o número…”
Eu não consegui levantar da cadeira por um bom tempo. O restante de café e as torradas esfriaram ao mesmo tempo que minha cabeça só esquentava. Mas eu não tinha tempo para isso e eu não tinha nada a ver com isso. Eles mesmo disseram que o lugar tem um monte de câmera de segurança. O que eu vi vai ser visto por eles também. E mesmo assim, eu não vi nada demais, nada aconteceu, tudo não passou de uma coincidência. Eu precisei tomar coragem para levantar e me arrumar para sair. Trabalharia o dia todo, e, principalmente, uma reunião muito importante estava marcada para às 6 da tarde.
Eu passei o dia inteiro tentando não pensar no ocorrido. Eu simplesmente abaixei minha cabeça e mergulhei nas planilhas e nos números, adiantei serviços atrasados e até fiz mais do que o necessário para a reunião que estava marcada. Mas mesmo assim, todos que passavam pela minha mesa estavam cochichando algo sobre o assassinato que chocou a cidade. “Você leu?”, “Eu não acredito que isso aconteceu.”, “Bem feito, depois daquele caso de corrupção do Clube…”, “Mas nada foi confirmado, foram especulações, nada justifica!”. Alguns poucos condenando o assassinado, muitos condenando o assassino, mas todos falando sobre o assunto. Eu nunca havia percebido como passam tantas pessoas na frente da minha mesa.
O dia se passou lento e agonizante, mas passou. Eu entrei na sala de reuniões quase meia hora antes. Fiquei lá sozinha com meu computador. O que foi ótimo, o silêncio foi bastante bem vindo naquele momento. Porém, logo na primeira voz que surge dentro da sala, minha paz foi embora de vez.
- Mas como se some com tantas fitas de segurança desse jeito? Elas não simplesmente somem assim! - disse meu chefe, Fernando, ao entrar na sala. - Já aqui, Camila? - eu apenas sorri e acenei com o rosto.
- Elas não sumiram, elas “foram sumidas”, se é que você me entende. - disse o sócio de Fernando, Patrício.
- E a gente acreditando que essa cidade era um poço de tranquilidade, que inocência a nossa. - Fernando disse ao se sentar ao meu lado. - Você ouviu, Camila? Quero dizer, do assassinato todos já ouvimos, mas estão circulando boatos de que as fitas de segurança do píer desapareceram.
- Não, faz um tempo que não entro em nenhum site de notícia.
- Sempre trabalhando demais. - Patrício disse ao se sentar do meu outro lado.
- Aliás, não é você que faz pós na Rio Largo? - Fernando perguntou.
- Sim.
- E é de noite o…
- Sim, mas ontem mesmo eu nem fui pra lá. - ansiosa, eu respondi antes mesmo de ele terminar a pergunta. - Mas vamos deixar isso de lado. Temos coisas para resolver antes de fechar o expediente.


Depois da reunião, arrumando minha bolsa para ir para a aula à noite, eu já estava atrasada, mas era importante ir. Quando entrei dentro do ônibus e aquele aura de escritório saiu de mim, o assunto me atingiu como um martelo na cabeça. E agora? Eles não tem mais nenhuma filmagem. Eles não devem saber de nada. Será que haveriam impressões digitais no barco? Um assassino, mesmo que amador, se preocuparia com isso. Eles realmente não devem ter nenhuma pista.
E o que eu tenho a ver com isso? Vou falar o que? Eu só vi uma pessoa entrar lá, isso não significa nada. Eu não tenho como provar nada. E acima de tudo, era o Pedro, um amigo, mesmo não nos vendo frequentemente, ele ainda é um grande amigo, de bons tempos. Ele não seria capaz de fazer nada disso. Mas será que cabe a mim decidir?
Faltavam algumas curvas para finalmente chegar na faculdade, já estava tudo escuro, apenas iluminado pelos postes da rua. Porém, uma luz mais forte chamou minha atenção. Era o 23o DP com uma luz bastante forte do lado de fora, viaturas e até mesmo policiais conversando do lado de fora. De fato, não caberia a mim decidir. Eu levantei subitamente, assustando a moça que estava sentada do meu lado, dei sinal e o ônibus parou no próximo ponto, depois de uma curva para a direita. Eu desci.
Só consegui andar de novo quando dei uma respirada funda. Andei pelo quarteirão todo, a delegacia ficava na próxima esquina, andei devagar, tentando repensar e ponderar todas as possibilidades. Ainda assim, todas as conclusões eram “fazer a coisa certa”. Chegando perto da esquina, só faltava atravessar a rua quando eu trombei forte com alguém que fazia a curva na minha direção oposta. Eu tomei um susto, achando que poderia ser um assalto, mas a pessoa também estava atordoada. Eu me aliviei, somente para me apavorar de novo quando vi o rosto daquele alguém. Era Pedro.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Dejavu

Escrito por Pedro Henrique Silva

Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quarta-feira, 24 de outubro. Escovou os dentes, tomou café, escovou os dentes de novo, e saiu de casa para mais um dia legal e divertido de oito horas de trabalho e quatro de faculdade. Super feliz e animado com sua rotina. Trem na velocidade normal. Uma, duas, cinco, dez estações. Empresa. Encontro com Ana... abraço em Ana, beijo em Ana, no rosto, claro. Flertes, flertes, flertes, e enfim Ana sai de seu cubículo, voltando às ligações. Dez, Vinte, Cinquenta. Almoço.
- Oi de novo – Disse Ana mais doce do que o Pudim que ele comeria de sobremesa.
- Oi! E aí? – Respondeu Paulo que saborearia aquele momento a sós com Ana mais do que o faria com o frango que acabara de tirar do micro-ondas.
- É... amanhã estreia o novo filme do Spielberg.
- Você vai ver?
- Não sei. Eu queria.
- O que te impede então? Dinheiro – Disse Paulo num tom mais baixo.
- Não...nada me impede. Mas enfim, o que você tem aí?
- Ah, frango, macarrão e pudim! E você?
- Hambúrguer. – Disse ela com uma expressão tão divertida que o fez quase cair da cadeira de tanto rir.- O que foi?
- Nada, Ana. Achei engraçado o jeito que você falou.
- Porque? – Disse ela com uma expressão menos divertida.
- Ah, porque foi muito fofo. – Disse ele tirando dela uma expressão mais fofa ainda.
- Mas tem algo de errado com eu comer hambúrguer?
- Claro que não.
- Achei que você seria desses machistas que acham que mulher tem que comer só saladinha. Porque tem que ser magra.
- Não! Nunca! Você é linda.
- Mas só porque eu estou linda que eu posso comer hambúrguer?
- Não, Ana. Não! Desculpa. Você pode comer o que você quiser. Eu me expressei mal. Eu não tenho o que gostar ou não do que você come. – Disse ele meio tenso. Quando viu que o sorriso estava voltando ao rosto dela, relaxou - Aliás, eu ri,né? Então, achei só fofo mesmo.
- Ah bom! Aliás, quer ir comigo amanhã ver o filme do Spielberg? – Disse ela enquanto colocava o timer no micro-ondas.
- Ah, amanhã? Ah amanhã não sei. – Disse ele lembrando que havia combinado de ir ao cinema com seu amigo.
- Não, tudo bem! É que amanhã é o único dia que eu posso. No feriado eu viajo.
- Ah, que pena. Mas vou ver e te aviso, pode ser?
- Claro. – Disse ela um tanto quanto desapontada.
O resto da refeição foi o de sempre. Flerte, flerte, flerte. Ana e Paulo ficavam nisso há duas semanas. Desde que começaram a almoçar juntos e perceber que tinham gostos muito parecidos. Nenhum dos dois eram experientes em namoro, até porque, não tinham aparências arrebatadoras, mas um sentimento diferente havia surgido há poucos dias e madrugadas conversando pelo whatsapp. E Paulo só conseguia pensar em Ana. Ana só pensava em Paulo. Mas faltava algo. Faltava eles conseguirem sair juntos.
A tarde, Mais 53 ligações, trem, uma, duas, quatro estações, faculdade. Economia Aplicada 2, trem, uma duas, seis estações, casa, Janta,e...lembrou de conversar com João para cancelar o cinema de amanha.
-  Mano, me ajuda
-  Q? – respondeu João
- Sabe a Ana do serviço? Ela me chamou pra ver o filme do Spielberg amanha.
- Puts. Já comprei, tipo uns 10 minutos.
- Cacete.
- Mano, vc tá ligado q combinamo tipo um ano atrás pra ver samerda,neh
- Tá. Que horas?
- 10h30.
- Fechou
           Paulo foi dormir irritado. Nem falou com Ana graças ao medo. Dormiu.
            Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quarta-feira, 24 de outubro escovou os dentes, tomou café, escovou os dentes de novo, e saiu de casa para mais um dia bacana e maneiro de oito horas de trabalho e quatro de faculdade. Super feliz e animado com sua rotina. Trem na velocidade normal. Uma, duas, cinco, dez estações. Empresa. Encontro com Ana, dejavu.......abraço em Ana... beijo em Ana........ no rosto, claro. Flertes, flertes, flertes, e enfim Ana sai de seu cubículo, voltando às ligações. Dez, Vinte, Cinquenta Dejavu continuava. Almoço. Lembrou do sonho!
           Paulo havia sonhado com aquele dia. Todo. Até aquela hora. Claro. Tinha que pensar rápido. O almoço seria em breve.
– Mano, não dá pra ir amanhã.
- Pq? – Respondeu João
- Acabou dinheiro. – Disse isso e bloqueou João. Foi extremo? Foi! Mas ele queria muito sair com Ana. E não sabia mentir.
- Oi de novo – Disse Ana entrando no refeitório
- Oi! E aí? – Disse Paulo sorrindo.
- É... amanhã estreia o novo filme do Spielberg.
- Você vai ver?
- Não sei. Eu queria. – Foi aí que Paulo lembrou que não foi ele quem chamou Ana pra sair. E nunca tinha o feito em sua vida.
- É, eu não sei se vou amanhã a noite. – Disse ele.
- Ah tá. Tava pensando mesmo em ir. – Disse ela olhando diretamente para ele. Paulo não soube o que fazer e desviou o olhar. Tinha o almoço todo pra chamar. Esperou ela mudar de assunto como fizera no sonho.
- O que você tem aí? – Disse ela com uma expressão divertida.
- É, frango, macarrão e pudim. E você?
- Hambúrguer – Disse ela com a mesma expressão divertida. Mas dessa vez ele não riu. Apenas um sorriso leve. Estava tenso demais.
Mas Ana virou de costas, pegou seu Hambúrguer e votou a sentar na mesa. Com uma expressão um tanto preocupada.
Flertes no resto da refeição, mas a tensão de Paulo o deixava mais sério. Pensou o quão ridículo era aquilo. Ele podia convidá-la para sair pelo whatsapp durante o dia todo. Coisa meio década de 90 convidar gente pra sair apenas presencialmente.
Ana saiu mais cedo dessa vez. Não ficara esperando Paulo terminar de comer – ela comia rápido demais – e voltou a trabalhar. Paulo não conseguia pensar no que havia feito errado. Mas agora chama-la para sair parecia um pouco absurdo, já que a refeição foi muito mais fria que no sonho. Talvez ela não quisesse sair com ele. E o sonho era apenas uma projeção. Ou mesmo um dejavu.
O resto do dia foi normal. Mais 53 ligações, trem, uma, duas, quatro estações, faculdade. Economia Aplicada 2, trem, uma duas, seis estações, casa, Janta,e foi dormir pensando no que havia errado.
Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quinta-feira, 25 de outubro.Não fazia sentido! Ele tinha quase certeza que o dia anterior havia sido vivido por ele duas vezes. Ou aquilo era só uma impressão? Uma peça pregada pelo seu cérebro? Ou ele tinha algum tipo de deficiência? Será que ele sonhara com o dia posterior? Ou o anterior? Olhou no celular e o João ainda estava bloqueado. Logo, o dia que ele lembrava mais vivamente havia impactado o dia de hoje, e não o anterior. Ele fingiu que entendeu.
Então, ali mesmo na cama, começou a reavaliar o que tinha feito de errado na segunda vez. Sim, o universo (ou algo que veio do Rio Tietê) o fez viver o mesmo dia duas vezes. Por algum motivo a segunda vez conseguiu ser pior que a primeira. Porque? Ana ! Algo deu errado na segunda vez. Isso e também o fato dele não ter mais com quem ir ver o filme do Spielberg.
- João? - Disse Paulo no Whatsapp depois de desbloqueá-lo.
- Diga.
- Seguinte,  Desculpa te bloquear. Eu queria ver o filme com a Ana e achei que ela ia querer ir cmg.
- E pq não me falou logo?
- Sei lá.
- Pqp, mano.
- Então. Bora?
- Pq n com a Ana?
- Pq não deu certo.
- E vc n vai chamar de novo.
- Eu não chamei.
- Mano, Chama a mina pra sair, tio.
- Mas ontem foi mó estranho.
- Pq ela queria que vc chamasse e vc não chamou.
- Mano, mas ela que chamou da primeira vez.
- Ué? Ela chamou então?
- Vc não vai acreditar, mas eu tipo sonhei com o dia de ontem. E depois vivi ele.
- hahahahahahhaha, entendi a referencia. CHAMA A MINA, CACETE!
- Tá...mas ow, que referência?
- MANO, VC NEM MEME TÁ MAIS ENTENDENDO. Chama a mina, merda.
- Tá
- E vc?
- Então, depois que vc melou, eu chamei a Diéssica
- Entendi.
Claro que João não entenderia. Nem sabia porque havia tentado explicar. Mas enfim, ele estava de fato certo. Deveria mandar mensagem o mais rápido possível para Ana. Obviamente ela não estaria o esperando e já teria um novo compromisso.
- Viu a nota do filme no Rotten? – Disse ele.
- Oi! Que filme? 😊
- O do Spielberg.
- Ah, sim! Bem alta.
- É... queria ver logo.
- Acho que eu vou hoje e vc?
- Eu não sei ainda :/
- Entendi...
Paulo nunca tinha feito isso na vida. Pelo whatsapp parecia bem mais fácil que pessoalmente, mas mesmo assim, deveria fa…
- Vc é muito idiota, sabia? – Disse ela tirando o chão de Paulo, que a essa altura já havia feito quase todas suas tarefas em direção ao trabalho, e já estava no trem.
- Pq?
- Vc acha que é tipo sua tarefa me chamar pra sair... vc tá ligado que não é,né?
- Como assim?
- Mano, a gente tá conversando tem um mês e vc toda vez que aparece algum rolê legal fica mega nervoso. Como se fosse seu papel me chamar. Como se fosse o papel do homem. Já passou pela sua cabeça que a gente pode, sei lá, COMBINAR, de sair? Tipo, a gente senta, bate papo, decide um horário e PRONTO. Esse machismo te prejudica mais do que pra mim – Paulo não sabia mais onde estava, quantas estações faltavam, tudo passou pela sua cabeça. Aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia. Sempre que aparecia um filme, uma festa, qualquer coisa, seu comportamento era o mesmo. Esperar, esperar, esperar, até perder a oportunidade. Quatro fins de semana. Quatro quintas feiras em que a relação dele com Ana ficava estranha.
- Não vai falar nada? - Perguntou Ana.
- Desculpa.
- Eu até tive certeza ontem que vc era um puta dum machista quando fez aquela cara quando eu peguei o hambúrguer. Mas sei lí, acho que vc é só um idiotinha mesmo.
“Idiotinha”, das duas uma. Ou o diminutivo indica desprezo, ou era a abertura para que ele resolvesse a merda que fez.
- Mano, seguinte, eu gosto de vc. E vc tá certa. Eu sou um idiota. Eu nunca chamei ninguém pra sair. Não é machismo. Eu só não sei o que fazer. E eu fiz uma cara estranha ontem pq, Tipo, eu acho que sonhei com o dia de ontem, saca? Vai ver é o nervosismo, sei lá. É como se eu tivesse vivido o dia duas vezes. Rs
- hahahahahaha,  entendi a referência. 😊
- Pq todo mundo sempre fala isso quando eu falo nisso.
- Pq é o meme. Do capitão américa.
- Eu sei.
- Então, pq vc citou a trama do filme do Spielberg, ué?
- Oi?
- Para, Paulo. Hahahha. Eu acho que vc não é machista. Então vc tem hoje as 21h no El doras pra me convencer é fofo, ok?
- El dorado? Ok! Bora! Você falou da gente combinar mas quem chamou foi você.
- HAHAHAHHA, pois é…
Ele ia sair com a Ana. Nada mais importava. Tinha que ser um rolê maneiro. Eles iam sair do serviço juntos, e ir até o Shopping que ficava na esquina. Comer, ver o filme e depois voltar. Teria que ser incrível, incluindo o filme aliás- Paulo pensou-  sobre o que era mesmo?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

It Does Not Matter (Pt2)

Written by Ludmila Barros

I just stayed there, looking at the bruise. I asked if they had warned any adult there, he told me he was too embarrassed that he asked Melissa not to tell anyone either. He also begged me not to talk to the principal, or to his father, or anyone. I agreed. He was able to cover that with makeup, even though I let him skip some classes. He had dinner in his room the whole week so his father could not notice. Just by the time the bruise disappeared, he received a letter from the University he wanted to go. He got accepted. We celebrated going out to dinner. That night, he shared more news than that.
He opened up about his situation to his father. I remember that dinner very well. He started by saying that Melissa was never his girlfriend for real. That they did that so their classmates stopped messing with him. While he was telling all that I was able to feel the anger boiling up in my husband. He was quiet, yet, he was devastated inside.
‘I’m a girl, and I know that now. I was never a boy. I’ve never felt comfortable within this body. I hated every time I had to look myself in the mirror. So I decided not to take it anymore. By the time I move to my dorm in College I’ll start being myself.’ that was his monologue, I listened carefully, amazed by his courage, but also afraid of it.
‘And what ‘being myself’ means?’, his father broke the silence just to ask that.
‘I’m going to be a girl.’
‘And what does that means?’, he raised his voice, ‘You’re going to wear a dress? Put on makeup? Are you cutting it off?
‘If I have to.’
‘If I have to?’, he repeated, ‘If I have to?’, he was dazed, ‘You know everything, eh? You know the world and everything in it, right? You’re so sure of everything, I envy you and your conviction. I’ve gone through all my life accepting that I know nothing about this, about human life and the nature of God. But I look at you right now and…’ , he did not finish.
We ate all the food and left, without saying one more word. His father went to our room and locked himself in there. I went to Jason’s room before following my husband.
‘Do you remember that old story about when they got your sex wrong in the exams?’, he nodded his head yes. ‘I never told you something. I had already chosen a name for you. I mean, a girl name.’, his eyes lit up.
‘Which name?’
‘Jessica.’

The day we drove him with all his boxes to his new home was a deadly silence. All the three of us stayed in that car just speaking the necessary words, nothing more, nothing less, just the essential. I was utterly excited and proud of having my only baby going to a good College. My kid was following his dream of studying numbers, mathematics, physics and all those things I had never understood in school. If I were to say something about my kid was that he loved to study. He could spend hours reading a book or studying in the computer.
We helped him set up everything he needed. All the documents and all his belongings in his private dorm. His father made sure he had a private one. I was not sure why, and, actually, it did not matter to me. From the moment we arrived, my husband stayed away the most part of the time, it was sad, but it got me closer to my baby. We were chatting like girl friends, laughing and discovering things together. By the time we finished everything, his father just gave him a hug and wished him ‘good luck in this new adventure!’ and walked to the car. But I stayed there for a little bit more.
‘I’ll miss you, mom. I’ll really miss you. I’m excited for this new… chapter? But I’ll miss talking to you everyday.’ he hugged me tightly.
‘It’s obvious that I’ll miss you more, Jason!’, in the moment I said ‘Jason’, he grabbed me by my shoulders and replied.
‘Not Jason, not anymore. Please. Call me Jessica for now on, ok?’
‘Anything that makes you happy, Jess.’, she hugged me again.

We kept texting each other every now and then. During the dinners alone with my husband I started calling her by the new name: Jessica. After some time he did not bother anymore. Everything was settling down, he began accepting Jessica’s situation. I had always said that distance increases love. He even started searching about it and learning all the hormones she could take and the social issues about the matter. I was extremely proud of my husband again. He came back on being the man I fell in love with. Then Thanksgiving arrived, sooner than I could realize. I made sure Jessica was coming and I cooked a great meal for the three of us. Anyhow, I was not expecting the amount of surprises that day was holding.
The atmosphere was not the lightest, but it was enough for us to talk nicely. About everything. Jessica stayed hours telling how things were different in College. People would never bother her for wearing skirt or dresses. She told me later, privately in the kitchen, that she decided on the last minute to come ‘as a boy’ to not upset her father.
‘You’d be surprised by how much your father has… grown.’, I just said that while washing the dishes.
Then we gathered in the living room. We had just sat in the couch when he started talking.
‘I gotta tell something and I’m going to seize the opportunity of having both of you here.’, my husband was serious. ‘I’m leaving the church, I mean, the position of minister.’
‘Why? You love it so much.’ Jessica was not only as surprised as me.
He hesitated, but eventually spoke up.
‘Some people from the congregation found out about you.’, at this moment I felt like I was not in the conversation anymore. They were having their moment to undo any misunderstanding. ‘They asked for explanations about it. About how I could let something like this happen in my own house.’
‘I’m so sorry, dad. I didn’t want to cause any trouble, I mean…’
‘But I told them that my daughter couldn’t be a shame for me, that my daughter's happiness was more important than anything else. I told them that I love you and I’ll support every decision you make.’ he laughed softly, ‘They got mad and said that if this was my final opinion, for the good of all, I should resign from my position.’
Jessica was already crying when he finished. She went to him and sat on the floor, holding his legs. She looked up and the next two sentences made me the happiest mother alive.
‘You called me ‘daughter’?’
‘That’s what you are, isn’t it? The exam was right all along, Jessica. You were always my little girl all along.’
I can recall that moment every time I get sad. When that weekend was over we had a warm goodbye. I was already demanding her to come back for the holidays, but she was going to travel with some friends from College. So I was making plans for the Easter. I wanted to have my daughter close, the more the better. Her father agreed ‘So Easter it is!’

Easter never came. By the end of March we were told that our daughter was beaten up to death in a cold Thursday night. After some random fraternity party. At the funeral I got to meet her first boyfriend. He told me what happened. They were to have a exam the next morning, so they decided not to stay so late in that party. So they left earlier than the rest of the people. They went walking to her building, he was just going to drop her in her dorm. He seemed to be a very respectful boy.
But just one block away from her building a group of men approached them. In the first moment they were just shouting some random offenses. He told that Jessica got angry, but they did not say anything back. They both were really scared. The street was completely empty, so they started walking a bit faster. Her boyfriend was crying deeply in the moment he started describing those men next actions. The group got angered because they were running away from them, so one of them got mad and ran to beat Jessica. They beated him too, but the mad one did not stopped at all. The rest of the group had to take him of her already dead body. They ran away. The police did not caught any man.

My daughter was killed by a group of men just because she was dressed like a girl.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Temos que manter isso?

Escrito por Pedro Henrique Silva
Olá! Meu nome é Edson Britto e se você consegue ler essa mensagem eu já consegui metade de meu objetivo. Mando esse texto do Império Sul-americano e gostaria de relatar como vive um cidadão de bem daqui.
Tenho 23 anos e sou casado. Tenho um filho ainda na barriga de minha esposa, Paula. Meu avô conseguiu uma conexão com a internet em um servidor pelo qual é possível enviar mensagens para fora do continente. E fico feliz porque você consegue ler minha história. E espero, aliás, que meu idioma não seja um problema.
Queria começar relatando como minha rotina é aqui na capital do Império. A maior e mais linda cidade do mundo todo. Eu e minha esposa acordamos geralmente às 5h para ir à fábrica na Zona Sul da cidade. Essa que é uma das maiores da cidade e outrora era uma instalação esportiva, mas depois da guerra, o Imperador decidiu entregá-la à Bosewitch, uma empresa do ramo da energia nuclear. “Nós ajudamos a abastecer todo Império da forma mais eficiente e ecológica possível”.
O caminho é bastante complicado. Pegamos a linha Platina para nos deslocarmos da região Norte à sul. Os trens aqui foram entregues com tanto atraso, mas tanto atraso, que sequer estavam prontos. Isso é o que meu avô diz, claro. Segundo ele, a Linha Platina era uma promessa para 2050, apesar de o Representante dizer várias vezes que o prazo era 2070. Logo, foi entregue dois anos antes do que deveria. Apenas os velhos daqui questionam o Representante, infeliz ou felizmente. Tome suas conclusões. Eu não sei o que é verdade. Há alguns que vão de carro para o trabalho, mas como a gasolina custa dinheiro, poucos conseguem compra-la. Eu e minha esposa recebemos comida como pagamento, e está muito bom.
No percurso vemos uma série de confrontos entre policiais e Os Degenerados, que é como chamamos os usuários de drogas e os demais doentes. Aqueles que causaríam a extinção da raça humana caso tivessem contatos e relações conosco. Como eu sempre digo, sou muito grato ao governo por nos proteger deles.
Enfim, quando chegamos na Fábrica, eu e minha mulher vamos às nossas estações. Elatem que trabalhar perto das regiões onde a radiação é mais forte. e isso me mata. Eu sei que há muitas mulheres preguiçosas que engravidaríam de propósito para fugir do trabalho. Eu sei. Mas o fato de não haver uma lei que impeça que mulheres trabalhem aqui, me incomoda demais. Meu filho pode sofrer muito com isso. Uma colega minha acabou perdendo a criança no parto, e ela trabalhava junto com a minha esposa. Disseram que ela que teve hábitos imorais durante a gestação, mas Paula diz que ela era cuidadosa. Sei que temos que sempre confiar na palavra do governo. Nunca Temer. Mas minha esposa não teria porque mentir.
Vejo Paula nos nossos 15 minutos de intervalo. Reconheço a generosidade do Imperador em conceder um descanso tão grande para os trabalhadores de todos os empreendimentos do país. E também sou muito grato pela comida que temos todo dia, mesmo essa sendo grande parte do nosso salário, mas mesmo assim me parece pouco tempo às vezes. Não reclamo, até porque sei que aí nem há descanso. Meu avô diz que não é bem assim, mas sei que é.
No fim do expediente, já as 22h, eu e minha mulher saímos do trabalho de volta à Linha Platina, para infelizmente ver que os confrontos noturnos iluminam a paisagem cinza de nossa cidade linda. Aconteceu esses dias da polícia ser forçada a derrubar um prédio em que alguns degenerados moravam. O Sub- Representante mesmo foi lá derrubar. Vestido como um policial. Gosto do Sub-Representante.
Chegamos em casa com parte da ração fornecida pelo Governo. E cozinhamos diretamente no micro-ondas. Meu avô diz que havia recipientes em que a comida era cozinhada. Chamavam “panelas”, mas essas foram confiscadas pelo governo por serem perigosas.
Bom, basicamente estou enviando essa mensagem pois briguei com meu avô outro dia. Eu e ele discutíamos as atitudes do Império. Eu defendendo, ele as criticando, todas elas. No fim ele me convenceu a enviar essa mensagem para alguém de fora daqui, uma vez que ele tinha como fazer isso. Eu não quis. O governo é bom conosco. Luta dia após dia com os degenerados, cujas práticas causariam a destruição da humanidade. Nos paga muito bem com comida. Banca nosso aluguel, limpa e deixa nossa cidade cada dia mais linda. E é assim que os pagamos? Com desconfiança? Fazemos ele pagar o pato de nossas insatisfações vãs? Meu avô é mesmo um mortadela patético.
Veja, essa é uma época linda para se viver. Apesar de que Globalmente haver dificuldades. Mas, de fato, minha esposa está de seis meses de gestação e trabalhando em ambiente radioativo. Será que é mesmo assim que as coisas funcionam? Enfim, queria receber uma resposta que confirme que aqui nós vivemos bem. Para que eu possa esfregar na cara de meu avô.