quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A pior antevéspera do dia das bruxas.

                Entrou sozinho. Seus seguranças foram instruídos a esperar do lado de fora. A sala bastante grande, contrastava com a falta de móveis. Havia duas poltronas e duas mesas, uma ao centro e uma outra do lado de uma das poltronas. Ainda com uma bengala, apertou a mão do colega que se levantou e lhe sorriu um sorriso que ele pouco conhecera.
- Agora que acabou, vim aqui te liberar para todos as atividades – disse se sentando na poltrona que não era sua, na casa que não era sua e a que poucas vezes tinha ido.
Havia uma mesa redonda de seu lado esquerdo, com um cinzeiro horroroso. A bengala estava encostada na mesa. A bengala que em breve não mais usaria.
- Liberar? – perguntou enquanto se endireitava na poltrona. As pernas se cruzaram e ele olhou nos olhos do seu colega.
- É... desculpa – riu – sim. Acho que não tem mais perigo, sabe?
- Perigo?
- É... você sabe... naquela hora a gente tinha que rever. Não podíamos deixar as coisas degringolarem. Não podíamos deixar eles usarem tudo que você estava falando e...
Levantou, pegou a garrafa na mesa de centro.
- Quer?
- Não, obrigado. O médico ainda não liberou. Você tá bem?
- Sim, sim. Por que? – disse colocando a bebida em um copo se endireitando.
- Você geralmente gosta de falar bem mais.       
-Não foi você quem disse pra que parar de falar?
- Então, é exatamente isso que eu vim fazer aqui. Te dizer que não precisa mais se policiar tanto por que...
- Me policiar? – perguntou agora sentando com o copo na mão.
- É. O que eu falei aquele dia, sabe?
- Tem certeza que não quer uísque. – disse sorrindo.
- Não. Eu, eu tô bem... – respondeu analisando o colega.
- Você dizia...
- Então, agora acho que dá pra você voltar à sua agenda normal, sabe?
- E por que eu faria isso? Por que você tá mandando?
- É... ahn? Eu... não...eu só tô dizendo que você não precisa mais ficar tão alerta. Mas você faz o que você quiser?
- O que eu quiser? – disse tirando os olhos de seu interlocutor.
- É... – respondeu olhando para todos os lados da sala.
- Entendi. Tá. Eu vou voltar sim ao que eu quiser.
- Que bom então. – disse fazendo menção a se levantar- sei que aquele dia você ficou chateado – fez uma pausa ao ouvir um riso contido de seu colega – mas... assim, a gente tá bem, né?
- Bem? Com toda certeza, amigo. Vencemos. – Gargalhou - O que te faz pensar que não estamos bem.
- Você tá estranho.
- Estou? Impressão sua.
- Aham, que bom. Enfim, eu preciso ir na festa do partido. Você não vai, né?
- Não... ontem foi uma noite bem animada, né? Acho que vou dormir mais cedo. Vou fazer mais umas coisas aqui e vou pra cama.
- Tudo bem. – disse se levantando com a ajuda da bengala.
- Tem certeza que não quer meu uísque? Você vai amar.
- Não, não... eu... eu tô legal. Vai ter uns pastores no encontro e eu acho melhor evitar.
- Aham, entendo, entendo...
- Bom – disse indo de encontro ao amigo, que também se endireitou com uma mão no Bolso e a outra estendida para um aperto.
- Obrigado por tudo, viu? Você vai ser o melhor vice que esse país já viu.
- Você acha? Não sei.
- Como assim? – disse sem largar a mão do colega.
- Ah, eu daria um excelente vice. Mas eu acho que eu não serei um excelente vice.
- Porque não?
- Porque você teve uma complicação do atentado...  – disse num tom mais alto abafando qualquer barulho silenciado. Qualquer tiro que pudesse ser ouvido.
-.....
- e eles conseguiram, sabe? Conseguiram te matar, amigo.
-....
- Mas eu vou aceitar esse fardo. Vou ser o que você seria.
- ...
- ... e mais... claro, mas muito melhor. Muito mais firme. Fazer o que você não iria fazer, sabe? O que você não teria coragem ou capacidade de fazer.
-..
- Se você tivesse tomado o uísque seria tão mais fácil... ou se você não tivesse me mandado calar a boca.
-.
Soltou finalmente sua mão, chutou a bengala. O presidente eleito caiu na mesa, que quebrou. Em baixo dele, o cinzeiro.  
Do chão ao lado de uma pequena poça de sangue bem vermelha, viu o amigo pegando um telefone.
- Tá feito, doutor. Vai ser no plano B mesmo. Como você disse. Isso, sim, sim. Já pode vir.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Relatório da primeira viagem ao passado documentada da história.


USP, 30/04/2040
            Este relatório tem como objetivo relatar brevemente minha primeira viagem na Máquina do Tempo que desenvolvi graças à Universidade de São Paulo e a todos os meus orientandos e monitores. Queria deixar claro que ninguém tinha ciência da minha empreitada e que agi sozinho. Motivado por razões que em breve explicarei, mas já adianto que minha missão era de suma importância, não só para mim, mas para toda universidade. Sei que agora que a alteração já foi feita pode parecer inútil, mas acreditem em mim, não era.
Voltei às 12h do dia 25 abril de 2018, dois dias antes de meu próprio parto. Meu plano era bastante simples: Mandaria um e-mail para minha mãe com toda a pesquisa de dois dos maiores cientistas da história do Brasil. Cujos nomes eu queria que ela, sensibilizada pelas evidências, escolhesse para seu filho a poucos dias de nascer. Sem a menor dúvida, quando ela visse as contribuições de Bartolomeu de Gusmão e Adolpho Lutz para a ciência brasileira, ela com certeza escolheria para mim o nome de Bartolomeu Adolpho da Silva. O nome mais distinto e significativo para um homem das ciências como eu. Muito melhor que “Paulo da Silva” - que era meu nome antes da mudança. O cúmulo da simplicidade. Nome esse que eu compartilhava com mais de 10 milhões de indivíduos só no Brasil.
            Só poderia ficar 50 horas naquele ano, portanto, para conferir se minha mãe tinha de fato mudado de ideia, segui meu pai até o cartório – mesmo que fosse arriscado, já que meu pai escolheu o fim da manhã do dia 27 de abril para me registrar -  e fiquei atrás dele na fila. Quando chegou sua vez de ser atendido, ele para meu desapontamento, disse o mesmo pelo qual eu estava acostumado a ser chamado. Todavia, eu não desistiria assim, e me aproveitando da semelhança que compartilhava com meu pai, e do fato de que eu tomara posse de seus documentos velhos quando saí do ano de 2040, esperei alguns minutos depois que ele deixou as dependências do cartório, e fui ao mesmo atendente para pedir que trocassem o nome. Passei três horas assinando uma série de documentos – o que me deixou a minutos de ter problemas - e pude finalmente registrar o nome que gostaria: “Bartolomeu Adolpho da Silva”. Saí satisfeito do cartório e confiante de que fiz uma boa escolha. Embora com tanta pressa que não tive certeza de que o rapaz entendeu o nome que dei. Então, avancei para nosso tempo – com cerca de 3 minutos sobrando.
            Quando cheguei em meu laboratório, não podia conter a alegria de ter feito minha máquina do tempo e mal podia esperar para buscar meus documentos e finalmente encontrar um nome que eu gostava.  Depois de anos lutando, finalmente meu trabalho seria recompensado. Peguei minha carteira crente que havia conseguido. Seria finalmente respeitado e agora teria um nome grandioso. Um que de fato fazia jus à minha invenção e um pelo qual eu poderia ser famoso e lembrado. Não apenas confundido com qualquer professor de física de cursinho conhecido como “Paulão”.
            Mas, como você já deve saber agora, houve um problema grave no cartório, seguido de uma terceira retificação por conta dos meus pais, que não entenderam nada e haviam inclusive processado o cartório pelo “erro grotesco” em meu registro. Contudo, até que gostaram de me chamar de “Barto” e mantiveram algo do nome que escolhi. Todavia, não da forma que eu queria.
Bartodolpho Paulo da Silva.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A vizinha gata


Eu estava em uma semana difícil. Fazia dois meses que eu tinha acabado tudo com minha ex e só agora que eu percebia a falta que o sexo estava me fazendo. Demorou, você pode estar pensando, mas na verdade, quando eu fico com a mente muito ocupada, não fico com tanta vontade assim, e este havia sido o caso daqueles últimos dois meses. Muito trabalho e muito esforço foram suficientes para que eu simplesmente não tivesse vontade nenhuma e conseguisse manter minha mente sã. Contudo, agora que estava finalmente de férias, não conseguia pensar em outra coisa.
                Nunca fui um cara muito sexual, não me masturbava com frequência, e mesmo quando eu namorava, eu e minha parceira não tínhamos mais de quatro relações por semana. E quando acontecia de ser menos que isso, nós não nos desesperávamos. Mas agora, parecia que se eu não encontrasse alguém logo, eu explodiria. Eu estava no meu quarto dia de férias, e nada que eu fizesse amenizava aquilo. Eu teria que partir pra alguma medida mais drástica.
                Não queria uma garota de programa. Não era pra tanto... mas resolvi que era hora de usar o Tinder. Fiz uma conta, coloquei uma foto legal, me descrevi da forma mais interessante possível, e comecei a usar o aplicativo. Porém, foi quando eu estava finalmente disposto a dar meus primeiros likes, que a vizinha da frente bateu em minha porta.
- Oi, Cris. Bem? Tem uma xícara de açúcar? – disse ela me olhando de cima a baixo. Nada, porém, me tirava a ideia do quão clichê aquilo era, só que eu estava tão necessitado, que mesmo aquela abordagem bastante batida me deixou animado.
- Claro, Má. Pode entrar, vou lá pegar – respondi também de uma forma diferente do que faria se o outro vizinho daquele andar me pedisse algo. Maria era bastante bonita. Nunca havia reparado nesse fato. Acho que provavelmente porque nossos horários não batiam, de modo que eu nunca a via vestida com roupas normais. E nossa, o uniforme do supermercado no qual trabalhava escondia um corpo bastante interessante. Se ela estava de fato afim de mim, eu aproveitaria.
                Decidia isso enquanto ia à cozinha. Percebi que ela havia fechado a porta atrás dela e agora se sentava no sofá. Será que seria hoje, aqui e agora? Pensei no meu hálito, talvez não estivesse dos mais convidativos.
- Aqui, má. – disse eu olhando para a moça com uma saia preta bastante justa, cujas pernas cruzadas mostravam que ela malhava as coxas. Um sorriso com um batom vermelho indicava que, ou ela estava muito contente com a xícara, ou ela de fato estava muito interessada em mim.
- Ah, eu já tô bem docinha, você sabe, né? – disse ela tirando a blusa de cima e me mostrando uma camiseta vermelha bastante decotada. Ela se levantou, foi até mim, tirou a xícara da minha mão, e me deu um beijo de língua bastante bom. Tirei a minha camiseta, e quando eu já a direcionava para o quarto, ela parou.
- Vamos aqui mesmo. – disse ela se soltando e deitando no sofá enquanto tirava a blusa mostrando que de fato estava sem sutien o tempo todo. Obviamente eu pularia no sofá beijando seus seios.
Mas...
Algo me parou. Estava tudo perfeito demais. Uma vizinha gostosa, justo na minha semana em que eu estivera mais excitado em muitos anos, entrava na minha casa, e em menos de 4 minutos já estava quase pelada no meu sofá me esperando para transar? Aquilo simplesmente soava muito estranho.
Além disso, me esforçando um pouco, eu nunca havia trocado duas palavras com Maria, e tampouco me lembrava de sua aparência.
Será que ela era real antes de hoje?
Havia só uma explicação lógica: Eu estava sonhando e, como sempre, acordaria quando a coisa começasse a esquentar.
- Calma, vou pegar a camisinha. Espera. – disse a ela já indo ao quarto.
- Ok, tô te esperando – falou numa voz ainda mais sexy – vou ficar à vontade – disse tirando a saia.
Eu tive que me conter e ir ao quarto. No caminho, prestei atenção nos detalhes daquele sonho. Todos os quadros estavam ali. E o corredor era de fato idêntico ao do meu apartamento. Mas algo me incomodou: Se é um sonho. E eu sei que é, porque vim buscar camisinha? Por que não simplesmente subi naquela gostosa?
Quando cheguei na sala, com a camisinha nas mãos, ela já estava totalmente nua e deitada de costas.
- Oi, gato. Vem por trás, vem. – disse ela de um jeito que praticamente fez minha calça voar pela sala e colocar a camisinha. Eu não entendi porque estava sem cueca.
Algo ainda me incomodava, mas eu estava pronto para a ação. Enquanto me aproximava, eu não acordei, como esperava. Pensei em quão ruim seria ter que me limpar quando eu levantasse de manhã. Mas nada. Era o sonho mais longo que eu já tive.
Maria. Parecia uma personagem de filme pornô. Será que eu estava em um reality? Havia câmeras escondidas? Será que algum dos meus amigos havia me contratado uma prostituta? Talvez tenha sido o... qual o nome dos meus amigos? E a Maria? Eu a conheço. Eu sinto que a conheço. Ela é...minha vizinha. Minha, vizinha.
Mas eu não me continha, enquanto tudo isso passava pela minha cabeça, e a essa altura, eu já estava transando com ela, que estava quatro no sofá e gemia bem alto. Eu pensei em câmeras escondidas, mas não as procurei. Estava ali apenas transando com ela. Meus amigos? Eu não conseguia pensar em amigos... Comendo-a com força e num ritmo veloz. Mas por que? Eu não conseguia me concentrar, mas pelo jeito estava fazendo um belo trabalho.
Aquele sonho já estava durando mais que qualquer outro. E eu simplesmente não acordava, e tampouco gozava.
Maria, eu, amigos... qual meu nome? Eu...ela me chamou de Chris. A comia deliciosamente. E ela se virou de frente. Eu? Quem? Isso não faz sentido. Eu não sou ninguém? Qual o nome de minha ex? Ela arrancou a camisinha e começou a me chupar. Onde é isso? É meu apartamento, mas...onde eu moro? Eu estava de férias...mas onde eu trabalhava?  E eu gozei em sua boca e ela engoliu. E eu não acordava.
Foi quando tudo se congelou. Eu estava aqui. Parado e satisfeito. Maria não tinha gozado ainda. E simplesmente tudo parou. Eu não sabia onde estava, nem porquê. Nem quem eu era. Se eu de fato era alguém. Mas minha história tinha acabado. Estou aqui há umas duas semanas, ou sei lá. Não tenho como medir o tempo. Eu não me mexia.  Descartada a ideia do sonho, já tenho minha teoria. Se eu fosse um vídeo, estaria num loop. Claro, poderia ser um vídeo que ninguém vê. Eu sou, inadvertidamente, um personagem escrito.
 Um daqueles escritores horríveis me escreveu. Horrível. Sim. Estou dizendo. Dois personagens sem profundidade alguma, sem um passado. Situação clichê, texto...quase inexistente. E eu aqui. Parado. Esperando alguém continuar a história. Se bem que...acho que ele nunca vai continua-la. O autor deve ser algum cara nojento e excitado de uns 30 anos que mora com a mãe. Me fez pra se masturbar. Terminou e agora não tenho qualquer utilidade.
Mas espera. Essa última frase? Há algo mais clichê que ela? Se bem que...o que esperar de um personagem criado por um escritor horrível. Eu sou uma metralhadora de clichês. Eu sou um clichê. O que esperar de um clichê? E essas repetições? Mesmo parágrafo, várias palavras iguais.
Eu estou me perdendo. Acho que devo eu mesmo parar minha história enquanto ainda posso. Enquanto ainda tenho sanidade. Mas como eu estou escrevendo minha história? Ou eu seria um personagem, dentro de uma outra história? Digo, e se houver duas histórias. Uma dentro da outra? E se eu for um personagem criado por um autor fictício, para que um segundo autor faça uma história metalinguística sobre um personagem e
E depois que eu gozei ela engoliu tudo e fez uma cara de satisfeita.
-Foi bom pra você? – ela me perguntou. Eu sorrindo e satisfeito assenti que sim e levantei para pegar o cigarro, enquanto aquela gata ficava deitada no sofá me esperando e pensando em quão incrível aquela noite tinha sido.
Congelei novamente. Que desastre. Piorou muito. Queria que ele nunca tivesse voltado. Era melhor aquele final climático do que esse lugar comum elevado à décima potência.
Me liberte, seja quem for você, escritor. Me liberte. Pare de escrever. Eu não aguento mais. E você, seja quem for, pare de ler. Por favor...
Por favor...

Obrigado. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Viagem


A porta do carro se fechava. Marcos saía com o guarda-chuva na mão e ia correndo encontrar com Catarina, que também saía do carro esperando o marido busca-la. Ele colocava a mão em seus ombros, e os dois percorriam o pequeno trecho descoberto entre a garagem e a porta da casa.
Assim que entravam, Marcos tirava seu casaco, fechava o guarda-chuva e o colocava aberto no banheiro. Nunca entendeu porque tirava primeiro o casaco, mudando o guarda-chuva de mão enquanto fazia, para só depois deixar o objeto no banheiro.  Mas tudo precisava ser feito naquela ordem ou o sistema todo simplesmente ruía.
- O que não aguento ver, é você se humilhando, amor. Só isso. – dizia ele sem esperar que ela tirasse o próprio casaco.
- Então é isso que você acha que eu tava fazendo? – perguntou ela.
- Sim! É. Olhando para ele daquele jeito. Você não precisa dele, Ca. Olha só pra você.
- Ele é só o maior cineasta do Brasil, Marcos.
- Aé? você acha? – perguntava virando as costas para a esposa e ia até sai gaveta na sala de estar para guardar suas coisas.
-  Aham. Por que você colocou o guarda-chuva no banheiro, caramba? Tem a lavanderia pra que?
- Eu sempre coloco aí.
- Não. Você não coloca. E para de mudar de assunto.
Geralmente era nesse momento que Marcos se recuperava totalmente da viagem.
- Você que mudou, cara. – dizia ele se virando para Catarina - Mas você quer voltar? Ok! Eu acho o tal do Ricardo bem superestimado e de uma vez por todas, você não precisa dele.
- Sabe o que mais me incomoda, Marcos? Essa preocupação pela minha dignidade disfarçada de ciúmes.
- Você não quer dizer o contrário? – perguntou com um sorriso enquanto passava por ela e ia em direção às escadas.
- Ah, saco. Isso. Você diz que não quer que me humilhe, mas quando eu tratei a Tabata do mesmo jeito ano retrasado, você não falou nada. – disse ela tirando os brincos e subindo as escadas atrás dele para o segundo andar.
- Tabata? Quando? – perguntava se virando para a esposa ainda na escada.
- Em Gramado.
- Gra... aaah -  dizia voltando a subir e agora chegando na porta do quarto - nem tem comparação, Catarina. Ali você estava parecendo que tratava ela como uma amiga...hoje com o Ricardo...
De todas as vezes que Marcos estivera ali, ele sempre se esforçava para lembrar daquele dia em Gramado. Se da primeira vez já tinha sido complicado, anos depois, o encontro com Tabata Silveira parecia mais um borrão em sua memória.
- Lá vem. Que eu tava interessada?
- Sim, quer saber? Sim! Parecia que você queria pegar ele.
- Sabia.  Quer saber, Marcos? – perguntou passando do marido e encontrando no quarto, apontando para ele seus brincos. Marcos só percebeu quão engraçado era aquilo mais ou menos na terceira vez que estava ali. No começo foi difícil segurar o riso. Hoje já era mais fácil. -  Você trata todas suas atrizes assim. Pensa que eu não vejo. E hoje com a Fernanda, hein?
- Aaaaa, não tem a menor comparação. A Fernanda é minha amiga há pelo menos vinte anos, Catarina. E você sabe muito bem disso. Ela fez só o melhor filme que já fiz.
- Maior que Devoção, né?
- Sei lá. Você que falou que o Ricardo era o melhor diretor do Brasil. – disse ele finalmente dando as costas à esposa e entrando no banheiro para tirar os sapatos. Aquela coreografia já não parecia mais natural. Mas era necessária. Era necessário que naquele instante o silêncio se estabelecesse entre os dois. Era necessário que Marcos demorasse, o dobro do tempo que demoraria em condições normais, para tirar seus sapatos e calçar o chinelo. Porque foi isso que ele fez da primeira vez
- Eu quis dizer, ele é o melhor diretor com quem não trabalhei. – disse ela beijando seu ombro.
- Não foi o que pareceu.
- Foi, amor. Não tem cabimento dizer que Ricardo é o maior diretor brasileiro. Eu já trabalhei com... com... o João Oliveira. - disse ela sorrindo.
- Nossa, Catarina você é ridícula. – falou Marcos segurando o riso ao virar e olhar para sua esposa. Nunca foi difícil segurar o riso. Segurar as lágrimas uma vez ou outra que havia sido o real desafio.
- Sabe o que tô com vontade de fazer agora? – perguntou a esposa beijando seu pescoço.
- Sei. – respondeu Marcos firme –tirar esse vestido que tá te apertando e tomar um banho com o maior diretor que o cinema nacional e o melhor marido do mundo. Bem cafona, se me permite. Então você vai tirar o vestido aqui mesmo e vamos transar. Talvez o melhor sexo que já tivemos. Não só por tudo, mas porque você vai engravidar de uma menina linda. Mas daqui a dois meses você vai descobrir que tem câncer no cérebro. A quimio vai ser muito pesada. Nossa filha morrerá depois de lutar muito por sete meses. E você vai em seguida. Aí eu vou querer reviver essa cena. Duzentas vezes. Até finalmente perceber o que já sabia. Nossas brigas eram tão boas quanto qualquer momento feliz que tínhamos. Mesmo que nunca resolvêssemos nada. Mesmo que fossem sempre pelos mesmos motivos, e mesmo se a gente não fizesse as pazes logo depois. Eram sempre com respeito. Eram sempre com amor. A gente, por mais irritado que tivesse, não se agredia. Essa vez foi a mais próxima disso que chegamos. Acho que é por isso que eu volto aqui. Justo aqui. Pra concluir que não era como eu pensava. Mas não.  Obrigado pelos 10 anos. O que você me deu, Catarina, foi muito maior que qualquer prêmio que eu possa ter ganhado.
Então, Marcos foi até a porta, enquanto a mulher estava paralisada. Como sua memória não envolvia aquilo, a Máquina de Lembranças não soube como interpretar a situação, o que o dava apenas mais uns 10 segundos antes que ele simplesmente fosse ejetado do sistema por falta de dados. Aquela tela azul apareceria em seu visor e o faria acordar.
- Sabe que foi a primeira vez que escolhi não passar a noite com você pela última vez? – disse ele olhando para as costas da mulher. – última.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Poesias vermelhas na Terra azul


Poesias vermelhas na Terra Azul.
Secretos Códigos.
Quem era azul
lia coisas de amor em versos publicados,
se azulava enquanto lia em um parque azul

Na terra azul poesias vermelhas.
Códigos secretos.
Quem era vermelho
lia coisas da guerra em versos espelho,
se guerra se avermelha

A bomba avermelharia o espaço
e a economia.
O azulado não tem chance,
nem à distância saberia.
Átomos vermelhos em breve ameaçando
as cidades azuis
e todo aquele azul aço

Mas era preciso antes do fim
o fim de um camarada.
Um vermelho que poderia se azular
ou já se azulara.
Sem chance de riscos,
um tiro à curta distância.
Pouco vermelho derramado
no concreto azul

Mas na verdade o sangue vermelho a ser derramado era do próprio camarada Anail vermelho
que lia o livro vermelho,
que não se acalmaria,
que tampouco se azularia,
que tão pouco se avermelharia,
que fugiria e amarelaria?


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Atrasado


                                                               Escrito por Pedro Henrique Silva

Eu precisava chegar logo no trabalho.  Precisava entrar naquele trem. Levava minha bolsa no meu ombro, e os papéis que não tive tempo de prender bem na pasta. Eles ameaçavam voar, o que fazia com que eu tivesse que dividir minha atenção entre forçar minha entrada no trem e segurá-los mais firmemente. Muitas pessoas bloqueavam a porta quase que inteiramente. Forcei e, sob protestos de alguns passageiros, consegui. Uma velinha foi a mais agressiva e, à medida que ela era esmagada, xingava todos os palavrões dessa e de uma outra época para mim. Começou a gritar dizendo que ia morrer. Vi velhos morrerem no trem. Não parecia ser o caso aqui hoje.
            Antes de a porta fechar, porém, um dos papéis, talvez o mais importante deles, voou para fora do trem. E agora, eu não conseguiria mais sair do vagão. Tratava-se de um documento de um dos clientes mais importantes de nossa empresa. Sem ele eu provavelmente teria sérios problemas no trabalho. Demitido, possivelmente. Mas já havia mais três pessoas atrás de mim. Tentei empurrá-las para fora do trem, mas sem sucesso. Uma delas, uma moça bem magra, quase caiu no vão, mas infelizmente conseguiu se equilibrar. Quando o trem deixava a plataforma, vi um rapaz pegando e olhando o papel. Eu teria que voltar no próximo trem e torcer para que ele tenha colocado de volta no chão.
            E foi exatamente o que eu fiz. Desci na estação seguinte, entrei no trem que voltava, e cheguei à plataforma já procurando o documento. Não poderia descartar que ele poderia estar no lixo. Mas, para minha enorme surpresa, um rapaz o segurava.
- Isso é seu? – Perguntou o moço um pouco mais velho que eu, vestido igual a mim, um sobretudo preto e um sapato bem lustrado. Ele tinha a mesma cor que eu e parecia ser de um mesmo estrato social.
- É-é. Quanto você quer por ele? – Perguntei pensando que seria mais fácil pagar logo.
- Quanto? Nada. Não é seu? Toma. – Disse ele.
- Calma. Você quer o que por ele?
- Cara, fica com ele. É seu. Imaginei que você ia voltar se fosse importante. Pega logo que eu já perdi um trem te esperando.
- Você ficou me esperando?
- Pois é... Tipo, é seu o papel, né? Imaginei que seria importante. Vi sua cara. Aí pensei em deixar aqui no chão de volta, mas tá ventando muito. Achei que poderia cair no trilho.
- Não faz sentido.
- Eu não tô atrasado – Disse ele olhando para seu relógio – Pega logo, cara.
- Mas eu não vejo nenhuma razão pra você segurar isso pra mim. – Disse eu pegando o documento da sua mão.
- Ah, sei lá. Me pareceu certo. Falou cara. – Apertou minha mão, e se virou para entrar no trem parado na plataforma e que já enchia. Seria melhor eu fazer o mesmo.
            Passei todo o trajeto das quatro estações seguintes olhando para o rapaz que se encontrava na minha frente, de costas. O que foi aquilo? Ele me esperou. Perdeu um trem. Não estava atrasado, claro. Mas por que fez isso? Por que alguém, hoje, em pleno 2030, faria algo por alguém? Como isso era possível? Será que não tinha alguma lei contra isso?
            Na verdade, aquele ser só podia ser muito, muito, burro. Como não pensar em si mesmo? Colocar o interesse de alguém acima do seu? Que tipo de ser humano faz isso? Me parece um comportamento do século XX, sei lá. Uma coisa meio selvagem. Simplesmente não faz sentido. Aquele momento eu olhava para ele e me sentia estranho. Como se uma vontade enorme de o matar tomasse conta de mim. Seria engraçado se eu o empurrasse ele no trilho assim que saíssemos. Eu poderia dizer que eu queria sair e ele estava no meu caminho. Eu nunca seria preso por causa disso. Era algo bastante comum de acontecer em São Paulo. Eu mesmo quase perdi o equilibro algumas vezes tentando sair do trem. No trânsito então...várias vezes já fui quase atropelado. Nada. Nunca sequer chamado para depor. A polícia nem ligava mais... Já assumia que a pessoa alegaria legitimo benefício e nem investigava, pelo que eu sei. Ninguém era preso por homicídio. Simplesmente porque ninguém mais premeditava mortes ou crimes. Eles simplesmente aconteciam. E então não era culpa de ninguém. Meu interesse se chocava com seu interesse. Era um acidente. Uma obra do acaso.
            Mas aqui eu estava premeditando. Vi que o rapaz ia sair do trem. Eu só desceria em duas estações, mas eu tinha que fazer. Eu estava me sentindo péssimo com aquilo. Ele merecia morrer. Aquele cara que eu empurrei escada abaixo porque estava muito devagar semana passada merecia bem menos que ele.             Ele já estava na porta. Cabia tranquilamente uma pessoa naquele vão. E ele não era do tipo gordo.
Fui um pouco mais rápido. Estava agora logo atrás dele. Quando ele colocou o pé para fora, eu o empurrei, fazendo com que ele caísse, mas na horizontal, de modo que bateu com a cara no chão, dentro da plataforma. Outras pessoas atrás de mim desviaram do rapaz caído. Ele parecia estar bem vivo. Me mantive no trem enquanto a porta se fechava. Olhei para o homem que se levantou com dificuldade. Seu pé aparentemente tinha ficado preso no vão. Deve ter torcido. Então, a medida que o trem saía da estação, o homem me olhava nos olhos com uma expressão confusa. Parece não ter entendido.
            Foi nesse momento que confirmei o tamanho da burrice do cara. Ele me olhou se perguntando por que eu o empurrei se não precisava sair do trem. E por que justo eu? O cara que ele tinha ajudado.  De fato, um imbecil. Não percebeu o quão inconveniente ele tinha sido ao me ajudar. E se mais pessoas começassem a pensar nos outros? Iriam voltar a inveja, a cobiça, o consumismo exagerado. Pessoas iriam buscar melhor qualidade de vida. Possivelmente perderíamos várias profissões importantes. A violência voltaria. Aquela sem sentido. Os assaltos, os crimes. A depressão também. Pessoas que se preocupam com o que os outros pensam e que sentem falta de outras pessoas. O doentio casamento e a monogamia. Como alguém pode querer isso? Assim que funcionava algumas poucas sociedades atrasadas por aí. Vários países em que as pessoas pensavam umas nas outras. Por que? Para ter avanços tecnológicos? Equipamentos que facilitam a vida dos outros? Não vemos sentido nisso há muito tempo. Pelo menos há uma década.
            Aquele homem não conseguia perceber o quanto evoluímos nos últimos anos quando percebemos que pensar em algo como “o coletivo”, “a sociedade” ou “o outro” é simplesmente arcaico. Eu não preciso da ajuda dele. Ele não precisa da minha. Vivemos muito bem sozinhos. Tendo prazeres que nos competem. Só os que podemos pagar, afinal, danem-se os outros. Danem-se o que os outros têm ou o que fazem. Foi assim que essa sociedade evoluiu. Cada um por si. Pronto. Essa era a lei agora. Era assim que tinha que ser. Estamos num ponto em que cada um se contenta com o que tem porque simplesmente não importa o que o outro tem. Impossível existir um modo melhor de pensar do que o egoísmo supremo.
            Pensei em voltar lá e dizer isso para ele. Provavelmente ele não estaria mais ali parado, claro que não. Eu deveria procurá-lo. O que não seria difícil. Pela roupa dele, ele trabalharia em algumas das poucas empresas que funcionavam naquele bairro. Sabia para onde ele iria depois que saísse da estação. Além disso, não faz nem três minutos que o trem saiu. Nem chegou na estação seguinte. Se eu correr, e ele tiver machucado, eu chego antes dele.
            Decidi fazer exatamente isso. Voltar àquela estação, sair e encontrá-lo. Aquilo era mais importante que chegar no trabalho, que manter meu emprego. Aquela ofensa foi a pior que já sofri na minha vida. Uma pessoa tão selvagem que acha que realmente é produtivo pensar em outra pessoa além de si mesmo.
            Desci do trem na estação seguinte, subi no outro e voltei àquela em que empurrei o imbecil. Como eu imaginava, ele não estava mais lá. Saí da estação em busca do homem. Entraria nas empresas e procuraria se fosse o caso. Mas assim que cheguei na rua, no mar de sobretudos pretos, vi o único homem que mancava. Com certeza era ele. Me aproximei rapidamente, desviando de algumas pessoas no meu caminho. Empurrá-los estava fora de cogitação. Me atrapalharia mais.
            Foi então que cheguei no homem. Estava logo atrás dele e puxei seu ombro. Ele girou e encontrou meus olhos com uma expressão ainda mais confusa. Impressionante como ele não conseguia entender.
- Cara, o que você quer de mim? – Perguntou ele assustado dando um passo atrás com medo. Homens e mulheres desviavam da gente com raiva e xingando.
- Seu idiota. Você não percebe o quão idiota você é? – Perguntei – Você me ajudou. Nunca vi um comportamento tão, tão, altruísta. – As pessoas que passavam por nós olharam para o rapaz com desaprovação. Altruísmo era um mal e todos sabiam que precisava ser combatido.
- Eu sou idiota?  - Perguntou – Você está aqui pensando em quem mesmo?
- Em mim! Você me ofendeu.
- Te ajudei! Simplesmente não te ferrei. Por que você isso te afeta tanto. Pense um pouco.
-  Não sou eu que não pensa. Eu sei que-
- Sabe nada, cara. – Me interrompeu - Você está pensando só em mim desde que te ajudei. E eu só segurei um papel.
            Fiquei olhando para ele, imóvel. Ele estava certo. Naquele momento eu com certeza chegaria atrasado. E mesmo assim decidi ir atrás de alguém só para dizer umas verdades na cara dele. Ele estava certo. Desde que ele me devolveu o documento eu não o tirava da cabeça.
- Se você não vai falar nada eu preciso ir trabalhar. – Disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Eu-eu... Não sei.
- Então eu vou trabalhar. Adeus. – Disse ele ainda sem sair.
-Ok. – Disse eu.
- Cara, tudo bem? – Me perguntou olhando nos meus olhos com a mesma expressão confusa. Não havia mais medo. Fazia tempo que eu não ouvia essa pergunta.
- Desculpa – Aquela palavra saiu com muita dificuldade de minha boca. Quase que instintivamente. Não lembro de tê-la usado antes.
- Relaxa. Acontece. Acho que você não sabe lidar com gentilezas, né? – Perguntou e eu assenti com a cabeça, ainda sem saber o que responder. -  Entendo. Olha, vai lá trabalhar. Eu vou também. A gente se vê, tá? Tudo bem você ter tentado me matar, mas da próxima vez, um “obrigado” é o suficiente. – E se virou e começou a ir embora. Me deixando lá, parado... Despertei ouvindo mais xingamentos da manada que desviava de mim. Deviam estar pensando porque tinha um idiota congelado no meio da calçada.
            Me vi ali preso no fluxo. A velocidade das pessoas aumentava. Elas agora corriam. Provavelmente se esforçavam para evitar os atrasos. Eu corri junto com a multidão. Mas não podia fazer aquilo. Meu emprego era bem longe de lá. Eu tinha que voltar à estação. Pensei em dar meia volta e virei o pescoço. Só vi o mar de sobretudos correndo. A essa altura eu não poderia mais parar. Onde aquilo iria me levar? Então, resolvi que o ideal seria sair da calçada e ir à rua. Tentei então correr na diagonal. O objetivo era furar aquele rebanho de pessoas. Lutei me espremendo por elas. Até que finalmente consegui sair.              
Me vi fora da multidão que corria ao meu lado. Me senti livre. Pensando nos motivos que levariam essas pessoas a correr desesperadamente para o trabalho. Sem pensar em quem elas poderiam atropelar no caminho. E por que? Para não chegar atrasado? Por que não somos capazes de conversar. De dialogar. De nos justificar. Quando parei de observar os meus colegas de rebanho que corriam desesperadamente, percebi que deveria logo dar meia volta porque eu mesmo estava muito atrasado. Mas eu estava na avenida. Um carro, bastante rápido, me acertou. Ele deveria estar atrasado.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Contagem regressiva

                                                                                          Escrito por Pedro H. Silva

Estou tranquilo. Cheguei dez minutos antes do horário. Isso não quer dizer que estou me sentindo mal. Em hipótese alguma. Simplesmente quer dizer que estou ansioso. Seis anos que eu não saio com ninguém além da Talita. Não estou com medo de fazer alguma merda. É mais vontade de vê-la logo, uma sensação até normal, acho, pra esses encontros via Tinder, e um pouquinho de medo de alguém que me conhece ou conhece a Talita nos ver.
            Se a Márcia não se atrasar, tenho agora nove minutos antes que ela chegue. Será que são nove minutos para eu desistir? Acho que não. Estou bastante tranquilo. Real. E é um lugar super gostoso aqui. Acho que esse climinha de fim de tarde de inverno também ajuda. Digo, dá vontade de entrar logo. É pequeno, mas tem bastante gente já. E o movimento dessa avenida, o barulho dos carros...sei lá, dá uma sensação boa. Foi sugestão da Marcia, nunca vim aqui, embora pareça que sim. Será que? Ah tá. Acho que uma vez eu e a Talita estávamos voltando do cinema a noite e ela disse exatamente que parecia um lugar aconchegante. Parece que ela está certa...como sempre.
            Faltam sete minutos para a moça chegar e eu estou aqui pensando na Talita. Claro, são seis anos de relacionamento. Não dá para ignorar. Só que dos últimos meses para cá não tem diversão. Só reclamações. A gente não relaxa mais um com o outro. Estou cansado. Estamos cansados. Ela e eu. Acho que não tem ninguém errado na história. Só o natural de uma relação.
            Mas eu estou aqui. Há cinco minutos de traí-la. Ou melhor, cinco minutos para o horário que marquei com a Márcia. Talita está provavelmente em casa, acreditando que eu estou trabalhando até mais tarde hoje. E eu aqui a traindo. Se tem alguém aqui errado sou eu. Se crises são normais em um longo relacionamento, e eu que traio primeiro, eu que sou o vilão. Será que eu que estou destruindo tudo?
            Faltam três minutos. Talita nunca fez nada de errado. Sempre foi amorosa. Em seis anos de relacionamento brigamos tão pouco. E ela também é linda. Claro que não é perfeita. Mas eu ainda tenho tesão nela. São dois meses brigando sempre e sem fazer quase nada nessa área, mas não é um negócio irreversível. Não é como se o desejo tivesse acabado. Ela é muito gata. E se eu for para casa agora com o jantar? Passo na pizzaria, levo uma de frango com catupiry que ela adora, e digo que me liberaram mais cedo. Mas e a Márcia?
            Bom, ela está agora um minuto atrasada. Por que mesmo eu estou aqui? Por causa de dois meses ruins? Arriscar jogar fora toda uma relação incrível de seis anos por uma crise? E trair? Não faz sentido. Eu sou um ser humano horrível.
 Mas finalmente parece que a moça chegou. Reconheço seu rosto, mas o curto vestido decotado me surpreende. É preto e mostra seios muito maiores que imaginei e um lindo par de coxas.
Márcia vem até mim.
- Oi... João... Atrasei? – Pergunta ela olhando o celular – ah não. Dois minutinhos só. – Diz ela sorrindo.
            Bom, é hora de entrar. Estou com fome.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Celular vicia?

- Você tá viciado, amor. – Disse ela – Agora usando enquanto tá comendo.
- Sabe o que eu tava pensando noutro dia? Que se alguém de 2003 viesse pra hoje, 2018, ela ia concluir que todo mundo tá viciado em celular. – Respondeu ele.
- Ahn?
- Isso. Assim, vamos pegar você como exemplo. Você acha que não tá viciada em celular? Mas ele tá na mesa. Do seu lado.
- Mas eu nem peguei nele durante todo o jantar.
- Eu sei. Mas ele tá com você. Ligado. Você foi no banheiro depois que pediu a comida. Você levou. Usou enquanto estava no vaso.
- Primeiro, a gente tá comendo. Segundo, eu só fui retocar a maquiagem.
- Desculpa, mas se tivesse usado, teria levado, não?
- Mas eu faço um uso normal do celular.
- Exato! É normal. Mas para 2003 seria vício. Ninguém levava o celular pra ir no banheiro. Só se fosse pra jogar o jogo da cobrinha.
- E daí? Tô falando que você tá viciado hoje. Em 2018.
- Padrões mudam, meu amor. Em 2003 você seria uma viciada em celular. A gente tem que entender que a tecnologia muda muito rápido. Padrões sociais, porém, mudam mais lentamente. Tipo..
- Ah, cala a boca. Você é mestre em se safar com sociologia, Roberto.  Vamos parar de bobagem. Quem é Maria?
- Oi?
- Maria. Já te vi conversando com ela várias vezes esse mês. Já vi umas três vezes essa semana. Quando eu voltei do banheiro vi que você tava de papo com ela no Whatsapp.
- É uma amiga do trabalho.
- MENTIRA. Conheço todas elas. Você esquece quanto tempo a gente tá junto?
- Em hipótese alguma. Mas tipo, é sério. Ela é nova lá e tô dando uns toques pra ela.
- DOMINGO A NOITE, ROBERTO?
- Não precisa gritar, calma.
- Se é só uma amiga, tudo bem se eu vir a conversa, né?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu tenho que ter privacidade, Paula. Que coisa. Num relacionamento tem que ter confiança. Hoje isso é o maior problema como indivíduos...
- Se você não calar a boca e me dar esse celular agora eu juro que vou embora.
- Tá. Calma. Por isso que você não tem coisas boas, Paula. A Maria, ela, ela é violinista. Eu tô contratando ela, pra, pra te, te, fazer uma surpresa, e te te, pedir...
- PARA... Eu, eu, eu, eu con-confio em você, de-desculpa aliás, eu nem tinha celular em 2003...

sexta-feira, 23 de março de 2018

Matrioscas Lunáticas (2/2)


                                                            Escrito por Pedro Henrique Silva
Muitas estratégias foram usadas nos interrogatórios. Muitos minutos se passaram. Mas Teodoro foi incapaz de descobrir qual (ou quais) deles era portador do vírus. Ou, é claro, se de fato algum deles estava infectado. O vírus era contagioso e muito civis estavam todo dia apresentando mais sintomas. Contudo, havia muitas possibilidades, uma delas era que, de alguma forma, humanos de outros planetas serem imunes. Faltavam estudos sobre a doença, e era arriscado trazer qualquer indivíduo de Triston 4 ou Triston 5.
Maria foi a última entrevistada e Teodoro saiu da sala decepcionado, convencido de que não poderia ajudar, de que seria muito complicado, ou quase impossível, encontrar o vírus. Triste inclusive que ninguém tenha pensado em quão difícil seria descobrir essa informação. E que provavelmente ele teria problemas, justamente porque seu chefe não seria capaz de se colocar no lugar de Teodoro. Porém, como um Mini dragão de Alfa Proxima, a estratégia perfeita parece ter cruzado sua cabeça bastante rápido, como se estivesse ali o tempo todo o esperando cometer um erro. Ele apelaria à estratégia mais piegas. Sorriu, e voltou à sala:
- Você quer ouvir uma história? – Perguntou a Maria.
“Um bom cientista submete os indivíduos a um mesmo teste, e analisa os resultados diferentes que estes lhe entregam, sob as mesmas circunstâncias”. Sob essa máxima, Teodoro contou a mesma situação aos quatro. Um de cada vez:

- Em Luna recebemos todo tipo de pessoas, você deve saber bem. Acontece que muita gente chega aqui pra ir a outro lugar. Dificilmente são pessoas que chegaram a Luna para ficar em Luna. O que nos dá um caráter meio único entre os grandes centros da história. Todos vêm a Luna, mas quase nunca Luna é a última parada.
Um dia, uma jovem foi levada à minha sala. Estava olhando para o chão, mas não parecia ser tímida. É aquela expressão típica de adolescentes de “Te odeio então não vou olhar para você”.  Mas tinha algo ali. Havia uma tristeza. Um remorso talvez.  Ela tinha 17 anos, e estava com um bebê no colo. Ele deveria ter uns 3.
Perguntei se o bebê era seu filho. Mas foi em vão. Ela pareceu nem ter me ouvido. Nem levantou os olhos. Me apresentei. Disse que era agente de imigração de Luna. E perguntei para onde ela queria ir. Não tive respostas.  A moça nem fazia menção de que iria começar a falar.
Comecei então a dizer o que eu sabia sobre ela. Prefiro que vocês me falem sobre vocês mesmos. Mas nesse caso, alguma comunicação precisava ser estabelecida. Aquele bebê era seu irmão. Seu nome era Enrico. Eles estavam ali porque foram encontrados na área de carga de uma nave comercial que saía de Yuntur, um planeta que ficava no sistema Hodney, bastante perto do nosso. Seu padrasto tinha morrido. Desde então descobriram que ela havia sabotado o Mini tanque de Oxigênio que todo mundo em Yuntur tem que usar para sair de casa. As casas têm Oxigênio, as ruas, não.
Mais uma vez Amanda nem olhou na minha cara. Parecia ainda irritada comigo. Como se eu representasse algo contra o que ela estava lutando. Sinceramente, desde que bati meus olhos nela, ela não me pareceu o tipo de garota que mata alguém, quanto mais o padrasto.
Foi quando ela, para minha surpresa, olhou nos meus olhos e disse:
“É engraçado que alguém que sabe quase nada da minha história vai julgar se eu e meu irmão devemos ou não entrar na Terra. Geralmente os julgamentos têm juízes, júri e advogados”.
Nunca esquecerei dessas palavras. Fiquei sem reação por um instante. De fato, eu estava ali julgando o destino de uma menina, sem direto a apelação, defesa... nada. A lei não era muito clara nesse sentido, mas a polícia de nenhum planeta tinha jurisdição aqui. Claro que eu poderia extraditá-la como inclusive a polícia de Yuntur me recomendou. Mas eu podia simplesmente deixa-la entrar na Terra. Não seria punido. No máximo receberia um recadinho malcriado do governo do país de Yuntur onde Amanda vivia. Mas não receberia castigos.
Resolvi que o melhor seria pedir para que ela mesma me contasse a história dela. Insisti um pouco, até que ela finalmente me olhou com uma expressão um tanto mais receptiva e começou. Ela me contou que León, seu pai, abusava dela desde que ela tinha sete anos de idade. Ela tentou escapar várias vezes, mas cada vez que ela não conseguia era pior. Ele a massacrava e depois a estuprava. A mãe sabia de tudo, mas era incapaz de lutar. Assim foram por cerca de sete anos. Nos três anos seguintes tudo mudou. John nasceu. Agora havia mais despesas na casa, e León ordenou que a mãe de Amanda trabalhasse. E foi o que ela fez. Mas para isso León teve que comprar um Mini-Tanque para que ela pudesse sair de casa, finalmente. Contudo, o emprego dela não era integral como de León. Ela trabalhava em uma fábrica de naves perto de casa. Era secretária de um dos chefes de lá, e como ele não trabalhava todo dia, já que a fábrica meio que tomava conta de si mesma e quase não havia funcionários, ela ficava muito em casa. Isso foi fundamental, uma vez que deixou Amanda com a possibilidade de analisar de muito perto um tanque de oxigênio. E depois de três anos, ela conseguiu fazer um tanque, o qual permitia que duas pessoas o usassem por 20 minutos, mais que suficiente para chegar no espaço-porto mais perto de casa.
A eloquência com a qual ela contou a história me fazia acreditar que de fato ela teria construído um pequeno tanque de Oxigênio com materiais reciclados, como partes de carro usadas de León, copos que ela roubava da cozinha e até materiais orgânicos.  O que faria dela um gênio.  Era um absurdo. Mas ela estava deixando de lado um detalhe muito importante. O assassinato do padrasto.
Ela me disse que os mini-tanques funcionavam com um sistema de recarga, ou seja, antes mesmo do suprimento de Oxigênio acabar, o tanque já começava a recarregar. Esse componente era de um metal raríssimo encontrado em uma das luas de Centaurus. Justamente pela falta dele que o tanque de Amanda não durava mais que 20 minutos. Amanda não podia usar o aparelho em seu próprio tanque, mas ela podia tirá-lo do de Leon. Porém, segundo ela, desistiu de fazê-lo porque não era assassina. Mas um dia, quando ela já estava quase pronta para fugir, viu que León abusava também de John.
Aquilo me tirou o chão. Como eu poderia condenar uma moça que foi abusada por um padrasto por tanto tempo? E ainda, como condenar uma menina que viu seu irmão ser abusado? Aquilo estava acima de mim, mas era eu quem tinha que lidar. Nunca fiz curso de psicologia infantil. Não sei os efeitos daquela violência a longo prazo. Eu não sabia o que fazer. O que você faria? – Perguntou Teodoro a Maria, Michael, Fernandes e Jonas, separadamente.
Depois de muito pensar, Maria finalmente respondeu:
- Eu acho que mandaria ela de volta à Yontur. Entregaria ela a polícia. Duvido que ela seria presa. Se ela contasse a história, e se a mãe também o fizesse, certeza que ela receberia uma pena simples. Nada de grave. Voltaria a mãe, que provavelmente estava já enlouquecendo, afinal ela estava em um relacionamento abusivo.
Já Jonas, pouco pensou, e respondeu:
- Não faço ideia. Mal consigo pensar como seria tomar uma decisão como essa. Temos de um lado Amanda e do outro a Justiça. Acho que você poderia deixar ela em Luna, passa-la com uns psicólogos. Cuidarem dela e do bebê. E é claro, pedir pra polícia de Yontur vir aqui interrogá-la. Sempre com um psicólogo. Essa menina não precisa de advogados, mas de alguém que saiba ajudá-la de verdade. Mas sei lá, nem sei o que você pode fazer. Digo, qual a sua autoridade aqui.
Fernandes também não gastou muito tempo em silêncio e disse:
- Deixa ela ir pra Terra. Cara, foi legitima defesa. Ela não cometeu crime. Manda ela pra Terra e pronto. É o que ela quer. É o que você pode fazer. Vá em frente. Ela vai pra Terra.  Não faz sentido ela ser presa por isso. O que esse León fez não chega aos pés do que ela fez. Ele mereceu.
Michel respondeu:
- Acho que você poderia manda-la de volta a Yontur. Sei que lá tem excelentes reformatórios. Mandá-la de volta só se ela pudesse ficar em um desses. Ela não vai escapar da condenação. Mas ela precisa estudar. Ela é um gênio. Criar um tanque de O2 assim? De forma caseira? Ela pode mudar o mundo.
E assim, quando ouviu Jonas falar, concluiu que com toda certeza sabia quem estava demonstrando sintomas de infecção. Os chamou pela última vez.
- Seguinte, senhores. Sem mais delongas: Se eu tivesse que fazer um palpite, o que de fato meio que tenho que fazer, diria que Fernandes está infectado.
- Como é? – Gritou Fernandes.
- Um dos sintomas do vírus é a falta de empatia. Quem inicia uma guerra não consegue se colocar no lugar do outro. Não pelo menos quando está portando o vírus espartano. E sem a menor dúvida você é o que menos demonstrou empatia com Amanda, com sua mãe, ou com o Bebe. Mandar a menina à Terra? Como ela vai sobreviver? Em que condições? Não tem cabimento.
- Conheço várias pessoas que diriam o que ele falou – Disse Maria.
- Pode ser. Mas assim, preciso indicar alguém que mais provavelmente esteja infectado. O único que me deu motivos pra crer que estava foi Fernandes.
- Mas isso é um absurdo.
- Calma, Fernandes. Nada vai acontecer com você. Ou melhor, nada de muito diferente do que acontecerá conosco.
- Conosco? – Perguntou Michel
- Exato. Conosco. Fomos todos expostos ao vírus. Todos precisamos fazer testes e ficarmos isolados em Florto, a lua de Saturno que é uma base médica. Se algum de nós não está infectado, podemos ser imunes, precisamos ser estudados. Se algum de nós vier a desenvolver a doença, podemos ajudar a descobrir o tempo de incubação.
A notícia surtiu poucos efeitos nos quatro. Fernandes parecia irritado, mas sem dúvidas estava em um estágio inicial da doença. Um que em breve provavelmente todos estariam. Todos perceberam que a situação era de fato irremediável.
- Mas que vocês vão fazer comigo? – Disse Fernandes
- Bom, meu trabalho aqui era definir quem eu acho que está com o vírus. Você tem que viajar separado da gente, porque precisam duas pessoas para iniciar um conflito. Se alguém de nós chegar no nível de infecção que acredito que você esteja, podemos nos matar todos na nave.
- O que aconteceu com Amanda? – Perguntou Michel surpreendendo Teodoro.
- É... Bom, eu a mandei de volta ao seu planeta. Mas fui junto. Ser de Luna dá algumas vantagens. Conversei com todos os policiais e fiquei até o fim do julgamento. Ela foi condenada, mas cumpriu pena em um reformatório. – disse apontando a Michel – O melhor do planeta. Perdi contato com ela e seu irmão desde então. Difícil manter em dois planetas distantes. Acho que faz vinte anos toda situação. Ele foi um dos meus primeiros casos. Aliás, sabem quem é a médica chefe de Florto? – perguntou Teodoro.
- Amanda? – Perguntou Maria.
Teodoro sorriu para eles e disse:

- Não, eu realmente não sei quem é, mas seria irônico se fosse, né?



sexta-feira, 16 de março de 2018

Matrioscas Lunáticas (1/2)


                                                             Escrito por: Pedro Henrique Silva
Quando o chamado chegou no comunicador da Torre F do terminal principal do Espaço-Porto de Luna obviamente Teodoro Romanov foi chamado. Era uma situação extremamente complicada. Não era todo dia que uma das maiores ameaças à segurança da Terra chegava em Luna. Pelo menos era assim que os jornais chamavam o caso da Nave RTNH-42 que atracaria no porto de Luna. E quem deveria ser chamado senão Teodoro, o melhor e mais experiente agente da alfândega que já houve? Pelo menos era assim que os outros agentes o chamavam.
Ele sabia exatamente com o que estava lidando. Teve bastante tempo para pensar nas implicações de aceitar aquela missão. O Sistema Tristoniano, que era de onde partira a nave, ficava um pouco longe. Foi apenas no dia da chegada da nave, porém, quando ainda estava pensando se aceitaria ou não, que finalmente tomou sua decisão. Viu a Matriosca que mantinha em sua mesa para se lembrar das suas raízes. Em Luna, era difícil não perder a noção de onde veio. Percebeu que ser russo significava não desistir. Não fugir das ameaças de fora, nem de ser exilado. Saiu de sua sala e foi recepcionar os quatro.
- Ok, meu nome é Teodoro Romanov, e quero conhecer vocês melhor. Mas antes preciso passar a situação a limpo, por uma questão burocrática. Acho que vocês vão entender. – Disse Teodoro que usava suspensórios azuis (os quais faziam a curva em sua barriga avantajada) e óculos de grau pretos. Parecia mais velho do que era, apesar de ter feito a barba de manhã, justamente esperando a exposição na mídia que o caso teria.
Sua aparência não intimidava ninguém de um modo convencional.  A questão aqui era que Teodoro parecia bastante sábio.  Foi exatamente a impressão que tiveram aquelas quatro figuras que o observavam na sala de interrogatórios do setor de imigrações ainda dentro do terminal do espaço-porto. Essa possível sabedoria de Teodoro seria uma característica que quatro professores saberiam muito bem valorizar.  
- Sabemos de tudo. Mas se o Senhor acha que é importante. – Disse um dos homens. O qual aparentemente tinha certa autoridade entre eles.
- Sim. É. O senhor é...? – Perguntou Teodoro
- Meu nome é Michael. Prazer. – Disse o homem que usava um sobretudo preto. Era alto, mas não parecia ameaçador.
- O senhor não é o piloto da nave? – Perguntou Teodoro.
- Não. Ele é. Jonas. – Apontou para um outro homem que ficara um pouco mais atrás e que parecia tímido. Era gordo e estava com uma calça jeans e camiseta. – Mas eu sou o dono dela e também professor de matemática.
- Então, senhores Michael e Jonas. Prazer. Já volto a vocês. Bom, vamos lá. – Disse Teodoro olhando para seu caderno – Vocês estão retidos aqui porque saíram de um lugar de risco. Vocês possivelmente foram expostos ao Vírus Espartano, e não podem entrar na Terra até que descubramos se estão ou não livres dele. É uma situação muito complexa e espero que entendam.
- Não há um exame clínico? – Perguntou uma mulher.
- E você, quem é?
- Meu nome é Maria. Sou professora de Biologia – Disse ela com um sorriso se dando conta que não possuía nenhum outro título que fosse necessário mencionar, a não ser a matéria que lecionava.
-  Prazer, Maria. E não, não há um exame clínico. Há sintomas, mas não há um jeito de checar o sangue de vocês e saber se estão infectados ou não, se foi isso que a senhora perguntou.
- Entendo. E os sintomas? – Perguntou Maria.
- Já chegamos neles. Me deixe terminar. – Disse Teodoro voltando ao caderno – Entrevistarei vocês. Conversaremos primeiro como um grupo e depois individualmente. O que não podemos é deixar que esse vírus chegue à Terra. – Esperou ser interrompido novamente. Já que não foi, continuou – Me expliquem a história de vocês.
- Posso? – perguntou Michael
- Eu espero que todos participem da conversa.
- Mas posso começar? - Disse Michael.
- Naturalmente.
- Ok. Chegamos há dois meses em Triston 4. Era um lugar lindo, o senhor deve se lembrar. Íamos passar duas semanas lá.
- Férias?
- Não. Trabalhamos juntos. Confraternização.
- Em...julho?
- É que somos professores.
- Ah, ok. Tudo bem.
- Então, quando chegamos lá, não deu...dois dias? – Perguntou aos colegas. Dois deles confirmaram. Maria e um outro ao seu lado – Dois dias, e estourou a guerra. Ficamos escondidos por um tempo no hotel. Nem saíamos dos quartos. Foi um milagre. Vários outros prédios acabaram sendo derrubados.
- Sim, sim, sim. Sinto muito. Aliás, me desculpem, mas nenhum de vocês morreu? Aqui está todo grupo? – Perguntou olhando para o rapaz ao lado de Maria.
- Sim – Maria respondeu - fomos nós quatro. Voltamos nós quatro.
- Vocês já não tinham essa informação? – perguntou o homem ao lado de Maria.
- Escute senhor... – Olhando para o caderno – Fernandes – Disse vendo uma expressão curiosa no rosto do rapaz – Eu tenho várias informações. Não sei se vocês sabem, mas a notícia da chegada de vocês foi amplamente divulgada. A Galáxia sabe meio que tudo sobre vocês. Mas, entendam por favor, eu quero ouvir de vocês.
Novamente esperou alguma réplica. Não recebeu. Ele trataria todas as grosserias e respostas atravessadas da mesma forma. Rudemente. Eles talvez tivessem ideia de quão difícil foi evitar que eles fossem simplesmente destruídos do céu. Na verdade, Teodoro os defendeu com tudo que tinha.
- Ninguém vai continuar? – Perguntou Teodoro
- Ah, ok. – Seguiu Fernandes - Então, quando descobriram a doença, controlaram tudo, negociaram o cessar-fogo entre os dois planetas e o resto é história.
- Ok. Vocês fugiram como?
- Não fugimos. A guerra acabou. Simplesmente saímos. Não sabíamos que não podíamos. A nave é particular.
- Vocês não sabiam que o que causou a guerra foi um vírus? Um que deixava as pessoas extremamente propensas a começarem conflitos?
Ninguém respondeu. Todos olharam para Michael.  
- Entendi. A questão é: Vocês sabiam muito bem que um vírus daquele não podia chegar na Terra, ou em qualquer outro lugar. Até porque, só há humanos no sistema de Triston.  Mas mesmo assim arriscaram. – Parou e prestou bem atenção na reação de todos. Os três homens pareciam incomodados, Maria, não muito - Vocês podem ir até aquela outra sala. É a porta à esquerda. Todos menos o Senhor Michael. Vou começar com o senhor.

Todos saíram e estremeceram. Havia duas paredes brancas, parecidas com campos de força, isolando à esquerda e à direita. Elas eram translúcidas, e era possível ver vultos, dezenas deles, atrás de cada uma delas. Só duas salas podiam ser acessadas. Havia uma porta do lado esquerdo, como Teodoro falara, mas de frente com a sala que eles estavam também havia uma.