Escrito por Pedro Henrique Silva
Eu precisava chegar logo no trabalho. Precisava entrar naquele trem. Levava minha
bolsa no meu ombro, e os papéis que não tive tempo de prender bem na pasta.
Eles ameaçavam voar, o que fazia com que eu tivesse que dividir minha atenção
entre forçar minha entrada no trem e segurá-los mais firmemente. Muitas pessoas
bloqueavam a porta quase que inteiramente. Forcei e, sob protestos de alguns
passageiros, consegui. Uma velinha foi a mais agressiva e, à medida que ela era
esmagada, xingava todos os palavrões dessa e de uma outra época para mim.
Começou a gritar dizendo que ia morrer. Vi velhos morrerem no trem. Não parecia
ser o caso aqui hoje.
Antes de a porta fechar, porém, um
dos papéis, talvez o mais importante deles, voou para fora do trem. E agora, eu
não conseguiria mais sair do vagão. Tratava-se de um documento de um dos
clientes mais importantes de nossa empresa. Sem ele eu provavelmente teria
sérios problemas no trabalho. Demitido, possivelmente. Mas já havia mais três
pessoas atrás de mim. Tentei empurrá-las para fora do trem, mas sem sucesso.
Uma delas, uma moça bem magra, quase caiu no vão, mas infelizmente conseguiu se
equilibrar. Quando o trem deixava a plataforma, vi um rapaz pegando e olhando o
papel. Eu teria que voltar no próximo trem e torcer para que ele tenha colocado
de volta no chão.
E foi exatamente o que eu fiz. Desci
na estação seguinte, entrei no trem que voltava, e cheguei à plataforma já
procurando o documento. Não poderia descartar que ele poderia estar no lixo.
Mas, para minha enorme surpresa, um rapaz o segurava.
- Isso é seu? – Perguntou o moço um
pouco mais velho que eu, vestido igual a mim, um sobretudo preto e um sapato
bem lustrado. Ele tinha a mesma cor que eu e parecia ser de um mesmo estrato
social.
- É-é. Quanto você quer por ele? –
Perguntei pensando que seria mais fácil pagar logo.
- Quanto? Nada. Não é seu? Toma. – Disse
ele.
- Calma. Você quer o que por ele?
- Cara, fica com ele. É seu. Imaginei
que você ia voltar se fosse importante. Pega logo que eu já perdi um trem te
esperando.
- Você ficou me esperando?
- Pois é... Tipo, é seu o papel, né?
Imaginei que seria importante. Vi sua cara. Aí pensei em deixar aqui no chão de
volta, mas tá ventando muito. Achei que poderia cair no trilho.
- Não faz sentido.
- Eu não tô atrasado – Disse ele olhando
para seu relógio – Pega logo, cara.
- Mas eu não vejo nenhuma razão pra você
segurar isso pra mim. – Disse eu pegando o documento da sua mão.
- Ah, sei lá. Me pareceu certo. Falou
cara. – Apertou minha mão, e se virou para entrar no trem parado na plataforma
e que já enchia. Seria melhor eu fazer o mesmo.
Passei todo o trajeto das quatro
estações seguintes olhando para o rapaz que se encontrava na minha frente, de
costas. O que foi aquilo? Ele me esperou. Perdeu um trem. Não estava atrasado,
claro. Mas por que fez isso? Por que alguém, hoje, em pleno 2030, faria algo
por alguém? Como isso era possível? Será que não tinha alguma lei contra isso?
Na verdade, aquele ser só podia ser
muito, muito, burro. Como não pensar em si mesmo? Colocar o interesse de alguém
acima do seu? Que tipo de ser humano faz isso? Me parece um comportamento do
século XX, sei lá. Uma coisa meio selvagem. Simplesmente não faz sentido.
Aquele momento eu olhava para ele e me sentia estranho. Como se uma vontade
enorme de o matar tomasse conta de mim. Seria engraçado se eu o empurrasse ele
no trilho assim que saíssemos. Eu poderia dizer que eu queria sair e ele estava
no meu caminho. Eu nunca seria preso por causa disso. Era algo bastante comum
de acontecer em São Paulo. Eu mesmo quase perdi o equilibro algumas vezes
tentando sair do trem. No trânsito então...várias vezes já fui quase
atropelado. Nada. Nunca sequer chamado para depor. A polícia nem ligava mais...
Já assumia que a pessoa alegaria legitimo benefício e nem investigava, pelo que
eu sei. Ninguém era preso por homicídio. Simplesmente porque ninguém mais
premeditava mortes ou crimes. Eles simplesmente aconteciam. E então não era
culpa de ninguém. Meu interesse se chocava com seu interesse. Era um acidente.
Uma obra do acaso.
Mas aqui eu estava premeditando. Vi
que o rapaz ia sair do trem. Eu só desceria em duas estações, mas eu tinha que
fazer. Eu estava me sentindo péssimo com aquilo. Ele merecia morrer. Aquele
cara que eu empurrei escada abaixo porque estava muito devagar semana passada
merecia bem menos que ele. Ele
já estava na porta. Cabia tranquilamente uma pessoa naquele vão. E ele não era
do tipo gordo.
Fui um pouco mais rápido. Estava agora
logo atrás dele. Quando ele colocou o pé para fora, eu o empurrei, fazendo com
que ele caísse, mas na horizontal, de modo que bateu com a cara no chão, dentro
da plataforma. Outras pessoas atrás de mim desviaram do rapaz caído. Ele
parecia estar bem vivo. Me mantive no trem enquanto a porta se fechava. Olhei
para o homem que se levantou com dificuldade. Seu pé aparentemente tinha ficado
preso no vão. Deve ter torcido. Então, a medida que o trem saía da estação, o
homem me olhava nos olhos com uma expressão confusa. Parece não ter entendido.
Foi nesse momento que confirmei o
tamanho da burrice do cara. Ele me olhou se perguntando por que eu o empurrei
se não precisava sair do trem. E por que justo eu? O cara que ele tinha
ajudado. De fato, um imbecil. Não
percebeu o quão inconveniente ele tinha sido ao me ajudar. E se mais pessoas
começassem a pensar nos outros? Iriam voltar a inveja, a cobiça, o consumismo
exagerado. Pessoas iriam buscar melhor qualidade de vida. Possivelmente
perderíamos várias profissões importantes. A violência voltaria. Aquela sem
sentido. Os assaltos, os crimes. A depressão também. Pessoas que se preocupam
com o que os outros pensam e que sentem falta de outras pessoas. O doentio
casamento e a monogamia. Como alguém pode querer isso? Assim que funcionava algumas
poucas sociedades atrasadas por aí. Vários países em que as pessoas pensavam
umas nas outras. Por que? Para ter avanços tecnológicos? Equipamentos que
facilitam a vida dos outros? Não vemos sentido nisso há muito tempo. Pelo menos
há uma década.
Aquele homem não conseguia perceber
o quanto evoluímos nos últimos anos quando percebemos que pensar em algo como
“o coletivo”, “a sociedade” ou “o outro” é simplesmente arcaico. Eu não preciso
da ajuda dele. Ele não precisa da minha. Vivemos muito bem sozinhos. Tendo
prazeres que nos competem. Só os que podemos pagar, afinal, danem-se os outros.
Danem-se o que os outros têm ou o que fazem. Foi assim que essa sociedade
evoluiu. Cada um por si. Pronto. Essa era a lei agora. Era assim que tinha que
ser. Estamos num ponto em que cada um se contenta com o que tem porque simplesmente
não importa o que o outro tem. Impossível existir um modo melhor de pensar do
que o egoísmo supremo.
Pensei em voltar lá e dizer isso
para ele. Provavelmente ele não estaria mais ali parado, claro que não. Eu
deveria procurá-lo. O que não seria difícil. Pela roupa dele, ele trabalharia
em algumas das poucas empresas que funcionavam naquele bairro. Sabia para onde
ele iria depois que saísse da estação. Além disso, não faz nem três minutos que
o trem saiu. Nem chegou na estação seguinte. Se eu correr, e ele tiver
machucado, eu chego antes dele.
Decidi fazer exatamente isso. Voltar
àquela estação, sair e encontrá-lo. Aquilo era mais importante que chegar no
trabalho, que manter meu emprego. Aquela ofensa foi a pior que já sofri na
minha vida. Uma pessoa tão selvagem que acha que realmente é produtivo pensar
em outra pessoa além de si mesmo.
Desci do trem na estação seguinte,
subi no outro e voltei àquela em que empurrei o imbecil. Como eu imaginava, ele
não estava mais lá. Saí da estação em busca do homem. Entraria nas empresas e
procuraria se fosse o caso. Mas assim que cheguei na rua, no mar de sobretudos
pretos, vi o único homem que mancava. Com certeza era ele. Me aproximei
rapidamente, desviando de algumas pessoas no meu caminho. Empurrá-los estava
fora de cogitação. Me atrapalharia mais.
Foi então que cheguei no homem.
Estava logo atrás dele e puxei seu ombro. Ele girou e encontrou meus olhos com
uma expressão ainda mais confusa. Impressionante como ele não conseguia entender.
- Cara, o que você quer de mim? –
Perguntou ele assustado dando um passo atrás com medo. Homens e mulheres
desviavam da gente com raiva e xingando.
- Seu idiota. Você não percebe o quão
idiota você é? – Perguntei – Você me ajudou. Nunca vi um comportamento tão,
tão, altruísta. – As pessoas que passavam por nós olharam para o rapaz com
desaprovação. Altruísmo era um mal e todos sabiam que precisava ser combatido.
- Eu sou idiota? - Perguntou – Você está aqui pensando em quem
mesmo?
- Em mim! Você me ofendeu.
- Te ajudei! Simplesmente não te ferrei.
Por que você isso te afeta tanto. Pense um pouco.
- Não sou eu que não pensa. Eu sei que-
- Sabe nada, cara. – Me interrompeu -
Você está pensando só em mim desde que te ajudei. E eu só segurei um papel.
Fiquei olhando para ele, imóvel. Ele
estava certo. Naquele momento eu com certeza chegaria atrasado. E mesmo assim
decidi ir atrás de alguém só para dizer umas verdades na cara dele. Ele estava
certo. Desde que ele me devolveu o documento eu não o tirava da cabeça.
- Se você não vai falar nada eu preciso
ir trabalhar. – Disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Eu-eu... Não sei.
- Então eu vou trabalhar. Adeus. – Disse
ele ainda sem sair.
-Ok. – Disse eu.
- Cara, tudo bem? – Me perguntou olhando
nos meus olhos com a mesma expressão confusa. Não havia mais medo. Fazia tempo
que eu não ouvia essa pergunta.
- Desculpa – Aquela palavra saiu com
muita dificuldade de minha boca. Quase que instintivamente. Não lembro de tê-la
usado antes.
- Relaxa. Acontece. Acho que você não
sabe lidar com gentilezas, né? – Perguntou e eu assenti com a cabeça, ainda sem
saber o que responder. - Entendo. Olha,
vai lá trabalhar. Eu vou também. A gente se vê, tá? Tudo bem você ter tentado
me matar, mas da próxima vez, um “obrigado” é o suficiente. – E se virou e
começou a ir embora. Me deixando lá, parado... Despertei ouvindo mais
xingamentos da manada que desviava de mim. Deviam estar pensando porque tinha
um idiota congelado no meio da calçada.
Me vi ali preso no fluxo. A velocidade
das pessoas aumentava. Elas agora corriam. Provavelmente se esforçavam para
evitar os atrasos. Eu corri junto com a multidão. Mas não podia fazer aquilo.
Meu emprego era bem longe de lá. Eu tinha que voltar à estação. Pensei em dar
meia volta e virei o pescoço. Só vi o mar de sobretudos correndo. A essa altura
eu não poderia mais parar. Onde aquilo iria me levar? Então, resolvi que o
ideal seria sair da calçada e ir à rua. Tentei então correr na diagonal. O
objetivo era furar aquele rebanho de pessoas. Lutei me espremendo por elas. Até
que finalmente consegui sair.
Me vi fora da multidão que corria ao meu
lado. Me senti livre. Pensando nos motivos que levariam essas pessoas a correr
desesperadamente para o trabalho. Sem pensar em quem elas poderiam atropelar no
caminho. E por que? Para não chegar atrasado? Por que não somos capazes de
conversar. De dialogar. De nos justificar. Quando parei de observar os meus
colegas de rebanho que corriam desesperadamente, percebi que deveria logo dar
meia volta porque eu mesmo estava muito atrasado. Mas eu estava na avenida. Um
carro, bastante rápido, me acertou. Ele deveria estar atrasado.