Escrito por Pedro H. Silva
-Olá – Disse o homem na porta, depois de tocar a campainha
que conhecia muito bem e perceber que atrás da porta não muito transparente um
reflexo seu o observava.
-Isso é algum tipo de brincadeira? – Perguntou Lucas ao
abrir uma fresta da porta sem muita surpresa, mas ainda um pouco abalado, como
quem ainda se recuperara do susto de ver pelo olho mágico a si mesmo em frente
à sua casa. Lucas de dentro segurava uma arma na mão esquerda, tentando escondê-la
atrás de seu corpo.
- Disseram que isso causaria alguma surpresa, então eu vou
direto ao ponto – disse o homem meio que
sussurrando, havia algumas pessoas na rua – Eu sou do futuro. Sou o primeiro
criminoso a voltar no tempo para impedir um crime. – Falou Lucas como se
estivesse declamando um texto decorado.
- É, vou repetir pela última vez: Isso é algum tipo de
brincadeira? – Disse Lucas de dentro ainda tentando forçar uma expressão de
segurança para não entregar como estava se sentindo. Destravou a arma para
efeitos dramáticos.
- Semana que vem você vai assaltar o Bradesco da Avenida
Sete, né? Com o Marcão, A Beatriz e o Enzo. Certo?
- Como você sabe disso? – Perguntou Lucas de dentro já sem
chão.
- Ué? Não tá óbvio? – Disse o homem abrindo os braços e com
um sorriso que Lucas conhecia muito bem. Ou melhor, seus amigos conheciam muito
bem.
- Faz assim então, levanta os braços e entra– Lucas sabia exatamente
o efeito que teria se alguém da rua ou um de seus vizinhos visse um homem
idêntico a ele na calçada. E como era possível que ele soubesse do assalto?
O homem ergueu os braços e finalmente entrou. Agora na luz
apropriada, Lucas do presente percebia que o homem que dizia ser do futuro
parecia realmente um pouco mais velho. Talvez alguns anos. O que eliminava a
hipótese de ser um irmão gêmeo perdido que sabia demais. Mas realmente, a
semelhança dos dois era gritante, de modo que Lucas do presente começou a
aceitar que talvez aquilo não era uma mentira completa.
- Então, seguinte– Disse Lucas sem nem esperar o homem se
sentar no sofá– Eu não quero te entrevistar. Então você tem dois minutos pra me
contar sua história e se você não me convencer eu te mato aqui e agora – Falou
Lucas colocando a arma na mesa com o cano virado para o homem.
- Sim. Vamos lá: Eu sou você 15 anos no futuro. Acontece que
o assalto ao banco deu errado. Muito errado. E acabamos matando 12 pessoas no
processo. Quer dizer, os outros. Eu...ou melhor, você... – Disse o homem
enquanto olhava pela janela confuso pensando em como escolheria os pronomes.
- Faz assim: Você é
você. Eu sou eu.
- Sim. Eu tinha pensado nisso. Enfim, Eu e os caras
roubávamos o banco e acabamos matando uma galera no processo. Fugiu do
controle. Na verdade, eu nem matei ninguém. Mas o juiz entendeu que eu fui o
mandante e também me condenou. Eu estava até semana passada no corredor da
morte. Aí chegou um povo de uma empresa louca lá e me disse pra voltar no
tempo, te avisar pra não roubar ninguém e que quando eu conseguisse fazer isso
eu sumiria porque meio que criaria um paradoxo e não faz mais sentido eu
continuar existindo se você não ia roubar mais bla bla bla.
- Isso não faz o menor sentido.
- Então, eu tinha certeza que você falaria isso. Mas assim,
eu sei de detalhes seus que posso...
- Não – Interrompeu Lucas – O paradoxo já teria sido criado
no minuto que você me viu. Porque você por acaso lembra desse encontro?
- Então, eu perguntei isso. Mas eles disseram que não sou o cientista
e não preciso me preocupar com isso.
- Tá, mas e as pessoas? Elas vão voltar à vida. O futuro vai
ser impactado.
- É um bagulho experimental, me disseram. Eu sou o primeiro.
- Tenta me convencer de novo.- Disse Lucas perdido nos
paradoxos, olhando para a parede atrás do homem, mas ainda com a mão próxima da
arma.
- Tá, queria que você desistisse do assalto. Vai dar errado.
- Só isso? - Disse Lucas um tanto desapontado - Você disse
15 anos. Eles demoraram tudo isso pra me dar...pra te dar a pena de morte? –
Perguntou Lucas.
- É que eles demoraram 10 anos pra me achar e prender.-
Disse o homem com uma pitada de orgulho.
- Nossa, vocês
fugiram?
- Não! Eu fugi. Os outros ficaram. Todos já morreram. Os
caras morreram no assalto mesmo. A Bia escapou também, mas foi presa uns 5 anos
antes de mim. Foi morta na semana que fui preso. – Disse ele com o orgulho
dando lugar à vergonha.
- Você quer que eu acredite que há um experimento do governo
que te trouxe aqui pra evitar um assalto, e que se for bem sucedido vai fazer
uma galera voltar dos mortos? Tipo, tudo que eu entendo de viagem no tempo
aprendi de filme. Mas mano, isso pode mudar o futuro de tantos jeitos que eu
nem sei por onde começar. – Disse Lucas mais confuso que nunca.
- Se coloca no meu lugar – Disse o homem que quando falou se
deu conta da ironia daquela frase – me ofereceram esse acordo. Eu já vou morrer
mesmo. Todo mundo que eu conheço morreu. Sei lá, cara.
Lucas olhou bem nos olhos de si mesmo. Claro que havia vários
jeitos de como aquilo podia ser uma armadilha. Mas todos esses cenários estavam
nas ficções científicas que ele já tinha visto durante toda sua vida. De qualquer
forma, a melhor solução seria entrar na brincadeira.
- Tá. Acredito em você.
- Porque você sabe quando to falando a verdade? -Disse o
homem.
- Não. Porque tem tanto furo nessa história que seria
absurda demais pra alguém criar.- Quando disse isso ambos caíram na gargalhada.
Naquele momento os dois Lucas relaxaram. Depois que as risadas pararam, o Lucas
do futuro percebeu que ainda não tinha sumido.
- Mas você, tipo, vai roubar ainda?
- Ué, vou. Por que?
- Mas – começou Lucas do futuro bastante confuso – vc não
entendeu que não vai dar certo?
-SIM. E você vai me ajudar a não dar errado.
- Ahn?
- Claro. Se deu errado da primeira vez, é só você me passar
umas dicas que vai dar tudo certo. O assalto foi muito bem planejado. Se algo
não funcionou, provavelmente foi um detalhe, né?
- Mano, pelo amor de Deus esse não é o plano. – Disse Lucas
do futuro já apavorado porque sabia exatamente o que sua contraparte estava
planejando. E o fim dessa história não seria bom para um homem do futuro no
passado. Ele só não entendia porque não havia sumido ainda.
- Então, meu amigo, me fala: O que deu errado?
- Não é assim...
- Lucas – Interrompeu o homem com a arma – O que deu errado
no seu passado?
- Eu... o Felipe traiu a gente.
- O policial?
- Ele abriu o bico pra policia uns 10 minutos antes do
assalto. Ficou com medo e tal – Disse Lucas do futuro com desprezo.
- Aí não deu pra fugir.
- Não. A gente ainda tava lá quando a policia chegou.
- Ok! Então é fácil: Só falar com o Felipe. – Disse Lucas.
Afinal, seria algo como levar o carro pra revisão antes da viagem. Você não
acha que vai dar merda, mas sei lá...
- Não é mais fácil você não assaltar? Perguntou Lucas do
futuro.
- Me fala, você acha mesmo que o ideal pra minha vida é não
assaltar? – Perguntou Lucas.
- Não! Claro que não! Até porque, outra coisa vai dar
errado. Eu tô aqui, lembra? Se tivesse dado certo eu já tinha sumido. – Disse
Lucas do futuro.
- Eu posso fazer você sumir se você quiser – Disse Lucas encostando
na arma que estava na mesa.
- Você nunca mataria alguém. Eu te conheço.
- Mas eu estaria matando a mim mesmo.
- Isso não é tipo crime?
- Oi? – Perguntou Lucas com tantas dúvidas na cabeça que nem
conseguia mais raciocinar.
- Olha, desiste desse assalto. Fica no seu emprego que tá
bom. Não faz nada com o Felipe. Só vai piorar as coisas. Fica com a Fernanda.
Ela te ama. Constrói uma família.
Lucas tirou a mão da arma. E disse a última frase que Lucas
do futuro ouviu na vida:
- Já ouvi dizer que a injeção letal dá umas alucinações uns
segundos antes da pessoa morrer.
E Lucas do futuro sumiu.