sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Superstição

                                                                                   Escrito por Pedro H. Silva
       - Eu nunca fui supersticioso. - Disse Marcos no jantar com sua namorada, Beatriz, em uma noite quente de sábado. Verão estava em seu ápice, já havia chovido aquele dia, mas agora apenas nuvens inofensivas sobrevoavam São Paulo. Apesar disso, eles haviam levado um grande guarda-chuva para evitar surpresas.
       - Aham – Debochou ela ainda escolhendo o que pediria – Acho que vou de espaguete ao molho rosê para variar um pouco.
       - Você não tá prestando atenção– Chamou sua atenção Marcos, já contrariado. Ele não gostava de ir a um restaurante daqueles com uma bermuda, por mais que Beatriz houvesse dito que era uma “bermuda chique”. O que o fez refletir sobre a sorte que as mulheres tinham em usar um vestido curto e permanecerem elegantes, como era o caso de Beatriz naquela noite.
        - Calma, amor. Você sabe como eu fico nessa hora. Tá. Escolhi! Vai ser esse mesmo. – Disse ela abaixando o menu e o olhando com um sorriso bastante receptivo.
       - Então, eu não sou nada supersticioso. – Protestou ele.
       - Eu sei, amor. To entendo. Mas essa história é muito estranha. – Disse ela olhando em volta procurando o garçom. Aquela era uma noite comum no Trifoglio. Não havia motivos para os garçons sumirem como agora.
       - E você diz isso pra mim? – Diz ele procurando o celular no bolso.
- Tipo, quantas músicas você tem no celular? – Perguntou ela.
      - Então, isso que vou ver agora certinho pera – Falou ele pegando o celular enquanto novamente se incomodava com a tela rachada do aparelho. Era uma ferida recente. - 212 músicas. Coloquei essa música segunda.
       - Tá, Então, você ouve essa lista por quanto tempo no dia?
     - Toda hora. Eu saio de casa as 8h, e volto às 18h. Eu trabalho ouvindo música. Só desligo nas reuniões com o Ivan. -  Ele já havia refletido sobre o motivo pelo qual gostava tanto de música. Podia ter a ver com sua falta de sorte com a banda que montara na faculdade: Uma posição atrás em um festival de uma banda que estourou e foi até pro Faustão.
     - Todo dia essas reuniões? – Disse Beatriz quando finalmente conseguiu chamar o garçom.
      - Não. Só de sexta.
     - Tá, então você tá me dizendo que todo dia ouve a mesma playlist, sem parar, por 10 horas?
    - Isso. – Confirmou Marcos sem entender porque aquilo seria estranho – São 212 músicas, Bia. É muita coisa.
      - E elas nunca se repetem?
      - Não. Assim, nunca dá pra ouvir tudo.
      - Nossa, parece estranho. Deixa eu pensar, cada música tem uns 3 ou 4 minutos?
      - Acho que sim.
      - Então. 212 vezes 3,5... dá...12 horas de música.
      - Parece certo.
      - E Living on a prayer é…
      - A quarta da playlist.
      -  E você sempre começa do começo da playlist?
     - Claro que não. – Disse Marcos como se Beatriz tivesse proposto algo abominável – Eu começo onde eu parei no dia anterior.
      - É, faz sentido. Então assim, na segunda você bateu o carro?
      - Isso! Bati. Aliás, ficou bem baratinho o conserto, te falei? O cara concordou em dividir e tal...
       - Falou, e na terça...
     - Estão prontos pra pedir? – Perguntou a garçonete os interrompendo. Incrivelmente dois garçons faltaram aquela noite. Hoje não era seu dia, definitivamente.
       - Sim, eu vou querer esse espaguete aqui e ele vai querer...
       - O de sempre, por favor.
       - O de sempre? – Perguntou a garçonete meio confusa.
       - Sim. O de sempre. Você é nova aqui? – Disse Marcos.
       - Não, senhor. -Respondeu a garçonete ainda mais confusa.
       - Tá. Vou querer um hambúrguer de picanha sem bacon, por favor.
       - Ok, senhor. Pra beber?
       - Eu quero um chope e você, Bia?
       - Só água, por favor.
       - Já volto. – Afirmou a garçonete virando as costas.
       - Que estranho eles não saberem o que eu sempre peço. – Disse Marcos.
       - Beleza, segue. Na terça o que aconteceu mesmo?
       - Ah, sim. Então, eu errei o caminho e cheguei mó atrasado.
       - De novo tava tocando a música...
       - Sim.
       - E na quarta, seu computador deu aquele probleminha?
     - Não! Isso foi quinta. – A corrigiu – Claro, se você chamar de probleminha eu perder todos os projetos da semana inteira e todos os relatórios porque um programa do banco fez eu formatar o PC.
       - Tá, desculpa. Mas já te falei pra colocar essas coisas na nuvem.
      - Sei, sei. Já levei a bronca do Ivan por isso ontem. Aliás, ele me chamou pra sala dele enquanto tocava Living on a Prayer. Tipo, eu até já sabia que ia dar merda quando começou.
       - E o que aconteceu na quarta?
      - Ah, é. Eu não te falei. Eu tava entrando no prédio, aí eu trombei com a Marisa, sabe? Do comercial. A ruiva.
       - Sim. Bem gata.
       - Oi? Tá. Enfim, e ela caiu da escada.
       - Mas aí aconteceu algo de ruim com ela, não com você.
       - É, mas eu tive que pagar o celular dela que quebrou. E o meu vai ficar pra depois.
       - Puts.
       - E ela nem se machucou direito.
      - Que bom! Quando você começou eu pensei: Ué, mas achei que ele tinha quebrado a mão ontem.
     - Então, e na sexta, depois da reunião, eu saí da sala dele, coloquei o fone, e aconteceu isso aqui. – Disse ele mostrando sua mão enfaixada.
       - Doeu pra cacete, né?
       - Não, foi de boa. – Respondeu ele, ironicamente.
       - Deixa eu escrever no gesso.
       - Para, mano! Tô falando sério! To preocupado.
       - Tipo, eu entendo. É que ontem foi meio que sorte, né? Acidente de trabalho e tal.
       - É...se a câmera não tivesse me filmado olhando pro celular quando eu escorreguei no chão molhado. – Disse ele querendo era culpar o aparelho. Se bem que ele teve o que mereceu nesse dia.
      - E tava sinalizado, né? – Perguntou ela fazendo careta.
     - Sim. Mas sei lá, vou ver com o João. Não sei se acho justo que eles não paguem nada.
       - Então...só excluir a música do celular.
       - Ah, mas é estranho, né? – Perguntou ele com vergonha.
     - Não é superstição. Você não tá cedendo ao “impulso natural do ser-humano de se agarrar a uma crença sem fundamento pela sua incapacidade de entender as coisas” – Citou ela fazendo uma péssima imitação da voz de Marcos.
      - Sua memória é sempre boa, ou só quando você vai jogar na minha cara o que eu disse? – Falou ele com uma expressão irritada, a qual se desmontou quando seu hambúrguer chegou. – Nossa, vocês foram rápidos. Nunca é tão rápido. – Se dirigindo à garçonete enquanto já se preparava para devorar o lanche. Aquele elogio pouca diferença fez no péssimo dia que ela estava tendo
      - Então, não, ela é sempre ótima – respondeu Beatriz quando a garçonete já não estava mais na mesa – Eu excluo então. Dá o celular.
       - Pra que?
      - Só cautela. Não é superstição. – Negou ela que estendia a mão para Marcos, que não dava o celular - E se você morrer, já pensou?
     - Toma. Mas só exclui ela, por favor. – Disse ele que só queria encerrar logo a discussão e mergulhar em seu super lanche, apesar de ter só uma mão para o fazer.
      - Pronto. Excluída. Puts, “Thousand years”?
     - Só ela, merda. – Tomando o celular de volta. – Ele era mais cuidadoso quando tinha um celular inteiro.
      - Só to dizendo. Essa música não dá sorte também – Disse Beatriz enquanto colocava agua em seu copo.
    - Deixa. – Falou Marcos enquanto mordia pela primeira vez seu hambúrguer, com bastante satisfação.
      - Mas relaxa, amor. Certeza que foi só coincidência, né? – Perguntou ela olhando para a janela em que era possível ver um lindo carro conversível do lado de fora.– Né? – Disse ela olhando para um Marcos vermelho, parecendo que não conseguia respirar direito. – Marcos? O que aconteceu?
     - Tem... Bacon...? – Sussurrou Marcos enquanto lentamente abaixava a cabeça como quem quer deitar a cabeça mesa.
Beatriz checou e viu que havia mesmo Bacon no lanche. A única coisa pela qual Marcos era alérgico.
    - Merda! Garçom! Chama a ambulância alguém. -  Gritou ela. Mas ao perceber que ninguém tomava uma atitude, Beatriz puxou o próprio celular, não conseguiu sinal e saiu pra rua com bastante pressa. Viu um trânsito bastante carregado do lado de fora do restaurante, de modo que seria difícil a ambulância chegar ali. – Oi, meu namorado tá aqui...ele comeu Bacon. Ele é muito alérgico. Ele vai começar a ficar sem ar em uns 5 minutos. Mas eu não sei o que fazer porquê... tá transito e... – Foi quando Beatriz percebeu. O carro na frente do restaurante era conversível. E seu rádio tocava uma música. Mas não era qualquer música.



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Não(,) era pessoal.

                                                                             Escrito por Pedro H. Silva
João Marcos não queria magoar ninguém. Não queria irritar, incomodar, chatear ninguém. Ele não era mau. Não era uma pessoa ruim, mas sabia que ele vinha em primeiro lugar sempre. Até porque, alguém tinha que pensar nele,né?
Na verdade, ele já tinha passado da fase do “Estou tentando fazer com que as relações entre os professores melhorem”. Ele sabia muito bem do mal que tinha causado. Mas sinceramente, essas pessoas iam brigar de qualquer jeito. Independente de qualquer coisa. Sua presença ali talvez tenha acelerado o processo? Talvez. Mas a questão era que o desastre estava esperando para acontecer. Tinha muito bad blood envolvido, muitas tretas escondidas, as quais uma hora ou outra viriam à tona.
- Jo, você falou com a Fernanda? - Disse Júlia com notas de preocupação na sua voz e com cara de choro, enquanto entrava na sala dos professores do Colégio 25 de Abril, às 10h, no primeiro intervalo de uma sexta feira. Fria.
- Ma, a Júlia tá aí? - Disse Fernanda sussurrando, com a porta semi aberta, sem que pudesse ver ou ser vista por qualquer pessoa na sala, apenas por Marcos, Às 14h, no intervalo da tarde da sexta feira. Um pouco mais quente.
-Não, não. Mas Assim, ela não quer conversar com você, você sabe, né? - Disse João Marcos.
-Ok. Então, tipo, eu to bem triste com ela. - Disse Júlia - Ela nem olha na minha cara. Eu não falei nada dela. Juro que não! Poxa, precisamos conversar, sabe? - Disse ela quase que chorando.
-Mano, eu quero falar umas verdades para aquela traíra. Dizer sobre mim e o Paulo pra Marta? Tipo, ela ferrou com ele, comigo… E só pode ter sido ela,né?. - Disse.
-Você quer saber o que eu acho? - Perguntou João Marcos.
-Claro, Jo - respondeu Júlia.
-Fala, Ma - Respondeu Fernanda.
-Conversar agora não vai adiantar nada. Ela é desse jeito mesmo. Me surpreende muito que você nunca tenha visto. - Disse João Marcos.
-Pois é - Disse Júlia olhando para o chão - Mas de onde ela tirou que fui eu que contei? Tô achando estranho. Ela pensar isso de mim, sabe?
-Mano, só pode ter sido ela. Só contei pra ela. Só ela sabia. Tipo, só se alguém tiver visto… - Disse Fernanda tentando puxar da memória se algo de estranho tinha acontecido nas últimas vezes que beijou Paulo na escola.
-Não! Eu acho que era ciúmes. Vai ver ela quer o Paulo pra ela e achou que ia afastar ele de você assim.
-Inventando que fui eu que falei? - Perguntou Júlia
-Fazendo ele perder o emprego? - Perguntou Fernanda.
-Sim - Respondeu João Marcos.
-Mas por que ela acha que eu quero o Paulo? - Disse ela pensativa - Será que o Paulo contou pra ela de nós no ano retrasado? Na confraternização de fim de ano? - Perguntou Júlia um tanto quanto culpada.
-Faz sentido. Lembra que você me contou que ela já tinha tido um rolo com o Paulo um tempo atrás?
-Pode ser, pode ser. Bom, eu aconselho que vocês não se falem mesmo. Só tem raiva aí e tal. Inveja, medo. O que de bom pode sair? Vocês vão acabar se matando. Aí as duas perdem o emprego.
-Pra mim não faz sentido não conversar, sabe? - Disse Júlia muito confusa. - Você tem razão, Jo. Puts, acho que você é meu único amigo aqui. Eu, o Paulo e a Fernanda eramos tão próximos, sabe? Tipo, acho que você nem sabe porque foi antes de você chegar. Mas a gente se dava tão bem. Eu gostava que os dois estavam juntos.- Disse Júlia esboçando um sorriso pela primeira vez, enquanto pegava na mão de João. Para depois soltar e fechar a cara de novo-  De verdade. Aquela vez que a gente se beijou faz tanto tempo. E a gente tinha bebido pra cacete.
-Exato, Ma. Bom, valeu, viu? Se não fosse você me falando eu acho que ia achar que alguém tinha visto a gente junto. Vê se pode? Tá na cara que foi ela. Acho que você é meu único amigo aqui agora. - Disse Fernanda sorrindo. Enquanto segurava a mão de João.
-Magina, miga. Tudo certinho. Sei lá. A gente tem que se ajudar aqui. Melhor coisa que vocês fazem é cortar a relação. Ou esperar umas semanas pra falar de novo. Se bem que, pra que você quer alguém tão ciumenta, injusta com você? Que não torce por você. Eu acho que vou continuar falando com ela. Até pra saber o que ela fala de você por aí. Mas relaxa, viu? Você tá mais do que certa.
-É, você tem razão. Obrigado e boa aula. - Disse Júlia quando o sinal tocou.
-Sim, tá certinho. Valeu. Té mais. - Disse Fernanda depois que o sinal tocou.
-Tchau, linda.


“Elas iam brigar de qualquer jeito”, pensou João Marcos, “Eu tinha que contar pra Marta. Onde já se viu, namorar com colega de trabalho? Na escola ainda por cima. E se meus alunos vissem? E se a Júlia descobrisse que fui eu? Aliás, eu acho que ela mesma ia falar logo logo com a Marta. Ela é tão certinha. Eu tô é me protegendo, protegendo esses alunos e as duas também. Elas vão brigar e vão ser demitidas. Não é nada pessoal, mas tem coisas mais importantes que amizadezinhas, né?” Pensou enquanto ia até sua sala sabendo que tinha feito a coisa certa.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Empatia

Escrito por Pedro Henrique Silva
Antes
- Então - disse ele enquanto sentava na cama do quarto – Acho que hoje eu vou falar com a minha mulher, Ma.
- Oi? – Disse ela parando de escovar os dentes, completamente perplexa.
- Sim! Eu cansei! Acho que não aguento mais ela. Assim, sei lá, sabe? São três anos de casamento. Sempre a mesma merda. Só brigamos. Nem transamos mais faz um século.
- Mas isso não é culpa dela, né? – Disse ela já secando a boca na toalha do hotel.
- O que? – Disse ele
- Não, tipo, transar. A gente se vê todo sábado. Você mesmo já disse que é você quem não aguenta. De semana vocês trabalham pra cacete. Poxa, coitada.
- Sei lá, se ela se esforçasse mais acho que rolava, sabe?
- Será? As brigas também não são meio que por isso?
- O que você tá dizendo, Maria? – Disse ele já um pouco nervoso.
- Tipo, assim, acho que o problema de vocês é a falta de sexo. Dentre outras coisas, claro, mas tipo, se vocês transassem, talvez ficava mais fácil superar...


Depois
- Então você quer o divórcio? – Disse ela já com lágrimas nos olhos, num tom baixo e forçando aparentar controle.
-  Sim. Não dá mais, sabe? Acho que a gente só briga faz três anos. Já deu. Cansei! – Disse ele também um tanto quanto emocionado, enquanto a olhava andar pelo quarto de costas para ele.
- Tá. Você que vai embora?
- Sim. Vou buscar minhas coisas e ir para o hotel.
- Sério? – Disse ela com a raiva tomando lugar da tristeza – Você tem outra Felipe?


Antes
- E se ela desconfiar de mim? – Disse ela enquanto colocava a saia, sem muita pressa.
- Não vai! Eu nunca dei nenhum motivo pra ela desconfiar. Ela nunca demonstrou desconfiar de nada. Nunca disse um “a” sobre achar que eu tava com outra. Nunca viu batom no meu colarinho – Disse ele num tom de deboche.
- Não tira ela de trouxa. A gente sempre foi bastante cuidadoso. – Disse ela.
- Sei lá, só to dizendo que talvez, assim isso foi algo que me fez tomar a decisão. Ela nunca desconfiou. Nunca. Será que ela me ama? Porque das duas uma, ou ela é burra ou nunca gostou de mim.
- Cara, você é ridículo – disse ela pegando a bolsa com certa violência.
- Calma, calma. – Disse ele a abraçando por trás enquanto ela não parecia muito confortável com o carinho – Não era o que você queria? Vamos poder nos assumir, sabe? Daqui a uns meses, claro. Vamos morar juntos. Nos ver todo dia, ahn? – Disse ele beijando o pescoço dela,  que amoleceu.


Depois
- Acho que nossa relação se desgastou, sabe? Sei lá. A gente não transa...
- Tá. Entendi. Você tem outra – Disse ela o interrompendo.
- Não é por isso. Claro que não vamos terminar por isso. Nossa relação não faz mais sentido. Brigamos o tempo todo e não fazemos mais nada. Somos nem amigos mais e...
- Fechou então, Felipe, Faz assim, vai dormir no hotel com ela hoje. Vai embora. Por favor. Não aguento mais te ouvir.
- Calma, deixa eu ficar aqui um tempo...
- Não! – Disse ela alto. Mas não queria perder a compostura e se controlou – Quero você fora daqui hoje mesmo.


Antes
- Será que ela vai te expulsar de casa hoje mesmo? – Disse ela que já nem lembrava o que a tinha incomodado e só queria ouvi-lo dizer que logo estariam juntos pra sempre.
- Acho que não. Vou tentar convencê-la de dormir em casa hoje ainda. Ou até eu arrumar uma casa. Sim, eu consigo ficar lá até arrumar um apê pra nós. Dormindo no outro quarto, claro.
- Certeza que ela vai ficar puta.
- Vai nada. Eu consigo. Você vai ver.


Depois
- Foi bom enquanto durou...- Disse ele quando saia com duas malas de casa ainda naquela tarde.
- Vai pra puta que te pariu, Felipe.
- Te amo, Maria – Disse ele enquanto saiu porta afora.


Antes
Maria estava sentada na cama do quarto do hotel onde morava desde que Felipe começou a pagar suas despesas. Sentia pena pela mulher dele. Mas mesmo assim, ficava mal porque ele ter conseguido ficar mais uns dias em casa até conseguir um apartamento. A esposa tinha sido compreensiva.

- Eu não seria – Disse ela em voz alta se dando conta da ironia da situação.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Desculpa

Eu estava em casa. Meu irmão Marcos também. Não sabia mais do que isso. E eu ouvia alguém entrar. Vi o medo no olhar de Marcos. Aquilo não era novo pra gente. Todas as vezes era a mesma coisa. Mas meu irmão me olhava assustado. Eu sabia o que esperar. Ele também sabia. Mas o terror era como da primeira vez. Quando eu mal tinha forças pra defende-lo. Hoje eu posso. Hoje eu poderei defender meu irmão de meu pai.
Eu tentava entrar em casa sabendo que talvez não seria uma boa ideia. Aquele cara maldito tinha me xingado. O Palmeiras tinha perdido mais uma vez. Ou tinha empatado? Mas sei lá, parece que não sei direito porque eu estava com tanta raiva. Só sei que ela me consumia de cima pra baixo. Escorregando pela minha garganta até meu fígado e subindo de volta. E eu só queria mesmo entrar em casa e dar uma surra em alguém.
- Vamos pro guarda roupa? – Me perguntou Marcos. Eu não queria. Eu não me importava. Chaves mexendo. Hoje eu mataria meu pai. Maçaneta se mexendo. Sabia que podia. Ainda trancado. Ele não conseguia abrir. Pensei em ajuda-lo. Não. Finalmente, conseguiu. Porta abrindo. Olhos vermelhos. Meus olhos vermelhos. Era como olhar no espelho. Aquele grande homem. O maior herói que já tive. Entregue à bebida anos atrás.
- Cadê o Marcos? – Ele perguntou.
- Tá lá em cima – Ele respondeu me olhando com olhos vermelhos. Era como se eu estivesse olhando no espelho. E eu só queria pegar o Marcos e dar a surra que ele merecia por aquilo que ele tinha feito antes. Tentei subir correndo.
Ele mal ficava em pé. Subiu se encostando na parede. Eu apenas o segui de longe. Se levantasse a mão para Marcos... Chegou na parte de cima. Marcos estava na frente da escada.
- Não consegui entrar – Me disse ele. Meu pai foi em sua direção. O segurou pela camiseta. Corri e empurrei meu pai. Ele se segurou no corrimão e não caiu.
O babaca tinha tentado me empurrar da escada? Cadê o respeito? O Segurei pelo braço enquanto ele gritava e me dizia algo. Mas dane-se ele. O joguei longe no corredor e ele bateu a cabeça na parede. Chorava e gritava algo que eu mal podia ouvir.
- Sai seu filho da puta. Você não é meu pai. Você não é meu pai. Eu tenho nojo e vergonha de você. Seu maldito. Quero que você morra. Eu vou te matar – Eu gritava tudo de ruim que eu sabia gritar. Ele agora foi para cima do meu irmão. Eu não consegui. Meu irmão chorava. E apanhava. Duas, quatro, cinco chineladas. Meu pai saiu do nosso quarto. Foi para o dele. E antes de fechar a porta disse:
- Boa noite – Disse eu. Sei lá porquê. Só sei que entrei no quarto. Fechei a porta. E sentei na cama. Acho que eu tinha batido muito nos moleques. Bom, quem sabe agora eles não param de fazer aquilo. Aquilo o que mesmo? Eu não conseguia me lembrar. Deve ter sido aquela maldita garrafa de 51 que bebi. Ou as latinhas de cerveja? Não. Eu só tinha bebido uma latinha e uma dose. Para comemorar a vitória do Palmeiras. Mas o que os moleques tinham feito mesmo?  Foi quando comecei a chorar. Como nunca tinha chorado. Ou como sempre chorava? Não sei. Não faz mais sentido. Nada faz. Eu só queria uma dose pra dormir. A Maria ia dizer pra eu não fazer isso. Mas ela não estava mais aqui.
Foi quando eu entrei no quarto de meu pai. Mas não era mais o eu de 7 anos. Eu tinha já meus 32. Quase a mesma idade que ele. Sentei do seu lado na cama e disse:
- Pai, desculpa! Desculpa por tudo. Desculpa se eu te xinguei. Desculpa se eu nunca te abracei. Desculpa. Me perdoa. Desculpa se eu nunca fui te visitar desde os 19. Desculpa não te convidar paro meu casamento. Desculpa nunca ter te apresentado meus filhos. Desculpa não ter... desculpa.
Acordei daquele pesadelo para meu pesadelo. Minha mulher ainda deitada naquela cama de hospital. Os aparelhos ainda fazendo aquele barulho que eu nunca imaginei que ouviria por horas. A garrafa de pinga do lado de minha poltrona. Tudo normal. Exceto pela presença de meu pai dormindo sentado no pé na cama.

Eu não o via há séculos. A raiva da violência e do abandono haviam substituído quase que integralmente o amor que eu senti até um pouco depois da morte de minha mãe. Isso até ontem. Hoje a raiva não estava. Levantei, fui até ele, sentei ao seu lado e mesmo sem ter certeza de que ele estivesse acordado - mas com certeza do que ele tinha um dia sentido - disse...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Drinking Game

Written by Ludmila Barros

Edward was washing the dishes after having dinner that night, he had just watched another episode of his favorite TV show while eating a bowl of his favorite soup. All going according to the plan. So far. He had to leave everything behind when he heard the doorbell ringing vigorously. He dried his soapy hands and went to answer it. He was really surprised to see Megan standing by the door frame.
- Hi, Ned! - she said excitedly.
- Hi, Megan, what you’re doing here? It’s close to midnight.
- Oh, came on! Who cares about the time?
She said that already walking through the door. Ned was confused but as soon as she said that “Oh, came on!” he realized she was drunk. He could only watch her coming in and sitting in the couch.
- Megan, what were you doing? - he closed the door and walked to stood by her.
- Come sit with me, Ned! - she tapped the place next to her.
- No, Meg, you’re drunk.
She was shocked when he said that. That moment of silence was held is the air for a few seconds, but Megan interrupted it by laughing really loud.
- Stop, Megan! Shut up, it’s late! - he was worried, but her laugh was kind of cute and he could help himself. - Just stop, Meg. Where were you? - He sat by her in the couch.
- Ah, Ned! I was living life, right? We’re supposed to, right? Living and enjoying and being happy. Don’t you think? - she got dangerously close to him.
- You’re definitely right! - he moved away from her - You’re definitely right!
- Do you have anything to drink? Wine and stuff?
- Of course!
He got up and walked to the kitchen. “What the hell is happening?”. He leaned on the stand and tried to breath deeply. His peaceful night binge watching and eating just went to a totally different direction. He could hear her voice saying something, he could not understand, mostly because he was nervous, but also because she was just babbling around. Ned was thinking faster than ever. When he said yes for the drink question, he did not actually meant it. He did not used to drink at home, so there was nothing there for him to offer.
“Am I considering giving her more alcohol?”, he caught himself thinking of that. Then he just decided to give her a glass of water and pretend it was vodka or some clear drink. He filled the cup and had another deep breath before going back to the living room. He walked back there and found her looking through the window.
- There it is, I brought you some amazing drink! I made it myself. - she turned around and went for the cup - Be careful, it’s quite strong!
Megan took the cup and drank the water.
- That’s amazing, Ned, thank you so much. - she said gently.
She placed the cup by the TV bench and then grabbed him by his t-shirt. They stood there staring at each other for a while and then, suddenly, she kissed Ned’s mouth. His first reaction was to stand there, kissing her back. He used to dream about it all the time when they were doing college together, such a long time ago.
Ned always saw her as the perfect girl for him, she was pretty and funny, her red hair was quite shiny and always made him dream about it. Even though she never respond the feeling, he nourished that love for quite a long time. Ned stayed by her whenever we could, the became really close, best friends, and only that. He knew that it would never happen, yet he was there, all the time. When they graduated, he finally got over her.
All these thoughts went to through his mind during that kiss. Nevertheless, He felt an urge to stop it.
- What you’re doing, Meg? Don’t do that, please. - he hold her by her shoulders.
- Why? Don’t you love me? Haven’t you always loved me?
Her glowing eyes were staring at him.
- It’s not about it. - his cheek was turning red. - But, what are you talking about? Who told you that?
- Everyone knows that, Ned, come on! - Meg went back to the couch and sat there.
- I definitely didn’t know that. - He sat by her side.
They stayed there for a while, in silence. Ned wondered what to do next. Asking her to leave was too much, and it was too late to just deny it. He decided to go to other way.
- What time did you start drinking tonight?
- I don’t remember, why? Does it matter? - he stared at her - Since I left the office.
- When did you know that? I mean, that I’ve loved you? - Ned was a bit sad, looking at the floor again.
- People used to say that all the time, but I just didn’t believe. I just thought it was bullshit. - she lean on the armrest. - But in our prom night, your mother talked to me, - he looked at her, shocked - She said she was glad to meet the girl that made her boy so happy. Later some people told me that for a long time she thought we were a couple just by the comments you used to make about me.
- I’m sorry, I didn’t know that. - he looked away from her. - I am really sorry, you must have been embarrassed. I am really sorry. - he made a pause before saying the rest - But I’m afraid that it is all true. I’ve been in love with you since the day we met. Since the very first moment you opened your mouth to say my name in your sweet voice. Since the moment I saw your long red hair shining through that corridors. I loved you even in the worst moment, when we fought, argued and stayed weeks mad at each other. An I honestly thought I was over you, but only one kiss brought all those feelings back to me. Now I can say that, probably, I will never forget you. You will always be…
Ned hesitate and looked back to her. She was drooling with her mouth open. She was probably sleeping for a long time by that moment. He softly laughed when he saw that sweet and funny face.
- The love of my life.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O menino que não sabia usar seus porquês

2009
- Minha dúvida é – Disse Marcos enquanto jogava videogame com seu irmão mais velho – Porque eles dizem pra gente que não dá pra fazer conta de menos com um número menor por um maior, se dá? – Disse ele deixando o controle de lado e olhando para o irmão que ainda estava com os olhos vidrados na tv.
- Ah, pra não confundir vocês. – Disse Marcelo.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda. – Disse Marcos novamente pegando o controle sem ainda, todavia, olhar para a TV.
- Ah, mano, sei lá. Eles devem saber o que estão fazendo. Estudaram muito pra ensinar. cacete, cara, só quero que você me dê cobertura. – Disse ele enquanto esbravejava a seu irmão que agora voltava sua atenção à tv.
2010
- Se “have” quer dizer “tem” porque eu não posso dizer “Have three people here” ?- Perguntou Marcos que estava esperando seu pai chegar de viagem com essa pergunta engatilhada, de modo que mal esperou que ele colocasse sua mala no chão quando finalmente abriu a porta.
- Oi pra você também. – Disse Milton enquanto ia à cozinha
- Oi! Como foi na África? – Perguntou Marcos o seguindo.
- Bem bem – Disse o pai que queria uma saudação apropriada do filho, mas realmente não estava muito animado para responder a uma pergunta tão simples, embora complexa. E queria mesmo era tomar um belo copo d’agua.
- Então, hoje na aula a professora disse que eu não podia usar “Have two people here”. Mas assim, ela disse que “have” significa “ter”. Mas tá errado usar com sentido de “haver”. Mas assim, eu fazia essa frase semestre passado e ninguém nunca me corrigiu.
- Então, sei lá, filho. Eu sempre aprendi que não pode. Mas não sei porque também. Sei lá, vai ver ninguém queria te confundir muito cedo. – Disse Milton enquanto procurava sem sucesso um copo no armário da cozinha.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda – Respondeu Marcos enquanto secava um copo do escorredor e dava ao pai.
- Obrigado – Respondeu Milton
2012
- Mano, como assim minha audiência não importa pra tv? – Disse Marcos enquanto andava na esteira da academia e conversava com sua namorada, Júlia.
- Pois é. Não importa. São famílias específicas que tem um aparelho que lê o que elas estão vendo e manda pro IBOPE. – Respondeu Júlia que já estava há mais de 10 minutos na esteira apenas andando.
- Mas porque eles não dizem isso? Porquê ninguém divulga? – Disse Marcos que, um tanto incomodado já diminuía sua velocidade.
- Ué? Sei lá! Vai ver – Disse Júlia se preparando para aumentar a velocidade da esteira e finalmente começar a correr. No seu ritmo, claro – vai ver eles não querem que a gente fique confuso e veja a tv de um jeito diferente. Tipo – e dando seu último suspiro antes de acelerar -  Eles têm os anunciantes.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda – Disse Marcos no seu último segundo de irritação. Agora ele admiraria Júlia correr por mais alguns minutos.
- Que foi? – Disse Júlia correndo sem saber se deveria achar engraçado ou incômodo Marcos babar em seus peitos daquele jeito.
2015
- Mas pera, Cabral não descobriu o Brasil por acaso? – Disse Marcos à Paula, sua namorada, muito revoltado enquanto via a correção de sua prova do vestibular. – Isso não faz sentido nenhum.
- Claro que faz. Todo sentido do mundo. Você acha mesmo que os caras iam se perder indo pra India e dar de cara com o Brasil? – Disse Paula sem nem olhar para Marcos enquanto checava sua própria prova – e fala baixo que minha mãe tá dormindo.
- Ué? Foi isso que aprendi a vida toda.- Sussurrou Marcos quase que exigindo a atenção de Paula, que nem sequer tirava os olhos do computador.
- Você imagina a confusão que ia causar na sua cabeça se a professora, sei lá, do nono ano, tivesse te dito “Olha, então, Portugal sabia da existência de terras mais ao sul das que haviam sido descobertas anos antes por Colombo, e fez uma expedição para acha-las, a fim de recuperar a hegemonia marítima da Europa, depois da queda de Constantinopla”.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda. Aliás, nem parece ter sido do jeito que você falou. – Disse Marcos enquanto relia a correção do professor no site do G1.
- Ah, sei lá. Eu acertei. E é isso que importa. Aliás, quanto você tirou? – Disse Paula suspirando aliviada em fim – Eu fiz... 56.
- 45. – Disse João chateado por não ter passado por 2 pontos.
2017
- Seguinte – Disse Marcos Mouto à câmera – Eu to cansado! Cansado dessa mídia que só mente pra gente. Cansado dessa agenda de esquerda patética. Cansado desses comunistas que já ocuparam as escolas enchendo-as de mentiras. Cansado desse país ainda colonial que nem inglês sabe falar. Cansado do politicamente correto que tomou conta até dos nossos professores. Mentiras, mentiras, mentiras. Só mentiras. Esses políticos de Brasília estão acabando com o país. Vamos...vamos... Droga – Disse Marcos que olhava com impaciência para o roteiro na sua frente. Havia se perdido.

- Tá – seguiu – Como o Olavo de Carvalho fala, essa esquerda é cheia de analfabetos funcionais. Cheio de gente burra por que aceitou tudo! Tudo que a escola diz. Tudo que os professores insistem em colocar na nossa cabeça. Tudo que a mídia não parar de conclamar. Tudo! Tudo que a história, que foi comprada pela esquerda, diz! Eu cansei! Agora eu sei a verdade. Sei que a terra é plana. Sei que racismo não existe, aliás, as cotas são nojentas. E não digo isso por que não passei no vestibular dois anos atrás por causa delas. Sei que o nazismo, há o nazismo é de esquerda. Sim, os professores de história mentiram pra você. Sei que a Globo, essa agência do marxismo, mente o tempo todo. Eu sei, eu sei, eu sei. Se você ainda está imerso em mentiras que contaram pra você, saiba que você pode acreditar em mim, no Nando, no MBL e em todos os outros. Então, porque não comprar nosso livro? SIM! Estamos lançando um livro: “Mentiras e mentiras”. Com tudo o que fizeram você acreditar na vida. Bem como a versão correta dos fatos, claro. Apenas R$ 99,90 em todas as melhores livrarias. – Disse Marcos aos seus 4 milhões de seguidores.