sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Quarto da Vivian

Escrito por Ludmila Barros

O mês passado foi muito difícil. O dinheiro não deu e eu precisei até pedir emprestado para os meus pais. Eu, definitivamente, não queria fazer isso de novo. A alternativa era achar alguém pra rachar as contas de casa, e foi isso que eu fiz nas últimas semanas.

Finalmente havia encontrado alguém que parecia decente, não louco, nem esquisito ou nem estranho demais. O nome dela era Vivian Gomes, ela tinha 20 anos e era estudante de engenharia química numa faculdade pública, seus pais que a  bancavam em São Paulo e o valor mensal era até menor do que o pai dela reservava para o aluguel.

A única exigência dela era ter um quarto com fechadura e chave. Compreensível, né?

No terceiro mês morando juntas já a considerava uma amiga. Nós criamos o hábito de jantarmos juntas praticamente todos os dias, até em alguns finais de semana a gente fazia isso, e depois assistíamos séries na sala. Foram meses muito legais, nós nos conectamos muito bem.

Esses poucos meses iniciais foram suficientes para eu perceber que a Vivian tinha costumes bastante específicos e metódicos. Era sagrado, todos os dias em que ela estava em casa, entrar e se trancar em seu quarto perto da meia noite, nunca depois, sempre um pouco antes. Já nos hábitos alimentares, ela revezava entre as semanas: uma ela comia só carne vermelha, na outra só frango, na outra só peixe e depois uma semana vegetariana. Ela, de jeito nenhum, se perdia nessa de ficar mudando, ela sabia exatamente em que semana estava e qual eram as próximas, ela tinha sequência bem estabelecida na cabeça dela.

Outro fato curioso é o de que ela não me deixava entrar no quarto dela, não que eu ficasse pedindo. Mas teve uma vez em que eu queria um rímel emprestado e ela respondeu que estava no quarto dela, quando me levantei para ir pegar ela quase pulou da cadeira pra entrar na minha frente e dizer “pode deixar que eu pego pra você”.

Ainda sim, não dá pra julgar nada disso, ela era uma garota muito legal, eu gostava bastante dela, bastante mesmo.

- Vivian, tava pensando em chamar os meninos da frente pra fazer alguma coisa amanhã à noite. Quem sabe assistir alguma coisa, beber, pedir alguma coisa pra comer. O que você acha? Tem algum problema? - eu disse quando estávamos tomando café da manhã no sábado passado.
- Claro que não, eu adoro eles. - ela respondeu calmamente.
- Adora? Adora…? - eu perguntei enfatizando na segunda vez, não entendi o que estava acontecendo, mas aquele verbo me incomodou.
- E você não? Já vi você se jogando pra cima do André mais de uma vez, sem contar as vezes que vocês chegaram no meio da madrugada juntos… - eu me assustei - Ah não, você achou mesmo que era segredo? - ela deu uma risada amargamente gostosa.
- Eu não sabia que tava na cara assim. Mas a gente faz tempo que não sai, a gente nem se fala mais com essas intenções, acho que foi só um momento mesmo. - pausei um pouco tentando calcular minhas palavras - Apesar de que nós ainda somos bons amigos, não tem como brigar muito com alguém que está quase todo dia com você na faculdade.
- Amiga, você não me deve satisfações. - ela disse com um sorriso enorme no rosto.

Não passou um sequer minuto naquele dia sem eu sentisse o gosto ruim daquela última frase dela. Não era questão de dar satisfação, é só que, sei lá, ela morava comigo, ela merecia alguma satisfação.

Passei na casa deles e falei sobre a festinha à noite e eles toparam, fui ao mercado sozinha comprar as comidas e as bebidas, errei na mão e comprei bebida demais pra pouca comida, mas só fui perceber quando cheguei em casa de volta. Preparei tudo e fui tomar banho. Foi quando Vivian chegou de sei lá onde que ela tinha ido. Ela veio conversar comigo pela janela do banheiro.

- Você precisa de alguma ajuda? Com a comida ou alguma coisa assim? Eu posso sair, ir no mercado, não sei. - ela perguntou.
- Talvez comprar mais bebida. - eu respondi sem pensar.
- Tem certeza? Tem umas quatro garrafas de vodca aqui, acho que vou sair pra comprar mais comida né, se não todo mundo vai vomitar no nosso sofá maravilhoso.

Ela disse e já saiu, só ouvi a porta bater.

Depois disso eu fechei a janelinha e o banheiro começou a se encher de um vapor quente, os espelhos ficaram ainda mais embaçados e eu aumentei a temperatura do chuveiro. A água ficou extremamente quente, eu fiquei quente, doeu. Quando a água batia nos meus braços, na minha barriga e nas minhas pernas, a pele branca ardia e ficava vermelha, mas estava maravilhoso. Não me lembro de quanto tempo eu fiquei ali dentro, só sentindo aquela quentura do meu corpo no meu corpo, de dentro pra fora, de fora pra dentro.

Já de noite, com todos os cinco, eu acabei ficando presa conversando com o André enquanto a Vivian ficou conversando com os outros dois. Até que eu propus que nós jogássemos algum daqueles jogos em que o perdedor tinha que beber. Os times ficaram divididos entre meninas e meninos, e incrivelmente nós ganhamos praticamente tudo, os meninos ficaram tão mal que acabaram indo embora mais cedo, umas duas da manhã.

Ficamos só nós duas na sala. Ainda bebendo.

- Sabia que é a primeira vez que eu te vejo bêbada desde que você veio morar aqui? - Eu perguntei.
- Deve ser.  - ela respondeu com as bochechas vermelhas e provavelmente quentes.
- Sabia que essa deve ser a primeira vez que você não se tranca no seu quarto um pouco antes da meia noite? - eu arrisquei.
- Ah é? - ela olhou pra mim assustada - Você anota meus passos então?
- Não, não é isso, é só que eu acabei reparando… - eu disse muito envergonhada.

Depois disso ela falou para assistirmos mais um episódio de uma série que a gente tava vendo juntas. Quase no final eu acabei reparando que ela tinha dormido, ela se esticou e colocou as pernas em cima de mim. Eu terminei de assistir, sem muita concentração na televisão.

Quando começaram os créditos eu olhei pra ela, passei os olhos por cada pedaço dela ali deitada no meu sofá. E quando me inclinei um pouco pra frente percebi que a chave do quarto dela tinha caído de seu bolso. Uma chave simples com uma fita rosinha amarrada.

Eu não conseguia pensar direito, estava meio bêbada também, mas eu precisava ver o que ela mantinha lá dentro. Eu levantei com cuidado, acomodei os pés dela no sofá e a cobri com uma manta que eu deixava ali por perto. Me abaixei e peguei a chave. Cheguei na frente da porta, pensei, repensei e coloquei a chave na fechadura. Girei devagar para não fazer barulho. Coloquei a mão na maçaneta e esperei, tentei desesperadamente recuperar o fôlego.

- Por que você quer tanto entrar aí? - Vivian disse num tom calmo me olhando por cima do sofá.

Eu dei um pulo e senti meu coração também dar um pulo. Virei de costas para a porta, ficando de frente para ela.

- Desculpa. - foi a única coisa que eu pude dizer.
- Não tem problema. - ela disse igualmente calma, sensível e sedutora. Ela subiu pelo sofá e veio em minha direção - Se queria tanto conhecer meu cantinho, era só pedir.
- Desculpa, - eu repeti - não queria invadir nada. Eu só…

Ela tirou a camiseta e me forçou a lembrar de uma de nossas conversas em que ela confessou em tom de orgulho que não usava sutiã a mais de 4 anos.

- É isso que você quer? - não consegui responder - Então vamos ao que interessa.

Ela puxou minha mão e abriu a maçaneta de seu quarto. Foi quando entramos que eu percebi que estava irremediavelmente apaixonada pela Vivian.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fonte segura

Escrito por Pedro Henrique Silva
A polícia não demorou. Apesar de John Rivers estar muito ocupado com a burocracia do último assassinato. Há uns três meses.
- Senhor... D-43 – John não ligava muito para a etiqueta, mas achou melhor chamar aquele robô de senhor como os códigos de contudo recentes recomendavam.
- Pois não. É o oficial?
- Sim. O senhor tem uma denúncia, certo? – a palavra tinha um gosto estranho.
- Sim. Meu patrão, Cristian Cardozo, foi sequestrado.
- Foi o que me foi passado. Por que não sentamos ali e o senhor me conta toda a história? – Não era comum um policial ir até a casa do denunciante para tomar depoimentos. Mas era um robô mordomo, um desses que não saía de casa em hipótese alguma. E Cristian Cardozo era um dos escritores mais famosos do mundo. Seus livros vendiam muito. Agora estava mais focado em contos, os quais vira e mexi ocupavam o dailyfeed de John.
- Tudo bem. Mas será longa e cheia de reviravoltas. O senhor está pronto? – John nunca vira alguém tão empolgado para depor.
- É para isso que estou aqui.
- Queria deixar claro que não será tão longa assim. Me perdoe porque acho que não ficou claro o que eu disse ali.
- O senhor não me parece muito bem.
- É... eu estou bem. O senhor está pronto?
- Eu estou. Podemos começar. Eu vou gravar aqui, tudo bem?
- Sim. Eu estava contando com isso, senhor. – John apenas encostou no botão de seu NanoPC e um aplicativo da polícia já se encarregou de reconhecer que era a hora de gravar.
Dave estava finalizando seus planos para o jantar. Sempre fazia isso naquela hora. Cristian tentava enfim resolver o seu bloqueio criativo. Sem sucesso. Sua namorada chegaria em meia hora. Ele queria ter alguma coisa. Algum parágrafo. Algum personagem mais o menos delineado. Nada além da premissa. Uma que não lhe agradava tanto. Tivera a ideia durante um filme. Não gostou dos rumos do roteiro e pensou em como poderia ser diferente. A partir de seus planos quis seguir com uma história que nada tivesse a ver com o filme. Porém, tudo parecia demais com o que ele havia visto no cinema.
- O jantar está pronto, Cristian. – Disse Dave
- Joana vai chegar a qualquer mo...- e foi interrompido pela campainha. – Dave abriu a porta
- Trouxe vinho. Acho que o Dave não vai se importar, né Cris?
- Claro que não. – Claro que iria. Dave pensava em um jantar que combinasse com uma bebida e uma bebida que combinasse com o jantar. Perturbar isso sempre o deixava irritado.
O jantar foi servido. Não havia a harmonia necessária com aquele vinho do porto. Mas aparentemente foi tudo bem. O casal foi para o quarto. Já passava da meia noite. A luz estava acessa. Eles poderiam estar se divertindo.
- Eu não estou entendendo onde o senhor quer chegar. Joana então sequestrou Cristian? – John se perguntava o que aquele robô estava querendo dizer com “se divertir”. Sua programação original envolvia eufemismos? Ou o escritor havia o customizado de alguma forma?
- Não me interrompa, senhor. Desculpe. Acho que meu...relato, não está do seu agrado. Tudo isso é importante para o desenvolvimento dos... caráteres deles.
- Caráteres? Tudo bem. Continue.
Contudo, eles não estavam se divertindo do jeito convencional. Cristian e Joana tramavam a morte do marido de Joana.
John pulou da cadeira.
- Um minuto, senhor. Eles mataram o marido?
- O senhor aguarde que eu chego lá.
- Ok. – John odiava falar com robôs.
- Nos vemos de novo hoje à noite? – Perguntou Joana
- Acho que não. A princípio eu tenho uma entrevista marcada com um repórter a noite no jantar. Se ele cancelar eu te chamo e vemos. – Respondeu Cristian
- Então você acha que é assim? Só me chamar que eu venho correndo?
- Não. Não. Não. Eu nunca disse isso. É que não quero ficar sozinho.
- Você disse que é UM repórter, né?
- Sim, amor. É homem.
- Ok. Então, me liga se ele cancelar. Vou trazer um vinho que você vai adorar, Cris. Ouviu Dave?
- Sim, senhorita – Dave queria que Joana não viesse.
- Dave, acho que você ouviu. Disse Cristian fechando a porta - Hoje à noite temos um visitante. Ele vai me entrevistar sobre um dos meus contos do ano passado.
- Sim, Cristian. Eu ouvi. Tomara que ele não traga nada que atrapalhe meu menu
- Você fala de uma bebida?
- Sim.
- Ai Dave, relaxa. É costume... se ele trouxer você diz: “Eu tenho que admitir que esse vinho é muito bom, Senhor Johnson. Vai combinar com o jantar”. Ok? É um repórter importante. Não quero que ele se irrite.
- Tudo bem. Anotado.
- Senhor, me desculpe, mas o senhor poderia ir direto ao ponto – Era absurdo pra John que ele não podia simplesmente dar um comando e aquele robô soltaria toda a informação relevante. Sem que fosse necessário ouvir flertes daquela relação nojenta, e conversas sem sentido entre um cafajeste e seu robô.
- Eu vou continuar. Tudo isso é importante.
Na noite seguinte Dave cozinhava. Cristian não escrevia. E a campainha tocou. Antes de Dave chamar dessa vez.
- O senhor é Marcos Johnson, certo? – Perguntou Cristian, que sempre atendia a porta. Ele gostava de deixar Dave cuidando das refeições.
- Sim. Senhor Cristian. É uma honra conhece-lo. – Disse o repórter.
Marcos na verdade se chamava Poe. E ele era um detetive particular contratado pelo marido de Joana. Ou melhor, ele era mais uma espécie de mercenário. Ele tinha uma missão: Sequestrar Cristian.
- Eu trouxe um vinho como presente para o senhor. – Dave derrubou o Merlot que escolhera. As pessoas adoravam levar bebida para os jantares. Por que não umas baterias extras ou umas ferramentas? Seriam extremamente mais úteis para todos.
- O senhor não está sozinho? – Perguntou Marcos, que na verdade era Poe.
- Não. Dave! Marcos, esse é D-43, meu mordomo. Pode chamar de Dave.
- Às suas ordem, Senhor Marcos. Em que posso ajudar? Posso levar o vinho?
- Não, não! É, eu queria... Eu o servirei. Não tem problema.
- Mas, é meu trabalho servi-los, senhor.
- Tudo bem –  Disse Poe. Dave percebeu sua hesitação. Ele estava recalculando seus movimentos.
Enquanto iniciavam o jantar, Dave ouvia as perguntas um tanto quanto desconexas e sem muito sentido do “repórter”. Dave sabia todas as respostas.
- Eu tenho que admitir que esse vinho é muito bom, Senhor Johnson. Vai combinar com o jantar – disse Dave mecanicamente ao servir o vinho.
- Obrigado, Dave.
Dave percebeu que Cris cheirara o vinho, nada de incomum. Cris fizera alguma piada sobre uvas, nada de engraçado. Cris dispensara Dave, nada de insólito. Um barulho veio da cozinha, Cristian desmaiara, nada de normal.
- Dave, eu tenho que levar ele no hospital. Deve ter comido algo que o fez mal.
- Mas é impossível, senhor. O Cristian não é alérgico a nada da refeição de hoje.
- Tem certeza? Bom, o fato é que ele está desmaiado. Preciso leva-lo ao hospital.
- Podemos solicitar uma ambulância.
- Não! Eu levo. Eu estou de carro.
- Não posso deixa-lo ir com o senhor.
- Eu vou leva-lo, Dave. A Ambulância vai demorar bem mais.
E assim colocou Cristian no ombro e abriu a porta. Dave nunca mais viu Cristian.
- Então você está me dizendo que o marido de Joana pagou um mercenário para sequestrar Cristian? Como ele era? – Perguntou o policial já impaciente.
- Senhor não deve estar tão entretido pela estória. Eu lamento.
Joana veio ao apartamento no dia seguinte.
- Dave? Cadê o Cris?
- Eu não sei, senhorita. Eu liguei para todos os hospitais ontem e hoje. Não achei o senhor Cristian em lugar nenhum. Temo que ele foi sequestrado. Mas segundo o protocolo temos que esperar 24 horas para comunicar a polícia
- Hospital? Quem levou ele no hospital?
- O repórter. Cristian comeu algo e desmaiou.
- Ah, o repórter... como ele era?
- Loiro. Cabelos curtos. Atlético, olhos verdes.
- Ai não, ai não, ai não, ai não.
- Senhorita?
Joana fugira com lágrimas nos olhos.
- Como é essa Joana?
- Desculpa, senhor. Eu não sou gosto de descrições. Acho elas desnecessárias. Ela tem cabelos negros e lisos. 1,6 m, olhos castanhos escuros. Seios médios, barriga lisa...-
-Ok, ok. Acho que está bom. Eu quero descrições mais detalhadas para o retrato falado mais tarde. Mas primeiro precisamos começar a procurar o seu patrão.
-Quem são os suspeitos, senhor?
- Bom, Joana teve uma reação muito estranha. Se ela chorou ao saber ela deve ter reconhecido a pessoa. Pela descrição dela, ela não deve ser parente. Só estranhei algumas coisas. Como o senhor sabia que o tal Poe era detetive?
- Eu não sei.
- Oi?
- Eu...desconfio.
- Baseado em que?
- Palpite. Eu li muitas histórias de detetive. Vi muitos filmes.
- Você tem alguma coisa para me falar?
Foi quando a porta se abriu e Cris entrou. John o reconheceu.
- Senhor Cristian Cardozo?
- Sim. Quem pergunta?
- O senhor esteve onde nas últimas 24 horas senhor.
-  Quem pergunta?
- John, John Rivers. Oficial John Rivers.
- Aqui. E eu saí de manhã para encontrar Joana.
- O marido dela sabe disso?
- Sim. Eu sou o marido dela, senhor. Noivo, na verdade. Pedi hoje.
- Senhor D-43, o senhor sabia que é crime reportar falso crime?
- Dave, você tem alguma coisa para me falar?
- Cris. Eu fiz sua história. Eu escrevi sua história. Não é isso que você chama de “testar”? Você não estava em casa.
- John, perdoe o meu amigo aqui.
- O seu “amigo”, fez uma falsa alegação de crime.
- As leis se aplicam aos robôs?
- Mas o senhor pode ser responsabilizado pelas ações de seu robô, E o senhor sabe muito bem disso
- Policial, vamos conversar...
- Na delegacia?
- Tudo bem. Dave, eu já volto.
Dave preparava o jantar. Cristian chegou depois de horas na delegacia.
- Dave, eu fiquei muito curioso para ler sua história
- Cristian, me perdoe. Mas acho que te ajudei. Fiz uma história convincente.
- Sim, Dave, sim, você fez.
- Obrigado, Cristian.
- Eu perguntei ao oficial sobre sua história. Acho que ele ficou sentido por você tê-lo feito perder tempo. Ele simplesmente me enviou o arquivo de áudio. Eu ouvi no caminho. E tenho alguns feedbacks para você.
- Sim.
- Sua história é boa mas faltam descrições.
- Para que descrever, Cristian? Qual a finalidade?
- Imersão. Bom, outros autores têm intenções diferentes. Para mim é mais para fazer o leitor entrar na história que você está escrevendo.
- Entendi. Dá próxima vez eu faço diferente.
- Da próxima vez, pode me contar, ok?
- Ok, Cristian.
- A propósito, vi que você pegou coisas que de fato aconteceram para montar sua história e misturou com coisa que não ocorreram.
- Sim.
- Há algo que eu não saiba que é real?
- Não sei. Você sabe que a Senhorita Joana é casada, certo?
Longa pausa. Cristian abriu o Merlot, encheu o copo.
- Viúva, meu amigo... viúva.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Maria Carola

Escrito por Ludmila Barros

“Tomai, todos, e comei: este é o meu corpo, que será entregue à vós.
Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos
e deu graças novamente, o deu a seus discípulos, dizendo:
Tomai, todos e bebei: este é o cálice do meu sangue,
o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos,
para a remissão dos pecados do mundo. Fazei isto em memória de mim.
Eis o mistério da fé!”


E então o padre distribuiu as hóstias e o vinho para mais dois ministros e, então, eles se dividiram por entre as fileiras, enquanto o pároco permaneceu na fileira do meio. A senhora foi, mesmo que sentada na extrema esquerda, para a fileira do meio, queria receber a hóstia das mãos daquele homem que ela admirava tanto. A igreja estava lotada e a fila comprida, cada passo que ela dava em sua direção, era um batida mais forte no peito.
Para ela, o momento da comunhão foi tão luxurioso que o fim da noite foi reservado para rezar mais de vinte ave-marias tentar se purificar de seus próprios pensamentos.
Ela frequentava aquela paróquia a mais de vinte e cinco anos, quando mudou para aquele bairro com o seu marido. O antecessor foi um senhor de mais de oitenta anos, um padre respeitado e conhecido além dos limites daquele bairro. Morreu de velho. E pela quantidade longa de anos, o senhor padre e o casal haviam se tornado grandes amigos. Por conta dessa amizade, seu marido se recusou a continuar frequentando a missa após terem substituído seu grande amigo por um novato, um garoto tão jovem e inexperiente, quase uma ofensa. Porém, ela se manteve semanalmente, no começo por fé, depois…
Já eram cinquenta e dois anos de idade, trinta e três de casada e um número incontável paixonites, nem mesmo a idade e a maturidade acabaram com essa imaginação adolescente. Era prazeroso, em sua mente, montar e desmontar, criar e destruir cenários, possibilidades e oportunidades, nas quais ela fazia loucuras, permitia prazeres e inibia negações. Tudo dentro de sua fértil imaginação e apenas lá, dentro de sua própria cabeça.
A cada semana, em todo domingo, ela chegava cedo, sentava-se na segunda fileira, propositalmente, estar perto, mas ainda com descrição, afinal ela era facilmente reconhecível, era, de fato, uma pessoa de certa fama. Nos jantares entre amigos e almoços de família, nada mais entrava em seus pensamentos além dos olhos de jabuticaba do jovem padre. A missa, então, tornou-se obrigatória, ouvir o sermão e renovar seu estoque mental de imagens era a motivação que a mantinha no decorrer da semana.
Numa dessas semanas ela criou coragem para falar de frente com o padre e pedir um momento especial para uma confissão em particular.
No domingo, após o término da missa, ela seguiu o fluxo e foi para a porta, mas não saiu, manteve-se na frente para a estátua da Virgem Maria até a igreja ficar absolutamente vazia. Voltou e foi em direção ao altar.
Ficou diante da imagem de Jesus na cruz, que ficava no fundo da igreja, subiu os degraus e passou as mãos sobre a mesa do altar, sentiu as rendas. Abriu a bíblia, o único objeto deixado lá, suas mãos passaram com leveza por aquelas páginas finas. E seus pensamentos se confundiram.
Ela se dirigiu à sacristia, abriu a porta e entrou. Ninguém. Apenas algumas coisas jogadas em cima da mesa, no centro, rodeada de cadeiras. Algo interessante chamou sua atenção, uma bolsa rosa pendurada numa das cadeiras. Ela puxou a cadeira e nela tinha uma blusinha, de um tom um pouco mais claro que o rosa da bolsa, de moça jovem, quase infantil.
Ela ouviu vozes, seguiu.
Andou pelo longo corredor e as vozes aumentaram.
Não foi necessário andar mais.
De longe ela observou uma cena que a deixou trêmula.
O padre estava sentado num banco, com a batina levantada, só se podia ver suas pernas cheias de pêlo, já que a visão para o seu tronco estava impossibilitada pelo corpo de uma garota, sentada em seu colo, com o vestido curto arriado até sua cintura. No chão, eram facilmente encontrados as peças íntimas dos dois, jogados perto dos pés do padre.


Nos domingos seguintes, ela começou a ser sentar do lado da tal garota, procurou tornar-se sua amiga, pelo menos uma colega de missa, já que ela sabia quem era a tal garota, era neta de um antiga vizinha, que foi sua colega de classe durante a época de escola, e realmente, aquela jovem garota tinha feições que lembravam essa sua colega. A neta tinha acabado de fazer dezenove anos, ela havia sido coroinha do outro antigo padre desde os doze anos, parou somente devido ao falecimento, por isso ficou quase um ano sem frequentar, como muitos dos outros fiéis. Mas desde que voltou, só frequentava como ouvinte, sempre da primeira fileira.
Durante quase dois meses sua atenção era só dela, já havia até reconhecido o padrão dos encontros deles. A garota sai com o fluxo, dava a volta no quarteirão e entrava na outra porta, que dava direto pelos fundos daquele anexo em que eles se encontravam. Sempre depois de todas as missas de domingo de manhã, mas essa era a única que a senhora tinha tempo de ir e seguir os passos da garota.
Mas ela desistiu de seguir a garota. Sua atenção voltou-se novamente para o padre.
Passou meses observando o casal, ela chegou até a entrar outras vezes no mesmo corredor para assistir aquelas cenas sórdidas e proibidas.
Até que sua ansiedade não cabia mais dentro de si.


Num dos raros domingos em que a garota não estava, logo que a missa acabou, ela foi direto para o altar conversar com o padre, pediu para que entrassem, queria privacidade, o jovem padre atendeu o pedido educadamente e eles entraram na sacristia.
- A senhora gostaria de se confessar nesta manhã?
- Não.
Ele não entendeu, ficou confuso e sentou numa das cadeiras.
- Muito bem então, no que posso lhe ser útil, senhora?
- Gostaria de saber desde quando o senhor pároco profana a santa sacristia. - ela perguntou enquanto andava devagar de um lado para outro do salão.
Ele soltou uma risadinha de canto, mas logo ficou sério novamente.
- Eu entendo que o antigo morador era muito mais querido pela comunidade, mas chamar meu santo trabalho diário de profanação é exagero.
- Não fale sobre o santo que foi o Padre Antônio. Tenho certeza absoluta que ele não trazia jovens garotas para dentro de um local tão sagrado como esse. - ele levantou rapidamente da cadeira, de modo a derrubá-la no chão - Sim, é sobre essa profanação a qual eu me referia.
- Eu não entendo do que a senhora se refere.
- Liliana, dezenove anos, filha da dona Antonela, cabelos negros, costas lisas e peitos empinados.
Foi com esse comentário que ele se irritou de verdade.
- Eu exijo que se mantenha o respeito…
- Eles balançam de uma forma sensual, eu também tinha um corpo maravilhoso aos vinte anos.
Mesmo antes de ela terminar a frase, ele se aproximou bruscamente e sua feição se tornou escura e agressiva.
- A senhora carola acha que sabe demais.
- Meu nome é Maria, pode me chamar assim.
- A senhora Maria Carola acha que sabe demais.
- Eu sei o que eu sei, por que eu sei o que eu vi, - ela tornou-se igualmente séria e agressiva - Você não está falando com uma garota, eu não sou qualquer uma, tenho cinquenta e dois anos. Não me trate como uma qualquer.
- E então o que a senhora deseja de mim?
Ela sentiu um ponta de prazer, ter um homem assim em suas mãos, numa situação sem saída. Sedenta para realizar seus desejos, ela só tinha uma coisa para falar:
- O mesmo que ela tem.
- Me desculpe, mas eu não entendi…
- Você entendeu sim. - ela passou sua mão por seu peito coberto pela batina - Eu quero o mesmo que ela, na mesma sala que ela, com a mesma empolgação que ela.
- A senhora está maluca.
Ele virou e se afastou, ela, rapidamente, passou a mão na bunda dele e deu uma risada.
- É mais fácil não resistir. Primeiro porque você não tem saída, mas, o mais importante, é que eu sou muito melhor que ela, isso você pode ter certeza.
Ele ficou chocado, sua expressão foi de perplexidade para completo deboche.
- A senhora está de brincadeira comigo? A carola de cinquenta anos realmente acha que está aos pés de um mulherão de dezenove anos? - ele chegou bem perto do rosto dela - Suas rugas na cara, suas mãos envelhecidas e esse corpo idoso que vão me dar pesadelos nas próximas noites não provocam em mim nada mais do que nojo.
Ela engoliu o orgulho e continuou na ofensiva.
- Meu querido padre, o senhor não tem outra opção, eu não lhe dei outra opção.
- Não importa, você não entende, você quer tentar? Ajoelhar e rezar? Não importa o quanto você fique tentando, minha virilidade tem limites, e a idade é um deles. Não importa, meu corpo não vai se levantar para dar prazer a uma velha, pelo menos não por vontade própria.
- Certamente o celibato não é um limite.
- Eu não sou limitado por tais regras, meu corpo é jovem demais para perder meu tempo de auge. E agora eu peço que a senhora se retire, por gentileza.
- Eu não vou sair daqui. - ela tentou argumentar - Mas o senhor não tem outra escolha, se eu sair daqui sem o que eu quero, o senhor nunca mais entra nessa ou em nenhuma outra igreja.
- É mesmo? Você tem certeza? Tem certeza que vai se expor ao ridículo? Acha mesmo que vão acreditar nessa sua história alucinada? A demente, a velha com problemas mentais inventando histórias malucas sobre o jovem padre, querido pela comunidade. Vai lá, sua louca, vai lá me denunciar, estou ansioso para ver se a carola louca vai abrir a boca.
Depois disso ele simplesmente saiu andando pelo corredor, entrou numa das salas e fechou a porta, ela ficou paralisada, aquela última rajada de xingamentos ofensivos foi pesado demais para ela, sempre elogiada por outros homens, inclusive homens da idade daquele padre. Ser chamada de velha machucou em seu ego. Ela recolheu sua bolsa e saiu da igreja.


No domingo seguinte ela foi na missa e seguiu a garota, viu que os encontros continuavam. O padre agia como se nada tivesse acontecido.
Ela nunca mais compareceu a nenhuma missa naquela paróquia, deixou os cabelos brancos crescerem, abandonou seus hábitos femininos, suas unhas estavam compridas e tortas, sua boca perdeu o batom e os olhos, o lápis preto. Envelheceu mais rápido em cinco anos do que nos últimos trinta. Sua imaginação antes adolescente, tornou-se amarga e ranzinza.