Escrito por Pedro Henrique Silva
Meu nome é João Fernando Carlos. A quem possa interessar eu estou preso. Preso em uma aula de Letras da Universidade de São Paulo. Não, não fui trazido aqui contra minha vontade, tampouco estou proibido de sair por algum professor-sequestrador, ou aluno-sequestrador, ou sequestrador-sequestrador. NÃO! Estou preso em algo que chamo de bolha: A bolha temporal.
Vim aqui na manhã do dia 15 de Maio de 2018. Cheguei pouco mais de 10 minutos atrasado. O professor, Marcos Di Castro não havia começado a aula. Ele estava respondendo a dúvidas acerca do trabalho final a ser entregue dentro de exatamente um mês. Ninguém notou minha entrada. Todos estavam concentrados no que o professor falava. Não era pra menos, não são todos os que pedem um trabalho final de no mínimo 12 páginas. Claro que ele não tinha passado prova, nem cobrado presença durante todo o semestre, mas é estranho um trabalho de Literatura Brasileira I precisar ter 12 páginas.
Cheguei já no fim do recado e decidi que esperaria o fim da aula para falar com minha amiga Jéssica, a qual estava sentada na minha frente. Enfim a aula começou, a concentração deu uma dissipada, o que me permitiu tocar no ombro de Jéssica e cumprimentá-la. Ela era a única do grego naquela turma, além de mim, claro.
Estudávamos um texto do Bosi, nada de muito diferente do que estávamos vendo no semestre. Nada que me chamasse muita atenção, já que não tive tempo de ler o texto. Então resolvi ver o Instagram por um tempo. Depois o Facebook, uma passada rápida pelo site da Folha para procurar mais informações sobre os últimos atentados do Estado Islâmico e o escândalo do Trump. Só voltei à aula quando entrou um aluno de um coletivo para dar recado. Ele teve minha atenção por 10 segundos e depois voltei ao Trump e seu escândalo.
O recadinho demorou cerca de 5 minutos. Quando consegui sair da companhia de Donald Trump e os seus jornalistas, enfim, entrei na aula. Eram 8h40 mais o menos. Não creio que tenha perdido muita coisa, uma vez que o professor não havia saído da introdução do texto. Anotei alguma coisa que ele falava sobre Macunaíma, que era o livro que eu estava “lendo”.
Enfim, eram 9h30 e eu havia anotado cerca de meia página de informações úteis sobre Macunaíma. Eu pretendia fazer o trabalho sobre ele.
Foi quando, pra minha surpresa, o professor terminou a aula mais cedo. Uau. 10 minutos a mais de intervalo.
Eu saí da sala e estava novamente chegando à aula, 10 minutos atrasado. Eu não entendi. Saí de novo e olhei no relógio. Eram 8h10, do dia 15 de Maio. Ri da minha impressão estranha. Olhei de novo, e lá estava... 8h11. Pensei que o relógio estava errado. Meu celular, porém, marcava o mesmo horário: 8h11. Os alunos concentrados no recado sobre o maldito trabalho de 12 páginas. Achei que tivesse dormido na aula e acordado no segundo horário. Mas Jéssica estava lá. Do mesmo jeito. Com a mesma atenção. Dessa vez eu quis falar com ela:
- Jéssica – tocando em seu ombro, disputando sua atenção com o professor
- Oi - me respondeu ela me olhando de lado.
- Tem alguma coisa estranha aqui?
- Acho 12 páginas demais.
- Não. Algo estranho na aula.
Jéssica olhou a sua volta.
- Não entendi, desculpa.
- Nada. – E voltei a me recostar na cadeira. Só podia ser um deja-vu.
De novo, tudo se repetiu como antes. O recado....a aula.... e meio que só. Não tinha sido muita coisa. O professor mencionara Macunaíma, o que me fez lembrar de olhar em meu caderno em busca das minhas anotações...mas nada. Eu deveria ter sonhado. Comecei a pesquisar no Google essa sensação estranha. Encontrei um termo: “Bolha Temporal” em um blog sobre fenômenos paranormais. Um daqueles com texto branco, fundo preto, e cheio de links estranhos e propagandas suspeitas de aumento peniano.
Parece que em determinadas condições ainda não explicadas, entramos em um estado de ciclo, do qual podemos nunca sair. A palavra “nunca” reverberava. Era algo físico mas não mental. Ou seja, havia um limite físico que eu não podia cruzar, senão voltava ao tal momento zero. O blog especulava que todos os seres humanos estivessem em uma bolha. O que mudava era a fronteira de cada um. Porém, muitos nunca a sentiriam. Para a maioria o planeta era a sua bolha, contudo, uns já tinham provado do mesmo fenômeno ao tentar deixar o país, outros até seu estado. Enfim, desesperei-me de novo, querendo estar num pesadelo. Foi quando a aula finalmente acabou e eu dessa vez fiquei um pouco mais na sala.
- O que você me falou aquela hora? Eu não entendi.- Jéssica perguntou.
- Eu? Eu não…
Foi quando novamente o tempo reiniciou e eu estava ali, entrando na sala, no mesmo horário. O desespero tomou conta de mim. Eu quis sair da sala, correr. Corri para fora da faculdade, mas voltei à sala, às 8h10, atrasado. Foi quando decidi testar os limites da tal bolha. Continuei na faculdade, fui à cantina... tudo normal. Fui ao prédio da história. E nada. Tudo normal. Tentei sair por lá, mas voltei às 8h10, entrando naquela sala, atrasado. Minha bolha era a faculdade. Se eu tentasse sair da faculdade eu voltava ao momento em que entrei na aula. Seria engraçado se eu não estivesse apavorado.
-Jéssica, preciso falar contigo.
-Você tá bem?
- Não. Podemos conversar lá fora. – Jéssica viu a urgência no meu olhar e percebeu que era algo sério.
- Tudo bem. Mas deixa só ele terminar de falar do trabalho.
Quando finalmente o professor parou de falar eu e Jéssica saímos da sala e no corredor mesmo eu soltei tudo.
- Estou numa bolha, Jéssica.
- Sim. Todos nós estamos numa bolha. A bolha da FFLCH
- Você está?
- Claro, João. Essa maldita bolha social na qual estamos inseridos
- NÃO! Não é esse tipo de bolha.
- Eu sei. São várias,né? A da Classe média, a de São Paulo, a da USP. Se você parar pra pensar tem até a do Brasil.
- Então, eu já vi essa aula 8 vezes.
- Sim! Ele repete muito as coisas mesmo.
- NÃO, JÉSSICA. A aula acaba, dá trinta segundos e começa de novo.
- Oi?
- Isso!
- Você comprou maconha com o Elísio de novo?
- Não, cacete. É tudo verdade.
- João, deixa eu voltar porque acho que ele vai falar do Macunaíma e eu vou fazer o trabalho dele.
- Eu também – disse eu já sem muita esperança. Não tinha como provar nada. Era uma maluquice. Voltamos, eu vi o resto da aula, dessa vez prestando o máximo de atenção. Talvez algo ali era a resposta para o meu problema. Só que quando a aula finalmente acabou, trinta segundos se passaram e a tudo voltou ao começo
Pensei em mandar mensagem para quem eu conhecia. Mas a USPnet tava fora do ar, e eu estava sem crédito. A pró-aluno pareceu uma opção. Às 9h ela estava aberta. Pensei em postar no facebook, mas todo mundo acharia que era mais um dos textões que eu publico e ninguém nem leria.
Foi quando tive uma ideia: Eu vou escrever minha história em meu blog. Eu tinha mais público no meu blog de contos do que no meu facebook. Então me loguei. Talvez o publicando eu esteja o colocando fora da bolha e dessa forma alguém possa ver e trabalhar numa solução para meu problema. Por favor, acredite no que eu digo. São 9h28, o professor já está falando do texto da próxima aula, e eu aqui na pró-aluno estou desesperado. Por favor, se alguém estiver me lendo, venha ao meu resgate. Sala 166, professor Di Castro, Letras, Universidade de São Paulo. Meu nome é João Fernando Carlos. A quem possa interessar eu estou preso.