sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bolha

Escrito por Pedro Henrique Silva

Meu nome é João Fernando Carlos. A quem possa interessar eu estou preso. Preso em uma aula de Letras da Universidade de São Paulo. Não, não fui trazido aqui contra minha vontade, tampouco estou proibido de sair por algum professor-sequestrador, ou aluno-sequestrador, ou sequestrador-sequestrador. NÃO! Estou preso em algo que chamo de bolha: A bolha temporal.
Vim aqui na manhã do dia 15 de Maio de 2018. Cheguei pouco mais de 10 minutos atrasado. O professor, Marcos Di Castro não havia começado a aula. Ele estava respondendo a dúvidas acerca do trabalho final a ser entregue dentro de exatamente um mês. Ninguém notou minha entrada. Todos estavam concentrados no que o professor falava. Não era pra menos, não são todos os que pedem um trabalho final de no mínimo 12 páginas. Claro que ele não tinha passado prova, nem cobrado presença durante todo o semestre, mas é estranho um trabalho de Literatura Brasileira I precisar ter 12 páginas.
Cheguei já no fim do recado e decidi que esperaria o fim da aula para falar com minha amiga Jéssica, a qual estava sentada na minha frente. Enfim a aula começou, a concentração deu uma dissipada, o que me permitiu tocar no ombro de Jéssica e cumprimentá-la. Ela era a única do grego naquela turma, além de mim, claro.
Estudávamos um texto do Bosi, nada de muito diferente do que estávamos vendo no semestre. Nada que me chamasse muita atenção, já que não tive tempo de ler o texto. Então resolvi ver o Instagram por um tempo.  Depois o Facebook, uma passada rápida pelo site da Folha para procurar mais informações sobre os últimos atentados do Estado Islâmico e o escândalo do Trump. Só voltei à aula quando entrou um aluno de um coletivo para dar recado. Ele teve minha atenção por 10 segundos e depois voltei ao Trump e seu escândalo.
O recadinho demorou cerca de 5 minutos. Quando consegui sair da companhia de Donald Trump e os seus jornalistas, enfim, entrei na aula. Eram 8h40 mais o menos. Não creio que tenha perdido muita coisa, uma vez que o professor não havia saído da introdução do texto. Anotei alguma coisa que ele falava sobre Macunaíma, que era o livro que eu estava “lendo”.
Enfim, eram 9h30 e eu havia anotado cerca de meia página de informações úteis sobre Macunaíma. Eu pretendia fazer o trabalho sobre ele.
Foi quando, pra minha surpresa, o professor terminou a aula mais cedo. Uau. 10 minutos a mais de intervalo.
Eu saí da sala e estava novamente chegando à aula, 10 minutos atrasado. Eu não entendi. Saí de novo e olhei no relógio. Eram 8h10, do dia 15 de Maio. Ri da minha impressão estranha. Olhei de novo, e lá estava... 8h11. Pensei que o relógio estava errado. Meu celular, porém, marcava o mesmo horário: 8h11. Os alunos concentrados no recado sobre o maldito trabalho de 12 páginas. Achei que tivesse dormido na aula e acordado no segundo horário. Mas Jéssica estava lá. Do mesmo jeito. Com a mesma atenção. Dessa vez eu quis falar com ela:
- Jéssica – tocando em seu ombro, disputando sua atenção com o professor
- Oi - me respondeu ela me olhando de lado.
- Tem alguma coisa estranha aqui?
- Acho 12 páginas demais.
- Não. Algo estranho na aula.
Jéssica olhou a sua volta.
- Não entendi, desculpa.
- Nada. – E voltei a me recostar na cadeira. Só podia ser um deja-vu.
De novo, tudo se repetiu como antes. O recado....a aula.... e meio que só. Não tinha sido muita coisa. O professor mencionara Macunaíma, o que me fez lembrar de olhar em meu caderno em busca das minhas anotações...mas nada. Eu deveria ter sonhado. Comecei a pesquisar no Google essa sensação estranha. Encontrei um termo: “Bolha Temporal” em um blog sobre fenômenos paranormais. Um daqueles com texto branco, fundo preto, e cheio de links estranhos e propagandas suspeitas de aumento peniano.
Parece que em determinadas condições ainda não explicadas, entramos em um estado de ciclo, do qual podemos nunca sair. A palavra “nunca” reverberava. Era algo físico mas não mental. Ou seja, havia um limite físico que eu não podia cruzar, senão voltava ao tal momento zero. O blog especulava que todos os seres humanos estivessem em uma bolha. O que mudava era a fronteira de cada um. Porém, muitos nunca a sentiriam. Para a maioria o planeta era a sua bolha, contudo, uns já tinham provado do mesmo fenômeno ao tentar deixar o país, outros até seu estado. Enfim, desesperei-me de novo, querendo estar num pesadelo. Foi quando a aula finalmente acabou e eu dessa vez fiquei um pouco mais na sala.
- O que você me falou aquela hora?  Eu não entendi.- Jéssica perguntou.
-  Eu? Eu não…
Foi quando novamente o tempo reiniciou e eu estava ali, entrando na sala, no mesmo horário. O desespero tomou conta de mim. Eu quis sair da sala, correr. Corri para fora da faculdade, mas voltei à sala, às 8h10, atrasado. Foi quando decidi testar os limites da tal bolha. Continuei na faculdade, fui à cantina... tudo normal. Fui ao prédio da história. E nada. Tudo normal. Tentei sair por lá, mas voltei às 8h10, entrando naquela sala, atrasado. Minha bolha era a faculdade. Se eu tentasse sair da faculdade eu voltava ao momento em que entrei na aula. Seria engraçado se eu não estivesse apavorado.
           -Jéssica, preciso falar contigo.
           -Você tá bem?
- Não. Podemos conversar lá fora. – Jéssica viu a urgência no meu olhar e percebeu que era algo sério.
- Tudo bem. Mas deixa só ele terminar de falar do trabalho.
Quando finalmente o professor parou de falar eu e Jéssica saímos da sala e no corredor mesmo eu soltei tudo.
- Estou numa bolha, Jéssica.
- Sim. Todos nós estamos numa bolha. A bolha da FFLCH
- Você está?
- Claro, João. Essa maldita bolha social na qual estamos inseridos
- NÃO! Não é esse tipo de bolha.
- Eu sei. São várias,né? A da Classe média, a de São Paulo, a da USP. Se você parar pra pensar tem até a do Brasil.
- Então, eu já vi essa aula 8 vezes.
- Sim! Ele repete muito as coisas mesmo.
- NÃO, JÉSSICA. A aula acaba, dá trinta segundos e começa de novo.  
- Oi?
- Isso!
- Você comprou maconha com o Elísio de novo?
- Não, cacete. É tudo verdade.  
- João, deixa eu voltar porque acho que ele vai falar do Macunaíma e eu vou fazer o trabalho dele.
- Eu também – disse eu já sem muita esperança. Não tinha como provar nada. Era uma maluquice.  Voltamos, eu vi o resto da aula, dessa vez prestando o máximo de atenção. Talvez algo ali era a resposta para o meu problema. Só que quando a aula finalmente acabou, trinta segundos se passaram e a tudo voltou ao começo
Pensei em mandar mensagem para quem eu conhecia. Mas a USPnet tava fora do ar, e eu estava sem crédito. A pró-aluno pareceu uma opção. Às 9h ela estava aberta. Pensei em postar no facebook, mas todo mundo acharia que era mais um dos textões que eu publico e ninguém nem leria.  
Foi quando tive uma ideia: Eu vou escrever minha história em meu blog. Eu tinha mais público no meu blog de contos do que no meu facebook. Então me loguei. Talvez o publicando eu esteja o colocando fora da bolha e dessa forma alguém possa ver e trabalhar numa solução para meu problema. Por favor, acredite no que eu digo. São 9h28, o professor já está falando do texto da próxima aula, e eu aqui na pró-aluno estou desesperado. Por favor, se alguém estiver me lendo, venha ao meu resgate. Sala 166, professor Di Castro, Letras, Universidade de São Paulo. Meu nome é João Fernando Carlos. A quem possa interessar eu estou preso.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Uma Taça de Vinho

Escrito por Ludmila Barros

Eu até já conhecia a rotina do casal, mais da Roberta do que do Thiago. Mas o tempo que eu havia passado ali era mais que suficiente para entender como tudo funcionava. Mas naquele final de semana as coisas estavam fora do planejado. Naquela noite de sábado não seria só assistir série e comer salgadinho para depois cair no sono no sofá mesmo. Mas sim um jantar entre amigos. Roberta havia comprado algumas garrafas de vinho, como era comumente apreciado durante os jantares, e alguns petiscos. A coisa seria mais na conversa do que no jantar mesmo.
Eu acompanhei a Roberta se arrumando, ouvindo os passos do banheiro pro quarto, do quarto pro banheiro de novo, e às vezes pra cozinha. Ela realmente tinha caprichado. E, justamente, quando tinha acabado de arrumar as comidinhas, na mesa da sala, a campainha tocou. Ela atendeu a porta e pelo que eu ouvi, o Felipe tinha chegado. Foi só burburinho até eles chegarem, de fato, na sala. Ele tinha outra garrafa na mão.
- Eu trouxe esse vinho dessa vez! - Felipe disse rindo.
- Pode abrir já, tem taças e o abridor tá ali na mesa, pode servir para nós dois, por enquanto - Roberta falei meio agitada indo para a cozinha - Pode sentar no sofá, ligar a tv. Coloca uma música!
E foi isso mesmo que ele fez. Ele abriu a garrafa, serviu em três taças e sentou no sofá. Pegou o celular e demorou um pouco ali, estava escolhendo uma música. Finalmente escolheu e jogou para a televisão.
- Essa música é uma das favoritas do Thiago, eu me lembro de quando ele me apresentou essa banda.
Depois de alguns barulhos de louça na cozinha, Roberta finalmente voltou para a sala. Pegou uma das taças e se sentou ao lado de Felipe. A cena, da minha posição era bonita, os dois sentados no sofá, com taças cheias na mão e uma taça cheia, porém solitária, perdida na mesa, que parecia a quilômetros de distância. Se eu pudesse, tiraria uma foto. Ao se sentar ela sorriu e comentou:
- Lembro de ter conhecido essa banda na faculdade, uma amiga me apresentou.
- Pensei que era coisa do Thiago gostar dessas bandas estranhas - ele riu e ela tomou um gole a mais do vinho - Aliás, ele não…
- Você não quer comer já? - ela o interrompeu, colocou a taça na mesa e se serviu de um salgadinho com algum molho verde - Esse aqui é muito bom.
Ele seguiu o conselho e se aproximou para imitá-la, pegou a mesma coisa. E eles ficaram alguns minutos nessa de ela explicar o sabor de cada um dos petiscos e cada um dos molhos. A variedade era pouca, mas ela fez questão de ganhar um tempo e um fôlego com aquele assunto. Nessa altura ela já tinha terminado a primeira taça, pegou a garrafa e encheu de novo, completou a taça dele também.
- Me conta também! E aquela entrevista de emprego no centro que você foi fazer ontem? Foi boa?
Ela sentou de volta no sofá e, quando foi a vez dele voltar, deu para notar pelo rosto dele mesmo que a distância entre eles havia diminuído.
- Ah, foi ótima, eu tô realmente achando que vai dar certo, a empresa tem um estilo bem parecido comigo, e com o Thiago né, foi por isso que ele me indicou - depois de outro gole - Aliás, o Thiago ainda não voltou do trabalho?
Ela mandou para dentro todo o resto do vinho antes de responder.
- Na verdade - ela voltou a encher taça - Ele não vêm hoje.
- Sério? Aconteceu alguma coisa pra ele desmarcar assim em cima da hora? - ele parecia realmente preocupado.
- Não, não aconteceu nada não. Mas… ele não vêm hoje, nem amanhã, nem nunca mais, eu acho - ela deu uma risada sem graça.
- Como assim? - Felipe colocou a mão no joelho dela.
- A gente brigou, faz algum tempo já - ela colocou a mão por cima da dela - e aparentemente vai  virar um divórcio mesmo.
- Eu nunca vi vocês brigarem, de verdade. Que estranho ouvir isso. Faz quanto tempo? Como eu a Rebeca não ficamos sabendo disso?
- Foi a pouco tempo atrás, umas três semanas no máximo - enquanto Roberta falava ele foi pegando mais na mão dela - Ele acabou decidindo sair de casa, levou pouca coisa, ainda tem bastante coisa dele aqui
- Mas tá tudo bem? - ele sentou mais perto dela.
- Acho que sim, ainda não dá pra saber o que no que vai dar né. Mas eu tô bem.
Eles ainda conversaram mais um pouco sobre as circunstâncias da briga e do fato de ele ter decidido sair de casa. Mesmo que naquele caso, ela ganhava muito mais dinheiro com o trabalho dela do que ele com sua aspiração a escritor. Eu assisti muitas brigas, de verdade, brigas ferozes, de gritos e portas batidas. Em uma das vezes eles chegaram ao ponto de se bater, nada demais, mas os dois sempre acabavam se machucando.
- Mas enfim, isso já foi a três semanas, eu já estou vivendo aqui sozinha, não tem nenhum problema. Tá até mais limpo pra dizer a verdade. - Roberta disse dando uma risadinha para tentar encerrar o assunto. Ele só conseguiu dar um sorriso amarelo.
- Mas espera um pouco - ele ficou sério - você disse que isso aconteceu a três semanas, mas esse encontro aqui você marcou semana passada. Foi pra contar isso mesmo? Por que não contou antes? E por que não marcou num dia que a… A Rebeca disse que você sabia que ela tinha esse compromisso. Por que você marcou isso hoje? -  ele se afastou um pouco.
- É que… - ela não conseguiu terminar.
- Roberta, o que… Fala! - ele levantou e ficou na minha frente.
- Eu queria, eu precisava contar isso pra alguém, - ela também ficou de pé na frente dele - mas na verdade eu queria contar pra você mesmo.
- Roberta, cuidado com o que você vai falar. - ele se afastou e em direção a sua carteira - Acho que é melhor eu ir embora.
- Não!
Ela deu um passo mais largo e agarrou o braço dele. Nesse momento, sem querer, ela chutou meu vaso e eu cai no chão. Minha terra se espalhou toda pelo chão e eu senti minhas raízes se bagunçarem toda. Mas, felizmente, eu cai de costas, meu rosto ficou pra cima e eu consegui acompanhar o resto da conversa. A Roberta só olhou para o chão, porém, sua atenção não se prendeu em mim por mais de alguns segundos.
- Você não pode ir embora assim - ela disse enquanto segurava o braço dele, já ele nem havia se importado em notar que eu tinha sido chutada.
- Roberta - ele fez uma pausa e virou de frente - Por que? Por que fazer isso comigo?
- O que a gente teve foi bom demais, eu sei que você lembra, eu sei que você gostava de mim também. - ela agarrou o pescoço dele.
- Isso deve ter sido a mais de 9, 10 anos atrás. A gente era adolescente, nem conhecia o Thiago e a Rebeca. Sem contar o fato de que eu sou casado! - ele arrancou os braços dela dele.
- Não… - ela disse se jogando de novo para cima dele.
- Não é você que é a amiga da Rebeca? Você que me apresentou pra ela. Quer me fazer trair ela? Não pensa que você também vai estar traindo ela?
Mas dessa vez, mesmo vendo de um ângulo bastante ruim, deu para perceber que ele não se afastou mais. Ele estava tentando se convencer ao mesmo tempo que estava tentando convencer ela. Eu já havia ouvido alguns pedaços dessa história antes. Antes de eles conhecerem os respectivos - ou ex respectivos - companheiros, eles foram namorados por bastante tempo. Durante o colegial eles viviam aqueles relacionamentos iô-iô, iam e voltam, sempre naquela paixão forte de primeiro amor. Nada nunca foi dito explicitamente, mas eu tenho aqui para mim que eles foram os primeiros um do outro.
- Não tem nada a ver com ela. Você sabe disso! - ela passou a mão pelo rosto dele e ele fechou os olhos. - A gente tem que resolver o nosso caso. O que a gente tinha era forte demais, ainda é. E, falando por mim, aqui dentro nunca diminuiu, só ficou reprimido.
- Eu nem sei o que te responder - toda vez que ele tentava se desvencilhar, nunca com muita vontade, ela se enroscava em seu pescoço e cabelos.
- Não precisa falar, só precisa corresponder. Só me mostra que você também sente isso que eu tenho dentro de mim.
Ele passou a mão no rosto dela, pelo seus cabelos, por suas costas. Por uns bons segundos eles ficaram somente se olhando. Até que enfim ele puxou o rosto dela para um beijo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Teste de Turing

Escrito por Pedro Henrique Silva

      Você sabe o que é o Teste Turing? Então vou deixar a Wikipédia te ajudar: “Teste de Turing testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste. No exemplo ilustrativo original, um jogador humano entra em uma conversa, em linguagem natural, com outro humano e uma máquina projetada para produzir respostas indistinguíveis de outro ser humano.”. É importante que você saiba isso antes que eu comece a minha história. Afinal, não é todo dia que se participa de um.

     Todo mundo fazia. Todas as minhas colegas deveriam ter feito. Não é algo nem errado e nem mal visto. Já tinha sido trama de novela, e de uma comédia romântica do Adam Sandler – que na sua idade já deveria ter piscado para a Academia e feito alguma coisa que ficasse longe do Framboesa. Eu estava ali no Bar do Paulinho, esperando Fernando Rocha, homem hetero, que é Corinthiano e gosta de música clássica. Confesso que a aparência me agradou, mas o fato de um assíduo frequentador de Itaquera que curte Beethoven me deixou mais intrigada e interessada.
- Beatriz? – Disse uma voz grave atrás de mim
- Isso, e você é o... – respondi
- Fernando. Fernando Rocha.
- Beatriz, Beatriz Lopes. Fã de 007?
- Oi?
- Você curte 007, Fernando, Fernando Rocha?
- Ah, não. Não muito. Desculpe.
- Achei que um amante de música clássica adoraria 007.
- Eu não vejo a relação.
- Ué? tem o tema que é bem legal. Tem uma trilha sonora bem marcante. Além disso, você parece um agente secreto.
- Mas se eu de fato parecesse com um agente secreto talvez eu não gostasse de James Bond e todos os seus 27 filmes.
- Porque talvez na sua humilde opinião o filme não retrate muito bem o dia-a-dia de um agente secreto britânico?
- Então eu diria o quão incomodado eu estava com o fato de ele transar com todas as mulheres lindas e com todas aquelas coisas tecnológicas.
- Ele transa com coisas tecnológicas?
- Não, não foi... – disse ele ficando um tanto vermelho. Eu abri o sorriso e ele percebeu minha brincadeira e meu flerte. Se bem que o flerte já deveria estar muito claro naquela hora. Ele parecia meio enferrujado, porém. Parece ter demorado para perceber.
   E assim se seguiu nosso encontro. Eu seguia o provocando. Fiz um comentário espirituoso sobre a atual fase do Corinthians e eu, como boa santista, o provoquei com o último jogo na Vila mês passado. Na verdade, ele tinha detalhes do jogo que nem eu mesma possuía. E olha que foi meu time que ganhou por 3-0.
     Depois brinquei sobre o fato dele gostar de Beethoven, perguntando o que ele achava do remake do ano passado.
- Mas eu gosto do compositor e não do filme.
- Mas eu percebi isso, seu bobão. – Mais um sorriso o qual demorou uns segundos para ser retribuído. Vai ver os receptores do sorriso dele não estavam bem conectados. Ou a conexão de internet dele era ruim. Aí passou pela minha cabeça que ele tinha uns 15 anos e tinha conseguido de algum jeito burlar a permissão de idade.
    A ingenuidade dele me incomodava mais a cada flerte. A cada piadinha e provocação. Foi quando percebi que o placar de provocações estava já uns 6 a 0 para mim. Não que ele não falava nada ou puxava assuntos. Mas faltava uma malícia que poderia me fazer querer transar com ele. Ou melhor, com o avatar dele. Ou melhor, com ele. Afinal o avatar dele era lindo, eu teria vontade de dar para ele. Mas sua personalidade meio ingenuamente robótica ia me fazendo querer ir embora a cada novo assunto.
- Então, o que você está achando de mim? – ele me perguntou enquanto colocava um pedaço de filé de merluza na boca.
- Nossa. Uau. Bom, você é bem gato.
- Claro que sou. – disse ele sem o charme habitual que um cara lindo diria algo do tipo – mas eu quero mesmo é saber se você está gostando do nosso encontro.
- Posso ser sincera?
- Eu adoraria se você fosse.
- Ok. Então, eu não sei sua idade. Mas é seu primeiro encontro?
- Oficialmente é meu 4º.
- Uau. Eu sei que isso não é padrão. E nada elegante. Mas, quantos anos você tem. Digo, você, você?
- 25 anos.
- Nossa, você tem exatamente a idade que seu avatar parece ter?
- Sim. E você?
- Bom... já que eu perguntei, né? Eu tenho 30.
- Seu avatar parece só um pouco mais jovem.
- Eu não gosto de vender ilusões, sabe? E queria atrair alguém bem interessante para mim. Alguém da minha idade.
- Entendo. Então, você acha que eu fui muito ingênuo, certo?
- Sim! Eu fazia piadinhas e você não conseguia. Acompanhar. Você mal entendia meu flerte.
- Desculpe. Eu sou meio novo nisso. – Disse ele olhando para baixo.
- Ok. Então, acho bem interessante você ter me perguntado isso, sabia?
- Por quê?
- Porque eu acho que já tenho a resposta pra minha maior dúvida da noite.
- Que dúvida? Se você iria querer transar comigo?
- Nossa, quanta sutileza.
- Desculpe.
- Não, tudo bem. Então, você conhece o Teste de Turing? - disse eu
- Não.
- Então, é um teste de inteligências artificiais. Se um humano não conseguir identificar uma inteligência artificial de uma real, a IA passa no teste.
- Pera, você está dizendo que eu sou um robô? – Disse ele como se estivesse sido descoberto.
- Não, seu bobo. É só um flerte. Olha você caindo de novo. – Disse eu sorrindo.
- Desculpe. Como eu falei, eu sou ainda muito novo nisso.
- Tudo bem. Mas enfim, eu gosto de você sim. E você se saiu bem. Podemos ir para minha casa se você quiser para, sei lá, continuarmos juntos pelo resto da noite.
- Mas, você não está na sua casa? Digo, a usuária deste avatar? – Ele me perguntou intrigado
- “Usuária”, lindo? Que usuária?
Obrigada.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Milena, querida...

Escrito por Ludmila Barros

Já fazia algum tempo que a Milena continuava naquele estado de estresse permanente. Ela não havia se dado conta de que ser promovida para uma posição de diretoria iria tomar tanto o seu tempo e sua vitalidade. Já era sua terceira semana, ou o terceiro mês com as responsabilidades novas. O que antes era mais uma diversão, agora afogava a alma. Pagando muito bem. Mas além disso, ela estava feliz. Não pelo dinheiro, pelo nome na porta da sua nova grandiosa sala de escritório, mas pela satisfação de ser dona de si. De poder dizer que ela fazia sua vida, ela moldava suas escolhas e era completamente responsável pelo sucesso de sua carreira.
Gostava de gritar alto pela secretária, mesmo sabendo que poderia simplesmente pegar o telefone para fazer a mesma coisa, só que sem a baderna. Gostava de entrar nas reuniões e sentir todos os olhares sobre seu rostinho de “jovem demais para estar aqui”. Já havia sido confundida inúmeras vezes como a secretária de seu chefe, mas ele mesmo fazia questão de corrigir todas as vezes, antes mesmo dela começar a formular uma resposta. Mas nada disso era tão bom quanto os olhares de surpresa, esses reservados para o final de suas apresentações em cada uma das reuniões.
Mas, como ela mesma já havia aprendido, o sucesso cobrava seu preço. Todos os dias eram cheios e corridos, cheios de coisas maravilhosas e preocupações enormes. E o preço era chegar só depois da meia noite em casa. Só restava encontrar seu esbelto namorado já dormindo na cama. Trocar algumas palavras, alguns carinhos e cair no sono. E mesmo que ela ainda trabalhasse durante o horário comercial, ele acordava muito antes, tomava café puro e saia. Quando ela sentia o cheiro do café já era tarde demais.
Marcelo dava aulas de História para o ensino médio a um quarteirão de casa. Enquanto ela tinha que atravessar a cidade, agora de carro e ar condicionado, para chegar ao seu destino de sado-masoquismo. Ele era o contraste dela, Marcelo sempre se mostrou calmo diante da quase hiperatividade de Milena, um vespertino e uma noturna. Mas eles faziam dar certo, já eram alguns anos desse relacionamento que se completava naturalmente.
- Fabiana, chama a Letícia aqui na minha sala, por favor.
Fabiana já havia achado bastante estranho Milena pegar o telefone para lhe pedir um favor, e não simplesmente gritar. Mas o fez rapidamente.
- Oi Letícia, entra aqui, faz tempo que a gente não se fala né? - Milena falou prestando mais atenção nos papéis na mesa do que na própria amiga.
- Não, não faz não - Letícia se sentou na frente da mesa dela. - Milena, você me chamou aqui ontem, a gente ficou numa reunião até quase onze da noite.
Milena levantou o olhar confusa para Letícia, ficou alguns segundos pensando, mas conseguiu formar uma frase que fazia sentido.
- Não, não é isso, é sobre essa tabela aqui. Eu não entendi o porquê de ter mudado a variável aqui, a partir dessa linha, não faz sentido. - ela apontou com o dedo.
- Foram os números que me foram passados - Letícia se inclinou, pegou uma caneta e circulou os números - Você sabe disso, eu não posso mudar.
- É claro que pode, isso aqui tá óbvio que tá errado - ela também circulou vários outros números e fez outras contas no canto da folha - Eu sei que você sabe que isso tá errado, eu preciso que você me ajude, eu tenho muita coisa pra fazer aqui, eu sei que de onde você tá, não dá nem pra imaginar. Mas… Eu preciso que você pense um pouco mais antes de mandar qualquer coisa pra mim.
Durante seu discurso, Milena havia se levantado, jogado a caneta na mesa e estava virada de costas, olhando pelas grandes janelas de sua sala. Enquanto Letícia só havia recuado para trás na cadeira.
- Milena, querida... Você precisa se acalmar um pouco. O que foi isso agora? - ela levantou e se aproximou.
- Nada, só tá errado, as contas lá. - Milena respondeu no mesmo tom de voz.
- Não é isso, eu sei que não é isso. Eu te conheço pra mais de anos, não é só isso. Pode falar, senta aqui vamos conversar.
Ela puxou Milena pela mão e elas se sentaram no sofá do lado da grande mesa.
- Não sei, parece que ninguém tá querendo me ajudar - A voz de Milena já estava mais calma.
- Você nunca precisou da ajuda de ninguém, você mesma diz que só precisa de sua própria ajuda. Foi pressão demais subir direto pra esse andar? Muita responsabilidade?
- Eu gosto… eu gosto dessa... disso tudo, você sabe que eu adoro, a parte boa e a parte ruim, é só que às vezes - ela hesitou - às vezes a parte ruim pesa mais né.
- Como o que? O que acontece de ruim por aqui?
- Ah, não sei. Eu é que acendo as luzes desse escritório, eu sou a primeira a chegar e já começo a trabalhar, e quando a Fabiana chega, mesmo que na hora, o trabalho já está atrasado por que eu tô muito na frente. E eu percebo que ela fica exausta às vezes. E praticamente todo dia eu não consigo parar pra almoçar, eu como aqui mesmo. Mas essas coisas não me incomodam. Você me conhece, eu adoro trabalhar com isso, eu gosto desse estresse, eu estou onde eu sempre quis. Mas aí, eu passo o dia inteiro trabalhando, dor de cabeça quase todo dia de ficar olhando direto pra esse computador. Daí quando eu chego em casa, tarde, o Marcelo já tá dormindo. A gente quase não consegue se falar, eu já vou dormir pra acordar sozinha e tomar café sozinha pra começar tudo de novo. - Milena até respirou fundo quando terminou.
- A quanto tempo você tá nesse ritmo frenético, dormindo quatro horas por dia?
- Não sei, poucos meses. - Milena não soube responder com exatidão.
- Não, deixa eu reformular essa pergunta - Letícia ficou pensativa - a quanto tempo você e o Marcelo… - ela fez uma cara diferente - hein, você sabe!
Milena ficou séria novamente, pensativa, mas sua cara já dizia que ela não sabia responder.
- Amiga, se você teve que pensar… - Letícia retomou antes de Milena tentar falar alguma coisa. - Por que você acha que eu cheguei atrasada hoje, e a Carol também! Pelo mesmo motivo! - elas riram - Você precisa dar uma pausa. Tanto estresse faz mal pro corpo, pra mente. Sai agora daqui, fecha o expediente por hoje e vai procurar seu homem, nesse horário ele ainda deve estar no colégio, vai buscar ele. Vai perguntar pra ele o que dizem que ajuda a aliviar dor de cabeça!
- Você acha? - Milena ainda não estava tão confiante.
- Eu tenho CERTEZA - Letícia abriu os braços - olha pra mim, olha como eu estou livre, leve e solta. Isso se deve ao fato de ter tido hoje, ontem, anteontem, e praticamente todos os outros dias - ela riram juntas novamente.
- Aí, amiga, eu acho que eu vou mesmo então. - Milena sorriu e abraçou Letícia ainda de braços abertos.


Milena entrou em seu carro e saiu do estacionamento. Conectou seu celular no rádio do carro e colocou a música preferida de Marcelo. Ponderou se valeria a pena passar em casa, tomar um banho e colocar alguma roupa mais bonita do que aquela social de escritório. No meio do caminho, enfim, decidiu, passar em casa.
Estacionou o carro na garagem e subiu para casa. Antes de tomar banho, abriu seu armário revirou suas roupas mais antigas até achar uma lingerie completa que havia comprado para a passarem a primeira noite naquele apartamento. Como uma noite de núpcias, porém, a cor era vermelha. A cor favorita de Marcelo. Tomou banho rápido, só para se refrescar. Vestiu a lingerie e um vestido simples por cima. Resolveu passar uma camada de maquiagem e arrumar o cabelo bastante liso.
Já que a escola era no quarteirão seguinte, ela foi a pé, apesar de ter colocado uma bota com um salto enorme. Antes de sair do prédio, ela passou na frente de um grande espelho, só para perceber que ela estava realmente maravilhosa, não estava vulgar, pelo menos não por cima daquele vestido chiquérrimo. Mas por baixo, sua definição seria: provocante. Ela saiu e começou a andar pela calçada.
Estava praticamente sorrindo sozinha enquanto lembrava as centenas de noites quentes e intensas que eles tiveram no primeiro ano em que moraram juntos. Naqueles poucos passos entre os dois quarteirões, naquela única rua em que teve que atravessar, suas preocupações, dores de cabeça e de corpo estavam passando lentamente. Seu corpo passava por um processo de relaxamento, sua mente se acalmava ao mesmo tempo que seu corpo.
Chegou, então, no colégio. Passou pela recepção. A recepcionista a reconheceu de pronto e avisou:
- Oi, Milena! Tudo bem? Veio buscar o Marcelo? Ele tá lá em cima, na sala dele lá no terceiro andar. Pode ir lá.
A recepcionista abriu a porta elétrica. Milena entrou e começou a subir as escadas. Depois do primeiro lance de escada, seu pé começou a doer um pouco. Mas recuperou a compostura e seguiu subindo. Chegou no terceiro andar, olhou para os dois lados e se lembrou de que o corredor das salas dos professores era bem no final do daquele corredor maior. Seguiu para a direita.
Na curva antes de entrar no tal corredor das salas dos professores, ela já o tinha visto. Parou de andar ali mesmo. Ele estava sentado em sua velha cadeira e na sua frente uma mulher, que pôde reconhecer como uma das diretoras, ajoelhada no chão. Milena só conseguia ver as pontas do joelho por baixo da mesa e a cabeça dela subindo e descendo. Ela precisou de alguns segundos para entender a cena que estava assistindo. Continuou paralisada, ali naquele canto. Sua cabeça latejou forte e ela sentiu sua visão embaçar. Para não cair, ela se escorou na parede. Fechou os olhos.
Mas a cena se repetia, infinitamente, a cabeça subindo e descendo, e a mão dele passando por cima dos cabelos dela.