sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Superstição

                                                                                   Escrito por Pedro H. Silva
       - Eu nunca fui supersticioso. - Disse Marcos no jantar com sua namorada, Beatriz, em uma noite quente de sábado. Verão estava em seu ápice, já havia chovido aquele dia, mas agora apenas nuvens inofensivas sobrevoavam São Paulo. Apesar disso, eles haviam levado um grande guarda-chuva para evitar surpresas.
       - Aham – Debochou ela ainda escolhendo o que pediria – Acho que vou de espaguete ao molho rosê para variar um pouco.
       - Você não tá prestando atenção– Chamou sua atenção Marcos, já contrariado. Ele não gostava de ir a um restaurante daqueles com uma bermuda, por mais que Beatriz houvesse dito que era uma “bermuda chique”. O que o fez refletir sobre a sorte que as mulheres tinham em usar um vestido curto e permanecerem elegantes, como era o caso de Beatriz naquela noite.
        - Calma, amor. Você sabe como eu fico nessa hora. Tá. Escolhi! Vai ser esse mesmo. – Disse ela abaixando o menu e o olhando com um sorriso bastante receptivo.
       - Então, eu não sou nada supersticioso. – Protestou ele.
       - Eu sei, amor. To entendo. Mas essa história é muito estranha. – Disse ela olhando em volta procurando o garçom. Aquela era uma noite comum no Trifoglio. Não havia motivos para os garçons sumirem como agora.
       - E você diz isso pra mim? – Diz ele procurando o celular no bolso.
- Tipo, quantas músicas você tem no celular? – Perguntou ela.
      - Então, isso que vou ver agora certinho pera – Falou ele pegando o celular enquanto novamente se incomodava com a tela rachada do aparelho. Era uma ferida recente. - 212 músicas. Coloquei essa música segunda.
       - Tá, Então, você ouve essa lista por quanto tempo no dia?
     - Toda hora. Eu saio de casa as 8h, e volto às 18h. Eu trabalho ouvindo música. Só desligo nas reuniões com o Ivan. -  Ele já havia refletido sobre o motivo pelo qual gostava tanto de música. Podia ter a ver com sua falta de sorte com a banda que montara na faculdade: Uma posição atrás em um festival de uma banda que estourou e foi até pro Faustão.
     - Todo dia essas reuniões? – Disse Beatriz quando finalmente conseguiu chamar o garçom.
      - Não. Só de sexta.
     - Tá, então você tá me dizendo que todo dia ouve a mesma playlist, sem parar, por 10 horas?
    - Isso. – Confirmou Marcos sem entender porque aquilo seria estranho – São 212 músicas, Bia. É muita coisa.
      - E elas nunca se repetem?
      - Não. Assim, nunca dá pra ouvir tudo.
      - Nossa, parece estranho. Deixa eu pensar, cada música tem uns 3 ou 4 minutos?
      - Acho que sim.
      - Então. 212 vezes 3,5... dá...12 horas de música.
      - Parece certo.
      - E Living on a prayer é…
      - A quarta da playlist.
      -  E você sempre começa do começo da playlist?
     - Claro que não. – Disse Marcos como se Beatriz tivesse proposto algo abominável – Eu começo onde eu parei no dia anterior.
      - É, faz sentido. Então assim, na segunda você bateu o carro?
      - Isso! Bati. Aliás, ficou bem baratinho o conserto, te falei? O cara concordou em dividir e tal...
       - Falou, e na terça...
     - Estão prontos pra pedir? – Perguntou a garçonete os interrompendo. Incrivelmente dois garçons faltaram aquela noite. Hoje não era seu dia, definitivamente.
       - Sim, eu vou querer esse espaguete aqui e ele vai querer...
       - O de sempre, por favor.
       - O de sempre? – Perguntou a garçonete meio confusa.
       - Sim. O de sempre. Você é nova aqui? – Disse Marcos.
       - Não, senhor. -Respondeu a garçonete ainda mais confusa.
       - Tá. Vou querer um hambúrguer de picanha sem bacon, por favor.
       - Ok, senhor. Pra beber?
       - Eu quero um chope e você, Bia?
       - Só água, por favor.
       - Já volto. – Afirmou a garçonete virando as costas.
       - Que estranho eles não saberem o que eu sempre peço. – Disse Marcos.
       - Beleza, segue. Na terça o que aconteceu mesmo?
       - Ah, sim. Então, eu errei o caminho e cheguei mó atrasado.
       - De novo tava tocando a música...
       - Sim.
       - E na quarta, seu computador deu aquele probleminha?
     - Não! Isso foi quinta. – A corrigiu – Claro, se você chamar de probleminha eu perder todos os projetos da semana inteira e todos os relatórios porque um programa do banco fez eu formatar o PC.
       - Tá, desculpa. Mas já te falei pra colocar essas coisas na nuvem.
      - Sei, sei. Já levei a bronca do Ivan por isso ontem. Aliás, ele me chamou pra sala dele enquanto tocava Living on a Prayer. Tipo, eu até já sabia que ia dar merda quando começou.
       - E o que aconteceu na quarta?
      - Ah, é. Eu não te falei. Eu tava entrando no prédio, aí eu trombei com a Marisa, sabe? Do comercial. A ruiva.
       - Sim. Bem gata.
       - Oi? Tá. Enfim, e ela caiu da escada.
       - Mas aí aconteceu algo de ruim com ela, não com você.
       - É, mas eu tive que pagar o celular dela que quebrou. E o meu vai ficar pra depois.
       - Puts.
       - E ela nem se machucou direito.
      - Que bom! Quando você começou eu pensei: Ué, mas achei que ele tinha quebrado a mão ontem.
     - Então, e na sexta, depois da reunião, eu saí da sala dele, coloquei o fone, e aconteceu isso aqui. – Disse ele mostrando sua mão enfaixada.
       - Doeu pra cacete, né?
       - Não, foi de boa. – Respondeu ele, ironicamente.
       - Deixa eu escrever no gesso.
       - Para, mano! Tô falando sério! To preocupado.
       - Tipo, eu entendo. É que ontem foi meio que sorte, né? Acidente de trabalho e tal.
       - É...se a câmera não tivesse me filmado olhando pro celular quando eu escorreguei no chão molhado. – Disse ele querendo era culpar o aparelho. Se bem que ele teve o que mereceu nesse dia.
      - E tava sinalizado, né? – Perguntou ela fazendo careta.
     - Sim. Mas sei lá, vou ver com o João. Não sei se acho justo que eles não paguem nada.
       - Então...só excluir a música do celular.
       - Ah, mas é estranho, né? – Perguntou ele com vergonha.
     - Não é superstição. Você não tá cedendo ao “impulso natural do ser-humano de se agarrar a uma crença sem fundamento pela sua incapacidade de entender as coisas” – Citou ela fazendo uma péssima imitação da voz de Marcos.
      - Sua memória é sempre boa, ou só quando você vai jogar na minha cara o que eu disse? – Falou ele com uma expressão irritada, a qual se desmontou quando seu hambúrguer chegou. – Nossa, vocês foram rápidos. Nunca é tão rápido. – Se dirigindo à garçonete enquanto já se preparava para devorar o lanche. Aquele elogio pouca diferença fez no péssimo dia que ela estava tendo
      - Então, não, ela é sempre ótima – respondeu Beatriz quando a garçonete já não estava mais na mesa – Eu excluo então. Dá o celular.
       - Pra que?
      - Só cautela. Não é superstição. – Negou ela que estendia a mão para Marcos, que não dava o celular - E se você morrer, já pensou?
     - Toma. Mas só exclui ela, por favor. – Disse ele que só queria encerrar logo a discussão e mergulhar em seu super lanche, apesar de ter só uma mão para o fazer.
      - Pronto. Excluída. Puts, “Thousand years”?
     - Só ela, merda. – Tomando o celular de volta. – Ele era mais cuidadoso quando tinha um celular inteiro.
      - Só to dizendo. Essa música não dá sorte também – Disse Beatriz enquanto colocava agua em seu copo.
    - Deixa. – Falou Marcos enquanto mordia pela primeira vez seu hambúrguer, com bastante satisfação.
      - Mas relaxa, amor. Certeza que foi só coincidência, né? – Perguntou ela olhando para a janela em que era possível ver um lindo carro conversível do lado de fora.– Né? – Disse ela olhando para um Marcos vermelho, parecendo que não conseguia respirar direito. – Marcos? O que aconteceu?
     - Tem... Bacon...? – Sussurrou Marcos enquanto lentamente abaixava a cabeça como quem quer deitar a cabeça mesa.
Beatriz checou e viu que havia mesmo Bacon no lanche. A única coisa pela qual Marcos era alérgico.
    - Merda! Garçom! Chama a ambulância alguém. -  Gritou ela. Mas ao perceber que ninguém tomava uma atitude, Beatriz puxou o próprio celular, não conseguiu sinal e saiu pra rua com bastante pressa. Viu um trânsito bastante carregado do lado de fora do restaurante, de modo que seria difícil a ambulância chegar ali. – Oi, meu namorado tá aqui...ele comeu Bacon. Ele é muito alérgico. Ele vai começar a ficar sem ar em uns 5 minutos. Mas eu não sei o que fazer porquê... tá transito e... – Foi quando Beatriz percebeu. O carro na frente do restaurante era conversível. E seu rádio tocava uma música. Mas não era qualquer música.



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