quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A pior antevéspera do dia das bruxas.

                Entrou sozinho. Seus seguranças foram instruídos a esperar do lado de fora. A sala bastante grande, contrastava com a falta de móveis. Havia duas poltronas e duas mesas, uma ao centro e uma outra do lado de uma das poltronas. Ainda com uma bengala, apertou a mão do colega que se levantou e lhe sorriu um sorriso que ele pouco conhecera.
- Agora que acabou, vim aqui te liberar para todos as atividades – disse se sentando na poltrona que não era sua, na casa que não era sua e a que poucas vezes tinha ido.
Havia uma mesa redonda de seu lado esquerdo, com um cinzeiro horroroso. A bengala estava encostada na mesa. A bengala que em breve não mais usaria.
- Liberar? – perguntou enquanto se endireitava na poltrona. As pernas se cruzaram e ele olhou nos olhos do seu colega.
- É... desculpa – riu – sim. Acho que não tem mais perigo, sabe?
- Perigo?
- É... você sabe... naquela hora a gente tinha que rever. Não podíamos deixar as coisas degringolarem. Não podíamos deixar eles usarem tudo que você estava falando e...
Levantou, pegou a garrafa na mesa de centro.
- Quer?
- Não, obrigado. O médico ainda não liberou. Você tá bem?
- Sim, sim. Por que? – disse colocando a bebida em um copo se endireitando.
- Você geralmente gosta de falar bem mais.       
-Não foi você quem disse pra que parar de falar?
- Então, é exatamente isso que eu vim fazer aqui. Te dizer que não precisa mais se policiar tanto por que...
- Me policiar? – perguntou agora sentando com o copo na mão.
- É. O que eu falei aquele dia, sabe?
- Tem certeza que não quer uísque. – disse sorrindo.
- Não. Eu, eu tô bem... – respondeu analisando o colega.
- Você dizia...
- Então, agora acho que dá pra você voltar à sua agenda normal, sabe?
- E por que eu faria isso? Por que você tá mandando?
- É... ahn? Eu... não...eu só tô dizendo que você não precisa mais ficar tão alerta. Mas você faz o que você quiser?
- O que eu quiser? – disse tirando os olhos de seu interlocutor.
- É... – respondeu olhando para todos os lados da sala.
- Entendi. Tá. Eu vou voltar sim ao que eu quiser.
- Que bom então. – disse fazendo menção a se levantar- sei que aquele dia você ficou chateado – fez uma pausa ao ouvir um riso contido de seu colega – mas... assim, a gente tá bem, né?
- Bem? Com toda certeza, amigo. Vencemos. – Gargalhou - O que te faz pensar que não estamos bem.
- Você tá estranho.
- Estou? Impressão sua.
- Aham, que bom. Enfim, eu preciso ir na festa do partido. Você não vai, né?
- Não... ontem foi uma noite bem animada, né? Acho que vou dormir mais cedo. Vou fazer mais umas coisas aqui e vou pra cama.
- Tudo bem. – disse se levantando com a ajuda da bengala.
- Tem certeza que não quer meu uísque? Você vai amar.
- Não, não... eu... eu tô legal. Vai ter uns pastores no encontro e eu acho melhor evitar.
- Aham, entendo, entendo...
- Bom – disse indo de encontro ao amigo, que também se endireitou com uma mão no Bolso e a outra estendida para um aperto.
- Obrigado por tudo, viu? Você vai ser o melhor vice que esse país já viu.
- Você acha? Não sei.
- Como assim? – disse sem largar a mão do colega.
- Ah, eu daria um excelente vice. Mas eu acho que eu não serei um excelente vice.
- Porque não?
- Porque você teve uma complicação do atentado...  – disse num tom mais alto abafando qualquer barulho silenciado. Qualquer tiro que pudesse ser ouvido.
-.....
- e eles conseguiram, sabe? Conseguiram te matar, amigo.
-....
- Mas eu vou aceitar esse fardo. Vou ser o que você seria.
- ...
- ... e mais... claro, mas muito melhor. Muito mais firme. Fazer o que você não iria fazer, sabe? O que você não teria coragem ou capacidade de fazer.
-..
- Se você tivesse tomado o uísque seria tão mais fácil... ou se você não tivesse me mandado calar a boca.
-.
Soltou finalmente sua mão, chutou a bengala. O presidente eleito caiu na mesa, que quebrou. Em baixo dele, o cinzeiro.  
Do chão ao lado de uma pequena poça de sangue bem vermelha, viu o amigo pegando um telefone.
- Tá feito, doutor. Vai ser no plano B mesmo. Como você disse. Isso, sim, sim. Já pode vir.

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