sexta-feira, 17 de março de 2017

As minhas Olimpíadas

Escrito por Pedro Henrique Silva

Nunca havia atirado profissionalmente na vida. Nunca antes das OlImpÍadas.
Quando o COI resolveu atrair mais público para seu evento mais importante, eu lembro que torci o nariz. Sempre fui apaixonado por esporte. E as Olimpíadas estavam no meu sangue. Meus pais sempre me contam que com um ano de idade eles me levaram a um dia das olimpíadas no Rio. Eu nasci em janeiro em Ouro Preto, Minas Gerais, e tinha 7 meses quando  entrei no parque olímpico do Rio de Janeiro em 8 de agosto de 2016. Naquele dia eu “vi” competições do Judô e da Natação. Meus pais quiseram ficar até o final e aproveitar tudo. Voltamos para Ouro Preto no dia seguinte. Eu não lembro de nada, mas sempre vejo os vídeos daquele dia com muita emoção. Rafaela Silva ganhando o ouro, o estádio inteiro vibrando, e eu acordando chorando. Inclusive eu atrapalhei uma largada da natação. Mas não era o Phelps. Não tem problema.
MMA e E-Sports seriam adicionados ao programa olímpico a partir das Olímpiadas de 2048 em Nova Délhi-Pequim-Xangai. O esquema dos e-sports seria simples: Antes de cada evento, por 2 anos, haveria uma eleição no site do COI para definir qual jogo seria usado. Nas Olimpíadas indiano-chinesas o escolhido foi o Street Fighter 25. Com o FIFA 48 bem perto e o Colossal Pain em terceiro. Achei válido. As E-Olimpíadas já tinham sido um sucesso e estavam em sua 3ª edição. E em breve ultrapassariam as Olimpíadas convencionais em receita. Nada mais justo que se juntar ao seu concorrente. O MMA não crescia mais tanto depois do fim do UFC, mas também seria uma mudança interessante.
Contudo, a que mais chamou a atenção foi a inclusão da Delegação de Referência. Essa foi polêmica. A chamada IRD seria incluída nesses jogos. Todos os integrantes entre 25 e 52 anos seriam escolhidos aleatoriamente entre os 195 países do mundo. Os participantes seriam sorteados e depois alocados nos esportes com o qual seus tipos físicos mais combinavam.
Claro que eu fui sorteado. De outra forma você não estaria lendo esse texto. Dois meses antes das Olimpíadas – para evitar que treinássemos – fui chamado e levado à Índia onde ficava o QG do IRD. Eu era o único brasileiro da delegação. Um homem e uma mulher para cada esporte individual. Todo tipo de corpo e raça sentados num enorme auditório.
- Olá. Meu nome é James McJoy – vibrou meu fone com tradução simultânea – Dou boas-vindas a todos vocês em nome do Comitê Olímpico internacional. Vocês foram sorteados para serem a delegação internacional de referência. Nas Olimpíadas 2048 NDPX vocês representarão cerca de 9 bilhões de pessoas normais que nunca praticaram profissionalmente nenhuma das modalidades olímpicas e gostariam de saber qual a diferença de um atleta de alto rendimento para uma pessoa comum. Pelo que vejo aqui, todos vocês são comuns, sem ofensa. – Gargalhadas soaram com 1,2 segundos de atraso – Temos gente da África, da América, dos EUA, De Cuba, do Iraque...  Queria dizer que em Agosto vocês não serão um país. Claro, competirão sob a bandeira da IRD, ficarão nos nossos blocos das 2 vilas olímpicas, tudo normal. Mas, vocês representam o “normal”. O ordinário. Sem ofensa – Uma gargalhada menor soou. Acho que o tradutor de alguns idiomas deve ter tido a mesma dificuldade que o brasileiro com a palavra “ordinary”. -  Enfim, o processo será simples. Quem estiver mais em forma disputará provas de velocidade e resistência. Os que não estiverem tão em forma assim ficarão com as provas de concentração. As lutas nós ainda estamos negociando. Acho que não vai acontecer. Por enquanto estamos com natação, atletismo, Levantamento de peso, Tiro com arco, Tiro esportivo, Cross Fit, e algumas provas de ciclismo contrarrelógio. Ou seja, nada que vá matar vocês. Depois da primeira avaliação vocês receberão alguns treinamentos para evitar maiores problemas. Claro que aqui a questão é mais uma brincadeira. Mais uma enorme ação midiática para atrair mais público para as Olimpíadas.  Contudo, ninguém pode sofrer contusões ou graves problemas. Enfim, depois das avaliações e dos treinamentos vocês viajarão para a aclimatação. Vocês então se separarão.Será triste. Vai ter lágrimas. Agradeçam aos países anfitriões anteriores que gastaram bilhões nas Olímpiadas, o que nos obrigou a dividir as sedes. E também não esqueçam que em 2044 foram em 5 países diferentes. Ou seja,  vocês estão no lucro. Não vão ficar tão longe dos novos amigos e podem até ficar nas mesmas vilas. Olha só. – Mais uma risada. Acho que os tradutores não tiveram problemas aqui – Enfim, teremos 5 treinadores. Vocês receberam pulseiras com cores, certo? Sigam os treinadores com as cores porque começaremos o processo agora. Obrigado por aceitarem. E vamos buscar pelo menos uma medalha hein? – Mais risadas e chegava ao fim o discurso do senhor McJoy.
Eu tinha 120 kg. Eu nunca fui magro e nunca estive em forma. Por isso me colocaram nos esportes de concentração. Ou era tiro com arco ou tiro esportivo. Mencionei que já havia caçado javali quando passava minhas férias em Santa Catarina – sei que hoje caçadores são vistos com muito maus olhos. Só que o IBAMA precisava controlar a população de Javali para não desequilibrar o ecossistema. Juro.  Então, me puseram uma arma na mão e eu fui designado para a área de tiro, a qual dividíamos com os arqueiros. A arma que utilizamos não tinham nada a ver com as espingardas que eu era mais o menos acostumado a atirar. Mas a mecânica, a postura eram parecidas. Além disso o fato de o coice ser muito mais leve facilitava todo o trabalho. Comecei indo relativamente bem. Não chegava perto de um Sulafricano que no Atletismo conseguia fazer 100 metros rasos em 11 segundos, mas meu desempenho era aceitável. Para um amador.
Lá eu disputaria contra grandes nomes do esporte como Hiroshi Tokumura. Bi-Campeão Olímpico. Ele nem de longe era meu ídolo no esporte. Eu gostava mesmo de um Coreano chamado Kim Yukomo. Que tinha perdido as últimas duas finais olímpicas para Hiroshi. Claro que ainda tinha o Brasileiro Mike Cristiano - o primeiro negro a ser Campeão Mundial de tiro em 2030 - cujo maior resultado olímpico tinha sido o Bronze. Hiroshi era o favorito, mas sua mulher tinha sido morta em um acidente, o que o tinha forçado a quase dois anos sem participar de competições importantes. Mas o cara é fera. Já o Yokomo vai ganhar. Se Deus quiser...ah, tem o Mike. É, quero que ele vença também.
Na última semana antes da viagem para Xangai, onde seriam as provas de Tiro, eu já tinha um desempenho de um profissional… um bem ruim que nunca se classificaria para as Olimpíadas. O que era muito bom. Outros colegas também iam bem. Um amigo do lançamento de peso havia conseguido uma marca um pouco abaixo do índice Olímpico. Inclusive, segundo os treinadores, ele se classificaria para os jogos de 2020, por exemplo. Uma moça havia conseguido pular acima do sarrafo no salto com vara e se mantivesse o desempenho nos jogos não seria eliminada logo de cara. O sulafricano, porém, se machucou quando tentava chegar aos 10 segundos nos 100 metros. Uma pena. Já eu provavelmente não daria um vexame tão grande. Não podia dizer o mesmo, por exemplo, do Português que tinha ficado com a natação. Os tempos dele eram um desastre.
Xangai é uma cidade linda. Não tanto quanto o Rio, ou Ouro Preto, mas dava para o gasto. A Vila Olímpica era - sexo - bem moderna e os moradores -sexo-  nos acolhiam muito bem – sexo. Sim! Na Vila tudo o que os atletas mais faziam era transar . Não que meu peso fosse me ajudar em alguma coisa. Mas era muito comum encontrar alguém transando em um canto escuro. No primeiro dia, do trajeto do nosso alojamento ao refeitório, eu juro que vi uns quatro casais em espaços entre os prédios. Inclusive, vi uma festinha a três bem animada entre a casa dos americanos e dos Australianos.
Na vila eu andava com Christian Pokoluk, um amigo Esloveno do Badminton, e Natália Ricón, uma senhora argentina de 61 anos que ia se aventurar na natação. Ambos da IRD, claro. Eles eram legais e nos entendíamos num inglês divertido. Eu e Nat nos virávamos no espanhol. Eles iriam assistir minha competição. O Christian só começaria na semana seguinte e a Nat só ia para as provas de velocidade que ocorreriam no fim da natação.
O lugar não estava lá muito lotado. Era um antigo posto de tiro militar, portanto as arquibancadas haviam sido construídas provisoriamente, e logo após as Olimpiadas seriam desmontadas e ele voltaria a ser um estande de tiro militar. Reformado e tecnológico, claro. Mas eu não estava muito interessado em nada ali, mas nervoso pra burro. Não queria virar piada nas redes sociais. Uma maior, eu quero dizer. Quando o Brasil descobriu que um gordo de 120 kgs seria o representante brasileiro da Delegação de referência todo tipo de piada surgiu. “Se ele for pra natação não vai sobrar água na piscina quando ele pular”, “Se ele for pro futebol vai ocupar o gol inteiro”, “Se ele for pro atletismo vai usar duas raias”. Enfim, todo tipo de piada possível. Algumas boas, como “Se ele for pra Maratona Aquática ele vai acabar encalhando na praia”. Eu ri, confesso.
Lembrei de cada piada quando atirava pela primeira vez. A competição de tiro havia mudado de duas olimpíadas pra cá. Agora o esquema era parecido com o tiro com arco. Era um contra um. Desde a primeira fase até a final. Ou seja, éramos 64 atiradores, dos quais sobrariam 32 na primeira fase, e assim por diante até restarem apenas dois. Enfim, meu adversário era um atirador da Estônia, de 55 anos. A disputa era em melhor de 5 sets. Cada set com cinco alvos. Vencia quem fazia mais pontos por set. No primeiro set eu consegui a proeza de fazer 22 pontos.  Acertei dois “cinco”, e três, “quatro”. Meu colega fez 40. Os demais dois sets foram outros massacres. 25-35 e 23- 41. E eu me despedia da disputa por medalhas.
Mas minha participação olímpica ainda não terminara. Eu ia disputar o 63º lugar. Ia ser ainda no mesmo dia, entre a primeira e segunda fase. Para animar um pouco a torcida e manter o público interessado. Eu enfrentaria, porém, o campeão olímpico. Um japonês de 40 anos. Sim. Ele, numa das maiores zebras da história do tiro, havia sido eliminado por um Coreano de 19 anos. 3 sets a 0. Foi emocionante e triste. Eu o enfrentaria justamente porque tinha sido o outro único competidor a perder por 3-0.
O cumprimentei e notei uma raiva absurda. Ele nunca tinha perdido uma confronto olímpico sequer. Era Bi campeão Olímpico e estava invicto fazia 2 anos -claro que ele não disputou nada nesse tempo. Ninguém tinha entendido sua eliminação. Mesmo com o caso da esposa, esperava-se, pelo menos, um desempenho minimamente positivo. Mas não. Foi um desastre. Enfim, o primeiro tiro dele acertou um 8. O meu um 4. Eu amava o 4. Depois ele acertou o 10, e eu o 5. Eu não sairia daquilo. No terceiro ele fez um 7. E eu um 5. O set já estava perdido. Mais um 10 pra ele. E para mim um 4. Seria mais um massacre. Depois ele acertou um 6. E eu um 10. Sim. Eu acertei o 10. Enfim, eu havia entendido o lugar. Acho que achei um bom ponto de referência e dei um tiro legal. Eu tentei segurar a onda, mas a torcida gritava muito. Perdi feio o primeiro set, mas quem sabe eu não daria trabalho?
Segundo set. Ele acertou um 7. E eu um 8. Comecei bem. Ele um 10 e eu um 8. Ele na frente. Depois ele conseguiu mais um 10. E eu outro 8. O set começava a escapar. Conseguiu um 9 e eu finalmente um 10. Ele só estava 2 na frente agora. Ele acertou um 8 e eu outro 8. No último ele conseguiu um 10 e eu um 9. 2-0 pra ele. Meu desempenho estava excelente. Mas não o suficiente para derrotar um bi-campeão olímpico. A torcida, que me acompanhava a cada tiro e vibrava muito, acabou se decepcionando. Mas ainda faltava meu provável último set numa Olimpíada.
Começou acertando um 9 e eu outro 10. Boa. Depois ele conseguiu um 8. E eu outro 10. Então ele acertou um 7 e eu mais um 10. Eu nem sabia onde enfiar a cara. Meu Deus. Ele conseguiu um 8 e eu um 5. A torcida não entendeu. Nem eu. Mas o set estava encaminhado. Ele conseguiu um 8 e eu outro 6. Encaminhado nada. Venci por 41-40. O placar final me assustou. Mas a torcida gritava tanto, que não consegui focar no meu erro. A bandeira da IRD tremulava no telão. Eu tinha conseguido.
2-1. Vamos para o quarto. Eu estava na disputa. Primeiro tiro dele e um 10 para me lembrar onde eu estava. Eu fiz um 8. Depois ele um 8 e eu um 7. Três atrás. Depois ele fez um 8 e eu um 9. Tirei um. Mais um 8 dele e eu com um 9 estou apenas um atrás.  Se ele fizesse um 10, eu ia para casa. Mas ele acertou um 8. Eu precisava de 10 ou um 9. Eu acertei um 10. Fim do set. Minha vitória. Iríamos para o desempate.
Nunca antes no esporte tivemos uma disputa pelo 63º lugar tão forte. Todos os outros jogos já estavam definidos. Só restávamos eu e ele na disputa. E ele tratou de me dar esperanças acertando um 7. Eu fui e retribuí o favor com um 6. Estava nervoso. Ele fez um 7 e eu empatei com um 8. Ele voltou à forma com um 10 e eu fiz outro 10. Ele ainda estava um na frente. Fez mais um 10 e eu outro 10. Mais um tiro. Ele um na minha frente. Hiroshi conseguiu um 5. Eu mal pude acreditar. Precisava de um 7 para ser campeão... ou melhor, não ficar em último. Olhei para ele pela primeira vez. Ele estava exausto. E eu pensei: O que significaria para mim terminar em 63º? O que significaria para ele terminar em último? Eu atirei um 6. Perdi.
Muitos me perguntaram se eu o deixei ganhar. Eu não sei dizer até hoje. Não senti dó dele, mas respeito. Respeito por um gigante do esporte cuja vida tinha sido destruída pela morte de sua esposa grávida. Que ele não merecia ter terminado em último numa olimpíada. Mas eu acho que não errei de propósito. O chato foi aguentar as piadas nas redes sociais. Brasileiros são pessoas más.

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