Escrito por Pedro Henrique Silva
A vingança seria na mesma moeda. Não tinha mais volta. Não haveria espaços para erros. Tudo fora planejado com uma antecedência cautelosa. Fernando sairia da cadeia no dia dos pais, o que conferiria a Carlos e Heitor uma janela muito curta – isso se Fernando pretendesse voltar à cadeia no dia seguinte, claro. O assalto era apenas uma fachada. Não havia uma quadrilha interessada em roubar o cofre do quarto de uma madame no prédio Adolfo Dias. Tudo não passava de uma isca, a qual Fernando havia mordido de maneira extremamente ingênua, sem que fosse preciso nenhum tipo de confirmação ou prova. De certo precisava do dinheiro. O telefone de Carlos tocou precisamente às 14h40, 10 minutos depois do combinado. Não houve desculpas, claro que ele não as esperava.
Seria um esquema simples. Dois homens entrariam para montar um móvel enquanto um terceiro permaneceria no carro para a fuga. O que Fernando não sabia é que não havia um móvel, não havia madame. Apenas Carlos, que entraria com ele, e Heitor esperando em seu apartamento. Tudo ia de acordo com os planos.
- Cadê o motorista? – Perguntou Fernando
- Estacionado na outra rua – Carlos respondeu - você não quer que alguém veja a gente saindo do carro dele, né?
- Porque não?
- Cara, esses porteiros são bem paranoicos. Eles iam ficar olhando o carro, vendo se tem gente dentro. O melhor é ele esperar na rua de trás.
E esse foi o único protesto de Fernando. De fato: Precisava do dinheiro. O aniversário do seu filho estava chegando. Precisava de dinheiro para o Playstation. Só assim ele iria conseguir superar os presentes do atual da ex dele.
- Pois não.
- Estamos aqui pra montar o móvel do seu Heitor do 502.
- Identificação.
- Aqui
- 9º Andar?
- Vish, acho que não. 10º andar.
- Ok, vou chamar... ok, podem subir.
- Viu a paranoia do porteiro? Ele falou o andar errado para ver se a gente tava falando a verdade. – Disse Carlos exagerando um pouco na atuação.
- Pois é.
Subiram
Entraram.
Heitor esperava.
- Opa, vieram montar o armário?
- Positivo.
- Beleza. Então, deixa eu fazer o pagamento logo.
E Heitor sacou uma Magnus .18 da sua jaqueta, deixando Fernando entre o medo de morrer e o de morrer sem entender nada.
- Você não faz ideia de quem a gente é, né seu bosta?
- ...
- A gente é irmão do Paulo. Lembra dele?
Fernando tentou fugir, mas era tarde. Não havia mais volta. Carlos o acertou com um vaso. Muito duro e muito caro. A primeira característica Fernando notou instantaneamente, a segunda apenas especulou enquanto caía no chão. Parece correto afirmar que era a última coisa que ele especularia naquela tarde.
- Acorda seu filho da puta.
- Acorda que vai começar.
- ...
Um soco no estômago e consequentemente nas cordas que prendiam Fernando à cadeira naquele pequeno quarto que provavelmente teria servido a alguma criança a pouco tempo, a julgar pelo papel de parede dos Vingadores.
- ...
- Vai falar nada seu merda?
- Você lembra bem do que você fez com ele né?
-...
Soco no rosto. Pontapé na canela. Provavelmente os irmãos nunca haviam torturado alguém.
- ...
- Você lembra dele? De como você deu uma surra nele só pra pegar a carteira dele?
- ...
- Não? Vai lembrar agora.
Soco no pescoço. Pontapé no joelho. Sem dúvida os irmãos nunca haviam torturado alguém.
- Mas você não usou só suas mãos, né covarde? Teve uma barra tipo aqui,né?
Pancada no braço direito, pancada no braço esquerdo. E agora, enfim, com toda certeza os irmãos nunca haviam torturado alguém.
- Vocês nunca torturaram ninguém, né?
- ...
- Deixa eu falar então o que aconteceu. Eu precisava do dinheiro. Precisava pra comprar comida pro meu filho. Roubei mesmo. Só que a coisa saiu de controle. Seu irmãozinho lutava bem. Bem melhor que vocês, pelo jeito.
Pancada no braço direito, pancada no braço esquerdo. Fernando ria.
- Porque vocês não chamam ele pra brigar? Ah, já sei. Porque deixei ele numa cadeira de rodas né?
Pancada na bochecha direita.
- Ow, Heitor. Não vamos matar ele.
- Posso continuar ou as mocinhas vão continuar me fazendo carinho.
- Ei. Você vai ficar quieto agora. Porque é nossa vez de te deixar numa cadeira de rodas pra sempre. Nosso irmão perdeu todas as chances dele por sua causa.
- Se vocês não forem me matar, porque me trouxeram aqui? Vocês acham que dá pra quebrar a coluna de alguém só querendo quebrar a coluna de alguém? Tem que querer me matar, Mauricinho. Vai, usa esse bracinho malhadinho pra me acertar direito vai?
- Cara, vamo largar ele aqui e pronto.
- Mano? Se tá bem loco. Se eu deixar aqui não vai ter volta. Ele vai morrer aqui. As câmeras viram ele entrando. O apê é meu.
Fernando ri;
- Vocês me trouxeram pra casa de vocês? Ai meu Deus, olha que merda.
- Já mandei calar a boca.
- Caguei pra você.
Pancada no queixo. Forte. Tão forte que deixou Fernando desmaiado. O desespero tomou conta dos irmãos.
- Cara, e se a gente matar ele e sumir com o corpo? Não dá pra deixar o cara paraplégico.
- A gente faz igual aquela mina que matou o marido. Esquarteja e joga por aí.
- Ela tá presa.
- A gente faz direito. Aquela mina era burra. Mina não serve pra matar ninguém não.
- Tá. Você dá o tiro?
- Eu não.
- Eu também não.
- Vamo no jokempo.
- Tá.
Carlos perdeu. Apontou a arma. Primeiro um tiro que passou raspando a orelha. Depois um acertou o olho. Pra garantir um último. Na testa. E Fernando estava morto. Ao que tudo indicava.
- Tá, você tem cerrote aqui.
- Não. Já levei pro Tatuapé.
- Cara, você não disse pra esquartejarmos o cara?
- É, eu não pensei nisso.
- Tá, vamos procurar algo aqui que tenha ficado da mudança. Talvez eu deixei algo no quarto ali de trás.
Não havia provavelmente nada ali. Mas procuraram. Procurando uma saída. O desespero vergonhoso tomava conta. Aquele que atinge as pessoas que acham – sem de fato achar- estar fazendo a coisa certa. Ou acham que fizeram há 15 minutos a coisa certa. Foi quando o interfone soou. Era a portaria perguntando se estava tudo bem, já que a polícia pedia para subir. Aparentemente você não pode disparar três tiros em um prédio. Os vizinhos chamam a polícia. E ela vem. Principalmente naquele bairro.
- E agora? Agora? Ferrou... agora a gente foge.
- Fugir? Pra onde?
- Vamo descer as escadas e sair. Vamos pelo estacionamento. A gente sai. Vão deixar a gente sair.
Carlos foi na frente. Ele era só um montador, cujo uniforme estava miraculosamente sem sangue. Desceu o primeiro lance de escadas, o segundo, o terceiro, e assim por diante até o último. Heitor foi de elevador. Se separarem foi a única atitude sensata do dia. Curiosamente tomada na hora mais crítica. O porteiro não se incomodou pelo fato de Carlos estar sozinho, e um tanto quanto nervoso. Heitor não teve a mesma sorte. A polícia o parou no térreo. Antes de chegar à rua, Carlos ouviu Heitor gritar que era inocente, que não iria sem um mandato. Aquelas coisas que eles viam nas séries de TV. O desespero tomou conta de Carlos, o qual começou a correr. Desesperado, Entrou numa casa da esquina que parecia abandonada.
Ali havia uma escada para baixo. Carlos pensou que o ideal seria entrar lá até a polícia ir embora. Ali, no porão da casa – até bonito, com algumas caixas pelo chão, um animal empalhado na parede a sua esquerda, uma tv velha e um carpete vermelho- , havia outra escada. Para um segundo porão, talvez? Carlos não pensou. Entrou ali para esperar a polícia desistir de procura-lo. Só que naquele segundo porão havia uma outra escada. Carlos já tinha visto muito filme de terror. Mas nunca três porões numa casa. Mas não pensou três vezes. E foi em sua direção.
Se o segundo porão era uma cópia do primeiro - Só que com um carpete vinho- o terceiro era totalmente diferente. Sem carpete, mas com caixas e uma escada. Um quarto porão? Essa é mais maluca ainda. Carlos pensou se era necessário. Mas ele estava fugindo da polícia. Tudo era necessário. E assim ele foi. O quinto andar só tinha uma tv velha. Havia um sexto. Este possuía alguns insetos na parede. E um peixe espada empalhado. No sétimo só uma tv velha, a qual estava coberta com mais insetos. Bem como com Lesmas, caramujos e pernilongos. Era impossível ficar ali. O cheiro era horrível. A umidade também. Havia ainda mais uma escada. Não parecia inteligente subir. E foi até o nono porão. Este umidíssimo, horrível e fétido. Alguém parecia ter morrido ali. Então quis fugir de lá o mais rápido possível. O décimo porão deveria ser ainda pior, mas o oitavo era horrível. Então ele foi e se surpreendeu. Não havia nada ali. Nada mesmo. Era um quarto branco, limpo, sem nada que parecesse estranho. Carlos poderia jurar que tinha até um ar condicionado.
Havia duas escadas ali. As duas para cima. Uma era a pela qual Carlos havia descido, e a outra era no outro lado da sala. Uma que dava para uma porta na parte de cima da parede. A curiosidade o chamava. Ele subiu o primeiro, o segundo, o terceiro degrau. E abriu a porta.
Carlos abriu a porta do décimo andar do prédio Adolfo Dias. Um cabo da PM estava na sua frente. Ambos tomaram um susto. Carlos pode ouvir seu irmão gritando que queria ver o mandato. Começou a correr, mas o policial percebeu e o pegou pelo uniforme.
- O senhor era o cara que veio montar o móvel?
- Meu Deus. Eram 10 porões. Eu tava nessa porta. Eu tava naquele quarto. Como assim? Eu fui na casa? Entra aí pra você ver.
O policial abriu a porta pela qual Carlos saíra. Não se surpreendeu. O criminoso sempre voltava para o local do crime.
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