Eu estava em casa. Meu irmão Marcos também. Não sabia mais do que isso. E eu ouvia alguém entrar. Vi o medo no olhar de Marcos. Aquilo não era novo pra gente. Todas as vezes era a mesma coisa. Mas meu irmão me olhava assustado. Eu sabia o que esperar. Ele também sabia. Mas o terror era como da primeira vez. Quando eu mal tinha forças pra defende-lo. Hoje eu posso. Hoje eu poderei defender meu irmão de meu pai.
Eu tentava entrar em casa sabendo que talvez não seria uma boa ideia. Aquele cara maldito tinha me xingado. O Palmeiras tinha perdido mais uma vez. Ou tinha empatado? Mas sei lá, parece que não sei direito porque eu estava com tanta raiva. Só sei que ela me consumia de cima pra baixo. Escorregando pela minha garganta até meu fígado e subindo de volta. E eu só queria mesmo entrar em casa e dar uma surra em alguém.
- Vamos pro guarda roupa? – Me perguntou Marcos. Eu não queria. Eu não me importava. Chaves mexendo. Hoje eu mataria meu pai. Maçaneta se mexendo. Sabia que podia. Ainda trancado. Ele não conseguia abrir. Pensei em ajuda-lo. Não. Finalmente, conseguiu. Porta abrindo. Olhos vermelhos. Meus olhos vermelhos. Era como olhar no espelho. Aquele grande homem. O maior herói que já tive. Entregue à bebida anos atrás.
- Cadê o Marcos? – Ele perguntou.
- Tá lá em cima – Ele respondeu me olhando com olhos vermelhos. Era como se eu estivesse olhando no espelho. E eu só queria pegar o Marcos e dar a surra que ele merecia por aquilo que ele tinha feito antes. Tentei subir correndo.
Ele mal ficava em pé. Subiu se encostando na parede. Eu apenas o segui de longe. Se levantasse a mão para Marcos... Chegou na parte de cima. Marcos estava na frente da escada.
- Não consegui entrar – Me disse ele. Meu pai foi em sua direção. O segurou pela camiseta. Corri e empurrei meu pai. Ele se segurou no corrimão e não caiu.
O babaca tinha tentado me empurrar da escada? Cadê o respeito? O Segurei pelo braço enquanto ele gritava e me dizia algo. Mas dane-se ele. O joguei longe no corredor e ele bateu a cabeça na parede. Chorava e gritava algo que eu mal podia ouvir.
- Sai seu filho da puta. Você não é meu pai. Você não é meu pai. Eu tenho nojo e vergonha de você. Seu maldito. Quero que você morra. Eu vou te matar – Eu gritava tudo de ruim que eu sabia gritar. Ele agora foi para cima do meu irmão. Eu não consegui. Meu irmão chorava. E apanhava. Duas, quatro, cinco chineladas. Meu pai saiu do nosso quarto. Foi para o dele. E antes de fechar a porta disse:
- Boa noite – Disse eu. Sei lá porquê. Só sei que entrei no quarto. Fechei a porta. E sentei na cama. Acho que eu tinha batido muito nos moleques. Bom, quem sabe agora eles não param de fazer aquilo. Aquilo o que mesmo? Eu não conseguia me lembrar. Deve ter sido aquela maldita garrafa de 51 que bebi. Ou as latinhas de cerveja? Não. Eu só tinha bebido uma latinha e uma dose. Para comemorar a vitória do Palmeiras. Mas o que os moleques tinham feito mesmo? Foi quando comecei a chorar. Como nunca tinha chorado. Ou como sempre chorava? Não sei. Não faz mais sentido. Nada faz. Eu só queria uma dose pra dormir. A Maria ia dizer pra eu não fazer isso. Mas ela não estava mais aqui.
Foi quando eu entrei no quarto de meu pai. Mas não era mais o eu de 7 anos. Eu tinha já meus 32. Quase a mesma idade que ele. Sentei do seu lado na cama e disse:
- Pai, desculpa! Desculpa por tudo. Desculpa se eu te xinguei. Desculpa se eu nunca te abracei. Desculpa. Me perdoa. Desculpa se eu nunca fui te visitar desde os 19. Desculpa não te convidar paro meu casamento. Desculpa nunca ter te apresentado meus filhos. Desculpa não ter... desculpa.
Acordei daquele pesadelo para meu pesadelo. Minha mulher ainda deitada naquela cama de hospital. Os aparelhos ainda fazendo aquele barulho que eu nunca imaginei que ouviria por horas. A garrafa de pinga do lado de minha poltrona. Tudo normal. Exceto pela presença de meu pai dormindo sentado no pé na cama.
Eu não o via há séculos. A raiva da violência e do abandono haviam substituído quase que integralmente o amor que eu senti até um pouco depois da morte de minha mãe. Isso até ontem. Hoje a raiva não estava. Levantei, fui até ele, sentei ao seu lado e mesmo sem ter certeza de que ele estivesse acordado - mas com certeza do que ele tinha um dia sentido - disse...
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