Escrito por Pedro Henrique Silva
Antes
Antes
- Então - disse ele enquanto sentava na cama do quarto – Acho que hoje eu vou falar com a minha mulher, Ma.
- Oi? – Disse ela parando de escovar os dentes, completamente perplexa.
- Sim! Eu cansei! Acho que não aguento mais ela. Assim, sei lá, sabe? São três anos de casamento. Sempre a mesma merda. Só brigamos. Nem transamos mais faz um século.
- Mas isso não é culpa dela, né? – Disse ela já secando a boca na toalha do hotel.
- O que? – Disse ele
- Não, tipo, transar. A gente se vê todo sábado. Você mesmo já disse que é você quem não aguenta. De semana vocês trabalham pra cacete. Poxa, coitada.
- Sei lá, se ela se esforçasse mais acho que rolava, sabe?
- Será? As brigas também não são meio que por isso?
- O que você tá dizendo, Maria? – Disse ele já um pouco nervoso.
- Tipo, assim, acho que o problema de vocês é a falta de sexo. Dentre outras coisas, claro, mas tipo, se vocês transassem, talvez ficava mais fácil superar...
Depois
- Então você quer o divórcio? – Disse ela já com lágrimas nos olhos, num tom baixo e forçando aparentar controle.
- Sim. Não dá mais, sabe? Acho que a gente só briga faz três anos. Já deu. Cansei! – Disse ele também um tanto quanto emocionado, enquanto a olhava andar pelo quarto de costas para ele.
- Tá. Você que vai embora?
- Sim. Vou buscar minhas coisas e ir para o hotel.
- Sério? – Disse ela com a raiva tomando lugar da tristeza – Você tem outra Felipe?
Antes
- E se ela desconfiar de mim? – Disse ela enquanto colocava a saia, sem muita pressa.
- Não vai! Eu nunca dei nenhum motivo pra ela desconfiar. Ela nunca demonstrou desconfiar de nada. Nunca disse um “a” sobre achar que eu tava com outra. Nunca viu batom no meu colarinho – Disse ele num tom de deboche.
- Não tira ela de trouxa. A gente sempre foi bastante cuidadoso. – Disse ela.
- Sei lá, só to dizendo que talvez, assim isso foi algo que me fez tomar a decisão. Ela nunca desconfiou. Nunca. Será que ela me ama? Porque das duas uma, ou ela é burra ou nunca gostou de mim.
- Cara, você é ridículo – disse ela pegando a bolsa com certa violência.
- Calma, calma. – Disse ele a abraçando por trás enquanto ela não parecia muito confortável com o carinho – Não era o que você queria? Vamos poder nos assumir, sabe? Daqui a uns meses, claro. Vamos morar juntos. Nos ver todo dia, ahn? – Disse ele beijando o pescoço dela, que amoleceu.
Depois
- Acho que nossa relação se desgastou, sabe? Sei lá. A gente não transa...
- Tá. Entendi. Você tem outra – Disse ela o interrompendo.
- Não é por isso. Claro que não vamos terminar por isso. Nossa relação não faz mais sentido. Brigamos o tempo todo e não fazemos mais nada. Somos nem amigos mais e...
- Fechou então, Felipe, Faz assim, vai dormir no hotel com ela hoje. Vai embora. Por favor. Não aguento mais te ouvir.
- Calma, deixa eu ficar aqui um tempo...
- Não! – Disse ela alto. Mas não queria perder a compostura e se controlou – Quero você fora daqui hoje mesmo.
Antes
- Será que ela vai te expulsar de casa hoje mesmo? – Disse ela que já nem lembrava o que a tinha incomodado e só queria ouvi-lo dizer que logo estariam juntos pra sempre.
- Acho que não. Vou tentar convencê-la de dormir em casa hoje ainda. Ou até eu arrumar uma casa. Sim, eu consigo ficar lá até arrumar um apê pra nós. Dormindo no outro quarto, claro.
- Certeza que ela vai ficar puta.
- Vai nada. Eu consigo. Você vai ver.
Depois
- Foi bom enquanto durou...- Disse ele quando saia com duas malas de casa ainda naquela tarde.
- Vai pra puta que te pariu, Felipe.
- Te amo, Maria – Disse ele enquanto saiu porta afora.
Antes
Maria estava sentada na cama do quarto do hotel onde morava desde que Felipe começou a pagar suas despesas. Sentia pena pela mulher dele. Mas mesmo assim, ficava mal porque ele ter conseguido ficar mais uns dias em casa até conseguir um apartamento. A esposa tinha sido compreensiva.
- Eu não seria – Disse ela em voz alta se dando conta da ironia da situação.
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