Estou tranquilo. Cheguei dez minutos antes do horário. Isso não quer dizer que estou me sentindo mal. Em hipótese alguma. Simplesmente quer dizer que estou ansioso. Seis anos que eu não saio com ninguém além da Talita. Não estou com medo de fazer alguma merda. É mais vontade de vê-la logo, uma sensação até normal, acho, pra esses encontros via Tinder, e um pouquinho de medo de alguém que me conhece ou conhece a Talita nos ver.
Se a Márcia não se atrasar, tenho
agora nove minutos antes que ela chegue. Será que são nove minutos para eu
desistir? Acho que não. Estou bastante tranquilo. Real. E é um lugar super
gostoso aqui. Acho que esse climinha de fim de tarde de inverno também ajuda.
Digo, dá vontade de entrar logo. É pequeno, mas tem bastante gente já. E o
movimento dessa avenida, o barulho dos carros...sei lá, dá uma sensação boa.
Foi sugestão da Marcia, nunca vim aqui, embora pareça que sim. Será que? Ah tá.
Acho que uma vez eu e a Talita estávamos voltando do cinema a noite e ela disse
exatamente que parecia um lugar aconchegante. Parece que ela está certa...como
sempre.
Faltam sete minutos para a moça
chegar e eu estou aqui pensando na Talita. Claro, são seis anos de relacionamento.
Não dá para ignorar. Só que dos últimos meses para cá não tem diversão. Só
reclamações. A gente não relaxa mais um com o outro. Estou cansado. Estamos
cansados. Ela e eu. Acho que não tem ninguém errado na história. Só o natural
de uma relação.
Mas eu estou aqui. Há cinco minutos
de traí-la. Ou melhor, cinco minutos para o horário que marquei com a Márcia.
Talita está provavelmente em casa, acreditando que eu estou trabalhando até
mais tarde hoje. E eu aqui a traindo. Se tem alguém aqui errado sou eu. Se
crises são normais em um longo relacionamento, e eu que traio primeiro, eu que
sou o vilão. Será que eu que estou destruindo tudo?
Faltam três minutos. Talita nunca
fez nada de errado. Sempre foi amorosa. Em seis anos de relacionamento brigamos
tão pouco. E ela também é linda. Claro que não é perfeita. Mas eu ainda tenho
tesão nela. São dois meses brigando sempre e sem fazer quase nada nessa área,
mas não é um negócio irreversível. Não é como se o desejo tivesse acabado. Ela
é muito gata. E se eu for para casa agora com o jantar? Passo na pizzaria, levo
uma de frango com catupiry que ela adora, e digo que me liberaram mais cedo.
Mas e a Márcia?
Bom, ela está agora um minuto
atrasada. Por que mesmo eu estou aqui? Por causa de dois meses ruins? Arriscar
jogar fora toda uma relação incrível de seis anos por uma crise? E trair? Não
faz sentido. Eu sou um ser humano horrível.
Mas finalmente parece que a moça chegou. Reconheço
seu rosto, mas o curto vestido decotado me surpreende. É preto e mostra seios
muito maiores que imaginei e um lindo par de coxas.
Márcia vem até mim.
-
Oi... João... Atrasei? – Pergunta ela olhando o celular – ah não. Dois
minutinhos só. – Diz ela sorrindo.
Bom, é hora de entrar. Estou com
fome.
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