sexta-feira, 6 de abril de 2018

Celular vicia?

- Você tá viciado, amor. – Disse ela – Agora usando enquanto tá comendo.
- Sabe o que eu tava pensando noutro dia? Que se alguém de 2003 viesse pra hoje, 2018, ela ia concluir que todo mundo tá viciado em celular. – Respondeu ele.
- Ahn?
- Isso. Assim, vamos pegar você como exemplo. Você acha que não tá viciada em celular? Mas ele tá na mesa. Do seu lado.
- Mas eu nem peguei nele durante todo o jantar.
- Eu sei. Mas ele tá com você. Ligado. Você foi no banheiro depois que pediu a comida. Você levou. Usou enquanto estava no vaso.
- Primeiro, a gente tá comendo. Segundo, eu só fui retocar a maquiagem.
- Desculpa, mas se tivesse usado, teria levado, não?
- Mas eu faço um uso normal do celular.
- Exato! É normal. Mas para 2003 seria vício. Ninguém levava o celular pra ir no banheiro. Só se fosse pra jogar o jogo da cobrinha.
- E daí? Tô falando que você tá viciado hoje. Em 2018.
- Padrões mudam, meu amor. Em 2003 você seria uma viciada em celular. A gente tem que entender que a tecnologia muda muito rápido. Padrões sociais, porém, mudam mais lentamente. Tipo..
- Ah, cala a boca. Você é mestre em se safar com sociologia, Roberto.  Vamos parar de bobagem. Quem é Maria?
- Oi?
- Maria. Já te vi conversando com ela várias vezes esse mês. Já vi umas três vezes essa semana. Quando eu voltei do banheiro vi que você tava de papo com ela no Whatsapp.
- É uma amiga do trabalho.
- MENTIRA. Conheço todas elas. Você esquece quanto tempo a gente tá junto?
- Em hipótese alguma. Mas tipo, é sério. Ela é nova lá e tô dando uns toques pra ela.
- DOMINGO A NOITE, ROBERTO?
- Não precisa gritar, calma.
- Se é só uma amiga, tudo bem se eu vir a conversa, né?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu tenho que ter privacidade, Paula. Que coisa. Num relacionamento tem que ter confiança. Hoje isso é o maior problema como indivíduos...
- Se você não calar a boca e me dar esse celular agora eu juro que vou embora.
- Tá. Calma. Por isso que você não tem coisas boas, Paula. A Maria, ela, ela é violinista. Eu tô contratando ela, pra, pra te, te, fazer uma surpresa, e te te, pedir...
- PARA... Eu, eu, eu, eu con-confio em você, de-desculpa aliás, eu nem tinha celular em 2003...

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