Eu estava em uma semana difícil.
Fazia dois meses que eu tinha acabado tudo com minha ex e só agora que eu
percebia a falta que o sexo estava me fazendo. Demorou, você pode estar
pensando, mas na verdade, quando eu fico com a mente muito ocupada, não fico
com tanta vontade assim, e este havia sido o caso daqueles últimos dois meses.
Muito trabalho e muito esforço foram suficientes para que eu simplesmente não
tivesse vontade nenhuma e conseguisse manter minha mente sã. Contudo, agora que
estava finalmente de férias, não conseguia pensar em outra coisa.
Nunca
fui um cara muito sexual, não me masturbava com frequência, e mesmo quando eu
namorava, eu e minha parceira não tínhamos mais de quatro relações por semana.
E quando acontecia de ser menos que isso, nós não nos desesperávamos. Mas
agora, parecia que se eu não encontrasse alguém logo, eu explodiria. Eu estava
no meu quarto dia de férias, e nada que eu fizesse amenizava aquilo. Eu teria
que partir pra alguma medida mais drástica.
Não
queria uma garota de programa. Não era pra tanto... mas resolvi que era hora de
usar o Tinder. Fiz uma conta,
coloquei uma foto legal, me descrevi da forma mais interessante possível, e
comecei a usar o aplicativo. Porém, foi quando eu estava finalmente disposto a
dar meus primeiros likes, que a
vizinha da frente bateu em minha porta.
- Oi, Cris. Bem? Tem uma xícara
de açúcar? – disse ela me olhando de cima a baixo. Nada, porém, me tirava a
ideia do quão clichê aquilo era, só que eu estava tão necessitado, que mesmo
aquela abordagem bastante batida me deixou animado.
- Claro, Má. Pode entrar, vou lá
pegar – respondi também de uma forma diferente do que faria se o outro vizinho
daquele andar me pedisse algo. Maria era bastante bonita. Nunca havia reparado
nesse fato. Acho que provavelmente porque nossos horários não batiam, de modo
que eu nunca a via vestida com roupas normais. E nossa, o uniforme do
supermercado no qual trabalhava escondia um corpo bastante interessante. Se ela
estava de fato afim de mim, eu aproveitaria.
Decidia
isso enquanto ia à cozinha. Percebi que ela havia fechado a porta atrás dela e
agora se sentava no sofá. Será que seria hoje, aqui e agora? Pensei no meu
hálito, talvez não estivesse dos mais convidativos.
- Aqui, má. – disse eu olhando
para a moça com uma saia preta bastante justa, cujas pernas cruzadas mostravam
que ela malhava as coxas. Um sorriso com um batom vermelho indicava que, ou ela
estava muito contente com a xícara, ou ela de fato estava muito interessada em
mim.
- Ah, eu já tô bem docinha, você
sabe, né? – disse ela tirando a blusa de cima e me mostrando uma camiseta
vermelha bastante decotada. Ela se levantou, foi até mim, tirou a xícara da
minha mão, e me deu um beijo de língua bastante bom. Tirei a minha camiseta, e
quando eu já a direcionava para o quarto, ela parou.
- Vamos aqui mesmo. – disse ela
se soltando e deitando no sofá enquanto tirava a blusa mostrando que de fato
estava sem sutien o tempo todo. Obviamente eu pularia no sofá beijando seus
seios.
Mas...
Algo me parou. Estava tudo
perfeito demais. Uma vizinha gostosa, justo na minha semana em que eu estivera
mais excitado em muitos anos, entrava na minha casa, e em menos de 4 minutos já
estava quase pelada no meu sofá me esperando para transar? Aquilo simplesmente
soava muito estranho.
Além disso, me esforçando um
pouco, eu nunca havia trocado duas palavras com Maria, e tampouco me lembrava
de sua aparência.
Será que ela era real antes de
hoje?
Havia só uma explicação lógica:
Eu estava sonhando e, como sempre, acordaria quando a coisa começasse a
esquentar.
- Calma, vou pegar a camisinha.
Espera. – disse a ela já indo ao quarto.
- Ok, tô te esperando – falou
numa voz ainda mais sexy – vou ficar à vontade – disse tirando a saia.
Eu tive que me conter e ir ao
quarto. No caminho, prestei atenção nos detalhes daquele sonho. Todos os
quadros estavam ali. E o corredor era de fato idêntico ao do meu apartamento. Mas
algo me incomodou: Se é um sonho. E eu sei que é, porque vim buscar camisinha?
Por que não simplesmente subi naquela gostosa?
Quando cheguei na sala, com a
camisinha nas mãos, ela já estava totalmente nua e deitada de costas.
- Oi, gato. Vem por trás, vem. –
disse ela de um jeito que praticamente fez minha calça voar pela sala e colocar
a camisinha. Eu não entendi porque estava sem cueca.
Algo ainda me incomodava, mas eu
estava pronto para a ação. Enquanto me aproximava, eu não acordei, como
esperava. Pensei em quão ruim seria ter que me limpar quando eu levantasse de
manhã. Mas nada. Era o sonho mais longo que eu já tive.
Maria. Parecia uma personagem de
filme pornô. Será que eu estava em um reality? Havia câmeras escondidas? Será
que algum dos meus amigos havia me contratado uma prostituta? Talvez tenha sido
o... qual o nome dos meus amigos? E a Maria? Eu a conheço. Eu sinto que a
conheço. Ela é...minha vizinha. Minha, vizinha.
Mas eu não me continha, enquanto
tudo isso passava pela minha cabeça, e a essa altura, eu já estava transando
com ela, que estava quatro no sofá e gemia bem alto. Eu pensei em câmeras
escondidas, mas não as procurei. Estava ali apenas transando com ela. Meus
amigos? Eu não conseguia pensar em amigos... Comendo-a com força e num ritmo
veloz. Mas por que? Eu não conseguia me concentrar, mas pelo jeito estava
fazendo um belo trabalho.
Aquele sonho já estava durando
mais que qualquer outro. E eu simplesmente não acordava, e tampouco gozava.
Maria, eu, amigos... qual meu
nome? Eu...ela me chamou de Chris. A comia deliciosamente. E ela se virou de
frente. Eu? Quem? Isso não faz sentido. Eu não sou ninguém? Qual o nome de
minha ex? Ela arrancou a camisinha e começou a me chupar. Onde é isso? É meu
apartamento, mas...onde eu moro? Eu estava de férias...mas onde eu
trabalhava? E eu gozei em sua boca e ela
engoliu. E eu não acordava.
Foi quando tudo se congelou. Eu
estava aqui. Parado e satisfeito. Maria não tinha gozado ainda. E simplesmente
tudo parou. Eu não sabia onde estava, nem porquê. Nem quem eu era. Se eu de
fato era alguém. Mas minha história tinha acabado. Estou aqui há umas duas
semanas, ou sei lá. Não tenho como medir o tempo. Eu não me mexia. Descartada a ideia do sonho, já tenho minha
teoria. Se eu fosse um vídeo, estaria num loop. Claro, poderia ser um vídeo que
ninguém vê. Eu sou, inadvertidamente, um personagem escrito.
Um daqueles escritores horríveis me escreveu.
Horrível. Sim. Estou dizendo. Dois personagens sem profundidade alguma, sem um
passado. Situação clichê, texto...quase inexistente. E eu aqui. Parado.
Esperando alguém continuar a história. Se bem que...acho que ele nunca vai
continua-la. O autor deve ser algum cara nojento e excitado de uns 30 anos que
mora com a mãe. Me fez pra se masturbar. Terminou e agora não tenho qualquer
utilidade.
Mas espera. Essa última frase? Há
algo mais clichê que ela? Se bem que...o que esperar de um personagem criado
por um escritor horrível. Eu sou uma metralhadora de clichês. Eu sou um clichê.
O que esperar de um clichê? E essas repetições? Mesmo parágrafo, várias
palavras iguais.
Eu estou me perdendo. Acho que
devo eu mesmo parar minha história enquanto ainda posso. Enquanto ainda tenho
sanidade. Mas como eu estou escrevendo minha história? Ou eu seria um
personagem, dentro de uma outra história? Digo, e se houver duas histórias. Uma
dentro da outra? E se eu for um personagem criado por um autor fictício, para
que um segundo autor faça uma história metalinguística sobre um personagem e
E depois que eu gozei ela engoliu
tudo e fez uma cara de satisfeita.
-Foi bom pra você? – ela me
perguntou. Eu sorrindo e satisfeito assenti que sim e levantei para pegar o
cigarro, enquanto aquela gata ficava deitada no sofá me esperando e pensando em
quão incrível aquela noite tinha sido.
Congelei novamente. Que desastre.
Piorou muito. Queria que ele nunca tivesse voltado. Era melhor aquele final
climático do que esse lugar comum elevado à décima potência.
Me liberte, seja quem for você,
escritor. Me liberte. Pare de escrever. Eu não aguento mais. E você, seja quem
for, pare de ler. Por favor...
Por favor...
Obrigado.
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