Escrito por Pedro Henrique Silva
A polícia não demorou. Apesar de John Rivers estar muito ocupado com a burocracia do último assassinato. Há uns três meses.
- Senhor... D-43 – John não ligava muito para a etiqueta, mas achou melhor chamar aquele robô de senhor como os códigos de contudo recentes recomendavam.
- Pois não. É o oficial?
- Sim. O senhor tem uma denúncia, certo? – a palavra tinha um gosto estranho.
- Sim. Meu patrão, Cristian Cardozo, foi sequestrado.
- Foi o que me foi passado. Por que não sentamos ali e o senhor me conta toda a história? – Não era comum um policial ir até a casa do denunciante para tomar depoimentos. Mas era um robô mordomo, um desses que não saía de casa em hipótese alguma. E Cristian Cardozo era um dos escritores mais famosos do mundo. Seus livros vendiam muito. Agora estava mais focado em contos, os quais vira e mexi ocupavam o dailyfeed de John.
- Tudo bem. Mas será longa e cheia de reviravoltas. O senhor está pronto? – John nunca vira alguém tão empolgado para depor.
- É para isso que estou aqui.
- Queria deixar claro que não será tão longa assim. Me perdoe porque acho que não ficou claro o que eu disse ali.
- O senhor não me parece muito bem.
- É... eu estou bem. O senhor está pronto?
- Eu estou. Podemos começar. Eu vou gravar aqui, tudo bem?
- Sim. Eu estava contando com isso, senhor. – John apenas encostou no botão de seu NanoPC e um aplicativo da polícia já se encarregou de reconhecer que era a hora de gravar.
Dave estava finalizando seus planos para o jantar. Sempre fazia isso naquela hora. Cristian tentava enfim resolver o seu bloqueio criativo. Sem sucesso. Sua namorada chegaria em meia hora. Ele queria ter alguma coisa. Algum parágrafo. Algum personagem mais o menos delineado. Nada além da premissa. Uma que não lhe agradava tanto. Tivera a ideia durante um filme. Não gostou dos rumos do roteiro e pensou em como poderia ser diferente. A partir de seus planos quis seguir com uma história que nada tivesse a ver com o filme. Porém, tudo parecia demais com o que ele havia visto no cinema.
- O jantar está pronto, Cristian. – Disse Dave
- Joana vai chegar a qualquer mo...- e foi interrompido pela campainha. – Dave abriu a porta
- Trouxe vinho. Acho que o Dave não vai se importar, né Cris?
- Claro que não. – Claro que iria. Dave pensava em um jantar que combinasse com uma bebida e uma bebida que combinasse com o jantar. Perturbar isso sempre o deixava irritado.
O jantar foi servido. Não havia a harmonia necessária com aquele vinho do porto. Mas aparentemente foi tudo bem. O casal foi para o quarto. Já passava da meia noite. A luz estava acessa. Eles poderiam estar se divertindo.
- Eu não estou entendendo onde o senhor quer chegar. Joana então sequestrou Cristian? – John se perguntava o que aquele robô estava querendo dizer com “se divertir”. Sua programação original envolvia eufemismos? Ou o escritor havia o customizado de alguma forma?
- Não me interrompa, senhor. Desculpe. Acho que meu...relato, não está do seu agrado. Tudo isso é importante para o desenvolvimento dos... caráteres deles.
- Caráteres? Tudo bem. Continue.
Contudo, eles não estavam se divertindo do jeito convencional. Cristian e Joana tramavam a morte do marido de Joana.
John pulou da cadeira.
- Um minuto, senhor. Eles mataram o marido?
- O senhor aguarde que eu chego lá.
- Ok. – John odiava falar com robôs.
- Nos vemos de novo hoje à noite? – Perguntou Joana
- Acho que não. A princípio eu tenho uma entrevista marcada com um repórter a noite no jantar. Se ele cancelar eu te chamo e vemos. – Respondeu Cristian
- Então você acha que é assim? Só me chamar que eu venho correndo?
- Não. Não. Não. Eu nunca disse isso. É que não quero ficar sozinho.
- Você disse que é UM repórter, né?
- Sim, amor. É homem.
- Ok. Então, me liga se ele cancelar. Vou trazer um vinho que você vai adorar, Cris. Ouviu Dave?
- Sim, senhorita – Dave queria que Joana não viesse.
- Dave, acho que você ouviu. Disse Cristian fechando a porta - Hoje à noite temos um visitante. Ele vai me entrevistar sobre um dos meus contos do ano passado.
- Sim, Cristian. Eu ouvi. Tomara que ele não traga nada que atrapalhe meu menu
- Você fala de uma bebida?
- Sim.
- Ai Dave, relaxa. É costume... se ele trouxer você diz: “Eu tenho que admitir que esse vinho é muito bom, Senhor Johnson. Vai combinar com o jantar”. Ok? É um repórter importante. Não quero que ele se irrite.
- Tudo bem. Anotado.
- Senhor, me desculpe, mas o senhor poderia ir direto ao ponto – Era absurdo pra John que ele não podia simplesmente dar um comando e aquele robô soltaria toda a informação relevante. Sem que fosse necessário ouvir flertes daquela relação nojenta, e conversas sem sentido entre um cafajeste e seu robô.
- Eu vou continuar. Tudo isso é importante.
Na noite seguinte Dave cozinhava. Cristian não escrevia. E a campainha tocou. Antes de Dave chamar dessa vez.
- O senhor é Marcos Johnson, certo? – Perguntou Cristian, que sempre atendia a porta. Ele gostava de deixar Dave cuidando das refeições.
- Sim. Senhor Cristian. É uma honra conhece-lo. – Disse o repórter.
Marcos na verdade se chamava Poe. E ele era um detetive particular contratado pelo marido de Joana. Ou melhor, ele era mais uma espécie de mercenário. Ele tinha uma missão: Sequestrar Cristian.
- Eu trouxe um vinho como presente para o senhor. – Dave derrubou o Merlot que escolhera. As pessoas adoravam levar bebida para os jantares. Por que não umas baterias extras ou umas ferramentas? Seriam extremamente mais úteis para todos.
- O senhor não está sozinho? – Perguntou Marcos, que na verdade era Poe.
- Não. Dave! Marcos, esse é D-43, meu mordomo. Pode chamar de Dave.
- Às suas ordem, Senhor Marcos. Em que posso ajudar? Posso levar o vinho?
- Não, não! É, eu queria... Eu o servirei. Não tem problema.
- Mas, é meu trabalho servi-los, senhor.
- Tudo bem – Disse Poe. Dave percebeu sua hesitação. Ele estava recalculando seus movimentos.
Enquanto iniciavam o jantar, Dave ouvia as perguntas um tanto quanto desconexas e sem muito sentido do “repórter”. Dave sabia todas as respostas.
- Eu tenho que admitir que esse vinho é muito bom, Senhor Johnson. Vai combinar com o jantar – disse Dave mecanicamente ao servir o vinho.
- Obrigado, Dave.
Dave percebeu que Cris cheirara o vinho, nada de incomum. Cris fizera alguma piada sobre uvas, nada de engraçado. Cris dispensara Dave, nada de insólito. Um barulho veio da cozinha, Cristian desmaiara, nada de normal.
- Dave, eu tenho que levar ele no hospital. Deve ter comido algo que o fez mal.
- Mas é impossível, senhor. O Cristian não é alérgico a nada da refeição de hoje.
- Tem certeza? Bom, o fato é que ele está desmaiado. Preciso leva-lo ao hospital.
- Podemos solicitar uma ambulância.
- Não! Eu levo. Eu estou de carro.
- Não posso deixa-lo ir com o senhor.
- Eu vou leva-lo, Dave. A Ambulância vai demorar bem mais.
E assim colocou Cristian no ombro e abriu a porta. Dave nunca mais viu Cristian.
- Então você está me dizendo que o marido de Joana pagou um mercenário para sequestrar Cristian? Como ele era? – Perguntou o policial já impaciente.
- Senhor não deve estar tão entretido pela estória. Eu lamento.
Joana veio ao apartamento no dia seguinte.
- Dave? Cadê o Cris?
- Eu não sei, senhorita. Eu liguei para todos os hospitais ontem e hoje. Não achei o senhor Cristian em lugar nenhum. Temo que ele foi sequestrado. Mas segundo o protocolo temos que esperar 24 horas para comunicar a polícia
- Hospital? Quem levou ele no hospital?
- O repórter. Cristian comeu algo e desmaiou.
- Ah, o repórter... como ele era?
- Loiro. Cabelos curtos. Atlético, olhos verdes.
- Ai não, ai não, ai não, ai não.
- Senhorita?
Joana fugira com lágrimas nos olhos.
- Como é essa Joana?
- Desculpa, senhor. Eu não sou gosto de descrições. Acho elas desnecessárias. Ela tem cabelos negros e lisos. 1,6 m, olhos castanhos escuros. Seios médios, barriga lisa...-
-Ok, ok. Acho que está bom. Eu quero descrições mais detalhadas para o retrato falado mais tarde. Mas primeiro precisamos começar a procurar o seu patrão.
-Quem são os suspeitos, senhor?
- Bom, Joana teve uma reação muito estranha. Se ela chorou ao saber ela deve ter reconhecido a pessoa. Pela descrição dela, ela não deve ser parente. Só estranhei algumas coisas. Como o senhor sabia que o tal Poe era detetive?
- Eu não sei.
- Oi?
- Eu...desconfio.
- Baseado em que?
- Palpite. Eu li muitas histórias de detetive. Vi muitos filmes.
- Você tem alguma coisa para me falar?
Foi quando a porta se abriu e Cris entrou. John o reconheceu.
- Senhor Cristian Cardozo?
- Sim. Quem pergunta?
- O senhor esteve onde nas últimas 24 horas senhor.
- Quem pergunta?
- John, John Rivers. Oficial John Rivers.
- Aqui. E eu saí de manhã para encontrar Joana.
- O marido dela sabe disso?
- Sim. Eu sou o marido dela, senhor. Noivo, na verdade. Pedi hoje.
- Senhor D-43, o senhor sabia que é crime reportar falso crime?
- Dave, você tem alguma coisa para me falar?
- Cris. Eu fiz sua história. Eu escrevi sua história. Não é isso que você chama de “testar”? Você não estava em casa.
- John, perdoe o meu amigo aqui.
- O seu “amigo”, fez uma falsa alegação de crime.
- As leis se aplicam aos robôs?
- Mas o senhor pode ser responsabilizado pelas ações de seu robô, E o senhor sabe muito bem disso
- Policial, vamos conversar...
- Na delegacia?
- Tudo bem. Dave, eu já volto.
Dave preparava o jantar. Cristian chegou depois de horas na delegacia.
- Dave, eu fiquei muito curioso para ler sua história
- Cristian, me perdoe. Mas acho que te ajudei. Fiz uma história convincente.
- Sim, Dave, sim, você fez.
- Obrigado, Cristian.
- Eu perguntei ao oficial sobre sua história. Acho que ele ficou sentido por você tê-lo feito perder tempo. Ele simplesmente me enviou o arquivo de áudio. Eu ouvi no caminho. E tenho alguns feedbacks para você.
- Sim.
- Sua história é boa mas faltam descrições.
- Para que descrever, Cristian? Qual a finalidade?
- Imersão. Bom, outros autores têm intenções diferentes. Para mim é mais para fazer o leitor entrar na história que você está escrevendo.
- Entendi. Dá próxima vez eu faço diferente.
- Da próxima vez, pode me contar, ok?
- Ok, Cristian.
- A propósito, vi que você pegou coisas que de fato aconteceram para montar sua história e misturou com coisa que não ocorreram.
- Sim.
- Há algo que eu não saiba que é real?
- Não sei. Você sabe que a Senhorita Joana é casada, certo?
Longa pausa. Cristian abriu o Merlot, encheu o copo.
- Viúva, meu amigo... viúva.
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