sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Quarto da Vivian

Escrito por Ludmila Barros

O mês passado foi muito difícil. O dinheiro não deu e eu precisei até pedir emprestado para os meus pais. Eu, definitivamente, não queria fazer isso de novo. A alternativa era achar alguém pra rachar as contas de casa, e foi isso que eu fiz nas últimas semanas.

Finalmente havia encontrado alguém que parecia decente, não louco, nem esquisito ou nem estranho demais. O nome dela era Vivian Gomes, ela tinha 20 anos e era estudante de engenharia química numa faculdade pública, seus pais que a  bancavam em São Paulo e o valor mensal era até menor do que o pai dela reservava para o aluguel.

A única exigência dela era ter um quarto com fechadura e chave. Compreensível, né?

No terceiro mês morando juntas já a considerava uma amiga. Nós criamos o hábito de jantarmos juntas praticamente todos os dias, até em alguns finais de semana a gente fazia isso, e depois assistíamos séries na sala. Foram meses muito legais, nós nos conectamos muito bem.

Esses poucos meses iniciais foram suficientes para eu perceber que a Vivian tinha costumes bastante específicos e metódicos. Era sagrado, todos os dias em que ela estava em casa, entrar e se trancar em seu quarto perto da meia noite, nunca depois, sempre um pouco antes. Já nos hábitos alimentares, ela revezava entre as semanas: uma ela comia só carne vermelha, na outra só frango, na outra só peixe e depois uma semana vegetariana. Ela, de jeito nenhum, se perdia nessa de ficar mudando, ela sabia exatamente em que semana estava e qual eram as próximas, ela tinha sequência bem estabelecida na cabeça dela.

Outro fato curioso é o de que ela não me deixava entrar no quarto dela, não que eu ficasse pedindo. Mas teve uma vez em que eu queria um rímel emprestado e ela respondeu que estava no quarto dela, quando me levantei para ir pegar ela quase pulou da cadeira pra entrar na minha frente e dizer “pode deixar que eu pego pra você”.

Ainda sim, não dá pra julgar nada disso, ela era uma garota muito legal, eu gostava bastante dela, bastante mesmo.

- Vivian, tava pensando em chamar os meninos da frente pra fazer alguma coisa amanhã à noite. Quem sabe assistir alguma coisa, beber, pedir alguma coisa pra comer. O que você acha? Tem algum problema? - eu disse quando estávamos tomando café da manhã no sábado passado.
- Claro que não, eu adoro eles. - ela respondeu calmamente.
- Adora? Adora…? - eu perguntei enfatizando na segunda vez, não entendi o que estava acontecendo, mas aquele verbo me incomodou.
- E você não? Já vi você se jogando pra cima do André mais de uma vez, sem contar as vezes que vocês chegaram no meio da madrugada juntos… - eu me assustei - Ah não, você achou mesmo que era segredo? - ela deu uma risada amargamente gostosa.
- Eu não sabia que tava na cara assim. Mas a gente faz tempo que não sai, a gente nem se fala mais com essas intenções, acho que foi só um momento mesmo. - pausei um pouco tentando calcular minhas palavras - Apesar de que nós ainda somos bons amigos, não tem como brigar muito com alguém que está quase todo dia com você na faculdade.
- Amiga, você não me deve satisfações. - ela disse com um sorriso enorme no rosto.

Não passou um sequer minuto naquele dia sem eu sentisse o gosto ruim daquela última frase dela. Não era questão de dar satisfação, é só que, sei lá, ela morava comigo, ela merecia alguma satisfação.

Passei na casa deles e falei sobre a festinha à noite e eles toparam, fui ao mercado sozinha comprar as comidas e as bebidas, errei na mão e comprei bebida demais pra pouca comida, mas só fui perceber quando cheguei em casa de volta. Preparei tudo e fui tomar banho. Foi quando Vivian chegou de sei lá onde que ela tinha ido. Ela veio conversar comigo pela janela do banheiro.

- Você precisa de alguma ajuda? Com a comida ou alguma coisa assim? Eu posso sair, ir no mercado, não sei. - ela perguntou.
- Talvez comprar mais bebida. - eu respondi sem pensar.
- Tem certeza? Tem umas quatro garrafas de vodca aqui, acho que vou sair pra comprar mais comida né, se não todo mundo vai vomitar no nosso sofá maravilhoso.

Ela disse e já saiu, só ouvi a porta bater.

Depois disso eu fechei a janelinha e o banheiro começou a se encher de um vapor quente, os espelhos ficaram ainda mais embaçados e eu aumentei a temperatura do chuveiro. A água ficou extremamente quente, eu fiquei quente, doeu. Quando a água batia nos meus braços, na minha barriga e nas minhas pernas, a pele branca ardia e ficava vermelha, mas estava maravilhoso. Não me lembro de quanto tempo eu fiquei ali dentro, só sentindo aquela quentura do meu corpo no meu corpo, de dentro pra fora, de fora pra dentro.

Já de noite, com todos os cinco, eu acabei ficando presa conversando com o André enquanto a Vivian ficou conversando com os outros dois. Até que eu propus que nós jogássemos algum daqueles jogos em que o perdedor tinha que beber. Os times ficaram divididos entre meninas e meninos, e incrivelmente nós ganhamos praticamente tudo, os meninos ficaram tão mal que acabaram indo embora mais cedo, umas duas da manhã.

Ficamos só nós duas na sala. Ainda bebendo.

- Sabia que é a primeira vez que eu te vejo bêbada desde que você veio morar aqui? - Eu perguntei.
- Deve ser.  - ela respondeu com as bochechas vermelhas e provavelmente quentes.
- Sabia que essa deve ser a primeira vez que você não se tranca no seu quarto um pouco antes da meia noite? - eu arrisquei.
- Ah é? - ela olhou pra mim assustada - Você anota meus passos então?
- Não, não é isso, é só que eu acabei reparando… - eu disse muito envergonhada.

Depois disso ela falou para assistirmos mais um episódio de uma série que a gente tava vendo juntas. Quase no final eu acabei reparando que ela tinha dormido, ela se esticou e colocou as pernas em cima de mim. Eu terminei de assistir, sem muita concentração na televisão.

Quando começaram os créditos eu olhei pra ela, passei os olhos por cada pedaço dela ali deitada no meu sofá. E quando me inclinei um pouco pra frente percebi que a chave do quarto dela tinha caído de seu bolso. Uma chave simples com uma fita rosinha amarrada.

Eu não conseguia pensar direito, estava meio bêbada também, mas eu precisava ver o que ela mantinha lá dentro. Eu levantei com cuidado, acomodei os pés dela no sofá e a cobri com uma manta que eu deixava ali por perto. Me abaixei e peguei a chave. Cheguei na frente da porta, pensei, repensei e coloquei a chave na fechadura. Girei devagar para não fazer barulho. Coloquei a mão na maçaneta e esperei, tentei desesperadamente recuperar o fôlego.

- Por que você quer tanto entrar aí? - Vivian disse num tom calmo me olhando por cima do sofá.

Eu dei um pulo e senti meu coração também dar um pulo. Virei de costas para a porta, ficando de frente para ela.

- Desculpa. - foi a única coisa que eu pude dizer.
- Não tem problema. - ela disse igualmente calma, sensível e sedutora. Ela subiu pelo sofá e veio em minha direção - Se queria tanto conhecer meu cantinho, era só pedir.
- Desculpa, - eu repeti - não queria invadir nada. Eu só…

Ela tirou a camiseta e me forçou a lembrar de uma de nossas conversas em que ela confessou em tom de orgulho que não usava sutiã a mais de 4 anos.

- É isso que você quer? - não consegui responder - Então vamos ao que interessa.

Ela puxou minha mão e abriu a maçaneta de seu quarto. Foi quando entramos que eu percebi que estava irremediavelmente apaixonada pela Vivian.

Nenhum comentário:

Postar um comentário