Escrito por Ludmila Barros
“Tomai, todos, e comei: este é o meu corpo, que será entregue à vós.
“Tomai, todos, e comei: este é o meu corpo, que será entregue à vós.
Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos
e deu graças novamente, o deu a seus discípulos, dizendo:
Tomai, todos e bebei: este é o cálice do meu sangue,
o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos,
para a remissão dos pecados do mundo. Fazei isto em memória de mim.
Eis o mistério da fé!”
E então o padre distribuiu as hóstias e o vinho para mais dois ministros e, então, eles se dividiram por entre as fileiras, enquanto o pároco permaneceu na fileira do meio. A senhora foi, mesmo que sentada na extrema esquerda, para a fileira do meio, queria receber a hóstia das mãos daquele homem que ela admirava tanto. A igreja estava lotada e a fila comprida, cada passo que ela dava em sua direção, era um batida mais forte no peito.
Para ela, o momento da comunhão foi tão luxurioso que o fim da noite foi reservado para rezar mais de vinte ave-marias tentar se purificar de seus próprios pensamentos.
Ela frequentava aquela paróquia a mais de vinte e cinco anos, quando mudou para aquele bairro com o seu marido. O antecessor foi um senhor de mais de oitenta anos, um padre respeitado e conhecido além dos limites daquele bairro. Morreu de velho. E pela quantidade longa de anos, o senhor padre e o casal haviam se tornado grandes amigos. Por conta dessa amizade, seu marido se recusou a continuar frequentando a missa após terem substituído seu grande amigo por um novato, um garoto tão jovem e inexperiente, quase uma ofensa. Porém, ela se manteve semanalmente, no começo por fé, depois…
Já eram cinquenta e dois anos de idade, trinta e três de casada e um número incontável paixonites, nem mesmo a idade e a maturidade acabaram com essa imaginação adolescente. Era prazeroso, em sua mente, montar e desmontar, criar e destruir cenários, possibilidades e oportunidades, nas quais ela fazia loucuras, permitia prazeres e inibia negações. Tudo dentro de sua fértil imaginação e apenas lá, dentro de sua própria cabeça.
A cada semana, em todo domingo, ela chegava cedo, sentava-se na segunda fileira, propositalmente, estar perto, mas ainda com descrição, afinal ela era facilmente reconhecível, era, de fato, uma pessoa de certa fama. Nos jantares entre amigos e almoços de família, nada mais entrava em seus pensamentos além dos olhos de jabuticaba do jovem padre. A missa, então, tornou-se obrigatória, ouvir o sermão e renovar seu estoque mental de imagens era a motivação que a mantinha no decorrer da semana.
Numa dessas semanas ela criou coragem para falar de frente com o padre e pedir um momento especial para uma confissão em particular.
No domingo, após o término da missa, ela seguiu o fluxo e foi para a porta, mas não saiu, manteve-se na frente para a estátua da Virgem Maria até a igreja ficar absolutamente vazia. Voltou e foi em direção ao altar.
Ficou diante da imagem de Jesus na cruz, que ficava no fundo da igreja, subiu os degraus e passou as mãos sobre a mesa do altar, sentiu as rendas. Abriu a bíblia, o único objeto deixado lá, suas mãos passaram com leveza por aquelas páginas finas. E seus pensamentos se confundiram.
Ela se dirigiu à sacristia, abriu a porta e entrou. Ninguém. Apenas algumas coisas jogadas em cima da mesa, no centro, rodeada de cadeiras. Algo interessante chamou sua atenção, uma bolsa rosa pendurada numa das cadeiras. Ela puxou a cadeira e nela tinha uma blusinha, de um tom um pouco mais claro que o rosa da bolsa, de moça jovem, quase infantil.
Ela ouviu vozes, seguiu.
Andou pelo longo corredor e as vozes aumentaram.
Não foi necessário andar mais.
De longe ela observou uma cena que a deixou trêmula.
O padre estava sentado num banco, com a batina levantada, só se podia ver suas pernas cheias de pêlo, já que a visão para o seu tronco estava impossibilitada pelo corpo de uma garota, sentada em seu colo, com o vestido curto arriado até sua cintura. No chão, eram facilmente encontrados as peças íntimas dos dois, jogados perto dos pés do padre.
Nos domingos seguintes, ela começou a ser sentar do lado da tal garota, procurou tornar-se sua amiga, pelo menos uma colega de missa, já que ela sabia quem era a tal garota, era neta de um antiga vizinha, que foi sua colega de classe durante a época de escola, e realmente, aquela jovem garota tinha feições que lembravam essa sua colega. A neta tinha acabado de fazer dezenove anos, ela havia sido coroinha do outro antigo padre desde os doze anos, parou somente devido ao falecimento, por isso ficou quase um ano sem frequentar, como muitos dos outros fiéis. Mas desde que voltou, só frequentava como ouvinte, sempre da primeira fileira.
Durante quase dois meses sua atenção era só dela, já havia até reconhecido o padrão dos encontros deles. A garota sai com o fluxo, dava a volta no quarteirão e entrava na outra porta, que dava direto pelos fundos daquele anexo em que eles se encontravam. Sempre depois de todas as missas de domingo de manhã, mas essa era a única que a senhora tinha tempo de ir e seguir os passos da garota.
Mas ela desistiu de seguir a garota. Sua atenção voltou-se novamente para o padre.
Passou meses observando o casal, ela chegou até a entrar outras vezes no mesmo corredor para assistir aquelas cenas sórdidas e proibidas.
Até que sua ansiedade não cabia mais dentro de si.
Num dos raros domingos em que a garota não estava, logo que a missa acabou, ela foi direto para o altar conversar com o padre, pediu para que entrassem, queria privacidade, o jovem padre atendeu o pedido educadamente e eles entraram na sacristia.
- A senhora gostaria de se confessar nesta manhã?
- Não.
Ele não entendeu, ficou confuso e sentou numa das cadeiras.
- Muito bem então, no que posso lhe ser útil, senhora?
- Gostaria de saber desde quando o senhor pároco profana a santa sacristia. - ela perguntou enquanto andava devagar de um lado para outro do salão.
Ele soltou uma risadinha de canto, mas logo ficou sério novamente.
- Eu entendo que o antigo morador era muito mais querido pela comunidade, mas chamar meu santo trabalho diário de profanação é exagero.
- Não fale sobre o santo que foi o Padre Antônio. Tenho certeza absoluta que ele não trazia jovens garotas para dentro de um local tão sagrado como esse. - ele levantou rapidamente da cadeira, de modo a derrubá-la no chão - Sim, é sobre essa profanação a qual eu me referia.
- Eu não entendo do que a senhora se refere.
- Liliana, dezenove anos, filha da dona Antonela, cabelos negros, costas lisas e peitos empinados.
Foi com esse comentário que ele se irritou de verdade.
- Eu exijo que se mantenha o respeito…
- Eles balançam de uma forma sensual, eu também tinha um corpo maravilhoso aos vinte anos.
Mesmo antes de ela terminar a frase, ele se aproximou bruscamente e sua feição se tornou escura e agressiva.
- A senhora carola acha que sabe demais.
- Meu nome é Maria, pode me chamar assim.
- A senhora Maria Carola acha que sabe demais.
- Eu sei o que eu sei, por que eu sei o que eu vi, - ela tornou-se igualmente séria e agressiva - Você não está falando com uma garota, eu não sou qualquer uma, tenho cinquenta e dois anos. Não me trate como uma qualquer.
- E então o que a senhora deseja de mim?
Ela sentiu um ponta de prazer, ter um homem assim em suas mãos, numa situação sem saída. Sedenta para realizar seus desejos, ela só tinha uma coisa para falar:
- O mesmo que ela tem.
- Me desculpe, mas eu não entendi…
- Você entendeu sim. - ela passou sua mão por seu peito coberto pela batina - Eu quero o mesmo que ela, na mesma sala que ela, com a mesma empolgação que ela.
- A senhora está maluca.
Ele virou e se afastou, ela, rapidamente, passou a mão na bunda dele e deu uma risada.
- É mais fácil não resistir. Primeiro porque você não tem saída, mas, o mais importante, é que eu sou muito melhor que ela, isso você pode ter certeza.
Ele ficou chocado, sua expressão foi de perplexidade para completo deboche.
- A senhora está de brincadeira comigo? A carola de cinquenta anos realmente acha que está aos pés de um mulherão de dezenove anos? - ele chegou bem perto do rosto dela - Suas rugas na cara, suas mãos envelhecidas e esse corpo idoso que vão me dar pesadelos nas próximas noites não provocam em mim nada mais do que nojo.
Ela engoliu o orgulho e continuou na ofensiva.
- Meu querido padre, o senhor não tem outra opção, eu não lhe dei outra opção.
- Não importa, você não entende, você quer tentar? Ajoelhar e rezar? Não importa o quanto você fique tentando, minha virilidade tem limites, e a idade é um deles. Não importa, meu corpo não vai se levantar para dar prazer a uma velha, pelo menos não por vontade própria.
- Certamente o celibato não é um limite.
- Eu não sou limitado por tais regras, meu corpo é jovem demais para perder meu tempo de auge. E agora eu peço que a senhora se retire, por gentileza.
- Eu não vou sair daqui. - ela tentou argumentar - Mas o senhor não tem outra escolha, se eu sair daqui sem o que eu quero, o senhor nunca mais entra nessa ou em nenhuma outra igreja.
- É mesmo? Você tem certeza? Tem certeza que vai se expor ao ridículo? Acha mesmo que vão acreditar nessa sua história alucinada? A demente, a velha com problemas mentais inventando histórias malucas sobre o jovem padre, querido pela comunidade. Vai lá, sua louca, vai lá me denunciar, estou ansioso para ver se a carola louca vai abrir a boca.
Depois disso ele simplesmente saiu andando pelo corredor, entrou numa das salas e fechou a porta, ela ficou paralisada, aquela última rajada de xingamentos ofensivos foi pesado demais para ela, sempre elogiada por outros homens, inclusive homens da idade daquele padre. Ser chamada de velha machucou em seu ego. Ela recolheu sua bolsa e saiu da igreja.
No domingo seguinte ela foi na missa e seguiu a garota, viu que os encontros continuavam. O padre agia como se nada tivesse acontecido.
Ela nunca mais compareceu a nenhuma missa naquela paróquia, deixou os cabelos brancos crescerem, abandonou seus hábitos femininos, suas unhas estavam compridas e tortas, sua boca perdeu o batom e os olhos, o lápis preto. Envelheceu mais rápido em cinco anos do que nos últimos trinta. Sua imaginação antes adolescente, tornou-se amarga e ranzinza.
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