Escrito por Ludmila Barros
Ontem mesmo me aconteceu uma coisa muito curiosa, eu preciso contar para alguém. E, infelizmente, esse é o único meio. Meu único ouvinte no momento é você, querido leitor, se é que você existe, se é que é homem, mulher, adolescente ou adulto. Tanto faz, o que eu preciso de verdade agora é um par de ouvidos, que convenhamos andam-se difíceis de serem achados. Nesse mundo atual, onde tudo é instantâneo, rápido e imediato, achar pessoas que tenham a paciência de apenas ouvir o que o outro tem a dizer é raridade. Tudo se resume a si mesmo. Mas não tem problema. Eu tenho você, leitor.
Vamos lá. Ontem mesmo me aconteceu algo muito estranho. Quando eu estava voltando da faculdade. Sim, eu faço faculdade, leitor, estudo Comunicação numa faculdade particular aqui de São Paulo. Aliás já está na hora de me formar. Para dizer a verdade, eu já não aguento mais, uma graduação teórica como essa é bastante complicado de manter na linha. Mas nesse ano completarei meu quinto ano e teoricamente é o ano de formatura. Meu pai mesmo já me disse que não quer pagar mais a mensalidade. Apesar de eu trabalhar, sim, leitor, eu trabalho, eu não pago a mensalidade. Meu salário de estagiária não seria o suficiente para cobrir as despesas da faculdade, então meu pai decidiu continuar pagando integralmente.
Se bem que meu estágio também é bem ruim, paga mal e o trabalho não tem muito a ver com a minha área de estudo. Mas o dinheiro entrando é sempre melhor do que nada, mesmo que eu não podendo estudar o que eu amo de verdade, que é a sociedade. A minha paixão real sempre foi, mesmo antes de ingressar no meu curso, projetos sociais e estudo de sociedade. Durante a época de vestibular eu pensei em prestar para Ciências Sociais, mas isso era demais pra mim, eu já tenho dificuldade de achar emprego bom estudando Comunicação, imagina a dificuldade estudando Sociais.
Eu aprendi do jeito mais difícil que esse meu sonho não daria certo. Estava no primeiro ano quando me envolvi com um projeto social para ajudar crianças carentes de um bairro perto da minha casa. Obviamente eu me voluntariei e fui toda feliz fazer os trabalhos, foram apenas 4 meses nesse projeto, mas eu fui do céu ao inferno. No último mês eu estava tirando dinheiro do meu próprio bolso para financiar parte da coisa. Tornou-se insustentável. No mês seguinte me encontrei mandando currículo para todas as ofertas de emprego que encontrava. Algumas até com piores condições da que estou atualmente.
Mas deixa eu voltar ao assunto, ontem mesmo me aconteceu algo bastante peculiar, estava voltando da faculdade para casa, o escritório do estágio estava em reforma e hoje, particularmente, ninguém iria trabalhar para que os pedreiros pudessem mexer nas coisas mais estruturais. Essa reforma estava uma loucura, já estava no quinto mês. Praticamente todo dia minha chefe ficava resmungando que aqueles caras estavam tentando nos enganar, sempre esticando o prazo da entrega e precisando comprar cada vez mais material. Mas ela sempre terminava dizendo que isso era problema da chefe dela e ela não podia falar nada, não é mesmo? Afinal, quem era ela pra discordar de sua superior.
Está aí uma coisa que eu não entendo, como duas pessoas que não se gostam podem trabalhar juntas? Ainda mais numa relação tão próxima como a delas. Todos os dias era necessário se fazer uma reunião entre elas, minha chefe precisava passar para a chefe dela o relatório diário dos nossos afazeres. Para isso, ela revezava entre as estagiárias, cada dia da semana uma de nós tinha que acompanhar ela nessa reunião. Era terrível, o clima é tão ruim, tão pesado que você consegue segurar com as mãos pra ele não cair na sua cabeça.
Mas enfim, eu estava voltando da faculdade pra casa, eu tinha conseguido sentar no metrô na linha vermelha, o que já é um milagre, tem que se admitir. Já que não dá nem pra começar a falar sobre esse metrô de São Paulo. Ele só funciona quando você não precisa, por que logo de manhã, quando você está com aquela pressa de ir para aquela aula daquele professor que encrenca com quem chega atrasado, ele quebra, a energia acaba, impedem o fechamento das portas, descarrila um vagão ou tem cachorro nos trilhos. Já passei cada perrengue que você nem imaginaria, leitor.
Eu já até pensei em começar a escrever para um blog sobre as minhas histórias do metrô, por que, olha, eu tenho um repertório bem interessante. Tanto das que eu vivi pessoalmente quanto das que já me foram relatadas por colegas de faculdade, de trabalho, parentes e familiares. E mesmo quando acabassem os contos reais, eu poderia inventar algumas, sempre tive uma coceira nas mãos para escrever ficção. Mas com a minha rotina seria impossível achar tempo para manter um passatempo que exige tanta dedicação como a escrita ficcional.
Apesar de que eu tenho um ótimo exemplo. Outro dia eu fiquei sabendo que uma garota mais velha que estudava no meu colégio, a muitos anos atrás, largou tudo para viver de blog. Eu lembro que ela gostava bastante de escrever e sempre que podia participava de concursos. A escola inteira sabia. Ela se formou em jornalismo, tinha um trabalho razoável mas largou tudo um pouco depois que casou. Leitor, você acredita que a garota se casou com 22 anos de idade? Teve véu, grinalda e uma festa de arromba, os boatos dizem que foi o pai dela que pagou tudo sozinho. Com 22 anos eu não tinha nem carro, e isso foi a dois anos atrás, e eu ainda não tenho um carro. Nem aluguel eu imagino como pagar. Nem a mensalidade da minha faculdade eu consigo bancar.
Agora eu fiquei triste, será que eu estou demorando demais pra ser “alguém na vida”? Nem me formar eu to conseguindo, essa faculdade está me tomando tempo demais. Talvez um tempo precioso demais para ser gasto com isso, gasto financeiro, físico e mental. Quem sabe se eu não largar eu consigo não consigo viver do meu próprio negócio? Eu sei que tenho algumas histórias guardadas em alguma gaveta ou em alguma nuvem. Se eu dedicasse tempo o suficiente para isso, eu seria boa. Muito boa, modéstia à parte.
Eu sei que me comunico muito bem, objetiva e claramente. Afinal eu estudo isso. Mesmo no colégio eu gostava muito das aulas de redação e das de português, sempre gostei dessas coisas de narrativa e tudo mais. Não deve ser tão complicado assim articular uma história. Eu vejo gente desqualificada fazendo isso o tempo todo nas minhas salas da faculdade. E, sendo honesta, eu já vi até professor fazendo isso. Mas é isso! Leitor querido, eu vou largar essa faculdade para me tornar um grande escritora. Vamos lá, vamos começar com um blog, para começar eu tenho que criar um nome, dar um nome que seja a minha cara, que transpareça o que eu quero atingir com isso. Ah, que difícil, sempre fui meio ruim com essa coisa de criatividade, principalmente para nomes. Se bem que, talvez, esse nome que eu pensei dê certo, me diz se você gosta, leitor. Porque serão vocês que serão o público. O que vocês acham de...
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