sexta-feira, 28 de abril de 2017

Bernadete

Escrito por Pedro Henrique Silva

1.Eu, Bernadete, de Israel e meretriz, venho dizer que morri faz um bom tempo..Falarei sobre um episódio específico da minha vida. O qual vós não conheceis e que por isso tampouco contam da maneira correta.Primeiro porque interpretais minhas atitudes de forma incorreta. Segundo que vocês não ouviram meu lado. 2. Agora contar-vos-ei a história de mais uma meretriz das escrituras.
           3. Me lembro de três outras prostitutas na bíblia: Raabe, que ajudou os judeus, Maria Madalena, aquela que Jesus disse para não julgares. E Raica. Minha excelente amiga desde muito cedo. 4. Éramos órfãs. Meu pai morreu, enquanto ela nunca teve um. Ficávamos na rua até que tivéssemos idade para começar na profissão. Então conseguimos repousar numa hospedaria. 5. Uma daquelas que aceitavam toda qualidade de pessoas. Dividimos o quarto. Um dia eu o usava com clientes e no outro ela o fazia. 6. Nos dias de folga viajámos até os mercados para comprar comida e roupas.
           7. Tínhamos apenas 17 anos quando o Capitão Gorti chegou a nossa vida. Ele era o guarda pessoal do Rei Salomão, casado com mais quatro mulheres, e tinha 12 filhos. Mas mesmo assim, ele foi nos procurar. 8. Primeiro fui eu, depois Raica. Lembro de ter chegado em casa a noite do dia em que eles tiveram o primeiro encontro. Ela estava com um olhar diferente.  9. Gostou demais do tal Gorti. E eu sabia exatamente o porquê. Ele sabia como tratar uma mulher.
          10. Dois dias depois ele apareceu na nossa porta momentos antes de minha saída. Nos surpreendemos pois os homens que haviam nos tratado de forma justa pela primeira vez eram o mesmo homem. 11. O Capitão Gorti tirou o capacete apenas dentro do quarto e nos fez uma proposta.
12.-Então, eu queria saber se eu poderia ter-vos.
13.- Todavia o senhor já não nos teve? – Perguntei
14.- Sim, mas vos queria ao mesmo tempo. Queria que nos deitássemos os três juntos – disse ele, arrancando-nos expressões de incredulidade. A de Raica era porque aquilo lhe soava uma abominação. Já minha expressão se referia ao fato de que eu estava perplexa por nunca ter pensado aquilo..
15. Demorei duas semanas para convencê-la. Ela finalmente concordou com a condição que não nos tocássemos durante o encontro. Eu concordei.
16. E assim o Capitão apareceu uma noite em nossa porta novamente. Aquele dia nenhuma de nós saiu. Apenas o esperamos até o fim da tarde. Conheci a nudez de Raica pela primeira vez. 17. O vi pela primeira vez se deitando com outra mulher. Na verdade, foi a primeira vez que vi um homem e uma mulher se deitando.
18. Também me envolvi na relação. Passamos até a manhã do dia seguinte. A maneira com a qual ele nos acariciava provavelmente só ele fazia em todo Israel. E eu e ela podemos gozar de todos os prazeres que poderíamos. 19. E ele também. Finalmente ele partiu pela manhã, nos deixando ali. Raica apaixonada por ele. Eu por Raica, e por ele. Não soube interpretar meus sentimentos.
2 Infelizmente o Capitão nunca mais voltou. Mas sua semente estava plantada em nosso ventre. E poucos meses depois descobrimos que estávamos grávidas. Mais alguns meses e nasceram dois lindos bebês. O meu, três dias depois do dela.
2. Foi quando nossa história começou a mudar. Eu tentei encontrar o capitão novamente. Mas não consegui. Tentei me relacionar novamente com Raica. Igualmente fracassada. Procurava me insinuar, seduzi-la. Mas não conseguia. 3. E aquilo que eu sentira nunca mais voltaria. Eu ainda sonhava com aquela noite. Quando João nasceu, eu não quis fazer mais nada a não ser cuidar dele. Era como se todo meu amor fosse canalizado a ele. Meu amor por Raica foi substituído por uma pequena raiva que aumentava a cada dia. 4. Para Raica parece que nada tinha tido importância. Além disso, ela não demonstrava tanto amor por seu filho. E também nem parecia que ela tinha saudades do capitão ou de mim. Ela dizia que tinha vários outros bons clientes. No meu caso eram sempre os mesmos. 5.Os mesmos me tratavam como um trapo. Além disso, ela não mais recebia clientes no nosso quarto, mas em outros lugares.
6. E é aqui que nossa história começa a mudar. 7. Comecei a dormir com meu filho na mesma cama.Não queria perdê-lo. Porém, aconteceu um dia que eu acabei rolando e deitando em cima dele na cama. Meu filho não pôde respirar e acabou morrendo. Quando eu acordei e me vi deitada sobre ele, não consegui evitar o desespero. 8. Meu filho morrera. Mas não o de Raica. Ele estava no berço. Dormindo serenamente. Foi então que troquei João por ele. Raica tinha ido atender um cliente rico, segundo ela. E eu estava ali, sozinha, chorando, desesperada. Troquei meu filho pelo dela.
9. No dia seguinte acordei com Raica gritando. Ela descobrira, e duvido que tenha demorado. 10. E foi aí que vi meu desespero de noite passada em seu rosto. E me arrependi. Amargamente. Quando dei conta já estavam na presença de Rei Salomão. Parece que uns vizinhos chamaram os guardas, os quais não puderam resolver nossa disputa.
11.Salomão ouviu com muita paciência. Eu tive que continuar com a mentira. Não poderia voltar atrás. Seria apedrejada. Minha chance era que o Rei não quisesse resolver e nos ignorasse.. Quando dei por mim ele estava pedindo uma espada ao seu guarda pessoal. 12. Percebi que foi a primeira vez que levantei meus olhos em todo o dia. Era o Capitão Gorti indo até o bebe com uma espada.
13. -Dividi em duas partes o menino vivo, e dai a metade a uma, e metade a outra.- havia dito o Rei.
14. Raica gritou. E novamente ali estava o mesmo desespero de mais cedo. Mas mais acentuado. A medida que a lâmina do Capitão chegava perto da criança eu pude ver a expressão de Gorti. A mesma de Raica. Eu ouvi-la dizer:
- Ah, meu senhor! dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis
15. Pensei em protestar. Algo me dizia que a melhor resposta seria uma que fizesse uma mãe se mostrar. Eu deveria reparar meu erro.
-  Não será meu, nem teu; dividi-o.
16. As últimas palavras quase não saíram. Eu não pude olhar a lâmina cair sobre o bebe. Eu esperei ouvir seu choro parando, e foi o que aconteceu.
17.- Dê o bebê à verdadeira mãe.- Bradou o Rei. O que eu vi em seguida foi Raica sorrindo como eu nunca tinha visto, e correndo ao encontro do bebê. E o Capitão lutando com todas suas forças para não abraça-la. Por fim, os guardas foram ao meu encontro para provavelmente me prenderem. 18. Contudo o Rei fez sinal para que parassem, me olhou bem nos olhos e disse:
19.- Deus sabe o que você fez. Deus reconhece seu amor. E hoje ele me diz: Vá, e não peques mais.
20. Só queria mesmo era revelar o quanto sou injustiçada por esses pregadores de hoje, de ontem, e de sempre. Esses que mais estão preocupados em me rotular do que em me entender. Sou apenas mais um caso bíblico para eles. Eles buscam entender o Rei e a mãe. “O Rei foi muito sábio”, uns dizem... “Uma mãe nunca ficaria desamparada” outros falam. 21. Mas a verdade mesmo só eu sei. Que a paz do senhor esteja convosco. Amém.

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