Escrito por Ludmila Barros
Eu até já conhecia a rotina do casal, mais da Roberta do que do Thiago. Mas o tempo que eu havia passado ali era mais que suficiente para entender como tudo funcionava. Mas naquele final de semana as coisas estavam fora do planejado. Naquela noite de sábado não seria só assistir série e comer salgadinho para depois cair no sono no sofá mesmo. Mas sim um jantar entre amigos. Roberta havia comprado algumas garrafas de vinho, como era comumente apreciado durante os jantares, e alguns petiscos. A coisa seria mais na conversa do que no jantar mesmo.
Eu acompanhei a Roberta se arrumando, ouvindo os passos do banheiro pro quarto, do quarto pro banheiro de novo, e às vezes pra cozinha. Ela realmente tinha caprichado. E, justamente, quando tinha acabado de arrumar as comidinhas, na mesa da sala, a campainha tocou. Ela atendeu a porta e pelo que eu ouvi, o Felipe tinha chegado. Foi só burburinho até eles chegarem, de fato, na sala. Ele tinha outra garrafa na mão.
- Eu trouxe esse vinho dessa vez! - Felipe disse rindo.
- Pode abrir já, tem taças e o abridor tá ali na mesa, pode servir para nós dois, por enquanto - Roberta falei meio agitada indo para a cozinha - Pode sentar no sofá, ligar a tv. Coloca uma música!
E foi isso mesmo que ele fez. Ele abriu a garrafa, serviu em três taças e sentou no sofá. Pegou o celular e demorou um pouco ali, estava escolhendo uma música. Finalmente escolheu e jogou para a televisão.
- Essa música é uma das favoritas do Thiago, eu me lembro de quando ele me apresentou essa banda.
Depois de alguns barulhos de louça na cozinha, Roberta finalmente voltou para a sala. Pegou uma das taças e se sentou ao lado de Felipe. A cena, da minha posição era bonita, os dois sentados no sofá, com taças cheias na mão e uma taça cheia, porém solitária, perdida na mesa, que parecia a quilômetros de distância. Se eu pudesse, tiraria uma foto. Ao se sentar ela sorriu e comentou:
- Lembro de ter conhecido essa banda na faculdade, uma amiga me apresentou.
- Pensei que era coisa do Thiago gostar dessas bandas estranhas - ele riu e ela tomou um gole a mais do vinho - Aliás, ele não…
- Você não quer comer já? - ela o interrompeu, colocou a taça na mesa e se serviu de um salgadinho com algum molho verde - Esse aqui é muito bom.
Ele seguiu o conselho e se aproximou para imitá-la, pegou a mesma coisa. E eles ficaram alguns minutos nessa de ela explicar o sabor de cada um dos petiscos e cada um dos molhos. A variedade era pouca, mas ela fez questão de ganhar um tempo e um fôlego com aquele assunto. Nessa altura ela já tinha terminado a primeira taça, pegou a garrafa e encheu de novo, completou a taça dele também.
- Me conta também! E aquela entrevista de emprego no centro que você foi fazer ontem? Foi boa?
Ela sentou de volta no sofá e, quando foi a vez dele voltar, deu para notar pelo rosto dele mesmo que a distância entre eles havia diminuído.
- Ah, foi ótima, eu tô realmente achando que vai dar certo, a empresa tem um estilo bem parecido comigo, e com o Thiago né, foi por isso que ele me indicou - depois de outro gole - Aliás, o Thiago ainda não voltou do trabalho?
Ela mandou para dentro todo o resto do vinho antes de responder.
- Na verdade - ela voltou a encher taça - Ele não vêm hoje.
- Sério? Aconteceu alguma coisa pra ele desmarcar assim em cima da hora? - ele parecia realmente preocupado.
- Não, não aconteceu nada não. Mas… ele não vêm hoje, nem amanhã, nem nunca mais, eu acho - ela deu uma risada sem graça.
- Como assim? - Felipe colocou a mão no joelho dela.
- A gente brigou, faz algum tempo já - ela colocou a mão por cima da dela - e aparentemente vai virar um divórcio mesmo.
- Eu nunca vi vocês brigarem, de verdade. Que estranho ouvir isso. Faz quanto tempo? Como eu a Rebeca não ficamos sabendo disso?
- Foi a pouco tempo atrás, umas três semanas no máximo - enquanto Roberta falava ele foi pegando mais na mão dela - Ele acabou decidindo sair de casa, levou pouca coisa, ainda tem bastante coisa dele aqui
- Mas tá tudo bem? - ele sentou mais perto dela.
- Acho que sim, ainda não dá pra saber o que no que vai dar né. Mas eu tô bem.
Eles ainda conversaram mais um pouco sobre as circunstâncias da briga e do fato de ele ter decidido sair de casa. Mesmo que naquele caso, ela ganhava muito mais dinheiro com o trabalho dela do que ele com sua aspiração a escritor. Eu assisti muitas brigas, de verdade, brigas ferozes, de gritos e portas batidas. Em uma das vezes eles chegaram ao ponto de se bater, nada demais, mas os dois sempre acabavam se machucando.
- Mas enfim, isso já foi a três semanas, eu já estou vivendo aqui sozinha, não tem nenhum problema. Tá até mais limpo pra dizer a verdade. - Roberta disse dando uma risadinha para tentar encerrar o assunto. Ele só conseguiu dar um sorriso amarelo.
- Mas espera um pouco - ele ficou sério - você disse que isso aconteceu a três semanas, mas esse encontro aqui você marcou semana passada. Foi pra contar isso mesmo? Por que não contou antes? E por que não marcou num dia que a… A Rebeca disse que você sabia que ela tinha esse compromisso. Por que você marcou isso hoje? - ele se afastou um pouco.
- É que… - ela não conseguiu terminar.
- Roberta, o que… Fala! - ele levantou e ficou na minha frente.
- Eu queria, eu precisava contar isso pra alguém, - ela também ficou de pé na frente dele - mas na verdade eu queria contar pra você mesmo.
- Roberta, cuidado com o que você vai falar. - ele se afastou e em direção a sua carteira - Acho que é melhor eu ir embora.
- Não!
Ela deu um passo mais largo e agarrou o braço dele. Nesse momento, sem querer, ela chutou meu vaso e eu cai no chão. Minha terra se espalhou toda pelo chão e eu senti minhas raízes se bagunçarem toda. Mas, felizmente, eu cai de costas, meu rosto ficou pra cima e eu consegui acompanhar o resto da conversa. A Roberta só olhou para o chão, porém, sua atenção não se prendeu em mim por mais de alguns segundos.
- Você não pode ir embora assim - ela disse enquanto segurava o braço dele, já ele nem havia se importado em notar que eu tinha sido chutada.
- Roberta - ele fez uma pausa e virou de frente - Por que? Por que fazer isso comigo?
- O que a gente teve foi bom demais, eu sei que você lembra, eu sei que você gostava de mim também. - ela agarrou o pescoço dele.
- Isso deve ter sido a mais de 9, 10 anos atrás. A gente era adolescente, nem conhecia o Thiago e a Rebeca. Sem contar o fato de que eu sou casado! - ele arrancou os braços dela dele.
- Não… - ela disse se jogando de novo para cima dele.
- Não é você que é a amiga da Rebeca? Você que me apresentou pra ela. Quer me fazer trair ela? Não pensa que você também vai estar traindo ela?
Mas dessa vez, mesmo vendo de um ângulo bastante ruim, deu para perceber que ele não se afastou mais. Ele estava tentando se convencer ao mesmo tempo que estava tentando convencer ela. Eu já havia ouvido alguns pedaços dessa história antes. Antes de eles conhecerem os respectivos - ou ex respectivos - companheiros, eles foram namorados por bastante tempo. Durante o colegial eles viviam aqueles relacionamentos iô-iô, iam e voltam, sempre naquela paixão forte de primeiro amor. Nada nunca foi dito explicitamente, mas eu tenho aqui para mim que eles foram os primeiros um do outro.
- Não tem nada a ver com ela. Você sabe disso! - ela passou a mão pelo rosto dele e ele fechou os olhos. - A gente tem que resolver o nosso caso. O que a gente tinha era forte demais, ainda é. E, falando por mim, aqui dentro nunca diminuiu, só ficou reprimido.
- Eu nem sei o que te responder - toda vez que ele tentava se desvencilhar, nunca com muita vontade, ela se enroscava em seu pescoço e cabelos.
- Não precisa falar, só precisa corresponder. Só me mostra que você também sente isso que eu tenho dentro de mim.
Ele passou a mão no rosto dela, pelo seus cabelos, por suas costas. Por uns bons segundos eles ficaram somente se olhando. Até que enfim ele puxou o rosto dela para um beijo.
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