sexta-feira, 12 de maio de 2017

Teste de Turing

Escrito por Pedro Henrique Silva

      Você sabe o que é o Teste Turing? Então vou deixar a Wikipédia te ajudar: “Teste de Turing testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste. No exemplo ilustrativo original, um jogador humano entra em uma conversa, em linguagem natural, com outro humano e uma máquina projetada para produzir respostas indistinguíveis de outro ser humano.”. É importante que você saiba isso antes que eu comece a minha história. Afinal, não é todo dia que se participa de um.

     Todo mundo fazia. Todas as minhas colegas deveriam ter feito. Não é algo nem errado e nem mal visto. Já tinha sido trama de novela, e de uma comédia romântica do Adam Sandler – que na sua idade já deveria ter piscado para a Academia e feito alguma coisa que ficasse longe do Framboesa. Eu estava ali no Bar do Paulinho, esperando Fernando Rocha, homem hetero, que é Corinthiano e gosta de música clássica. Confesso que a aparência me agradou, mas o fato de um assíduo frequentador de Itaquera que curte Beethoven me deixou mais intrigada e interessada.
- Beatriz? – Disse uma voz grave atrás de mim
- Isso, e você é o... – respondi
- Fernando. Fernando Rocha.
- Beatriz, Beatriz Lopes. Fã de 007?
- Oi?
- Você curte 007, Fernando, Fernando Rocha?
- Ah, não. Não muito. Desculpe.
- Achei que um amante de música clássica adoraria 007.
- Eu não vejo a relação.
- Ué? tem o tema que é bem legal. Tem uma trilha sonora bem marcante. Além disso, você parece um agente secreto.
- Mas se eu de fato parecesse com um agente secreto talvez eu não gostasse de James Bond e todos os seus 27 filmes.
- Porque talvez na sua humilde opinião o filme não retrate muito bem o dia-a-dia de um agente secreto britânico?
- Então eu diria o quão incomodado eu estava com o fato de ele transar com todas as mulheres lindas e com todas aquelas coisas tecnológicas.
- Ele transa com coisas tecnológicas?
- Não, não foi... – disse ele ficando um tanto vermelho. Eu abri o sorriso e ele percebeu minha brincadeira e meu flerte. Se bem que o flerte já deveria estar muito claro naquela hora. Ele parecia meio enferrujado, porém. Parece ter demorado para perceber.
   E assim se seguiu nosso encontro. Eu seguia o provocando. Fiz um comentário espirituoso sobre a atual fase do Corinthians e eu, como boa santista, o provoquei com o último jogo na Vila mês passado. Na verdade, ele tinha detalhes do jogo que nem eu mesma possuía. E olha que foi meu time que ganhou por 3-0.
     Depois brinquei sobre o fato dele gostar de Beethoven, perguntando o que ele achava do remake do ano passado.
- Mas eu gosto do compositor e não do filme.
- Mas eu percebi isso, seu bobão. – Mais um sorriso o qual demorou uns segundos para ser retribuído. Vai ver os receptores do sorriso dele não estavam bem conectados. Ou a conexão de internet dele era ruim. Aí passou pela minha cabeça que ele tinha uns 15 anos e tinha conseguido de algum jeito burlar a permissão de idade.
    A ingenuidade dele me incomodava mais a cada flerte. A cada piadinha e provocação. Foi quando percebi que o placar de provocações estava já uns 6 a 0 para mim. Não que ele não falava nada ou puxava assuntos. Mas faltava uma malícia que poderia me fazer querer transar com ele. Ou melhor, com o avatar dele. Ou melhor, com ele. Afinal o avatar dele era lindo, eu teria vontade de dar para ele. Mas sua personalidade meio ingenuamente robótica ia me fazendo querer ir embora a cada novo assunto.
- Então, o que você está achando de mim? – ele me perguntou enquanto colocava um pedaço de filé de merluza na boca.
- Nossa. Uau. Bom, você é bem gato.
- Claro que sou. – disse ele sem o charme habitual que um cara lindo diria algo do tipo – mas eu quero mesmo é saber se você está gostando do nosso encontro.
- Posso ser sincera?
- Eu adoraria se você fosse.
- Ok. Então, eu não sei sua idade. Mas é seu primeiro encontro?
- Oficialmente é meu 4º.
- Uau. Eu sei que isso não é padrão. E nada elegante. Mas, quantos anos você tem. Digo, você, você?
- 25 anos.
- Nossa, você tem exatamente a idade que seu avatar parece ter?
- Sim. E você?
- Bom... já que eu perguntei, né? Eu tenho 30.
- Seu avatar parece só um pouco mais jovem.
- Eu não gosto de vender ilusões, sabe? E queria atrair alguém bem interessante para mim. Alguém da minha idade.
- Entendo. Então, você acha que eu fui muito ingênuo, certo?
- Sim! Eu fazia piadinhas e você não conseguia. Acompanhar. Você mal entendia meu flerte.
- Desculpe. Eu sou meio novo nisso. – Disse ele olhando para baixo.
- Ok. Então, acho bem interessante você ter me perguntado isso, sabia?
- Por quê?
- Porque eu acho que já tenho a resposta pra minha maior dúvida da noite.
- Que dúvida? Se você iria querer transar comigo?
- Nossa, quanta sutileza.
- Desculpe.
- Não, tudo bem. Então, você conhece o Teste de Turing? - disse eu
- Não.
- Então, é um teste de inteligências artificiais. Se um humano não conseguir identificar uma inteligência artificial de uma real, a IA passa no teste.
- Pera, você está dizendo que eu sou um robô? – Disse ele como se estivesse sido descoberto.
- Não, seu bobo. É só um flerte. Olha você caindo de novo. – Disse eu sorrindo.
- Desculpe. Como eu falei, eu sou ainda muito novo nisso.
- Tudo bem. Mas enfim, eu gosto de você sim. E você se saiu bem. Podemos ir para minha casa se você quiser para, sei lá, continuarmos juntos pelo resto da noite.
- Mas, você não está na sua casa? Digo, a usuária deste avatar? – Ele me perguntou intrigado
- “Usuária”, lindo? Que usuária?
Obrigada.


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