Escrito por Ludmila Barros
Já fazia algum tempo que a Milena continuava naquele estado de estresse permanente. Ela não havia se dado conta de que ser promovida para uma posição de diretoria iria tomar tanto o seu tempo e sua vitalidade. Já era sua terceira semana, ou o terceiro mês com as responsabilidades novas. O que antes era mais uma diversão, agora afogava a alma. Pagando muito bem. Mas além disso, ela estava feliz. Não pelo dinheiro, pelo nome na porta da sua nova grandiosa sala de escritório, mas pela satisfação de ser dona de si. De poder dizer que ela fazia sua vida, ela moldava suas escolhas e era completamente responsável pelo sucesso de sua carreira.
Gostava de gritar alto pela secretária, mesmo sabendo que poderia simplesmente pegar o telefone para fazer a mesma coisa, só que sem a baderna. Gostava de entrar nas reuniões e sentir todos os olhares sobre seu rostinho de “jovem demais para estar aqui”. Já havia sido confundida inúmeras vezes como a secretária de seu chefe, mas ele mesmo fazia questão de corrigir todas as vezes, antes mesmo dela começar a formular uma resposta. Mas nada disso era tão bom quanto os olhares de surpresa, esses reservados para o final de suas apresentações em cada uma das reuniões.
Mas, como ela mesma já havia aprendido, o sucesso cobrava seu preço. Todos os dias eram cheios e corridos, cheios de coisas maravilhosas e preocupações enormes. E o preço era chegar só depois da meia noite em casa. Só restava encontrar seu esbelto namorado já dormindo na cama. Trocar algumas palavras, alguns carinhos e cair no sono. E mesmo que ela ainda trabalhasse durante o horário comercial, ele acordava muito antes, tomava café puro e saia. Quando ela sentia o cheiro do café já era tarde demais.
Marcelo dava aulas de História para o ensino médio a um quarteirão de casa. Enquanto ela tinha que atravessar a cidade, agora de carro e ar condicionado, para chegar ao seu destino de sado-masoquismo. Ele era o contraste dela, Marcelo sempre se mostrou calmo diante da quase hiperatividade de Milena, um vespertino e uma noturna. Mas eles faziam dar certo, já eram alguns anos desse relacionamento que se completava naturalmente.
- Fabiana, chama a Letícia aqui na minha sala, por favor.
Fabiana já havia achado bastante estranho Milena pegar o telefone para lhe pedir um favor, e não simplesmente gritar. Mas o fez rapidamente.
- Oi Letícia, entra aqui, faz tempo que a gente não se fala né? - Milena falou prestando mais atenção nos papéis na mesa do que na própria amiga.
- Não, não faz não - Letícia se sentou na frente da mesa dela. - Milena, você me chamou aqui ontem, a gente ficou numa reunião até quase onze da noite.
Milena levantou o olhar confusa para Letícia, ficou alguns segundos pensando, mas conseguiu formar uma frase que fazia sentido.
- Não, não é isso, é sobre essa tabela aqui. Eu não entendi o porquê de ter mudado a variável aqui, a partir dessa linha, não faz sentido. - ela apontou com o dedo.
- Foram os números que me foram passados - Letícia se inclinou, pegou uma caneta e circulou os números - Você sabe disso, eu não posso mudar.
- É claro que pode, isso aqui tá óbvio que tá errado - ela também circulou vários outros números e fez outras contas no canto da folha - Eu sei que você sabe que isso tá errado, eu preciso que você me ajude, eu tenho muita coisa pra fazer aqui, eu sei que de onde você tá, não dá nem pra imaginar. Mas… Eu preciso que você pense um pouco mais antes de mandar qualquer coisa pra mim.
Durante seu discurso, Milena havia se levantado, jogado a caneta na mesa e estava virada de costas, olhando pelas grandes janelas de sua sala. Enquanto Letícia só havia recuado para trás na cadeira.
- Milena, querida... Você precisa se acalmar um pouco. O que foi isso agora? - ela levantou e se aproximou.
- Nada, só tá errado, as contas lá. - Milena respondeu no mesmo tom de voz.
- Não é isso, eu sei que não é isso. Eu te conheço pra mais de anos, não é só isso. Pode falar, senta aqui vamos conversar.
Ela puxou Milena pela mão e elas se sentaram no sofá do lado da grande mesa.
- Não sei, parece que ninguém tá querendo me ajudar - A voz de Milena já estava mais calma.
- Você nunca precisou da ajuda de ninguém, você mesma diz que só precisa de sua própria ajuda. Foi pressão demais subir direto pra esse andar? Muita responsabilidade?
- Eu gosto… eu gosto dessa... disso tudo, você sabe que eu adoro, a parte boa e a parte ruim, é só que às vezes - ela hesitou - às vezes a parte ruim pesa mais né.
- Como o que? O que acontece de ruim por aqui?
- Ah, não sei. Eu é que acendo as luzes desse escritório, eu sou a primeira a chegar e já começo a trabalhar, e quando a Fabiana chega, mesmo que na hora, o trabalho já está atrasado por que eu tô muito na frente. E eu percebo que ela fica exausta às vezes. E praticamente todo dia eu não consigo parar pra almoçar, eu como aqui mesmo. Mas essas coisas não me incomodam. Você me conhece, eu adoro trabalhar com isso, eu gosto desse estresse, eu estou onde eu sempre quis. Mas aí, eu passo o dia inteiro trabalhando, dor de cabeça quase todo dia de ficar olhando direto pra esse computador. Daí quando eu chego em casa, tarde, o Marcelo já tá dormindo. A gente quase não consegue se falar, eu já vou dormir pra acordar sozinha e tomar café sozinha pra começar tudo de novo. - Milena até respirou fundo quando terminou.
- A quanto tempo você tá nesse ritmo frenético, dormindo quatro horas por dia?
- Não sei, poucos meses. - Milena não soube responder com exatidão.
- Não, deixa eu reformular essa pergunta - Letícia ficou pensativa - a quanto tempo você e o Marcelo… - ela fez uma cara diferente - hein, você sabe!
Milena ficou séria novamente, pensativa, mas sua cara já dizia que ela não sabia responder.
- Amiga, se você teve que pensar… - Letícia retomou antes de Milena tentar falar alguma coisa. - Por que você acha que eu cheguei atrasada hoje, e a Carol também! Pelo mesmo motivo! - elas riram - Você precisa dar uma pausa. Tanto estresse faz mal pro corpo, pra mente. Sai agora daqui, fecha o expediente por hoje e vai procurar seu homem, nesse horário ele ainda deve estar no colégio, vai buscar ele. Vai perguntar pra ele o que dizem que ajuda a aliviar dor de cabeça!
- Você acha? - Milena ainda não estava tão confiante.
- Eu tenho CERTEZA - Letícia abriu os braços - olha pra mim, olha como eu estou livre, leve e solta. Isso se deve ao fato de ter tido hoje, ontem, anteontem, e praticamente todos os outros dias - ela riram juntas novamente.
- Aí, amiga, eu acho que eu vou mesmo então. - Milena sorriu e abraçou Letícia ainda de braços abertos.
Milena entrou em seu carro e saiu do estacionamento. Conectou seu celular no rádio do carro e colocou a música preferida de Marcelo. Ponderou se valeria a pena passar em casa, tomar um banho e colocar alguma roupa mais bonita do que aquela social de escritório. No meio do caminho, enfim, decidiu, passar em casa.
Estacionou o carro na garagem e subiu para casa. Antes de tomar banho, abriu seu armário revirou suas roupas mais antigas até achar uma lingerie completa que havia comprado para a passarem a primeira noite naquele apartamento. Como uma noite de núpcias, porém, a cor era vermelha. A cor favorita de Marcelo. Tomou banho rápido, só para se refrescar. Vestiu a lingerie e um vestido simples por cima. Resolveu passar uma camada de maquiagem e arrumar o cabelo bastante liso.
Já que a escola era no quarteirão seguinte, ela foi a pé, apesar de ter colocado uma bota com um salto enorme. Antes de sair do prédio, ela passou na frente de um grande espelho, só para perceber que ela estava realmente maravilhosa, não estava vulgar, pelo menos não por cima daquele vestido chiquérrimo. Mas por baixo, sua definição seria: provocante. Ela saiu e começou a andar pela calçada.
Estava praticamente sorrindo sozinha enquanto lembrava as centenas de noites quentes e intensas que eles tiveram no primeiro ano em que moraram juntos. Naqueles poucos passos entre os dois quarteirões, naquela única rua em que teve que atravessar, suas preocupações, dores de cabeça e de corpo estavam passando lentamente. Seu corpo passava por um processo de relaxamento, sua mente se acalmava ao mesmo tempo que seu corpo.
Chegou, então, no colégio. Passou pela recepção. A recepcionista a reconheceu de pronto e avisou:
- Oi, Milena! Tudo bem? Veio buscar o Marcelo? Ele tá lá em cima, na sala dele lá no terceiro andar. Pode ir lá.
A recepcionista abriu a porta elétrica. Milena entrou e começou a subir as escadas. Depois do primeiro lance de escada, seu pé começou a doer um pouco. Mas recuperou a compostura e seguiu subindo. Chegou no terceiro andar, olhou para os dois lados e se lembrou de que o corredor das salas dos professores era bem no final do daquele corredor maior. Seguiu para a direita.
Na curva antes de entrar no tal corredor das salas dos professores, ela já o tinha visto. Parou de andar ali mesmo. Ele estava sentado em sua velha cadeira e na sua frente uma mulher, que pôde reconhecer como uma das diretoras, ajoelhada no chão. Milena só conseguia ver as pontas do joelho por baixo da mesa e a cabeça dela subindo e descendo. Ela precisou de alguns segundos para entender a cena que estava assistindo. Continuou paralisada, ali naquele canto. Sua cabeça latejou forte e ela sentiu sua visão embaçar. Para não cair, ela se escorou na parede. Fechou os olhos.
Mas a cena se repetia, infinitamente, a cabeça subindo e descendo, e a mão dele passando por cima dos cabelos dela.
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