2009
- Minha dúvida é – Disse Marcos enquanto jogava videogame com seu irmão mais velho – Porque eles dizem pra gente que não dá pra fazer conta de menos com um número menor por um maior, se dá? – Disse ele deixando o controle de lado e olhando para o irmão que ainda estava com os olhos vidrados na tv.
- Ah, pra não confundir vocês. – Disse Marcelo.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda. – Disse Marcos novamente pegando o controle sem ainda, todavia, olhar para a TV.
- Ah, mano, sei lá. Eles devem saber o que estão fazendo. Estudaram muito pra ensinar. cacete, cara, só quero que você me dê cobertura. – Disse ele enquanto esbravejava a seu irmão que agora voltava sua atenção à tv.
2010
- Se “have” quer dizer “tem” porque eu não posso dizer “Have three people here” ?- Perguntou Marcos que estava esperando seu pai chegar de viagem com essa pergunta engatilhada, de modo que mal esperou que ele colocasse sua mala no chão quando finalmente abriu a porta.
- Oi pra você também. – Disse Milton enquanto ia à cozinha
- Oi! Como foi na África? – Perguntou Marcos o seguindo.
- Bem bem – Disse o pai que queria uma saudação apropriada do filho, mas realmente não estava muito animado para responder a uma pergunta tão simples, embora complexa. E queria mesmo era tomar um belo copo d’agua.
- Então, hoje na aula a professora disse que eu não podia usar “Have two people here”. Mas assim, ela disse que “have” significa “ter”. Mas tá errado usar com sentido de “haver”. Mas assim, eu fazia essa frase semestre passado e ninguém nunca me corrigiu.
- Então, sei lá, filho. Eu sempre aprendi que não pode. Mas não sei porque também. Sei lá, vai ver ninguém queria te confundir muito cedo. – Disse Milton enquanto procurava sem sucesso um copo no armário da cozinha.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda – Respondeu Marcos enquanto secava um copo do escorredor e dava ao pai.
- Obrigado – Respondeu Milton
2012
- Mano, como assim minha audiência não importa pra tv? – Disse Marcos enquanto andava na esteira da academia e conversava com sua namorada, Júlia.
- Pois é. Não importa. São famílias específicas que tem um aparelho que lê o que elas estão vendo e manda pro IBOPE. – Respondeu Júlia que já estava há mais de 10 minutos na esteira apenas andando.
- Mas porque eles não dizem isso? Porquê ninguém divulga? – Disse Marcos que, um tanto incomodado já diminuía sua velocidade.
- Ué? Sei lá! Vai ver – Disse Júlia se preparando para aumentar a velocidade da esteira e finalmente começar a correr. No seu ritmo, claro – vai ver eles não querem que a gente fique confuso e veja a tv de um jeito diferente. Tipo – e dando seu último suspiro antes de acelerar - Eles têm os anunciantes.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda – Disse Marcos no seu último segundo de irritação. Agora ele admiraria Júlia correr por mais alguns minutos.
- Que foi? – Disse Júlia correndo sem saber se deveria achar engraçado ou incômodo Marcos babar em seus peitos daquele jeito.
2015
- Mas pera, Cabral não descobriu o Brasil por acaso? – Disse Marcos à Paula, sua namorada, muito revoltado enquanto via a correção de sua prova do vestibular. – Isso não faz sentido nenhum.
- Claro que faz. Todo sentido do mundo. Você acha mesmo que os caras iam se perder indo pra India e dar de cara com o Brasil? – Disse Paula sem nem olhar para Marcos enquanto checava sua própria prova – e fala baixo que minha mãe tá dormindo.
- Ué? Foi isso que aprendi a vida toda.- Sussurrou Marcos quase que exigindo a atenção de Paula, que nem sequer tirava os olhos do computador.
- Você imagina a confusão que ia causar na sua cabeça se a professora, sei lá, do nono ano, tivesse te dito “Olha, então, Portugal sabia da existência de terras mais ao sul das que haviam sido descobertas anos antes por Colombo, e fez uma expedição para acha-las, a fim de recuperar a hegemonia marítima da Europa, depois da queda de Constantinopla”.
- Mas tipo, agora eu to mais confuso ainda. Aliás, nem parece ter sido do jeito que você falou. – Disse Marcos enquanto relia a correção do professor no site do G1.
- Ah, sei lá. Eu acertei. E é isso que importa. Aliás, quanto você tirou? – Disse Paula suspirando aliviada em fim – Eu fiz... 56.
- 45. – Disse João chateado por não ter passado por 2 pontos.
2017
- Seguinte – Disse Marcos Mouto à câmera – Eu to cansado! Cansado dessa mídia que só mente pra gente. Cansado dessa agenda de esquerda patética. Cansado desses comunistas que já ocuparam as escolas enchendo-as de mentiras. Cansado desse país ainda colonial que nem inglês sabe falar. Cansado do politicamente correto que tomou conta até dos nossos professores. Mentiras, mentiras, mentiras. Só mentiras. Esses políticos de Brasília estão acabando com o país. Vamos...vamos... Droga – Disse Marcos que olhava com impaciência para o roteiro na sua frente. Havia se perdido.
- Tá – seguiu – Como o Olavo de Carvalho fala, essa esquerda é cheia de analfabetos funcionais. Cheio de gente burra por que aceitou tudo! Tudo que a escola diz. Tudo que os professores insistem em colocar na nossa cabeça. Tudo que a mídia não parar de conclamar. Tudo! Tudo que a história, que foi comprada pela esquerda, diz! Eu cansei! Agora eu sei a verdade. Sei que a terra é plana. Sei que racismo não existe, aliás, as cotas são nojentas. E não digo isso por que não passei no vestibular dois anos atrás por causa delas. Sei que o nazismo, há o nazismo é de esquerda. Sim, os professores de história mentiram pra você. Sei que a Globo, essa agência do marxismo, mente o tempo todo. Eu sei, eu sei, eu sei. Se você ainda está imerso em mentiras que contaram pra você, saiba que você pode acreditar em mim, no Nando, no MBL e em todos os outros. Então, porque não comprar nosso livro? SIM! Estamos lançando um livro: “Mentiras e mentiras”. Com tudo o que fizeram você acreditar na vida. Bem como a versão correta dos fatos, claro. Apenas R$ 99,90 em todas as melhores livrarias. – Disse Marcos aos seus 4 milhões de seguidores.
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