Escrito por Ludmila Barros
Carolina e Marcelo estavam tendo uma noite maravilhosa até o momento. Quando Marcelo finalmente convidou Carol para aquele jantar, ela nem podia acreditar. Já fazia algum tempo que eles haviam começado a trabalhar juntos depois de todas as realocações. Tudo naquele grande escritório de advocacia era bem azul, monótono e calculista, só mudou mesmo quando ele veio na mesa dela para fazer o convite.
- Carol, quer jantar lá em casa hoje?
Simples assim, Marcelo não precisava ser bom na cantada, ele já sabia que ela estava interessada fazia um bom tempo. Ela aceitou e eles saíram juntos do trabalho, direto para a casa dele.
***
Marcelo entrou na sala de reuniões confiante de sua promoção, ele tinha certeza de que Carlos, o sócio majoritário, iria convidá-lo para sentar na mesa de acionistas. Quer dizer, o chefe daria a oportunidade para Marcelo comprar ações caríssimas para poder sentar naquela mesa. Finalmente os dez anos de dedicação incondicional haviam trazido sua recompensa. Desde quando se formou na faculdade de direito, Marcelo queria ser alguém grande, ganhar muito dinheiro e ser reconhecido na área. E fez por onde merecer, sua dedicação desde os tempos de curso pré vestibular já mostravam o quanto ele prosperaria em todos esses objetivos ambiciosos.
Ele chegou depois de Carlos, que estava sentado na ponta da comprida mesa, e se sentou ao lado dele.
- Bom dia, Marcelo.
- Desculpe o atraso, eu só estava…
- Eu que cheguei cedo, não precisa se preocupar. Vamos ao que interessa, você sabe o por quê de eu ter te chamado aqui, não?
- Eu imagino que seja algo bom, não é mesmo? - Marcelo havia feito até aulas de atuação e improviso para melhorar suas relações com outras pessoas.
- Depende do ponto de vista. - Carlos deu uma risadinha amarela - Mas enfim, - ele começou a digitar no computador que estava na sua frente e fez uma pausa consideravelmente longa e silenciosa.
- Claro, tudo depende do ponto de vista, - Marcelo tentou quebrar o clima - certamente que…
- Vão acontecer algumas mudanças no esquema dos escritórios nos próximos meses. - essa era a segunda vez que Carlos o interrompia - Por conta de uma promoção importante, algumas pessoas vão precisar mudar de posição, e você é uma delas.
Um sorriso escapou pelos lábios de Marcelo e ele até se ajeitou melhor dentro daquele terno social todo engomado.
- Claro, a gente faz o que precisa ser feito!
- A Carolina vai ocupar uma cadeira na mesa de acionistas, e obviamente, vai comprar uma porção de ações de todos os outros acionistas, quase 10%, uma quantia gorda.
Marcelo ficou paralizado por alguns segundos, mas perguntou incrédulo.
- A Carolina? Mas…
- A decisão já foi tomada, tanto faz agora. O que eu preciso de você é que você se realoque para ser o assistente dela, com relação ao processo de reorganização de posições e depois com os processos, enfim, o que qualquer assistente faz.
- Assistente? Mas eu sou advogado, não assistente.
- Você vai fazer as mesmas coisas, praticamente, - Carlos olhou impaciente para Marcelo - você simplesmente não vai mais se reportar para mim, mas pra ela a partir do momento que ela entrar, algum problema?
- Não, eu só imaginei que depois de 10 anos aqui… - Marcelo ficou confuso e chocado demais para formular sua reclamação.
- Não tem problema, não, assistente é uma posição como qualquer outra e oportunidades surgirão, certo?
Carlos fechou seu notebook, se levantou e saiu da sala enquanto Marcelo ainda estava em choque com a notícia de sua “promoção”.
***
Carol estava adorando tudo aquilo, a promoção que havia conquistado e o homem que estava interessada. Depois de apenas um prato de salada e três taças de vinho, ela já estava bastante tonta e solta. E ela se dava mérito por tudo aquilo. Três anos atrás ela entrou para trabalhar no escritório de advocacia como assistente e agora ela tinha tudo que queria. Ainda bastante jovem, ela conseguiu analisar a situação, estabelecer seus objetivos e alcançá-los em pouco tempo. Ambiciosa e sem limites, ainda que para a maioria das pessoas ela fosse simplesmente e apenas uma garota absurdamente simpática.
Sua beleza não era das mais tradicionais, e ela sabia disso. Sempre usava de outros artifícios para se aproximar de seus interesses. Mas com relação a Marcelo, ela já tinha dado o jogo como perdido. Ele era centrado demais no trabalho e não demonstrava interesse nenhum em nada além disso. Foi realmente um choque receber aquele convite numa quarta-feira chuvosa e nublada.
- Eu fiquei muito feliz que você me chamou aqui hoje. - Carol disse com as bochechas já rosadas.
- Eu precisei de tempo para tomar coragem, eu acabo sendo meio besta pra essas coisas. - ele disse completamente apaixonado. - Você quer sentar no sofá?
Ela concordou e ele se levantou com as duas taças, foi até a cozinha para enchê-las. Carol olhou algumas fotos nas prateleiras, enquanto andava em direção ao sofá, parecia a mãe de Marcelo, mas não tinha como ter certeza. Sentou-se no sofá quando Marcelo retornava com as taças novamente cheias. Colocou-as na mesa de centro e juntou-se a ela.
- Sempre achei você tão bonita. - ele disse já bastante perto do rosto dela.
Ela respondeu com um beijo, que foi recebido com igual intensidade. Naquele momento Carol satisfazia aquela vontade que tinha a tanto tempo. Eles se amassaram por alguns minutos, quando Marcelo interrompeu Carol que tentava desabotoar a camisa dele.
- Calma, a gente ainda tem bastante vinho pra apreciar, - ele pegou as taças e deu uma para ela - e muita coisa pra conversar.
- Você é fofo. - ela disse rindo envergonhada.
Ele tomou um gole comprido e ela o seguiu.
- Me conta, como é ser uma acionista agora? - ele perguntou interessado.
- Ah, você não imagina, é tanto trabalho, mas tanto trabalho que é difícil dar conta, na verdade você sabe, né! Você tem me ajudado…
- Nossa, - Marcelo interrompeu Carol, tomando outro gole de vinho - esse vinho é maravilhoso, não é?
Ela concordou e tomou outro gole, quase terminando a taça toda. Continuando a conversa, ele insistiu para que ela terminasse de falar sobre a promoção. Ela ficou lá explicando todos os procedimentos burocráticos que ela teve que fazer, a montanha de papéis que teve de assinar. Após alguns minutos falando, ela começou a se sentir estranha. Sua garganta começou a arranhar e o ar a faltar.
- Eu acho que bebi demais. - ela só conseguiu falar essas palavras.
- Será? - ele disse sem prestar nenhuma ajuda.
As coisas aconteceram rápido demais para Carol. Ela parou de respirar e entrou em pânico, tentou se agarrar em Marcelo, mas ele só se desvencilhou daquelas mãos e se levantou, observando de longe o desespero dela, se afogando sozinha no sofá.
***
Carol estava colocando sua saia de volta quando olhou para trás e viu Carlos acender um cigarro no meio daquela sala toda fechada. Ele estava sentado, somente com a camiseta social meio aberta no corpo.
- Foi bom pra você, querida? - ele perguntou - Pra mim sempre é.
- Claro que foi! - Carol respondeu rindo - Mas tem uma coisa que seria melhor ainda. - ela terminou de se vestir e sentou na cadeira dele, atrás daquela mesa gigante.
- Eu sabia que você era difícil de satisfazer, fala o que você quer ainda? - ele parecia estar conversando com uma criança.
- Eu quero a promoção. Esses rumores que agora eu sei que são verdade, sabe? Eu quero comprar as ações.
- Não são assim que as coisas funcionam, querida. - ele ainda estava incrédulo sobre o assunto, deu mais um trago e continuou - E aliás, essa informação não foi divulgada, como você…
- Todo mundo já sabe, quer dizer, todos os advogados do alto escalão, claro.
- E você não é um deles.
- Eu tenho meus meios. - ela disse sorrindo, mas ele fechou o cara e só acenou impressionado. - Mas enfim, eu vou ser essa pessoa, você vai me colocar lá.
- Não dá pra simplesmente fazer isso.
Ele não terminou mais a frase chamando ela de querida. Carlos deu o último trago no cigarro e se levantou para colocar a calça. Ela esperou pacientemente enquanto ele se arrumava desengonçadamente. Depois de fechar a camisa, ele se aproximou de Carol, que estava sentada.
- Vai, Carol. Levanta, sai, volta pra sua sala. A decisão já foi tomada, você não nada a ver com isso. Tem gente muito mais qualificada do que você aqui dentro.
O rosto de Carol estava na altura da cintura de Carlos, ela levantou seu olhar para o rosto dele e disse calmamente.
- A Regina não ia gostar disso. - ela falou pensativa enquanto Carlos entendia o que estava acontecendo, perplexo - A Regina ia detestar saber que o pai da Priscila e da Yasmin come a advogada do escritório.
- Você perdeu a noção?
- Eu acho que a Regina vai ficar ainda mais chateada quando souber que eu nem sou a mais bonitinha, ou a mais novinha.
- Como? Como você… - ele gaguejou e não conseguiu terminar o pensamento.
- Eu tenho várias gravações das noites que a gente passou no meu apartamento. Caso a Regina precise de provas. E todo mundo sabe que você precisa do dinheiro dela, né. Então, - ela se levantou e ficou bem perto dele - melhor não arriscar, né?
Ela pegou algumas pastas com documentos e papéis e saiu da sala de Carlos. Suas pernas tremiam, somente quando Carol chegou em sua sala é que ela conseguiu se sentar novamente e se acalmar, ela soltou algumas lágrimas de nervosismo, mas logo retomou a compostura e já começou a planejar quais seriam seus próximos passos, uma vez que as gravações dos encontros eram apenas um blefe. Ela não precisou se preocupar por muito mais tempo. Na semana seguinte Carlos anunciou numa reunião com os acionistas que Carol tinha sido a escolhida para a oportunidade de promoção.
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