sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Culpado

Escrito por Pedro Henrique Silva
Sei que ninguém jamais lerá isso. Mas entendo que me fará bem escrever com o último pedaço de papel que me resta, com a única caneta que eu posso usar.
Eu era o mais importante jurado do programa Next Brazil, o maior show de calouros do país. E estávamos na 10ª temporada. A melhor da história - era o que diziam os especialistas. E conquistei a competição por equipes, e dois dos meus pupilos disputaram o título individual. Claro que eu estava feliz. Era meu 4ª troféu. Eu passei o Paulo Forte e agora era o técnico mais vitorioso. Claro que meu desempenho foi espetacular e eu consegui de forma inequívoca ganhar de todos os meus oponentes. E claro, eu tinha conseguido levar dois grandes cantores para a final. Ambos fariam muito sucesso, com certeza. Na verdade, “certeza” mesmo eu só tinha por um deles: Marcos Tadeu.
Sua base de fãs era maravilhosamente grande. Nunca na história do programa alguém havia cativado tanta gente. E muito da explosão da audiência se dava a ele. Claro que alguns questionavam o fato de que a cada programa ele se apresentava com um visual totalmente diferente. As vezes homem loiro, as vezes mulher ruiva, e até mulher indiana uma vez. Mas em geral suas mudanças eram bem vistas, sempre arrebentando com a votação popular.
Mas confesso que ele não era meu favorito - como se eu precisasse confessar mais. Mariana Abrita era meu xodô. A garota de 16 anos era um verdadeiro colosso. Agudos maravilhosos, um timbre impecável. Vê-la cantar era como uma viagem. E todo mundo sabia disso. O país inteiro sabia disso. Mariana era um fenômeno. Mas não tão comercial quanto Marcos. Ela era tímida, não se comportava tão impecavelmente nas redes sociais, e seu visual era simples. Ou seja, para o mercado Marcos era um deus/uma deusa, enquanto para a música, Mariana poderia ser uma das melhores de todos os tempos.
Enfim, na final do programa - a maior audiência da história da emissora - eu estava convicto que escolheria Marcos. O cara explodiria ainda esse ano. Mas Mariana cantou “Eu sei que vou te amar” enquanto Marcos foi de “Festa” da Ivete, pela primeira vez vestido com roupas tradicionais, revelando o grande homem negro que era. Os dois arrebentaram. Mas Mariana roubou meu coração e me fez sonhar. Ao fim da sua apresentação eu estava embasbacado. Demorou uns cinco segundos para eu saber onde estava. Uns dez para conseguir verbalizar algo. A plateia meio silenciosa pois já havia escolhido seu vencedor. Eu olhava para o lado e Paulo me sussurrava “Você não vai fazer isso”. Mas eu fiz. No final daquele edição, às 23h45 do dia 4 de Janeiro de 2028, eu escolhi Mariana. Para a maior vaia que aquele estádio já havia visto.
No mesmo dia minhas redes sociais foram inundadas por críticas e ameaças. Estávamos na festa da emissora e eu apenas ria de tudo. Desde os Memes que me comparavam a qualquer vilão de história em quadrinhos - ou um particularmente engraçado em que eu era o Mário e o Marcos o Yoji. Como se eu tivesse o usado para vencer e depois o jogado fora - até ameaças das mais violentas. Tudo me parecia bastante engraçado. Até que deixou de ser.
Duas semanas ouvindo todo tipo de coisa, finalmente eu me irritei quando um sujeito pichou na porta da minha casa: “Nazista homofóbico”. E todos os jornais noticiaram. Uns como o ato de vandalismo que de fato foi. Mas outros - daqueles bem patéticos - como algo até justo. Um “lacre” como uns bradavam. E pronto, tinha que me manifestar.
Escrevi um enorme texto que deve ter aparecido no DailyFeed de todos no país. Nele eu dizia que estava sendo vítima do que chamei de “histeria de ódio”, uma que começou com brincadeirinhas mas já estava virando uma verdadeira caça às bruxas. Eu era um produtor reconhecido mundialmente e que já havia revelado todo tipo de cantor. Homens, mulheres, negros, negras, gays, lésbicas, asiáticos, e até uma mulher africana uma vez. E não merecia esse tipo de tratamento.
Meu sossego durou um dia. Um dia sem que ninguém mais me criticasse. Comecei a ganhar alguns seguidores de volta. O pesadelo parecia que havia terminado. Até alguém perceber que eu usei a expressão “tipo de gente” para me referir a negros e gays. Como se eles não fossem senão “tipos” de pessoas. “Não não, seu nazista nojento! Eles são ‘PESSOAS’, ‘GENTE’ e não apenas ‘TIPOS’ “. E exigiram retratação. Eu permaneci calado. Os advogados da emissora me aconselharam a não falar mais nada e deixar a poeira abaixar. Quem sabe eu não poderia voltar ainda na próxima temporada?
Naquele dia eu quase entrei em depressão. Questionando minha escolha, meus princípios. Será que eu era um nazista mesmo? Em alguns momentos eu julguei que sim. Os jornais começaram a tentar me destruir. Conversaram com vários artistas que já haviam trabalhado comigo. Todos me defenderam. Exceto um! João Divo.
Ele disse que eu já havia o assediado e só agora ele teria tido coragem de vir a público. O caso teria acontecido há 5 anos quando eu teria lhe dito que o único jeito dele retomar sua carreira era fazendo sexo comigo. Eu não lembro disso. Eu lembro de ter dito que não havia como retomar sua carreira depois de mais um escândalo com crack. Sim! João era usuário de crack. E que eu saiba, nunca tinha parado. Começou a me culpar por estar na situação que estava e finalmente todos tinham do que me acusar.
Do outro lado da história estava Mariana. A melhor pessoa que eu já havia conhecido. Uma moça tímida que me defendia sempre que possível. Mas as coisas não estavam indo bem. A cada entrevista que dava em minha defesa, ganhava mais haters. E a coisa foi também escalando para a ela a ponto da moça perder todos os patrocínios, um a um. O contrato com a gravadora. E finalmente, virou uma vilã. De “portadora de Síndrome de Estocolmo”, Mariana se transformou na co-autora do maior erro da história dos reality shows. Ela sofria. Mas era jovem, e acusava os golpes. Aparecia cada vez menos, postava muito pouco, e quando fazia, sofria ataques ferozes. Três vezes invadiram seu perfil no DailyFeed. Ninguém prendia os bandidos por trás daquilo. Mariana não tinha mais amigos, não respondia minhas mensagens. E por fim, se suicidou dois meses depois do título do Next Brasil.
Foi quando eu, tomado de tristeza e ódio, enfim quebrei o silêncio e escrevi novamente nas minhas redes condenando...basicamente todo mundo. De internautas cheios de ódio à minha emissora que de uma hora para a outra passou a postar notícias sem mais me colocar como uma vítima, mas como alguém que cometeu um erro e estava sendo julgado pela população. A concorrência também não ficava atrás, chegaram ao absurdo de publicar um texto cujo título era “Como o título do Next Brasil matou Mariana Abrita”. Saí atirando a todos os lados. Inclusive em Marcos que não se manifestava desde o depoimento de João. E depois de Mariana ter se matado apenas repostou a notícia que citei acima, me marcando.
Aquilo foi o suficiente para acabar com tudo. O restante dos meus contratos foram cancelados. Meus filhos perderam as vagas nos colégios, minha mulher pediu um tempo e os levou para os EUA para “afastar o ódio da vida deles”. Não sei se ela se referia a mim ou ao resto do país. Mas eu me mantive firme. E postei meu terceiro e penúltimo texto ao país. Assumindo enfim a culpa que de fato tinha. Em exercer minha opinião. A culpa de querer algo diferente. De não atender ao clamor popular e escolher alguém que me fazia bem. Alguém que estava agora morta por minha causa. Assumi também a responsabilidade pela carreira de João. E que sei lá o que eu falei aquele dia pra ele. Eu de fato nunca fui nenhum santo. Posso ter dito mesmo algo de bem feio para ele.
As autoridades levaram a sério. No dia seguinte uma intimação chegou à minha porta. As acusações eram “Assédio sexual e Homicídio Culposo”.
O delegado não me fez sequer uma pergunta, alegando que tudo que ele precisava saber já estava no DailyFeed do país todo. Fiquei preso duas semanas, em um presídio de segurança máxima. Sofrendo todo tipo de violência, afinal, os presos não eram muito fãs de mim. Todos os dias centenas de manifestantes pediam que eu fosse condenado à cadeira elétrica. Pena que nem existia no país.
Estou agora sentado na minha cela, depois de um mês preso, esperando que a cadeira seja trazida dos EUA. Esse é minha última carta. Se alguém a receber, por favor, poste na internet.

EU SOU DE FATO CULPADO PELA MORTE DE MARIANA ABRITA E MEREÇO SER MORTO. DESCULPE, FILHOS, DESCULPE MEU AMOR. EU ERREI.

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