sexta-feira, 23 de março de 2018

Matrioscas Lunáticas (2/2)


                                                            Escrito por Pedro Henrique Silva
Muitas estratégias foram usadas nos interrogatórios. Muitos minutos se passaram. Mas Teodoro foi incapaz de descobrir qual (ou quais) deles era portador do vírus. Ou, é claro, se de fato algum deles estava infectado. O vírus era contagioso e muito civis estavam todo dia apresentando mais sintomas. Contudo, havia muitas possibilidades, uma delas era que, de alguma forma, humanos de outros planetas serem imunes. Faltavam estudos sobre a doença, e era arriscado trazer qualquer indivíduo de Triston 4 ou Triston 5.
Maria foi a última entrevistada e Teodoro saiu da sala decepcionado, convencido de que não poderia ajudar, de que seria muito complicado, ou quase impossível, encontrar o vírus. Triste inclusive que ninguém tenha pensado em quão difícil seria descobrir essa informação. E que provavelmente ele teria problemas, justamente porque seu chefe não seria capaz de se colocar no lugar de Teodoro. Porém, como um Mini dragão de Alfa Proxima, a estratégia perfeita parece ter cruzado sua cabeça bastante rápido, como se estivesse ali o tempo todo o esperando cometer um erro. Ele apelaria à estratégia mais piegas. Sorriu, e voltou à sala:
- Você quer ouvir uma história? – Perguntou a Maria.
“Um bom cientista submete os indivíduos a um mesmo teste, e analisa os resultados diferentes que estes lhe entregam, sob as mesmas circunstâncias”. Sob essa máxima, Teodoro contou a mesma situação aos quatro. Um de cada vez:

- Em Luna recebemos todo tipo de pessoas, você deve saber bem. Acontece que muita gente chega aqui pra ir a outro lugar. Dificilmente são pessoas que chegaram a Luna para ficar em Luna. O que nos dá um caráter meio único entre os grandes centros da história. Todos vêm a Luna, mas quase nunca Luna é a última parada.
Um dia, uma jovem foi levada à minha sala. Estava olhando para o chão, mas não parecia ser tímida. É aquela expressão típica de adolescentes de “Te odeio então não vou olhar para você”.  Mas tinha algo ali. Havia uma tristeza. Um remorso talvez.  Ela tinha 17 anos, e estava com um bebê no colo. Ele deveria ter uns 3.
Perguntei se o bebê era seu filho. Mas foi em vão. Ela pareceu nem ter me ouvido. Nem levantou os olhos. Me apresentei. Disse que era agente de imigração de Luna. E perguntei para onde ela queria ir. Não tive respostas.  A moça nem fazia menção de que iria começar a falar.
Comecei então a dizer o que eu sabia sobre ela. Prefiro que vocês me falem sobre vocês mesmos. Mas nesse caso, alguma comunicação precisava ser estabelecida. Aquele bebê era seu irmão. Seu nome era Enrico. Eles estavam ali porque foram encontrados na área de carga de uma nave comercial que saía de Yuntur, um planeta que ficava no sistema Hodney, bastante perto do nosso. Seu padrasto tinha morrido. Desde então descobriram que ela havia sabotado o Mini tanque de Oxigênio que todo mundo em Yuntur tem que usar para sair de casa. As casas têm Oxigênio, as ruas, não.
Mais uma vez Amanda nem olhou na minha cara. Parecia ainda irritada comigo. Como se eu representasse algo contra o que ela estava lutando. Sinceramente, desde que bati meus olhos nela, ela não me pareceu o tipo de garota que mata alguém, quanto mais o padrasto.
Foi quando ela, para minha surpresa, olhou nos meus olhos e disse:
“É engraçado que alguém que sabe quase nada da minha história vai julgar se eu e meu irmão devemos ou não entrar na Terra. Geralmente os julgamentos têm juízes, júri e advogados”.
Nunca esquecerei dessas palavras. Fiquei sem reação por um instante. De fato, eu estava ali julgando o destino de uma menina, sem direto a apelação, defesa... nada. A lei não era muito clara nesse sentido, mas a polícia de nenhum planeta tinha jurisdição aqui. Claro que eu poderia extraditá-la como inclusive a polícia de Yuntur me recomendou. Mas eu podia simplesmente deixa-la entrar na Terra. Não seria punido. No máximo receberia um recadinho malcriado do governo do país de Yuntur onde Amanda vivia. Mas não receberia castigos.
Resolvi que o melhor seria pedir para que ela mesma me contasse a história dela. Insisti um pouco, até que ela finalmente me olhou com uma expressão um tanto mais receptiva e começou. Ela me contou que León, seu pai, abusava dela desde que ela tinha sete anos de idade. Ela tentou escapar várias vezes, mas cada vez que ela não conseguia era pior. Ele a massacrava e depois a estuprava. A mãe sabia de tudo, mas era incapaz de lutar. Assim foram por cerca de sete anos. Nos três anos seguintes tudo mudou. John nasceu. Agora havia mais despesas na casa, e León ordenou que a mãe de Amanda trabalhasse. E foi o que ela fez. Mas para isso León teve que comprar um Mini-Tanque para que ela pudesse sair de casa, finalmente. Contudo, o emprego dela não era integral como de León. Ela trabalhava em uma fábrica de naves perto de casa. Era secretária de um dos chefes de lá, e como ele não trabalhava todo dia, já que a fábrica meio que tomava conta de si mesma e quase não havia funcionários, ela ficava muito em casa. Isso foi fundamental, uma vez que deixou Amanda com a possibilidade de analisar de muito perto um tanque de oxigênio. E depois de três anos, ela conseguiu fazer um tanque, o qual permitia que duas pessoas o usassem por 20 minutos, mais que suficiente para chegar no espaço-porto mais perto de casa.
A eloquência com a qual ela contou a história me fazia acreditar que de fato ela teria construído um pequeno tanque de Oxigênio com materiais reciclados, como partes de carro usadas de León, copos que ela roubava da cozinha e até materiais orgânicos.  O que faria dela um gênio.  Era um absurdo. Mas ela estava deixando de lado um detalhe muito importante. O assassinato do padrasto.
Ela me disse que os mini-tanques funcionavam com um sistema de recarga, ou seja, antes mesmo do suprimento de Oxigênio acabar, o tanque já começava a recarregar. Esse componente era de um metal raríssimo encontrado em uma das luas de Centaurus. Justamente pela falta dele que o tanque de Amanda não durava mais que 20 minutos. Amanda não podia usar o aparelho em seu próprio tanque, mas ela podia tirá-lo do de Leon. Porém, segundo ela, desistiu de fazê-lo porque não era assassina. Mas um dia, quando ela já estava quase pronta para fugir, viu que León abusava também de John.
Aquilo me tirou o chão. Como eu poderia condenar uma moça que foi abusada por um padrasto por tanto tempo? E ainda, como condenar uma menina que viu seu irmão ser abusado? Aquilo estava acima de mim, mas era eu quem tinha que lidar. Nunca fiz curso de psicologia infantil. Não sei os efeitos daquela violência a longo prazo. Eu não sabia o que fazer. O que você faria? – Perguntou Teodoro a Maria, Michael, Fernandes e Jonas, separadamente.
Depois de muito pensar, Maria finalmente respondeu:
- Eu acho que mandaria ela de volta à Yontur. Entregaria ela a polícia. Duvido que ela seria presa. Se ela contasse a história, e se a mãe também o fizesse, certeza que ela receberia uma pena simples. Nada de grave. Voltaria a mãe, que provavelmente estava já enlouquecendo, afinal ela estava em um relacionamento abusivo.
Já Jonas, pouco pensou, e respondeu:
- Não faço ideia. Mal consigo pensar como seria tomar uma decisão como essa. Temos de um lado Amanda e do outro a Justiça. Acho que você poderia deixar ela em Luna, passa-la com uns psicólogos. Cuidarem dela e do bebê. E é claro, pedir pra polícia de Yontur vir aqui interrogá-la. Sempre com um psicólogo. Essa menina não precisa de advogados, mas de alguém que saiba ajudá-la de verdade. Mas sei lá, nem sei o que você pode fazer. Digo, qual a sua autoridade aqui.
Fernandes também não gastou muito tempo em silêncio e disse:
- Deixa ela ir pra Terra. Cara, foi legitima defesa. Ela não cometeu crime. Manda ela pra Terra e pronto. É o que ela quer. É o que você pode fazer. Vá em frente. Ela vai pra Terra.  Não faz sentido ela ser presa por isso. O que esse León fez não chega aos pés do que ela fez. Ele mereceu.
Michel respondeu:
- Acho que você poderia manda-la de volta a Yontur. Sei que lá tem excelentes reformatórios. Mandá-la de volta só se ela pudesse ficar em um desses. Ela não vai escapar da condenação. Mas ela precisa estudar. Ela é um gênio. Criar um tanque de O2 assim? De forma caseira? Ela pode mudar o mundo.
E assim, quando ouviu Jonas falar, concluiu que com toda certeza sabia quem estava demonstrando sintomas de infecção. Os chamou pela última vez.
- Seguinte, senhores. Sem mais delongas: Se eu tivesse que fazer um palpite, o que de fato meio que tenho que fazer, diria que Fernandes está infectado.
- Como é? – Gritou Fernandes.
- Um dos sintomas do vírus é a falta de empatia. Quem inicia uma guerra não consegue se colocar no lugar do outro. Não pelo menos quando está portando o vírus espartano. E sem a menor dúvida você é o que menos demonstrou empatia com Amanda, com sua mãe, ou com o Bebe. Mandar a menina à Terra? Como ela vai sobreviver? Em que condições? Não tem cabimento.
- Conheço várias pessoas que diriam o que ele falou – Disse Maria.
- Pode ser. Mas assim, preciso indicar alguém que mais provavelmente esteja infectado. O único que me deu motivos pra crer que estava foi Fernandes.
- Mas isso é um absurdo.
- Calma, Fernandes. Nada vai acontecer com você. Ou melhor, nada de muito diferente do que acontecerá conosco.
- Conosco? – Perguntou Michel
- Exato. Conosco. Fomos todos expostos ao vírus. Todos precisamos fazer testes e ficarmos isolados em Florto, a lua de Saturno que é uma base médica. Se algum de nós não está infectado, podemos ser imunes, precisamos ser estudados. Se algum de nós vier a desenvolver a doença, podemos ajudar a descobrir o tempo de incubação.
A notícia surtiu poucos efeitos nos quatro. Fernandes parecia irritado, mas sem dúvidas estava em um estágio inicial da doença. Um que em breve provavelmente todos estariam. Todos perceberam que a situação era de fato irremediável.
- Mas que vocês vão fazer comigo? – Disse Fernandes
- Bom, meu trabalho aqui era definir quem eu acho que está com o vírus. Você tem que viajar separado da gente, porque precisam duas pessoas para iniciar um conflito. Se alguém de nós chegar no nível de infecção que acredito que você esteja, podemos nos matar todos na nave.
- O que aconteceu com Amanda? – Perguntou Michel surpreendendo Teodoro.
- É... Bom, eu a mandei de volta ao seu planeta. Mas fui junto. Ser de Luna dá algumas vantagens. Conversei com todos os policiais e fiquei até o fim do julgamento. Ela foi condenada, mas cumpriu pena em um reformatório. – disse apontando a Michel – O melhor do planeta. Perdi contato com ela e seu irmão desde então. Difícil manter em dois planetas distantes. Acho que faz vinte anos toda situação. Ele foi um dos meus primeiros casos. Aliás, sabem quem é a médica chefe de Florto? – perguntou Teodoro.
- Amanda? – Perguntou Maria.
Teodoro sorriu para eles e disse:

- Não, eu realmente não sei quem é, mas seria irônico se fosse, né?



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