Escrito
por: Pedro Henrique Silva
Quando
o chamado chegou no comunicador da Torre F do terminal principal do
Espaço-Porto de Luna obviamente Teodoro Romanov foi chamado. Era uma situação
extremamente complicada. Não era todo dia que uma das maiores ameaças à
segurança da Terra chegava em Luna. Pelo menos era assim que os jornais
chamavam o caso da Nave RTNH-42 que atracaria no porto de Luna. E quem deveria
ser chamado senão Teodoro, o melhor e mais experiente agente da alfândega que
já houve? Pelo menos era assim que os outros agentes o chamavam.
Ele
sabia exatamente com o que estava lidando. Teve bastante tempo para pensar nas
implicações de aceitar aquela missão. O Sistema Tristoniano, que era de onde
partira a nave, ficava um pouco longe. Foi apenas no dia da chegada da nave,
porém, quando ainda estava pensando se aceitaria ou não, que finalmente tomou
sua decisão. Viu a Matriosca que mantinha em sua mesa para se lembrar das suas
raízes. Em Luna, era difícil não perder a noção de onde veio. Percebeu que ser
russo significava não desistir. Não fugir das ameaças de fora, nem de ser
exilado. Saiu de sua sala e foi recepcionar os quatro.
-
Ok, meu nome é Teodoro Romanov, e quero conhecer vocês melhor. Mas antes
preciso passar a situação a limpo, por uma questão burocrática. Acho que vocês
vão entender. – Disse Teodoro que usava suspensórios azuis (os quais faziam a
curva em sua barriga avantajada) e óculos de grau pretos. Parecia mais velho do
que era, apesar de ter feito a barba de manhã, justamente esperando a exposição
na mídia que o caso teria.
Sua
aparência não intimidava ninguém de um modo convencional. A questão aqui
era que Teodoro parecia bastante sábio.
Foi exatamente a impressão que tiveram aquelas quatro figuras que o
observavam na sala de interrogatórios do setor de imigrações ainda dentro do
terminal do espaço-porto. Essa possível sabedoria de Teodoro seria uma
característica que quatro professores saberiam muito bem valorizar.
-
Sabemos de tudo. Mas se o Senhor acha que é importante. – Disse um dos homens.
O qual aparentemente tinha certa autoridade entre eles.
-
Sim. É. O senhor é...? – Perguntou Teodoro
-
Meu nome é Michael. Prazer. – Disse o homem que usava um sobretudo preto. Era
alto, mas não parecia ameaçador.
-
O senhor não é o piloto da nave? – Perguntou Teodoro.
-
Não. Ele é. Jonas. – Apontou para um outro homem que ficara um pouco mais atrás
e que parecia tímido. Era gordo e estava com uma calça jeans e camiseta. – Mas
eu sou o dono dela e também professor de matemática.
-
Então, senhores Michael e Jonas. Prazer. Já volto a vocês. Bom, vamos lá. –
Disse Teodoro olhando para seu caderno – Vocês estão retidos aqui porque saíram
de um lugar de risco. Vocês possivelmente foram expostos ao Vírus Espartano, e
não podem entrar na Terra até que descubramos se estão ou não livres dele. É
uma situação muito complexa e espero que entendam.
-
Não há um exame clínico? – Perguntou uma mulher.
-
E você, quem é?
-
Meu nome é Maria. Sou professora de Biologia – Disse ela com um sorriso se
dando conta que não possuía nenhum outro título que fosse necessário mencionar,
a não ser a matéria que lecionava.
-
Prazer, Maria. E não, não há um exame clínico. Há sintomas, mas não há um
jeito de checar o sangue de vocês e saber se estão infectados ou não, se foi
isso que a senhora perguntou.
-
Entendo. E os sintomas? – Perguntou Maria.
-
Já chegamos neles. Me deixe terminar. – Disse Teodoro voltando ao caderno –
Entrevistarei vocês. Conversaremos primeiro como um grupo e depois
individualmente. O que não podemos é deixar que esse vírus chegue à Terra. –
Esperou ser interrompido novamente. Já que não foi, continuou – Me expliquem a
história de vocês.
-
Posso? – perguntou Michael
-
Eu espero que todos participem da conversa.
-
Mas posso começar? - Disse Michael.
-
Naturalmente.
-
Ok. Chegamos há dois meses em Triston 4. Era um lugar lindo, o senhor deve se
lembrar. Íamos passar duas semanas lá.
-
Férias?
-
Não. Trabalhamos juntos. Confraternização.
-
Em...julho?
-
É que somos professores.
-
Ah, ok. Tudo bem.
-
Então, quando chegamos lá, não deu...dois dias? – Perguntou aos colegas. Dois
deles confirmaram. Maria e um outro ao seu lado – Dois dias, e estourou a
guerra. Ficamos escondidos por um tempo no hotel. Nem saíamos dos quartos. Foi
um milagre. Vários outros prédios acabaram sendo derrubados.
-
Sim, sim, sim. Sinto muito. Aliás, me desculpem, mas nenhum de vocês morreu?
Aqui está todo grupo? – Perguntou olhando para o rapaz ao lado de Maria.
-
Sim – Maria respondeu - fomos nós quatro. Voltamos nós quatro.
-
Vocês já não tinham essa informação? – perguntou o homem ao lado de Maria.
-
Escute senhor... – Olhando para o caderno – Fernandes – Disse vendo uma
expressão curiosa no rosto do rapaz – Eu tenho várias informações. Não sei se
vocês sabem, mas a notícia da chegada de vocês foi amplamente divulgada. A
Galáxia sabe meio que tudo sobre vocês. Mas, entendam por favor, eu quero ouvir
de vocês.
Novamente
esperou alguma réplica. Não recebeu. Ele trataria todas as grosserias e
respostas atravessadas da mesma forma. Rudemente. Eles talvez tivessem ideia de
quão difícil foi evitar que eles fossem simplesmente destruídos do céu. Na
verdade, Teodoro os defendeu com tudo que tinha.
-
Ninguém vai continuar? – Perguntou Teodoro
-
Ah, ok. – Seguiu Fernandes - Então, quando descobriram a doença, controlaram
tudo, negociaram o cessar-fogo entre os dois planetas e o resto é história.
-
Ok. Vocês fugiram como?
-
Não fugimos. A guerra acabou. Simplesmente saímos. Não sabíamos que não
podíamos. A nave é particular.
-
Vocês não sabiam que o que causou a guerra foi um vírus? Um que deixava as
pessoas extremamente propensas a começarem conflitos?
Ninguém
respondeu. Todos olharam para Michael.
-
Entendi. A questão é: Vocês sabiam muito bem que um vírus daquele não podia
chegar na Terra, ou em qualquer outro lugar. Até porque, só há humanos no
sistema de Triston. Mas mesmo assim arriscaram. – Parou e prestou bem
atenção na reação de todos. Os três homens pareciam incomodados, Maria, não
muito - Vocês podem ir até aquela outra sala. É a porta à esquerda. Todos menos
o Senhor Michael. Vou começar com o senhor.
Todos
saíram e estremeceram. Havia duas paredes brancas, parecidas com campos de
força, isolando à esquerda e à direita. Elas eram translúcidas, e era possível
ver vultos, dezenas deles, atrás de cada uma delas. Só duas salas podiam ser
acessadas. Havia uma porta do lado esquerdo, como Teodoro falara, mas de frente
com a sala que eles estavam também havia uma.
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