sexta-feira, 2 de março de 2018

Os lobos e o velho


                                                                                   Escrito por: Pedro H. Silva
                As galinhas eram deliciosas. Mesmo magrinhas, mesmo servindo apenas para a produção dos ovos da fazenda, elas davam uma belíssima refeição. Felipe e os outros cinco lobos de seu bando escolhiam com cuidado suas vítimas. Alguns deles já com elas na boca sinalizava para que os outros escolhessem logo e partissem. O homem estaria chegando. Quando todos estavam segurando as galinhas pelo pescoço, a porta se abriu, e a sombra do velho já podia ser vista. O tiro de sua espingarda era ouvido claramente.
                Era sempre excelente quando o dono da fazenda viajava. Geralmente ele ficava umas duas ou três semanas fora, e quem ficava cuidado da casa era o pai dele. Um velho que mal sabia operar a espingarda. Era dele a tarefa de proteger a família, as vacas, os bois, os porcos e as galinhas. Essas últimas eram a paixão do bando de lobos que morava na floresta do lado da fazenda. A pequena alcateia – composta por seis lobos – sempre invadia o galinheiro.
                O tiro passou longe, bem longe dos lobos. O velho não aguentava o coice da arma e já estava de bunda no chão. Os lobos aproveitaram, saltaram pela janela que sempre era remendada, mas que nunca continha o ímpeto dos animais. E quando o velho se levantava não havia mais nenhum lobo aí. Só o resto das galinhas que continuavam a gritar.
                A questão é que aquele não era o único galinheiro. Havia outros três. Cada um com galinhas melhores. Todos um ao lado do outro. O mais próximo da casa era o melhor, com as galinhas mais gordas, as quais os fazendeiros vendiam. Seja quem fosse que estava guardando a casa sempre chegava lá muito rápido. De modo que uma invasão era bastante arriscada. Mesmo com o velho cuidando. Um roubo ao segundo, o qual ficava no meio e protegia as galinhas que serviam para consumo da casa, também era um pouco arriscado. Muito difícil de invadir com o jovem lá. O velho, porém, traria apenas eventualmente problemas.
                Felipe queria invadir o segundo galinheiro. Era mais protegido e os riscos eram maiores. Mas a recompensa era bem melhor. Marcos, o líder do bando, discordava frontalmente. Por melhores que pudessem ser as galinhas do primeiro, o ideal era se deliciar com as do terceiro enquanto era fácil. Marcos gostava de aproveitar a ausência do jovem assaltando o terceiro com tranquilidade. Sem precisar se preparar, observar e se preocupar enquanto roubava as galinhas. Já Felipe achava que eles tinham que ir além e tentar pelo menos o segundo. O velho poderia chegar lá bem mais rápido, mas seria como assaltar o terceiro com o jovem morando. Arriscado, mas possível.
                Finalmente, depois de alguns dias tentando convencer os lobos, Felipe conseguiu sua chance de invadir o segundo. Marcos precisou tomar essa decisão, uma vez que os outros lobos já estavam começando a apoiar Felipe. Marcos liderava a matilha há alguns anos. Felipe não demoraria muito para desafiá-lo, mas Marcos queria evitar um confronto maior, que envolvesse outros lobos. Enfim, naquela noite eles finalmente conseguiram entrar no galinheiro. A porta era mais forte e mais nova, contudo, havia um acesso por uma janela um pouco frouxa, na parte superior. Era um pulo difícil, mas os lobos estavam acostumados com aquele tipo de esforço. Todos conseguiram sem grandes problemas.
                Quando chegaram, Felipe se viu no paraíso. Eram galinhas bem mais gordas que as que só serviam para dar ovo. Ele mal conseguia escolher. Tantas... Todos os lobos já estavam em vias de pegar as galinhas, quando o velho entrou no galinheiro. O primeiro tiro foi um pouco menos desastroso. Não chegou perto de nenhum lobo, mas o velho não parecia tão inapto como da primeira vez. Havia um ódio em seu olhar. Como se ele não acreditasse na ousadia da matilha. E dessa vez o velho conseguiu se recuperar e atirar uma segunda vez. Mas os lobos já estavam, cada um com sua galinha na boca, pulando para a janela. Felipe foi o terceiro. Marcos o último. Mas todos conseguiram chegar ao chão do lado de fora em segurança. Não antes de ouvir o terceiro tiro passar zunindo pela orelha deles, abrindo um buraco grande no galinheiro. Ao chegar na caverna onde dormiam, os lobos não seguraram aquela espécie de entusiasmo nervoso. Um misto de medo de felicidade. Chegaram ilesos, mas a dificuldade os fez refletir se teria valido a pena.
                Então começavam os paradoxos. Porque os outros lobos, mesmo tendo saboreado incrivelmente suas galinhas, achavam que seria um erro voltar ao segundo. O velho chegara muito rápido. Foi um risco que valeu a pena, claro. Mas quem sabe se o velho da próxima vez não estaria muito mais pronto?  Já Felipe só conseguia pensar no tamanho nas galinhas do primeiro galinheiro. No tamanho e na quantidade. A sua parecia magra agora. Aquela que ele comia não tinha o gosto que as do primeiro deveriam ter.
                Na noite seguinte os lobos invadiriam o terceiro novamente. Era necessário aproveitar, uma vez que o jovem já estava por voltar. Provavelmente o velho ficaria até confuso e, ao ouvir o barulho, iria ao segundo antes do terceiro. E eles teriam mais tempo ainda. Todos concordaram. Menos Felipe. Ele queria o primeiro. Foi então que pensou que seria mais fácil fazê-lo sozinho. Assim, todos foram ao terceiro. Felipe, porém, debandou pela primeira vez em sua vida. Saiu do grupo sem que nenhum percebesse e fez a curva para ir ao primeiro galinheiro. Ao chegar lá, viu que o terceiro não tinha a facilidade do primeiro. Todas as janelas eram reforçadas e as portas eram de metal. Seria complicado, mas o Felipe não se intimidou e começou a cercar o galinheiro em busca de um espaço, uma fraqueza, focando agora na parte de baixo. Talvez pudesse cavar. Quando já estava terminando de rodar, viu uma sombra de um homem. Rapidamente deu um pulo para trás pensando que o velho não teria tempo de o atingir. Quando pulou para fora do alcance dele, sentiu sua orelha doer, e depois um barulho de tiro, antes de voltar a correr ele pode ver um carro diferente na garagem da casa. Um que não estava ali há duas semanas.
                O jovem então fez o contorno no galinheiro e tinha Felipe em sua mira. Felipe começou a pensar no erro que tinha cometido. O jovem atirou novamente. Felipe esperou o impacto, mas não foi atingido. Ouviu então o jovem urrando de dor. Quando olhou para trás viu Marcos agarrado em seu braço. Felipe pensou em ajuda-lo, mas Marcos olhou para ele, enquanto mastigava o braço do Jovem. Felipe sentiu que deveria fugir. Correu até que encontrou o resto da matilha na mesma posição que os deixou.
                Ninguém tinha visto Felipe sair da formação. Ninguém, exceto Marcos. Ele parou todos e foi atrás de Felipe imediatamente e ficou o acompanhando de longe. Quando o jovem saiu de casa e viu Felipe, Marcos não teve outra escolha senão ataca-lo. Os outros lobos olhavam com desprezo para Felipe, e ele, se pudesse, faria o mesmo, tamanha a vergonha. Porém, esse momento de desconforto terminou quando um machucado Marcos chegou na visão de todos, sinalizando para que eles corressem de volta. Todos entenderam e partiram. Menos Felipe. Ele esperou Marcos chegar e foi ao seu lado até a caverna. O jovem vinha atrás ainda atirando. Mas sem muito sucesso. Alguns minutos depois que os lobos chegaram à caverna, Marcos e Felipe também conseguiram o mesmo.
                Marcos, porém, estava muito ferido. Não resistiria. Contudo Antes de morrer passou a liderança da matilha para Felipe. Para a incredulidade de todos. Os atos gananciosos de Felipe que tinham matado Marcos. Ninguém entendeu. Mas Marcos tinha seus motivos. Ambição é justa e necessária. O problema não é tê-la, mas deixar que ela faça com que você não seja capaz de saborear outras vitórias. Um líder que sabe disso, pode ser o melhor de todos. Felipe aceitou de bom grado e como primeiro ato decidiu pensar em como invadir o segundo galinheiro da forma mais segura... possível.

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