sexta-feira, 29 de junho de 2018

Viagem


A porta do carro se fechava. Marcos saía com o guarda-chuva na mão e ia correndo encontrar com Catarina, que também saía do carro esperando o marido busca-la. Ele colocava a mão em seus ombros, e os dois percorriam o pequeno trecho descoberto entre a garagem e a porta da casa.
Assim que entravam, Marcos tirava seu casaco, fechava o guarda-chuva e o colocava aberto no banheiro. Nunca entendeu porque tirava primeiro o casaco, mudando o guarda-chuva de mão enquanto fazia, para só depois deixar o objeto no banheiro.  Mas tudo precisava ser feito naquela ordem ou o sistema todo simplesmente ruía.
- O que não aguento ver, é você se humilhando, amor. Só isso. – dizia ele sem esperar que ela tirasse o próprio casaco.
- Então é isso que você acha que eu tava fazendo? – perguntou ela.
- Sim! É. Olhando para ele daquele jeito. Você não precisa dele, Ca. Olha só pra você.
- Ele é só o maior cineasta do Brasil, Marcos.
- Aé? você acha? – perguntava virando as costas para a esposa e ia até sai gaveta na sala de estar para guardar suas coisas.
-  Aham. Por que você colocou o guarda-chuva no banheiro, caramba? Tem a lavanderia pra que?
- Eu sempre coloco aí.
- Não. Você não coloca. E para de mudar de assunto.
Geralmente era nesse momento que Marcos se recuperava totalmente da viagem.
- Você que mudou, cara. – dizia ele se virando para Catarina - Mas você quer voltar? Ok! Eu acho o tal do Ricardo bem superestimado e de uma vez por todas, você não precisa dele.
- Sabe o que mais me incomoda, Marcos? Essa preocupação pela minha dignidade disfarçada de ciúmes.
- Você não quer dizer o contrário? – perguntou com um sorriso enquanto passava por ela e ia em direção às escadas.
- Ah, saco. Isso. Você diz que não quer que me humilhe, mas quando eu tratei a Tabata do mesmo jeito ano retrasado, você não falou nada. – disse ela tirando os brincos e subindo as escadas atrás dele para o segundo andar.
- Tabata? Quando? – perguntava se virando para a esposa ainda na escada.
- Em Gramado.
- Gra... aaah -  dizia voltando a subir e agora chegando na porta do quarto - nem tem comparação, Catarina. Ali você estava parecendo que tratava ela como uma amiga...hoje com o Ricardo...
De todas as vezes que Marcos estivera ali, ele sempre se esforçava para lembrar daquele dia em Gramado. Se da primeira vez já tinha sido complicado, anos depois, o encontro com Tabata Silveira parecia mais um borrão em sua memória.
- Lá vem. Que eu tava interessada?
- Sim, quer saber? Sim! Parecia que você queria pegar ele.
- Sabia.  Quer saber, Marcos? – perguntou passando do marido e encontrando no quarto, apontando para ele seus brincos. Marcos só percebeu quão engraçado era aquilo mais ou menos na terceira vez que estava ali. No começo foi difícil segurar o riso. Hoje já era mais fácil. -  Você trata todas suas atrizes assim. Pensa que eu não vejo. E hoje com a Fernanda, hein?
- Aaaaa, não tem a menor comparação. A Fernanda é minha amiga há pelo menos vinte anos, Catarina. E você sabe muito bem disso. Ela fez só o melhor filme que já fiz.
- Maior que Devoção, né?
- Sei lá. Você que falou que o Ricardo era o melhor diretor do Brasil. – disse ele finalmente dando as costas à esposa e entrando no banheiro para tirar os sapatos. Aquela coreografia já não parecia mais natural. Mas era necessária. Era necessário que naquele instante o silêncio se estabelecesse entre os dois. Era necessário que Marcos demorasse, o dobro do tempo que demoraria em condições normais, para tirar seus sapatos e calçar o chinelo. Porque foi isso que ele fez da primeira vez
- Eu quis dizer, ele é o melhor diretor com quem não trabalhei. – disse ela beijando seu ombro.
- Não foi o que pareceu.
- Foi, amor. Não tem cabimento dizer que Ricardo é o maior diretor brasileiro. Eu já trabalhei com... com... o João Oliveira. - disse ela sorrindo.
- Nossa, Catarina você é ridícula. – falou Marcos segurando o riso ao virar e olhar para sua esposa. Nunca foi difícil segurar o riso. Segurar as lágrimas uma vez ou outra que havia sido o real desafio.
- Sabe o que tô com vontade de fazer agora? – perguntou a esposa beijando seu pescoço.
- Sei. – respondeu Marcos firme –tirar esse vestido que tá te apertando e tomar um banho com o maior diretor que o cinema nacional e o melhor marido do mundo. Bem cafona, se me permite. Então você vai tirar o vestido aqui mesmo e vamos transar. Talvez o melhor sexo que já tivemos. Não só por tudo, mas porque você vai engravidar de uma menina linda. Mas daqui a dois meses você vai descobrir que tem câncer no cérebro. A quimio vai ser muito pesada. Nossa filha morrerá depois de lutar muito por sete meses. E você vai em seguida. Aí eu vou querer reviver essa cena. Duzentas vezes. Até finalmente perceber o que já sabia. Nossas brigas eram tão boas quanto qualquer momento feliz que tínhamos. Mesmo que nunca resolvêssemos nada. Mesmo que fossem sempre pelos mesmos motivos, e mesmo se a gente não fizesse as pazes logo depois. Eram sempre com respeito. Eram sempre com amor. A gente, por mais irritado que tivesse, não se agredia. Essa vez foi a mais próxima disso que chegamos. Acho que é por isso que eu volto aqui. Justo aqui. Pra concluir que não era como eu pensava. Mas não.  Obrigado pelos 10 anos. O que você me deu, Catarina, foi muito maior que qualquer prêmio que eu possa ter ganhado.
Então, Marcos foi até a porta, enquanto a mulher estava paralisada. Como sua memória não envolvia aquilo, a Máquina de Lembranças não soube como interpretar a situação, o que o dava apenas mais uns 10 segundos antes que ele simplesmente fosse ejetado do sistema por falta de dados. Aquela tela azul apareceria em seu visor e o faria acordar.
- Sabe que foi a primeira vez que escolhi não passar a noite com você pela última vez? – disse ele olhando para as costas da mulher. – última.


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