A porta do carro
se fechava. Marcos saía com o guarda-chuva na mão e ia correndo encontrar com
Catarina, que também saía do carro esperando o marido busca-la. Ele colocava a
mão em seus ombros, e os dois percorriam o pequeno trecho descoberto entre a
garagem e a porta da casa.
Assim que
entravam, Marcos tirava seu casaco, fechava o guarda-chuva e o colocava aberto
no banheiro. Nunca entendeu porque tirava primeiro o casaco, mudando o
guarda-chuva de mão enquanto fazia, para só depois deixar o objeto no banheiro. Mas tudo precisava ser feito naquela ordem ou
o sistema todo simplesmente ruía.
- O que não
aguento ver, é você se humilhando, amor. Só isso. – dizia ele sem esperar que
ela tirasse o próprio casaco.
- Então é isso
que você acha que eu tava fazendo? – perguntou ela.
- Sim! É.
Olhando para ele daquele jeito. Você não precisa dele, Ca. Olha só pra você.
- Ele é só o
maior cineasta do Brasil, Marcos.
- Aé? você acha?
– perguntava virando as costas para a esposa e ia até sai gaveta na sala de
estar para guardar suas coisas.
- Aham. Por que você colocou o guarda-chuva no
banheiro, caramba? Tem a lavanderia pra que?
- Eu sempre
coloco aí.
- Não. Você não
coloca. E para de mudar de assunto.
Geralmente era
nesse momento que Marcos se recuperava totalmente da viagem.
- Você que
mudou, cara. – dizia ele se virando para Catarina - Mas você quer voltar? Ok!
Eu acho o tal do Ricardo bem superestimado e de uma vez por todas, você não
precisa dele.
- Sabe o que
mais me incomoda, Marcos? Essa preocupação pela minha dignidade disfarçada de
ciúmes.
- Você não quer
dizer o contrário? – perguntou com um sorriso enquanto passava por ela e ia em
direção às escadas.
- Ah, saco.
Isso. Você diz que não quer que me humilhe, mas quando eu tratei a Tabata do
mesmo jeito ano retrasado, você não falou nada. – disse ela tirando os brincos
e subindo as escadas atrás dele para o segundo andar.
- Tabata?
Quando? – perguntava se virando para a esposa ainda na escada.
- Em Gramado.
- Gra... aaah
- dizia voltando a subir e agora chegando
na porta do quarto - nem tem comparação, Catarina. Ali você estava parecendo
que tratava ela como uma amiga...hoje com o Ricardo...
De todas as
vezes que Marcos estivera ali, ele sempre se esforçava para lembrar daquele dia
em Gramado. Se da primeira vez já tinha sido complicado, anos depois, o
encontro com Tabata Silveira parecia mais um borrão em sua memória.
- Lá vem. Que eu
tava interessada?
- Sim, quer
saber? Sim! Parecia que você queria pegar ele.
- Sabia. Quer saber, Marcos? – perguntou passando do
marido e encontrando no quarto, apontando para ele seus brincos. Marcos só
percebeu quão engraçado era aquilo mais ou menos na terceira vez que estava
ali. No começo foi difícil segurar o riso. Hoje já era mais fácil. - Você trata todas suas atrizes assim. Pensa que
eu não vejo. E hoje com a Fernanda, hein?
- Aaaaa, não tem
a menor comparação. A Fernanda é minha amiga há pelo menos vinte anos,
Catarina. E você sabe muito bem disso. Ela fez só o melhor filme que já fiz.
- Maior que
Devoção, né?
- Sei lá. Você
que falou que o Ricardo era o melhor diretor do Brasil. – disse ele finalmente
dando as costas à esposa e entrando no banheiro para tirar os sapatos. Aquela
coreografia já não parecia mais natural. Mas era necessária. Era necessário que
naquele instante o silêncio se estabelecesse entre os dois. Era necessário que
Marcos demorasse, o dobro do tempo que demoraria em condições normais, para
tirar seus sapatos e calçar o chinelo. Porque foi isso que ele fez da primeira
vez
- Eu quis dizer,
ele é o melhor diretor com quem não trabalhei. – disse ela beijando seu ombro.
- Não foi o que
pareceu.
- Foi, amor. Não
tem cabimento dizer que Ricardo é o maior diretor brasileiro. Eu já trabalhei
com... com... o João Oliveira. - disse ela sorrindo.
- Nossa,
Catarina você é ridícula. – falou Marcos segurando o riso ao virar e olhar para
sua esposa. Nunca foi difícil segurar o riso. Segurar as lágrimas uma vez ou
outra que havia sido o real desafio.
- Sabe o que tô com
vontade de fazer agora? – perguntou a esposa beijando seu pescoço.
- Sei. –
respondeu Marcos firme –tirar esse vestido que tá te apertando e tomar um banho
com o maior diretor que o cinema nacional e o melhor marido do mundo. Bem
cafona, se me permite. Então você vai tirar o vestido aqui mesmo e vamos
transar. Talvez o melhor sexo que já tivemos. Não só por tudo, mas porque você
vai engravidar de uma menina linda. Mas daqui a dois meses você vai descobrir
que tem câncer no cérebro. A quimio vai ser muito pesada. Nossa filha morrerá
depois de lutar muito por sete meses. E você vai em seguida. Aí eu vou querer
reviver essa cena. Duzentas vezes. Até finalmente perceber o que já sabia.
Nossas brigas eram tão boas quanto qualquer momento feliz que tínhamos. Mesmo
que nunca resolvêssemos nada. Mesmo que fossem sempre pelos mesmos motivos, e
mesmo se a gente não fizesse as pazes logo depois. Eram sempre com respeito.
Eram sempre com amor. A gente, por mais irritado que tivesse, não se agredia.
Essa vez foi a mais próxima disso que chegamos. Acho que é por isso que eu
volto aqui. Justo aqui. Pra concluir que não era como eu pensava. Mas não. Obrigado pelos 10 anos. O que você me deu,
Catarina, foi muito maior que qualquer prêmio que eu possa ter ganhado.
Então, Marcos
foi até a porta, enquanto a mulher estava paralisada. Como sua memória não
envolvia aquilo, a Máquina de Lembranças não soube como interpretar a situação,
o que o dava apenas mais uns 10 segundos antes que ele simplesmente fosse
ejetado do sistema por falta de dados. Aquela tela azul apareceria em seu visor
e o faria acordar.
- Sabe que foi a
primeira vez que escolhi não passar a noite com você pela última vez? – disse
ele olhando para as costas da mulher. – última.
Nenhum comentário:
Postar um comentário