sexta-feira, 23 de junho de 2017

Depois do fim - Parte I

Escrito por Pedro Henrique Silva

Eles não sabiam o que os estava atacando. O que, quem, como... nada disso importava muito desde que o céu ficou escuro. Aquelas 5 naves gigantes que pairaram sobre algumas cidades do mundo fazia um ano mudaram tudo. Desde então muita coisa tinha acontecido: Bombas atômicas clareando algumas noites, bases inteiras do exército caindo e uma ofensiva monumental global que derrotou boa parte das naves inimigas.
Ninguém podia responder nenhuma daquelas perguntas. Nem Jack, Jessica, John, Robert e Beatriz. Nenhum dos amigos que já estavam morando nas salas de aula 151 do prédio F da Universidade de Phoenix há uns 5 meses. Mas alguém os atacava agora. Bombas, tiros e gritos eram o que se ouvia, logo abaixo deles.
Primeiro foi o prédio E que estava sendo vasculhado por algum tipo de grupo armado. Não era possível saber quem. Mas eram indivíduos com armas não muito pesadas que marchavam contra o prédio. Podiam ser aliens remanescentes em busca de humanos famintos que entravam em conflito por comida apenas, ou aqueles extremamente violentos que roubavam tudo que podiam. Pela quantidade de disparos era a terceira opção.
A janela da sala em que eles estavam no F dava para o topo do E, não sendo possível ver sua base. Pela primeira vez, Jack pensou se foi uma boa ideia ter escolhido uma sala tão alta. Geralmente, quando uma milícia saqueadora ou um grupo alien tentava invadir a Universidade de Phoenix, começava-se pelo prédio G. Depois, quase que fugindo do G ao ser quase dizimada ali, ou batia em retirada, ou chegava aos frangalhos ao F, e nem passava dos dois primeiros andares. Logo, a posição no 5º e penúltimo andar parecia uma excelente escolha. Não dessa vez, porém. O grupo, que nunca precisou lutar de verdade, lamentava a decisão.
Nem todos, porém. Jack não sabia exatamente o que estava sentindo. O fato é: Finalmente existia a possibilidade de lutar. E isso, surpreendentemente, o estava acalmando.
- Você parece calmo demais – Notou Jéssica ao ver que Jack era o único que não parecia estar segurando um grito de desespero.
- Estamos preparados, Jess. Finalmente vamos poder usar isso. – Disse Jack mantendo a voz baixa, se referindo às duas escopetas e às duas metralhadoras que o grupo tinha trocado por uma enorme quantidade de massas de pizza. Os grupos da 150, 149, 148 e 144 estavam se deliciando com elas há semanas. Cada uma das armas foi trocada por 10 massas as quais Beatriz trouxera da loja de sua mãe. Precisamente quando o grupo pensou que talvez fosse uma boa ideia parar de confiar nos suprimentos da lanchonete daquele andar e ir para o mercado Los Anjos para conseguir comida para consumo e troca.
- Você sabe que nem eu, nem o Robert nem a Jess jamais disparamos uma dessas, né? – Disse John indignado com a tranquilidade de Jack.
- Sei, mas não tem segredo. E outra, acho que não vamos precisar usá-las. As primeiros andares sempre dão conta de apagar as milícias. – Disse Jack quase que desapontado.
- Quando o G já tinha as enfraquecido – Notou Beatriz que sabia disfarçar um pouco melhor o nervosismo do que os demais.
- Vocês querem parar? – Disse Robert quase sussurrando – Se a gente precisar vamos meter chumbo nesses lagartos malditos.
- Pela última vez, amor, Não são lagartos. E outra, nem sabemos se esses caras são humanos. Pode ser uma milícia que só quer os suprimentos e as armas – disse John não muito carinhoso.
 - Lutando desse jeito? Ou são saqueadores ou aliens. Mas assim, é mais fácil atirar no inimigo se pensarmos neles como alienígenas, do que acharmos que eles são humanos precisando de armas para lutar. – Disse Jack.
- Como você sabe? – Perguntou Jéssica.
- Palpite. – Respondeu, Jack.
- Palpite? Isso não é tipo um jogo de vídeo game para você ter palpite. – Disse Jéssica
- Mas vamos atirar se forem humanos? - Perguntou Robert
- Bom, vamos tentar conversar. Não podem levar tudo. Se só estiverem com fome vão aceitar só comida sem luta. Se quiserem armas… - Falou Jack
- Nada é reconfortante, afinal você também nunca lutou contra esses caras. E sua experiência com armas é baseada nas vezes que você foi caçar comigo e com meu pai. – Disse Beatriz com um pouco de tristeza na última frase. Um que deixou todos um pouco pensativos e fez Jéssica colocar a mão no ombro de Beatriz.
- Tá. Ninguém vai atirar aqui. Vamos tentar resolver isso na boa. – Disse Jack.
- Que boa? – Perguntou Jéssica.
- Sei lá, vou tentar ver quem eles são. – Respondeu Jack.
- E como você pretende fazer isso? – Disse Robert.
- Ah, vou descer devagar pela escada e dar uma espiada. Se forem humanos eu  posso tentar oferecer as massas da Bee.
- São as últimas. – Observou Beatriz, já recuperada da nostalgia.
- Eu sei, mas ...- Jack foi interrompido por um grito que parecia logo abaixo deles e alguns tiros que os calaram.  Todos se olharam e já não parecia uma ideia tão ruim assim saber com quem estavam lidando.
- Se você for, leve alguém com você. – Disse Beatriz.
- Não, Bee. Você não vai. - Disse Robert.
- Claro que eu vou. Você mesmo disse que eu sou a única que sabe atirar...depois do Jack. – Respondeu Beatriz.
- Fui eu, Bee – Disse John.
- Sei lá, vocês são uma pessoa só. – Respondeu Beatriz com um sorriso. Ninguém entendia o senso de humor dela. Jack estava tranquilo, mas não fazia piadinhas.
- Ok, vamos logo então. – Disse Jack.
- Não vamos colocar isso em votação? – Perguntou Jess
- Não. – Respondeu Jack-  temos que ir logo. Eles começaram agora no andar de baixo. Devem ir de sala em sala. E logo, já que pelo que eu saiba eles não têm armas. Devem subir em uns 10 minutos -  Disse Jack já abrindo devagar a porta com a escopeta nas mãos. Beatriz preferiu a metralhadora. Eles não podiam acreditar na facilidade com a qual conseguiram aquelas armas.
           Do lado de fora andando devagar, os dois passaram pelas salas. Todas fechadas sem nenhuma reação aparente.
- Porque você quis vir?- Perguntou Jack
- Porque eu te conheço e te entendo. – Respondeu Beatriz.
- Mais que a Jessica? – Perguntou Jack
- Não! É que ela você não ia deixar vir – Disse Beatriz. Este comentário foi seguido por um silêncio enquanto os dois passaram por outras cinco.
- Nós duas sabemos muito bem que você tá amando isso aqui. – Prosseguiu Beatriz.
- Eu? Amando ver pessoas que eu amo serem mortas? Bilhões de pessoas?
- Jack, nós quatro daquela sala somos as pessoas que você ama. E estamos vivos e bem.
- Meus pais…
- Seus pais devem estar ótimos e você sabe disso. Não conheço ninguém mais durona que a sua mãe. E a relação de vocês estava péssima há quanto tempo? Dois anos? – Perguntou Beatriz.
- Mas nós nunca brigávamos! Eles são estavam ocupados demais pra conversar. – Respondeu Jack
- Mas isso não é pior? – Disse Beatriz
- Não! Eu só quero que isso acabe tanto quanto você!
- Eu entendo, Jack! Entendo, não gosto, mas entendo.
- Não tem o que gostar. Eu tô péssimo sim!... Mas assim, o que John e Robert pensam?
- Jobert? Não sei. Robert deve desconfiar. John talvez, se Robert o contou.
- Tá…  É que... todos vocês iam embora – Disse Jack parando em frente à penúltima sala antes das escadas. Eles perceberam que o grupo ainda estava um pouco longe da escada. – Eu ia ficar sozinho. Eu não tinha mais minha bolsa aqui. Não sabia o que fazer. Não tinha futuro mesmo. Essa maldita contusão. Que carreira que eu podia seguir? Eu só sei jogar futebol, Bee. – Disse Jack no limite do sussurro.
- Eu sei, eu sei. De verdade. Mas.... enfim, não transpareça, ok? – Disse Beatriz sabendo que era um tanto quanto absurdo e muito egoísta o jeito com o qual Jack lidava com a situação. Mas tirá-lo desse estado poderia o deixar tão desesperado quanto o resto do grupo. E eles precisavam de um líder. E Jack estava fazendo um bom papel até aquele dia.
Jack, por outro lado, se sentia bem por não ser julgado por Beatriz. E pelo jeito não o seria por Jéssica. Já bastava o julgamento interno que ele tinha que enfrentar todo dia. Mas alguém o condenando por estar contente com a situação parecia horripilante.
Foi quando mais tiros interromperam os sentimentos daquela conversa. Jack e Beatriz se recompuseram e desceram as escadas muito lentamente tentando se inclinar para espiar o que acontecia no andar de baixo. A cada degrau Beatriz era tomada por um medo que não sentia desde que eles se estabeleceram no prédio. Jack, por uma injeção de adrenalina que ele só sentira nos segundos finais do jogo contra o Colégio Fênix nas semi finais do ano passado.
Quando chegaram no último degrau Jack segurou a arma com mais firmeza e com o dedo no gatilho. Se inclinou e viu cinco homens armados retirando de uma das últimas salas do andar um dos alienígenas que eles viram apenas na TV, claro, antes da energia acabar dois meses atrás. O alienígena parecia implorar, quando o homem deu um tiro em sua cabeça. Outros dois homens faziam o mesmo com as salas de trás. Jack percebeu o que acontecia: Algumas daquelas salas tinham alienígenas. E aqueles homens estavam apenas os caçando.
Um alívio misturado com desapontamento percorreu o corpo de Jack. Beatriz tinha só alívio. Foi quando o homem, que parecia o líder, gritou pra sala da frente:
- Toc toc - Gritou o homem, Você sabe como isso funciona: Vamos entrar. Se você for humano, nos passe tudo que tem e vamos embora. Se for Critor, por favor, resista. – concluiu..

O desapontamento virou medo. Aqueles homens caçavam aliens, mas ele e seus amigos não estavam a salvo. Nem um pouco. Mas Jack sabia exatamente o que fazer. Ou quase.

Nenhum comentário:

Postar um comentário