Escrito por Ludmila Barros
- Oi, meu bem. Cheguei. - Fernando disse ao entrar em casa e deixar sua carteira e a chave do carro numa tigela na cozinha.
Ele deu uma olhada por lá e pela sala e não viu ninguém.
- Lili? Onde você tá? - ele disse já se dirigindo para o quarto.
- Estou aqui, meu amor. Vem aqui no quarto. - respondeu Liliana.
Ele entrou no quarto foi até ela, que estava sentada na ponta a cama. Deu-lhe um beijo e seguiu para tirar sua roupa.
- Tá tudo bem, Lili? Eu já vou tomar banho, quer aproveitar que eu cheguei cedo pra sair pra jantar? - ele tirou a camiseta e a jogou na cama.
- Não, eu não estou muito bem do estômago. Hoje de manhã eu já acordei com ele revirado, acabei vomitando o jantar de ontem. - ela respondeu abatida.
- Nossa, será que foi a comida? Não aconteceu nada comigo. - ele se sentou do lado dela e a abraçou. - Mas você já está melhor?
- Um pouco, sim. Apesar de que eu acabei ficando de cama o dia inteiro, nem fui trabalhar.
- Não foi nem trabalhar? Por que não me avisou?
- É, tava com tanta coisa na cabeça que acabei ficando meio presa aqui dentro de casa, esqueci de te avisar. - ela abaixou a cabeça.
- Não tem problema, meu amor. - ele passou a mão no rosto dela - mas você ainda tá com um aspecto ruim. Melhor ficar de cama mesmo. Eu tomo um banho rápido e já venho deitar um pouco com você. Pode ser? - ele deu um beijinho na cabeça dela e levantou para ir em direção ao banheiro.
- É que… - ela hesitou um pouco, ele parou para esperar ela terminar de falar - talvez tenha outro motivo pra esse meu mal estar.
- É, realmente, se continuar assim é melhor a gente ir pra algum Pronto-Socorro mesmo, melhor prevenir. - ele então entrou no banheiro.
- Não, meu amor. Outra coisa. - ela insistiu - lembra que o meu médico me pediu pra parar de tomar o anticoncepcional por causa dos efeitos colaterais que tavam dando?
Fernando travou no lugar em que estava. Ficou alguns segundos paralisado tentando prever e analisar o diálogo que viria em seguida. ‘Não pode ser, não pode ser, não agora, não agora, por favor, não, não’, seus pensamentos atingiram velocidades altíssimas em poucos segundos.
- E o que que tem? - ele perguntou ainda sem sair do banheiro, mesmo sem querer ouvir a resposta.
- Como assim ‘o que que tem’, Fernando? - o tom de voz de Liliana ficou cansado.
Ele voltou para o quarto, mudou sua feição para algo mais surpreso.
- Eu saí pra ir na farmácia hoje de manhã, depois de passar mal, - ela continuou, olhando para o rosto dele, Fernando permanecia de pé - eu já estava com alguma desconfiança, eu já estou atrasada 3 semanas, achei que era estresse, mas pra tirar a dúvida eu acabei comprar um teste de gravidez. - ela esticou o braço e pegou o tal teste que estava na gaveta do criado-mudo - E deu positivo.
Ele pegou o teste na mão e afundou na cama ao lado dela.
- Mas isso pode dar resultado falso, não é? Não dá pra confiar só num teste de gravidez de farmácia, né Liliana. - Fernando começou a tremer com o teste na mão.
- Eu tenho certeza que tá certo. Não era pra ser uma notícia tão dramática assim, não é o fim do mundo, se acalma. - Liliana tirou o teste da mão dele e o jogou de volta na gaveta. - Dez anos juntos e você fica todo desesperado com uma notícia dessa, se acalma, Fernando! - ela se levantou da cama e foi para o banheiro.
- Mas Liliana, a gente não tem dinheiro pra isso agora. - ele ficou agitado - Você sabe que eu tô fazendo uns investimentos altos lá no trabalho. - ele disse afobado.
- Se acalma, Fernando! - ela disse brava, ainda no banheiro.
- Tudo bem.. Não tem problema, vai dar tudo certo. - ele disse tentando se acalmar.
- Problema é câncer, Fernando, problema é a fome no mundo. Gravidez dentro de um casamento de dez anos é, no mínimo, previsível.
Ela voltou para a cama e o expulsou do lugar dela, e então se deitou. Pediu para ele apagar a luz e ele obedeceu. Quando Fernando entrou no banheiro, seu celular, que ainda estava em seu bolso, vibrou e ele leu a mensagem. Logo depois entrou no banho e depois foi se deitar ao lado de Liliana. Virado de costas, Fernando ficou encarando o rádio-relógio na sua cabeceira, sem sucesso algum na tentativa de adormecer.
***
Na manhã seguinte, quando chegou em seu escritório, sua assistente lhe passou os recados e avisou que uma mulher insistiu em esperar ele chegar lá dentro de sua sala.
- Tudo bem, Priscila, eu já sabia que ela vinha, obrigada. - ele então entrou em sua sala e logo trancou a porta. - Já te falei que vir aqui no meu escritório não é uma opção, de jeito nenhum.
- É assim que você diz ‘bom dia’ agora? - Isabelle disse, sentada na mesa, de pernas cruzadas com uma saia curta.
- E é assim que você diz ‘bom dia’ também, - ele apontou o dedo para suas pernas - abrindo tudo logo de manhã.
- Eu sei que você gosta. - ela se levantou e foi sentar no sofá. - Vem cá que eu sei resolver o seu mal humor matinal.
- Por que você veio aqui? - ele disse se sentando ao lado dela.
- Eu tava com saudade! Você nem respondeu minha última mensagem ontem à noite, - ela disse entre os beijos que dava no pescoço de Fernando. - fiquei triste! Não gosto de dormir sozinha.
Fernando não resistiu muito e ficou ali no sofá com Isabelle por quase algumas horas. Quando terminaram, Fernando teve que empurrar o sofá de volta para seu lugar. Ele se levantou e começou a se vestir novamente.
- Mesmo assim, você não pode vir aqui, Isa. É perigoso. - ele colocou somente a camiseta e foi sentar em sua mesa. - Acho melhor você ir embora já.
- Mas o melhor ainda não foi! - Isabelle disse, sentando-se no sofá, ainda nua.
- Daqui não sai mais nada, desculpa. - Fernando respondeu já vidrado na tela de seu computador.
- Não é isso, seu bobo! Eu tenho uma notícia. - Isabelle pegou a manta do sofá para se cobrir e se sentou na ponta da mesa dele. - Uma notícia boa!
Fernando respirou fundo antes de responder, ainda não conseguia parar de pensar na noite anterior.
- Não sei se quero saber. - ele finalmente olhou para Isabelle - Ontem foi um dia maluco, eu to com um monte de problema pra resolver. - ele começou a passar a mão pelo corpo dela. - Por que você não vai lá pra aquele apartamento lindo que eu aluguei pra você, fica lá, tranquila, resolve suas coisas, hein? - ele beijou a coxa dela.
- Para de falar, Fernando! Só fala besteira! Deixa eu falar agora. - ela ficou de pé e passou a mão pela sua barriga lisa. - Eu fiz um exame de farmácia ontem. Eu tô grávida! E eu já acho que é um menininho! - Isabelle contou sorrindo.
A única reação de Fernando foi fechar os olhos e colocar as mãos na cabeça.
- Nando! Imagina um Fernandinho aqui? - ela continuou falando e passando a mão em sua barriga.
- Você tá maluca, Isabelle? Como você pode tá feliz com isso? - apesar das palavras fortes, Fernando não foi rude.
- Aí, Fernando, que mulher não quer ser mãe? Me diz?
- Você tem vinte anos, Isabelle! E ainda não tá nem na metade da faculdade que eu tô te pagando! Um bebê só vai atrapalhar a sua vida! - ele ainda continuava sentado, em choque.
- Mas Nando, a gente não vai morar junto? - ela sentou no colo dele - Você me prometeu isso, lembra? Não tenta me enrolar mais uma vez! - ela começou a beijar o pescoço dele - Aquele apartamento precisa de mais gente. Ficar sozinha lá é muito chato.
- Não vai dá pra sair de casa agora, não. - Fernando disse enquanto deixava Isabelle intensificar as carícias.
- Não quero saber de mais nenhuma desculpa! To cansada de ser enrolada, tantos anos esperando esse divórcio que nunca vem! Agora é a hora! - Isabelle parou e encarou Fernando.
- Não dá, simplesmente não dá. - ele hesitou - A Liliana me disse ontem que também tá grávida.
- Eu não acredito! - Isabelle levantou e se afastou - Eu não acredito que você vai inventar uma gravidez pra me enrolar mais uma vez.
- Mas não é…
- Ontem era só “eu te amo” pra cá, “vou pedir o divórcio” pra lá. Chega Fernando, é agora ou nunca! “É claro que eu quero morar com você” - ela imitou a voz dele - e eu ainda acreditando. Mas eu não vou cuidar dessa criança sozinha não!
Fernando tentou abrir a boca pra falar alguma coisa, mas Isabelle emendava uma coisa na outra e não deixava.
- Resolve aí como você vai fazer! Eu não quero saber. Você nem gosta dessa mulher aí. Pegar a novinha de vinte no sofá é fácil, quero ver todo o resto! - Ela começou a se vestir - Então é isso! Ou tem tudo, ou não tem nada! Assume a parte ruim também ou não vai ter mais essas partes boas.
Fernando ficou em silêncio. Isabelle terminou de se arrumar, colocou todas as suas coisas na bolsa e tirou o teste de gravidez. Mostrou pra ele e colocou em cima de seu teclado. Ela agarrou o queixo dele.
- Eu quero você lá no nosso apartamento no final desse mês. Eu não quero saber como.
Ela tascou um beijo demorado nele, pegou sua bolsa e jaqueta e saiu do escritório.
***
Isabelle entrou na farmácia já falando alto demais.
- Oi, moço, eu preciso de um teste de gravidez. Não precisa ser caro, não, o mais baratinho tá ótimo.
Ela percebeu o olhar de reprovação vindo de uma mulher que estava ao seu lado.
- Desculpa, moça, a senhora tava na fila? Às vezes eu sou meio atrapalhada mesmo. - a mulher não respondeu e voltou a olhar para o pacote que estava em suas mãos - A senhora também tá nessa? - ela apontou para o pacotinho.
- É, acontece né. - a senhora foi monossilábica, sorrindo gentilmente.
- Pois é, pra uma senhora distinta como a senhora parece que é, deve ter um marido ótimo, não é? Não deve ser uma desgarrada que nem eu.
- Ah, sim, eu sou casada sim. - ela continuou sorrindo - vamos completar 10 anos de casados daqui a pouco.
- Não disse? Dá pra ter certeza que a senhora é uma mulher decente. Eu não, comigo o esquema é outro. - Isabelle riu alto. - Foi tudo planejado, não foi?
- Não, muito, não - a senhora se mostrou um pouco abatida - talvez nós não estejamos mais no momento certo pra isso.
O farmacêutico trouxe uma caixinha com o teste de gravidez mais barato que tinha. Isabelle o pegou nas mãos e olhou todos os lados.
- E ainda deve ser caro isso aqui. Já vai pro caixa? - Isabelle perguntou pra senhora e ela acenou que sim. - Ah, mas será que uma criança não vem pra salvar o casamento, não?
- Difícil dizer nesse momento, eu ainda estou mal do enjôo matinal. - elas foram se direcionando para o caixa.
- Ainda sim, a situação da senhora é bem melhor que a minha, isso aqui - Isabelle levantou a caixinha - é que vai me garantir um futuro melhor, um futuro sem perrengue, sem estresse. Isso aqui é pra agarrar o homem de vez. - as duas riram juntas.
Isabelle passou primeiro no caixa e a senhora logo em seguida. A conversa se interrompeu até que elas se encontraram de volta do lado de fora da farmácia.
- A senhora vai para que lado? - Isabelle perguntou.
- Pra esse aqui - a senhora apontou para o lado que estava de costas.
- Que pena, eu preciso ir pro outro. Mas foi uma boa conversa. Aliás, meu nome é Isabelle.
- Prazer, Isabelle. O meu é Liliana.
Isabelle congelou por alguns segundos, até Liliana acabou notando.
- Tá tudo bem? - Liliana perguntou.
- Tá sim - Isabelle respondeu voltando a realidade - Minha avó chamava Liliana, acho um nome muito lindo. Mas é isso então. Até uma próxima vez, Liliana!
- Até qualquer hora, Isabelle.
Elas se comprimentaram e Isabelle assistiu Liliana ir embora de costas, ainda chocada com a coincidência.
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