sexta-feira, 9 de junho de 2017

Relaxa

Escrito por Pedro Henrique Silva

- Bom dia, Cris. Como vai você? – Disse Frida ao me acordar, às 7h, com “Hard day’s night” como de costume, todas as quartas, claro.
- Bom dia, Frida. E hoje? O que temos? – Perguntei a ela enquanto ela já apagava novamente a luz do quarto e projetava na parede minha agenda.
- Não! Quero saber para o café da manhã!
- Na geladeira há iogurte novo. Há também várias frutas novas. O senhor poderia fazer uma salada de fruta.
- Ué? Não tem bacon?
Frida não respondeu
- Frida. Não tem bacon na geladeira?
- Sim, Cris.
- Maravilha. Então, me fala a agenda.
- Você tem uma reunião com o Sr. Fernando na obra, depois um almoço com a Paula... E um ingresso para o jogo do Palmeiras a noite.
- Nada à tarde?
Mais um silêncio
- Frida, alguma coisa a tarde?
- Não!
- E como assim, “ingresso”? Eu vou ao jogo do Palmeiras. É semi final da Libertadores? É contra o Corinthians! Como eu não vou?
- Sim, Cris. Nada a tarde e o jogo do Palmeiras às 22h.
Não entendi muito bem as pausas de Frida. Vai ver foi algum erro. Desde a atualização do último fim de semana, alguns usuários da estavam reportando erros estranhos na programação de Frida. Mas como eu sempre fui muito influenciável, preferi não abrir as notícias mas ficar alerta para qualquer problema. Essas pausas e essas informações estranhas poderiam ser só os engenheiros tentando mostrar os novos recursos que inseriram na IA deles.
           Mas confesso que depois de duas horas eu já havia esquecido totalmente aqueles pequenos erros e já estava nervoso para a reunião com o Fernando. Daquela vez eu não seria perdoado. Claro que foi só um problema com um funcionário que fez merda. Mas como fui eu quem o recomendou, eu poderia ter algum problema. Talvez eu estivesse sendo paranoico. Enfim, a economia estava ruim, ser demitido agora não seria nada bom. Principalmente com o casamento.
- É sério, Cristiano? Não. Relaxa. Você anda muito nervoso. – Disse Fernando com um sorriso no rosto
- Desculpa, chefe. Muita coisa na cabeça.
- Só te chamei para conversarmos sobre as luzes. Você recomendou Led com resfriamento líquido. Mas assim, eu gosto muito de Luminescência por elétrons.
- Com todo respeito, senhor, as Lâmpadas Switch duram bem mais.  20 anos .
- Eu sei... mas assim, essas VU1 são bem mais bonitas, e podem até durar a metade do tempo, mas são mais forte e custam menos.
- Olha, senhor, essa dúvida também me deixou sem dormir, confesso. Mas…
- Pera, você ficou sem dormir para escolher a lâmpada?
- É, porque? Você não?
- Claro que não, Cristiano. Nossa, desculpa. Eu te dei essa folga de quarta para te aliviar um pouco, mas eu mesmo já tirei você do descanso. Poderia ter só ligado. Desculpa. Você tá mesmo precisando relaxar, cara.
- Desculpa, Fernando. Essa é a obra mais importante da minha vida, e…
- Parou! Vamos fazer assim, confio no seu julgamento. Usemos as Switch. E você está proibido de pensar nessa obra às quartas. Desculpa, eu errei.
- Tudo bem. Magina. E sobre ontem…
- Ai, Cris, relaxa, cara. Aquele cara te desrespeitou. Você tinha que demitir. Fica tranquilo.
- Ok! Beleza
- Vá pra casa. Pega a Paula, vai jantar com ela.
- Sim sim, vou almoçar com ela, na verdade. Porque a noite tem.
- Oi?
- Tem porco, Fernando.
- Ah, a semifinal é hoje, né? Eu não to ligado esse ano.
- Sei, sei. –  Fernando era São Paulino.
- Acho que dessa vez o Palmeiras perde, viu? Cuidado aí – Disse Fernando me provocando.
Me despedi de Fernando e fui dirigindo pra casa. Eram 10h15 mas eu confesso que já estava ansioso para me encontrar com Paula. Foi quando Frida me deu um aviso.
- Cris, há trânsito na Paulista agora. Sugiro que vá pela Alameda Jaú.
- Essa hora? Porque?
- Manifestação.
- Ok. Vou confiar em você, Frida.
- Sempre, Cris. – Disse Frida num tom que nunca tinha usado antes. Parecia meio triste. Pensei em perguntar se estava tudo bem. Mas qual o sentido de perguntar para uma IA se ela estava bem?
Seja qual for a manifestação na Paulista, ela estava muito silenciosa. Afinal, eu ouvia quase nada da Jaú, o que não é lá muito estranho.
Quando eu passava pela Haddack Lobo pensando em como eu diria para Paula que eu não gostava dos arranjos de flores e em como eu estava a evitando desde ontem quando vi aquelas petúnias roxas num filme de terror, um ônibus não parou no farol e pegou o Focus que estava na minha frente. Foi leve, o ônibus conseguiu frear a tempo e apenas levou por alguns metros o cara. Não dá pra dizer que foi só um susto, afinal houve o impacto e o carro ficou meio feio do lado do passageiro, mas não chegou a capotar e ninguém chegou a se ferir, já que o ônibus estava vazio.
Mas aquela situação fez meu coração disparar e eu perdi o ar por alguns segundos. Inclusive, o motorista do Focus parecia mais tranquilo que eu quando saí do carro para brigar com o do ônibus.
- Tá maluco? Vai matar todo mundo assim!- Meu celular vibrava. Mas eu mal percebia.
- Desculpa, desculpa. Mas eu tinha certeza que o farol tava verde.
- VERDE? CLARO QUE TAVA. E todo mundo aqui é imbecil
- Relaxa, cara – disse o motorista do Focus. – Bem, bem, mais tranquilo que eu.
- É cara, nem foi em você que eu bati. – Disse o motorista do ônibus.
Fiz um gesto bem irritado e me afastei. O celular ainda tocava. Quando peguei eram 12 sms de piadas. Sim. Era como se eu tivesse assinado aqueles serviços antigos de piadas por mensagens. Algumas eram realmente boas. Ri de algumas. Vai ver alguém mandou errado para meu número. Quando eu me dei conta que eu tinha surtado uns minutos antes com o motorista do ônibus e o do carro. Fui me desculpar. Até porque eu deveria esperar a polícia chegar para prestar o depoimento. Engraçado é que eles foram até rápidos.
Quando me desculpei parecia que eu estava lidando com os dois motoristas mais calmos de São Paulo. Um estava apenas testando um novo ônibus. O qual, aliás, ficou intacto. Acho que era uma nova tecnologia na carroceria. O motorista do Focus me contou que ele estava bem tranquilo no quesito carro. Parecia ser bem rico.
Me despedi dos dois depois de falar com o policial que o semáforo estava aberto para nós. Pelo jeito foi um erro no farol. Pois a câmera do ônibus também indicou que ele não avançou o sinal. Um técnico já estava a caminho. Disseram que em 2 horas tudo estaria normalizado.
Já era 10h30 e eu pensei em ir direto para o restaurante. Mas ia chegar cedo, contudo, Deus lá sabe quantos faróis eles iam ter que rever. E com a manifestação sei lá. Era melhor eu ir direto, quem sabe a Paula não chegasse mais cedo também?
- Frida, liga para a Paula.
Nada
- Frida?
- Cris, há um congestionamento na Alameda Tietê e na Alameda Lorena. Sugiro que, para chegar no Bistrot, você use a Rua Uruguai.
- Ok, Frida. Mas liga para a Paula, por favor.
- Sem rede, Cris.
- Mas como, Frida?
- Sem serviço da sua operadora.
- Ok, então como eu falo com ela?
- Tente novamente mais tarde.
- CARAMBA, FRIDA. – Gritei enquanto parava em frente a um orelhão na Oscar Freire. Tentei usar mas sem muito sucesso. Eu tinha esquecido como se fazia ligações a cobrar. Foi quando uma moça saiu da Starbucks.
- Cristiano Altherfeider?
- E quem é você?
- Me pediram para te entregar isso.
- Quem?
- Foi um pedido para entrega aqui na esquina. Foi uma mulher.
- OI?
- Vai ver alguém está fazendo uma brincadeira com o senhor. Aqui, já tá pago - e me deu a moça visivelmente apressada. Ela voltou correndo para a loja. Era um suco de maracujá. Entrei na Starbucks atrás da atendente.
- Ei, desculpa, mas quem te ligou mesmo? O nome dela era Paula?
- Não, senhor. Ela não deu o nome.
- Vocês recebem pedidos assim?
- Então, aqui é comum as pessoas das lojas da rua pedirem pra gente entregar.
- Não. Eu sei disso. Mas na esquina?
- Ah senhor, a gente não questiona muito. Se ligam e pagam a gente leva. Esse é nosso lema. – Disse ela me mostrando na parede. Acho que eles tinham adotado em 2020.
- Quando foi que te ligaram?
- Há uns 5 minutos
- Mas eu acabei de chegar aqui. – Disse eu, percebendo que a moça não estava muito a fim de falar. Eu estava atrasando a fila dela. Saí de perto extremamente intrigado. Voltei ao carro em direção ao Bistrot. Sem entender nada, só deixando Frida me guiar. Mas o suco estava realmente bom.  Dei uns goles nos faróis.
- Cris, como o restaurante ainda não está aberto, o que acha de estacionar o carro em um estacionamento na Rua Padre João Manuel e ir andando até lá?
- Boa ideia – Eu estranhei meu humor para caminhar. Não gostava de andar. Nada! Mas me pareceu realmente uma boa ideia.
Quando estava já na Padre João e a Frida não me dizia onde raios era esse estacionamento, me lembrei que a clínica que eu frequentava desde criança ficava lá.
- Em 150 metros você chegará ao seu destino. – E me parecia que era exatamente para lá que Frida me levou. Para a Clínica Saudar.
- Frida? É aqui que eu tenho que parar?
- Sim, Cris. Seu exame é às, 11h com o Doutor Ishiba. Sugiro que você entre.
- Não, Frida. Eu tenho um almoço com a Paula. E eu não marquei nada.
- Análise do seu comportamento e de sua saúde indicam que você pode sofrer um ataque cardíaco...hoje, às...23h58... horário Brasileiro de Verão.
- Oi?
- Cris, há um Eletrocardiograma marcado para às 11h na Clínica Saudar.
- Mas Frida. Pera, você que pediu meu suco de maracujá?
Silêncio
- Frida, foi você?
- Sim, Cris, há um Eletrocardiograma marcado às 11h na Clinica Saudar
- Não tem manifestação nenhuma, né?
- Não. Eletrocardiograma para às 11h na Clinica Saudar
- Pera, o acidente. Foi você quem causou?
- Sim. Eletrocardiograma 11h Clinica Saudar.
Saí do carro. Fiz o exame. O médico disse que era possível prever que eu tinha 80% de chances de ter um ataque cardíaco logo, caso fosse submetido a um estresse extremo. Precisava ficar no hospital por precaução por aquela noite.
Enquanto esperava os procedimentos da internação comecei a refletir sobre o que Frida havia feito durante todo o dia. Ela cuidou de mim. Mas para isso causou alguns prejuízos no caminho. Acho que tudo bem, já que pelo jeito não foi nada grave, mas me peguei pensando no poder que ela tinha. Na quantidade de coisas que havia previsto e feito. Qual a liberdade dela? Mas antes de pensar mais ainda sobre isso fui dopado. Eram 12h30. Confiei que Frida avisaria Paula.
Acordei com fogos, às 0h30. Paula ao meu lado. Ela sorria.
- Não sei se é a hora certa de te avisar. Mas acho que é melhor do que você ficar nervoso para saber logo. Tenho uma novidade MUITO engraçada para te contar. -  Paula era Corinthiana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário