sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Alguns Dedos (Pt1)

Escrito por Ludmila Barros

Eu andava rápido pela calçada da Avenida dos Pescadores, precisava chegar a tempo no ponto de ônibus, aquele era o último do dia, quando fiquei surpresa em ver um rosto familiar do outro lado da rua. Apesar de ser tarde da noite, a rua estava bem cheia, era a saída do último horário da Faculdade, da qual eu mesma estava saindo, o professor dessa vez havia liberado 5 minutos mais cedo, mas não foi o suficiente para a rua ainda estar vazia.
Parei de correr e fui atravessar a rua, para cumprimentar o tal rosto familiar. Parei subitamente quando um farol alto veio pela rua, o carro passou na minha frente e quando eu levantei meu olhar de volta para a outra calçada, não encontrei mais o rosto. Atravessei rápido e parei para ver se ainda o encontrava. Só quando me desvencilhei das pessoas e cheguei perto da mureta que dava para o rio é que eu o avistei novamente.
Pedro estava nas docas, agora andava mais rápido. Confusa, acabei somente ficando parada e observando ele andar até a última porta do píer. Pedro era bastante alto, por isso suas passadas eram igualmente largas, ele chegou rápido até o portão. Digitou alguma coisa na porta eletrônica e ela se abriu. Ele entrou e foi até o segundo barco que estava estacionado ali. E entrou.
Não pude compreender o por quê de ele estar ali. Desde que conhecia Pedro, ele nunca havia demonstrado nenhum interesse por barcos ou qualquer coisa relacionada a tal assunto. Muito pelo contrário, ele sempre se mostrou bastante assustando quando o assunto era mar, aquele mesmo rio, ou até mesmo piscinas. A pele negra de Pedro em contraste com sua camisa branca não saia da minha visão. Por que ele estava ali? Não é fácil ter uma senha para entrar nesses deques cheios de barcos dos ricos e milionários da cidade.
Eu tomei um susto quando lembrei do meu ônibus. Só tive tempo de olhar para trás e ver a última pessoa embarcando, a porta se fechando e meu ônibus indo embora. A rua ainda estava cheia de gente andando pra lá e pra cá. Haviam grupos andando e outros parados em rodas rindo alto. Cruzei por alguns dele e preferi fazer o caminho mais longo, de quase uma hora de ônibus para voltar para casa do que pagar um táxi caro. Pensei em mandar uma mensagem para Pedro, mas cheguei em casa tarde e cansada demais, acabei desistindo e fui apenas dormir.


“Ricardo Medeiros assassinado!”
Foi a primeira coisa que eu li quando abri o site de notícias locais no café da manhã. Quase engasguei com o pão. Havia visto Ricardo Medeiros no dia anterior, mais que isso, conversei por um bom tempo com ele atrás do palco depois que ele havia terminado sua palestra na minha Faculdade. Eu mesma estava encarregada de cuidar dos detalhes para o Senhor Medeiros, organizei todos os horários com sua secretária e ontem, no dia combinado, ele parecia bastante calmo e tranquilo, chegou até antes do horário previsto. Um homem que, apesar dos últimos acontecimentos, permanecia fiel a sua fama de “boa-gente”. Somente quando a página da notícia carregou no meu celular que eu continuei a ler.
“O dono da maior empresa de advocacia da cidade, Ricardo Medeiros, 54 anos, foi encontrado morto esta manhã em sua lancha particular. A qual se encontrava estacionada no píer 23 da prefeitura desde que havia sido expulso do Clube de Regatas do Rio Largo.”
Demorei um pouco para me lembrar do que havia visto ontem. Na frente da minha Faculdade, o píer 23 da prefeitura, o Pedro entrando na lancha, que agora eu eu posso dizer que era do fato a de Senhor Medeiros. O barco era consideravelmente maior que os outros e todos sabiam que era dele, dado os acontecimentos do último mês…
“Segundo informações liberadas pela polícia, o corpo foi encontrado às 5h40 da manhã depois de uma denúncia anônima. O advogado já estava morto quando a polícia finalmente conseguiu entrar no píer. O corpo foi encontrado na cozinha do barco, sem os dedos mindinho e anelar, a polícia suspeita que a vítima sangrou até a morte. Porém, ainda se aguarda pelo relatório da perícia. Até o momento da última declaração da polícia e mais uma revista pela lancha, os dedos do advogado ainda não foram encontrados.”
Arrancaram os dedos do homem. Aquilo me fez querer colocar todo o café da manhã para fora. Eu não quis imaginar o pior: Pedro cometendo o crime. Minha cabeça girava rapidamente enquanto eu pensava nas possibilidades. Mas aquilo não queria dizer nada. Eu tê-lo visto entrar no barco na noite anterior e na manhã seguinte terem encontrado um corpo que pareceu sofrer uma morte lenta não queria dizer nada. Somente minha própria cabeça tirando conclusões precipitadas.
“Apesar do local ser bastante vigiado por câmeras de segurança, a polícia incentiva denúncias anônimas de pessoas que possam ter testemunhado algum tipo comportamento suspeito na noite de ontem e na madrugada de hoje. Principalmente pelo fato do píer estar localizado bem na frente da entrada da Faculdade Rio Largo. As possíveis testemunhas podem comparecer pessoalmente ao 23o DP ou ligar anonimamente para o número…”
Eu não consegui levantar da cadeira por um bom tempo. O restante de café e as torradas esfriaram ao mesmo tempo que minha cabeça só esquentava. Mas eu não tinha tempo para isso e eu não tinha nada a ver com isso. Eles mesmo disseram que o lugar tem um monte de câmera de segurança. O que eu vi vai ser visto por eles também. E mesmo assim, eu não vi nada demais, nada aconteceu, tudo não passou de uma coincidência. Eu precisei tomar coragem para levantar e me arrumar para sair. Trabalharia o dia todo, e, principalmente, uma reunião muito importante estava marcada para às 6 da tarde.
Eu passei o dia inteiro tentando não pensar no ocorrido. Eu simplesmente abaixei minha cabeça e mergulhei nas planilhas e nos números, adiantei serviços atrasados e até fiz mais do que o necessário para a reunião que estava marcada. Mas mesmo assim, todos que passavam pela minha mesa estavam cochichando algo sobre o assassinato que chocou a cidade. “Você leu?”, “Eu não acredito que isso aconteceu.”, “Bem feito, depois daquele caso de corrupção do Clube…”, “Mas nada foi confirmado, foram especulações, nada justifica!”. Alguns poucos condenando o assassinado, muitos condenando o assassino, mas todos falando sobre o assunto. Eu nunca havia percebido como passam tantas pessoas na frente da minha mesa.
O dia se passou lento e agonizante, mas passou. Eu entrei na sala de reuniões quase meia hora antes. Fiquei lá sozinha com meu computador. O que foi ótimo, o silêncio foi bastante bem vindo naquele momento. Porém, logo na primeira voz que surge dentro da sala, minha paz foi embora de vez.
- Mas como se some com tantas fitas de segurança desse jeito? Elas não simplesmente somem assim! - disse meu chefe, Fernando, ao entrar na sala. - Já aqui, Camila? - eu apenas sorri e acenei com o rosto.
- Elas não sumiram, elas “foram sumidas”, se é que você me entende. - disse o sócio de Fernando, Patrício.
- E a gente acreditando que essa cidade era um poço de tranquilidade, que inocência a nossa. - Fernando disse ao se sentar ao meu lado. - Você ouviu, Camila? Quero dizer, do assassinato todos já ouvimos, mas estão circulando boatos de que as fitas de segurança do píer desapareceram.
- Não, faz um tempo que não entro em nenhum site de notícia.
- Sempre trabalhando demais. - Patrício disse ao se sentar do meu outro lado.
- Aliás, não é você que faz pós na Rio Largo? - Fernando perguntou.
- Sim.
- E é de noite o…
- Sim, mas ontem mesmo eu nem fui pra lá. - ansiosa, eu respondi antes mesmo de ele terminar a pergunta. - Mas vamos deixar isso de lado. Temos coisas para resolver antes de fechar o expediente.


Depois da reunião, arrumando minha bolsa para ir para a aula à noite, eu já estava atrasada, mas era importante ir. Quando entrei dentro do ônibus e aquele aura de escritório saiu de mim, o assunto me atingiu como um martelo na cabeça. E agora? Eles não tem mais nenhuma filmagem. Eles não devem saber de nada. Será que haveriam impressões digitais no barco? Um assassino, mesmo que amador, se preocuparia com isso. Eles realmente não devem ter nenhuma pista.
E o que eu tenho a ver com isso? Vou falar o que? Eu só vi uma pessoa entrar lá, isso não significa nada. Eu não tenho como provar nada. E acima de tudo, era o Pedro, um amigo, mesmo não nos vendo frequentemente, ele ainda é um grande amigo, de bons tempos. Ele não seria capaz de fazer nada disso. Mas será que cabe a mim decidir?
Faltavam algumas curvas para finalmente chegar na faculdade, já estava tudo escuro, apenas iluminado pelos postes da rua. Porém, uma luz mais forte chamou minha atenção. Era o 23o DP com uma luz bastante forte do lado de fora, viaturas e até mesmo policiais conversando do lado de fora. De fato, não caberia a mim decidir. Eu levantei subitamente, assustando a moça que estava sentada do meu lado, dei sinal e o ônibus parou no próximo ponto, depois de uma curva para a direita. Eu desci.
Só consegui andar de novo quando dei uma respirada funda. Andei pelo quarteirão todo, a delegacia ficava na próxima esquina, andei devagar, tentando repensar e ponderar todas as possibilidades. Ainda assim, todas as conclusões eram “fazer a coisa certa”. Chegando perto da esquina, só faltava atravessar a rua quando eu trombei forte com alguém que fazia a curva na minha direção oposta. Eu tomei um susto, achando que poderia ser um assalto, mas a pessoa também estava atordoada. Eu me aliviei, somente para me apavorar de novo quando vi o rosto daquele alguém. Era Pedro.

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