Escrito por Pedro Henrique Silva
Olá! Meu nome é Edson Britto e se você consegue ler essa mensagem eu já consegui metade de meu objetivo. Mando esse texto do Império Sul-americano e gostaria de relatar como vive um cidadão de bem daqui.
Olá! Meu nome é Edson Britto e se você consegue ler essa mensagem eu já consegui metade de meu objetivo. Mando esse texto do Império Sul-americano e gostaria de relatar como vive um cidadão de bem daqui.
Tenho 23 anos e sou casado. Tenho um filho ainda na barriga de minha esposa, Paula. Meu avô conseguiu uma conexão com a internet em um servidor pelo qual é possível enviar mensagens para fora do continente. E fico feliz porque você consegue ler minha história. E espero, aliás, que meu idioma não seja um problema.
Queria começar relatando como minha rotina é aqui na capital do Império. A maior e mais linda cidade do mundo todo. Eu e minha esposa acordamos geralmente às 5h para ir à fábrica na Zona Sul da cidade. Essa que é uma das maiores da cidade e outrora era uma instalação esportiva, mas depois da guerra, o Imperador decidiu entregá-la à Bosewitch, uma empresa do ramo da energia nuclear. “Nós ajudamos a abastecer todo Império da forma mais eficiente e ecológica possível”.
O caminho é bastante complicado. Pegamos a linha Platina para nos deslocarmos da região Norte à sul. Os trens aqui foram entregues com tanto atraso, mas tanto atraso, que sequer estavam prontos. Isso é o que meu avô diz, claro. Segundo ele, a Linha Platina era uma promessa para 2050, apesar de o Representante dizer várias vezes que o prazo era 2070. Logo, foi entregue dois anos antes do que deveria. Apenas os velhos daqui questionam o Representante, infeliz ou felizmente. Tome suas conclusões. Eu não sei o que é verdade. Há alguns que vão de carro para o trabalho, mas como a gasolina custa dinheiro, poucos conseguem compra-la. Eu e minha esposa recebemos comida como pagamento, e está muito bom.
No percurso vemos uma série de confrontos entre policiais e Os Degenerados, que é como chamamos os usuários de drogas e os demais doentes. Aqueles que causaríam a extinção da raça humana caso tivessem contatos e relações conosco. Como eu sempre digo, sou muito grato ao governo por nos proteger deles.
Enfim, quando chegamos na Fábrica, eu e minha mulher vamos às nossas estações. Elatem que trabalhar perto das regiões onde a radiação é mais forte. e isso me mata. Eu sei que há muitas mulheres preguiçosas que engravidaríam de propósito para fugir do trabalho. Eu sei. Mas o fato de não haver uma lei que impeça que mulheres trabalhem aqui, me incomoda demais. Meu filho pode sofrer muito com isso. Uma colega minha acabou perdendo a criança no parto, e ela trabalhava junto com a minha esposa. Disseram que ela que teve hábitos imorais durante a gestação, mas Paula diz que ela era cuidadosa. Sei que temos que sempre confiar na palavra do governo. Nunca Temer. Mas minha esposa não teria porque mentir.
Vejo Paula nos nossos 15 minutos de intervalo. Reconheço a generosidade do Imperador em conceder um descanso tão grande para os trabalhadores de todos os empreendimentos do país. E também sou muito grato pela comida que temos todo dia, mesmo essa sendo grande parte do nosso salário, mas mesmo assim me parece pouco tempo às vezes. Não reclamo, até porque sei que aí nem há descanso. Meu avô diz que não é bem assim, mas sei que é.
No fim do expediente, já as 22h, eu e minha mulher saímos do trabalho de volta à Linha Platina, para infelizmente ver que os confrontos noturnos iluminam a paisagem cinza de nossa cidade linda. Aconteceu esses dias da polícia ser forçada a derrubar um prédio em que alguns degenerados moravam. O Sub- Representante mesmo foi lá derrubar. Vestido como um policial. Gosto do Sub-Representante.
Chegamos em casa com parte da ração fornecida pelo Governo. E cozinhamos diretamente no micro-ondas. Meu avô diz que havia recipientes em que a comida era cozinhada. Chamavam “panelas”, mas essas foram confiscadas pelo governo por serem perigosas.
Bom, basicamente estou enviando essa mensagem pois briguei com meu avô outro dia. Eu e ele discutíamos as atitudes do Império. Eu defendendo, ele as criticando, todas elas. No fim ele me convenceu a enviar essa mensagem para alguém de fora daqui, uma vez que ele tinha como fazer isso. Eu não quis. O governo é bom conosco. Luta dia após dia com os degenerados, cujas práticas causariam a destruição da humanidade. Nos paga muito bem com comida. Banca nosso aluguel, limpa e deixa nossa cidade cada dia mais linda. E é assim que os pagamos? Com desconfiança? Fazemos ele pagar o pato de nossas insatisfações vãs? Meu avô é mesmo um mortadela patético.
Veja, essa é uma época linda para se viver. Apesar de que Globalmente haver dificuldades. Mas, de fato, minha esposa está de seis meses de gestação e trabalhando em ambiente radioativo. Será que é mesmo assim que as coisas funcionam? Enfim, queria receber uma resposta que confirme que aqui nós vivemos bem. Para que eu possa esfregar na cara de meu avô.
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