Escrito por Pedro Henrique Silva
Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quarta-feira, 24 de outubro. Escovou os dentes, tomou café, escovou os dentes de novo, e saiu de casa para mais um dia legal e divertido de oito horas de trabalho e quatro de faculdade. Super feliz e animado com sua rotina. Trem na velocidade normal. Uma, duas, cinco, dez estações. Empresa. Encontro com Ana... abraço em Ana, beijo em Ana, no rosto, claro. Flertes, flertes, flertes, e enfim Ana sai de seu cubículo, voltando às ligações. Dez, Vinte, Cinquenta. Almoço.
- Oi de novo – Disse Ana mais doce do que o Pudim que ele comeria de sobremesa.
- Oi! E aí? – Respondeu Paulo que saborearia aquele momento a sós com Ana mais do que o faria com o frango que acabara de tirar do micro-ondas.
- É... amanhã estreia o novo filme do Spielberg.
- Você vai ver?
- Não sei. Eu queria.
- O que te impede então? Dinheiro – Disse Paulo num tom mais baixo.
- Não...nada me impede. Mas enfim, o que você tem aí?
- Ah, frango, macarrão e pudim! E você?
- Hambúrguer. – Disse ela com uma expressão tão divertida que o fez quase cair da cadeira de tanto rir.- O que foi?
- Nada, Ana. Achei engraçado o jeito que você falou.
- Porque? – Disse ela com uma expressão menos divertida.
- Ah, porque foi muito fofo. – Disse ele tirando dela uma expressão mais fofa ainda.
- Mas tem algo de errado com eu comer hambúrguer?
- Claro que não.
- Achei que você seria desses machistas que acham que mulher tem que comer só saladinha. Porque tem que ser magra.
- Não! Nunca! Você é linda.
- Mas só porque eu estou linda que eu posso comer hambúrguer?
- Não, Ana. Não! Desculpa. Você pode comer o que você quiser. Eu me expressei mal. Eu não tenho o que gostar ou não do que você come. – Disse ele meio tenso. Quando viu que o sorriso estava voltando ao rosto dela, relaxou - Aliás, eu ri,né? Então, achei só fofo mesmo.
- Ah bom! Aliás, quer ir comigo amanhã ver o filme do Spielberg? – Disse ela enquanto colocava o timer no micro-ondas.
- Ah, amanhã? Ah amanhã não sei. – Disse ele lembrando que havia combinado de ir ao cinema com seu amigo.
- Não, tudo bem! É que amanhã é o único dia que eu posso. No feriado eu viajo.
- Ah, que pena. Mas vou ver e te aviso, pode ser?
- Claro. – Disse ela um tanto quanto desapontada.
O resto da refeição foi o de sempre. Flerte, flerte, flerte. Ana e Paulo ficavam nisso há duas semanas. Desde que começaram a almoçar juntos e perceber que tinham gostos muito parecidos. Nenhum dos dois eram experientes em namoro, até porque, não tinham aparências arrebatadoras, mas um sentimento diferente havia surgido há poucos dias e madrugadas conversando pelo whatsapp. E Paulo só conseguia pensar em Ana. Ana só pensava em Paulo. Mas faltava algo. Faltava eles conseguirem sair juntos.
A tarde, Mais 53 ligações, trem, uma, duas, quatro estações, faculdade. Economia Aplicada 2, trem, uma duas, seis estações, casa, Janta,e...lembrou de conversar com João para cancelar o cinema de amanha.
- Mano, me ajuda
- Q? – respondeu João
- Sabe a Ana do serviço? Ela me chamou pra ver o filme do Spielberg amanha.
- Puts. Já comprei, tipo uns 10 minutos.
- Cacete.
- Mano, vc tá ligado q combinamo tipo um ano atrás pra ver samerda,neh
- Tá. Que horas?
- 10h30.
- Fechou
Paulo foi dormir irritado. Nem falou com Ana graças ao medo. Dormiu.
Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quarta-feira, 24 de outubro escovou os dentes, tomou café, escovou os dentes de novo, e saiu de casa para mais um dia bacana e maneiro de oito horas de trabalho e quatro de faculdade. Super feliz e animado com sua rotina. Trem na velocidade normal. Uma, duas, cinco, dez estações. Empresa. Encontro com Ana, dejavu.......abraço em Ana... beijo em Ana........ no rosto, claro. Flertes, flertes, flertes, e enfim Ana sai de seu cubículo, voltando às ligações. Dez, Vinte, Cinquenta Dejavu continuava. Almoço. Lembrou do sonho!
Paulo havia sonhado com aquele dia. Todo. Até aquela hora. Claro. Tinha que pensar rápido. O almoço seria em breve.
– Mano, não dá pra ir amanhã.
- Pq? – Respondeu João
- Acabou dinheiro. – Disse isso e bloqueou João. Foi extremo? Foi! Mas ele queria muito sair com Ana. E não sabia mentir.
- Oi de novo – Disse Ana entrando no refeitório
- Oi! E aí? – Disse Paulo sorrindo.
- É... amanhã estreia o novo filme do Spielberg.
- Você vai ver?
- Não sei. Eu queria. – Foi aí que Paulo lembrou que não foi ele quem chamou Ana pra sair. E nunca tinha o feito em sua vida.
- É, eu não sei se vou amanhã a noite. – Disse ele.
- Ah tá. Tava pensando mesmo em ir. – Disse ela olhando diretamente para ele. Paulo não soube o que fazer e desviou o olhar. Tinha o almoço todo pra chamar. Esperou ela mudar de assunto como fizera no sonho.
- O que você tem aí? – Disse ela com uma expressão divertida.
- É, frango, macarrão e pudim. E você?
- Hambúrguer – Disse ela com a mesma expressão divertida. Mas dessa vez ele não riu. Apenas um sorriso leve. Estava tenso demais.
Mas Ana virou de costas, pegou seu Hambúrguer e votou a sentar na mesa. Com uma expressão um tanto preocupada.
Flertes no resto da refeição, mas a tensão de Paulo o deixava mais sério. Pensou o quão ridículo era aquilo. Ele podia convidá-la para sair pelo whatsapp durante o dia todo. Coisa meio década de 90 convidar gente pra sair apenas presencialmente.
Ana saiu mais cedo dessa vez. Não ficara esperando Paulo terminar de comer – ela comia rápido demais – e voltou a trabalhar. Paulo não conseguia pensar no que havia feito errado. Mas agora chama-la para sair parecia um pouco absurdo, já que a refeição foi muito mais fria que no sonho. Talvez ela não quisesse sair com ele. E o sonho era apenas uma projeção. Ou mesmo um dejavu.
O resto do dia foi normal. Mais 53 ligações, trem, uma, duas, quatro estações, faculdade. Economia Aplicada 2, trem, uma duas, seis estações, casa, Janta,e foi dormir pensando no que havia errado.
Acordou, desativar ou soneca, desativar, 05:30, Quinta-feira, 25 de outubro.Não fazia sentido! Ele tinha quase certeza que o dia anterior havia sido vivido por ele duas vezes. Ou aquilo era só uma impressão? Uma peça pregada pelo seu cérebro? Ou ele tinha algum tipo de deficiência? Será que ele sonhara com o dia posterior? Ou o anterior? Olhou no celular e o João ainda estava bloqueado. Logo, o dia que ele lembrava mais vivamente havia impactado o dia de hoje, e não o anterior. Ele fingiu que entendeu.
Então, ali mesmo na cama, começou a reavaliar o que tinha feito de errado na segunda vez. Sim, o universo (ou algo que veio do Rio Tietê) o fez viver o mesmo dia duas vezes. Por algum motivo a segunda vez conseguiu ser pior que a primeira. Porque? Ana ! Algo deu errado na segunda vez. Isso e também o fato dele não ter mais com quem ir ver o filme do Spielberg.
- João? - Disse Paulo no Whatsapp depois de desbloqueá-lo.
- Diga.
- Seguinte, Desculpa te bloquear. Eu queria ver o filme com a Ana e achei que ela ia querer ir cmg.
- E pq não me falou logo?
- Sei lá.
- Pqp, mano.
- Então. Bora?
- Pq n com a Ana?
- Pq não deu certo.
- E vc n vai chamar de novo.
- Eu não chamei.
- Mano, Chama a mina pra sair, tio.
- Mas ontem foi mó estranho.
- Pq ela queria que vc chamasse e vc não chamou.
- Mano, mas ela que chamou da primeira vez.
- Ué? Ela chamou então?
- Vc não vai acreditar, mas eu tipo sonhei com o dia de ontem. E depois vivi ele.
- hahahahahahhaha, entendi a referencia. CHAMA A MINA, CACETE!
- Tá...mas ow, que referência?
- MANO, VC NEM MEME TÁ MAIS ENTENDENDO. Chama a mina, merda.
- Tá
- E vc?
- Então, depois que vc melou, eu chamei a Diéssica
- Entendi.
Claro que João não entenderia. Nem sabia porque havia tentado explicar. Mas enfim, ele estava de fato certo. Deveria mandar mensagem o mais rápido possível para Ana. Obviamente ela não estaria o esperando e já teria um novo compromisso.
- Viu a nota do filme no Rotten? – Disse ele.
- Oi! Que filme? 😊
- O do Spielberg.
- Ah, sim! Bem alta.
- É... queria ver logo.
- Acho que eu vou hoje e vc?
- Eu não sei ainda :/
- Entendi...
Paulo nunca tinha feito isso na vida. Pelo whatsapp parecia bem mais fácil que pessoalmente, mas mesmo assim, deveria fa…
- Vc é muito idiota, sabia? – Disse ela tirando o chão de Paulo, que a essa altura já havia feito quase todas suas tarefas em direção ao trabalho, e já estava no trem.
- Pq?
- Vc acha que é tipo sua tarefa me chamar pra sair... vc tá ligado que não é,né?
- Como assim?
- Mano, a gente tá conversando tem um mês e vc toda vez que aparece algum rolê legal fica mega nervoso. Como se fosse seu papel me chamar. Como se fosse o papel do homem. Já passou pela sua cabeça que a gente pode, sei lá, COMBINAR, de sair? Tipo, a gente senta, bate papo, decide um horário e PRONTO. Esse machismo te prejudica mais do que pra mim – Paulo não sabia mais onde estava, quantas estações faltavam, tudo passou pela sua cabeça. Aquela não era a primeira vez que aquilo acontecia. Sempre que aparecia um filme, uma festa, qualquer coisa, seu comportamento era o mesmo. Esperar, esperar, esperar, até perder a oportunidade. Quatro fins de semana. Quatro quintas feiras em que a relação dele com Ana ficava estranha.
- Não vai falar nada? - Perguntou Ana.
- Desculpa.
- Eu até tive certeza ontem que vc era um puta dum machista quando fez aquela cara quando eu peguei o hambúrguer. Mas sei lí, acho que vc é só um idiotinha mesmo.
“Idiotinha”, das duas uma. Ou o diminutivo indica desprezo, ou era a abertura para que ele resolvesse a merda que fez.
- Mano, seguinte, eu gosto de vc. E vc tá certa. Eu sou um idiota. Eu nunca chamei ninguém pra sair. Não é machismo. Eu só não sei o que fazer. E eu fiz uma cara estranha ontem pq, Tipo, eu acho que sonhei com o dia de ontem, saca? Vai ver é o nervosismo, sei lá. É como se eu tivesse vivido o dia duas vezes. Rs
- hahahahahaha, entendi a referência. 😊
- Pq todo mundo sempre fala isso quando eu falo nisso.
- Pq é o meme. Do capitão américa.
- Eu sei.
- Então, pq vc citou a trama do filme do Spielberg, ué?
- Oi?
- Para, Paulo. Hahahha. Eu acho que vc não é machista. Então vc tem hoje as 21h no El doras pra me convencer é fofo, ok?
- El dorado? Ok! Bora! Você falou da gente combinar mas quem chamou foi você.
- HAHAHAHHA, pois é…
Ele ia sair com a Ana. Nada mais importava. Tinha que ser um rolê maneiro. Eles iam sair do serviço juntos, e ir até o Shopping que ficava na esquina. Comer, ver o filme e depois voltar. Teria que ser incrível, incluindo o filme aliás- Paulo pensou- sobre o que era mesmo?
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